"Quo vadis" África do Sul?

Quinttarantino - 21.05.2008

Da distante África do Sul chegam-nos imagens de rara violência.
Perpetrada pelos pobres dos pobres contra os mais pobres dos pobres!
E tudo isto num país que ainda é a economia mais rica de África, numa cidade que está rodeada por algumas das maiores minas de ouro do mundo e que, no seu centro, se assemelha a qualquer urbe ocidental.

Os ecos que nos chegam apontam que as vítimas são principalmente emigrantes (quase todos ilegais) dos vizinhos Zimbabwe, Moçambique e Malawi, qual deles mais o mais pobre.
Contudo, também sul-africanos de outras etnias, que procuram em Joanesburgo uma nova vida, são alvos da fúria das multidões.
O que só pode constituir surpresa a quem andar desatento.
Se fosse segredo seria de polichinelo, mas nos anos do apartheid as forças policiais que eram mistas procuravam colocar os seus elementos de cor sempre em territórios onde predominavam populações e etnias diferentes. Se era Zulu ia para o Transvaal, mas se era Xhosa ou Venda o mais provável era ir para o Natal.
E era ver o arreganho com que eles batiam uns nos outros. Muito raramente as forças policiais brancas assumiam a primeira linha!
É cínico, mas era o aproveitamento dos ódios tribais que pululam por toda a África, não sendo exclusivo sul-africano.

Ademais, o sul-africano não é conhecido pelo seu apego ao que é estrangeiro!
Finalmente, a dita “rainbow nation” que Mandela fundou há catorze anos atrás continua a ter um problema sério com as desigualdades sociais.
Continua a haver um problema com a cor ou com a língua, especialmente com a maioria negra. Esta, por enquanto, ainda não se revolta contra o Governo, revolta-se contra os estrangeiros … por quanto tempo se verá.

Aliás, só esta ausência de revolta contra o Governo explica que caricaturas como Thabo Mbeki ou Jacob Zuma sejam, respectivamente, Presidente da República e dirigente do ANC.
A década na África do Sul tem sido de grande crescimento económico, mas num modelo muito semelhante ao do liberalismo que varre o mundo e que tem contribuído para o agravamento das desigualdades.
É verdade que há uma nova classe média negra, mas a imensa maioria dos africanos que eram pobres ficou mais pobre!

Paralelamente, os serviços fornecidos pelo Governo aos negros dos bairros pobres têm sido desesperadamente desadequados pelo que não deixa de ser verdade que há uma nova classe média negra, mas a desigualdade tem crescido nesses bairros pobres.

Têm ainda surgido ecos que a barbárie estará a ser fomentado, havendo casos de detidos que asseveram que foram pagos para semear o horror. Faltará saber por quem.
No meio disto tudo, e quando nas fronteiras existem patrulhas cívicas que procuram impedir a entrada de mais ilegais, mantém-se o mistério do apoio descarado da potência regional ao regime de Mugabe.
É que o Zimbwawe é um país próspero e rico, e se retomasse o crescimento muitos não necessitariam de rumar a Sul!

6 comentarios:

Helena Tapadinhas disse...

Tenho um receio antigo: o de que a AS se desmmorone no dia seguinte à morte do "Mais Velho".
Espero, claro, que seja um receio infundado e que nunca se verifique, mas...

Miguel Ângelo disse...

Belo retrato social traçado de África a partir das imagens que acompanhei, hoje, à hora de almoço, na televisão. De facto, a África do sul continua a ser um país negro na sua negritude, pois se houvesse consensos sociais, seria uma região próspera,rica, para negros e brancos - diz-se do seu solo -, mas penso que o MUNDO caminha a passos largos para a exploração do HOMEM pelo próprio HOMEM; caminha inevitavelmente para o liberalismo que conduzirá às desigualdades sociais, como foi aqui tão bem salientado. Vê-se por "aí" os ricos cada vez mais ricos e o mesmo sucedendo com os pobres, cada vez mais pobres. Face a tudo isto, resta questionar o que fazer para que a sociedade seja menos injusta e mais equitativa, nos direitos dos seus cidadãos?

Carol disse...

Quem melhor do que alguém que lá viveu para perceber que isto era inevitável?

Tiago R Cardoso disse...

neste caso, assino por baixo de um texto de quem sabe do que fala.

antonio disse...

É por isso que no Alentejo os GNR são do norte...

quinttarantino disse...

... é capaz, António, é capaz!