Consequências da irracionalidade

António de Almeida - 15.06.2008

-Muito já escrevi sobre o protesto dos camionistas que quase conseguiu paralisar o país, o acordo alcançado, cedências governamentais, precedentes abertos, volto hoje ao tema após ter lido este artigo no DN, que penso merecer a melhor atenção por parte de todos nós. Um cidadão José Ventura, empresário camionista, lutando pela sobrevivência da sua pequena empresa, saiu da casa para participar no bloqueio na zona de Torres Novas, e já não regressou, terá valido a pena? Para ele e família, certamente que não. O motorista do camião que o atropelou mortalmente terá cometido algum crime premeditado? Certamente que não! Poderá não ter tido a conduta mais correcta, ao que parece abrandando e acelarando em seguida, mas convém relembrar que vários piquetes de Norte a Sul vandalizaram camiões, apedrejaram, havia gritos e ameaças, pelo que o cenário á frente deste motorista, também ele de certa forma vítima dos acontecimentos, era tudo menos cor de rosa, principalmente caso procurasse apenas seguir viagem trabalhando. Toda esta irracionalidade resultou numa vítima mortal, sem qualquer necessidade.

3 comentarios:

joshua disse...

Não, António, se não havia necessidade, era inevitável: os crimes, os excessos, os vandalismos espúrios, a chantagem, tudo isso é censurável. Mas aquilo que é também censurável é que se peça Pau ao Estado e Repressão ao Estado contra homens nas faldas do desespero. E eles vão voltar e não haverá cargas policiais que te salvem de andar a pé e de catar restos aproveitáveis no supermercado.

Advogar isso, a violência repressiva, é de uma hipocrisia ilimitada, muito própria de quem não tem a sobrevivência e a vida em causa, como o Jumento e o Pacheco Pereira e como tu, que aproveitaram para qualificar os patrões das pequenas e médias empresas de camionagem de broncos e abusadores dos seus homens, caso a lei os não refreasse, como se os megapatrões do ramo fossem uns santos da legalidade.

No lugar do José Ventura, António, eu voltaria a morrer. E talvez venha a ser tão lamentável como inevitável novos Josés Ventura: morrer é pouco comparado com a desgraça, a opressão, o desespero, António.

Senta-te. Põe-te no lugar deles. Sai da pose dogmática e esquemática do opinativo optimista em relação à livre iniciativa e à economia de mercado: está tudo nas mãos cegas das máquinas. Os computadores, nos seus cálculos de risco, não têm ética. A rua conculsa é ainda um paraíso comparada com a Bolsa de Chicago.

PALAVROSSAVRVS REX

António de Almeida disse...

-Joshua, em primeiro lugar conheço muito mais dos problemas dos pequenos camionistas do que aquilo que imagina, embora não tenha no presente qualquer relação com eles, tive-a no passado. Conheço erros, e conheço razões, embora não concorde com a maioria delas. No entanto o post presente é bem claro, não visa julgar os protestos mas centrar a questão naquela família, para quem certamente não terá merecido o sacrifício, pese a abnegação do sr José Ventura. A minha discordância quanto ao protesto dos camionistas mantém-se, não é necessário colocar o país a ferro e fogo para lutarem por objectivos, nem sequer estou a defender os rebocadores, mas duma forma pacífica demonstraram capacidade de luta e organização, fazendo-se ouvir. Os camionistas teriam sempre tal capacidade, não demorariam 3 dias, mas 1 semana, seriam sempre capazes de provocar danos colaterais sem perder um milimetro de capacidade reivindicativa.

O Guardião disse...

Estamos a falar como se de um movimento organizado se tratasse, o que não era o caso. Já agora, com o poder reivindicativo em mãos que não defendem todos por igual, e que são pouco isentos, mesmo em termos políticos, como é que o descontentamento dos diversos sectores, que não se revêem em sindicatos e associações, podem manifestar-se? Dentro da Lei?
Não vivemos num mundo perfeito, nem as leis o são, pelo que quando o protesto "cai na rua" os excessos acontecem inevitavelmente.
Nunca devíamos ter chegado a situações tão graves como a que vivemos, sobretudo em termos de desemprego e em falta de condições sociais, agora temos que lidar com protestos que podem assumir formas indesejáveis.
Cumps