Todos diferentes, todos iguais...

“ Elsa caiu no chão como se de uma flor arrancada se tratasse.

Os murros, os pontapés e as bofetadas caíram ininterruptamente sobre o seu corpo, o seu rosto. Aos ouvidos chegaram, mais uma vez, palavras de ódio e de raiva. Palavras que cortavam como uma faca, palavras que a feriam de morte. De repente, Elsa deixou de sentir e de ouvir.

O seu corpo, a sua alma entraram num estado de dormência imensamente calma e tranquila. Sentia-se tão bem. Sentia-se flutuar...

- E, então, está morta?
- Sim, os ferimentos foram fatais. “

A Elsa não existe, nunca existiu. A Elsa foi alguém que criei e a quem dei vida através das minhas palavras. Uma vida de sofrimento, tristeza e dor como a de milhares de pessoas, neste país, que vivem sob o signo da violência doméstica.

Vocês sabiam que :

- Desde 2001, os números de casos registados de violência doméstica, em Portugal, quase que duplicaram?

- Em 2006 foram contabilizados 20.595 casos?

- 87% das vítimas são mulheres?

- A maior parte destes casos se registam no contexto conjugal?

- Se estima que dois terços dos casos não são denunciados?

Afinal, o que nos diferencia daqueles que matam, violam, lapidam e mutilam genitalmente?!
O que nos distingue daqueles que se escondem atrás da capa da religião e da honra familiar?!

23 comentarios:

António de Almeida disse...

-Em primeiro lugar, permita-me afirmar que também existem homens vítimas de violência doméstica, o número de queixosos tem vindo a aumentar, desconhece-se a amplitude do fenómeno, porque a vergonha ainda é maior em apresentar queixa, do que nas mulheres. Em qualquer caso, e desconhecendo o número de homens que possam ser vítimas, parece-me do senso comum, que a maioria das vítimas serão mulheres, talvez não os 87%, mas ainda em significativa maioria. Concorrem para este facto, razões culturais, não raramente as famílias da própria mulher agredida, toleram estes comportamentos, desde que a violência não atinja niveis de brutalidade excessiva, ora sabe-se, que os níveis tendem a agravar-se com o tempo. Julgo que será necessária uma maior condenação social, que felizmente já vai acontecendo, hoje é quase impensável alguém confessar entre amigos, que agrediu a esposa, há 20, 30 anos era mais frequente, mas para erradicar de vez este crime, será necessário tolerância zero para com o criminoso, por mim defendo penas de prisão efectivas, só assim será passada á opinião pública, uma mensagem clara, que poderá intimidar potenciais agressores, criando um efeito dissuasor. Tal como para outros crimes, diga-se, o lugar dos criminosos é atrás das grades.

Manuel Rocha disse...

Questão lixada, Carol !

E acontece entre católicos e não entre muçulmanos, certo ?

Que dirá a Blue a isto...( provocação...:))

quintarantino disse...

Esta deriva que as minhas colegas de escrita me andam aqui a fazer para estas questões sociais está-me a deixar inquieto ... daqui a mais tenho-as aqui a mandar já que estão em maioria no Conselho de Administração e lá se me vai o lugar de C.E.O ... ::))

A isto chama-se golpe de Estado constitucional.... e já o Curzio Malaparte escreveu sobre o assunto.

Agora que ainda por cima o PC (personal computer) ficou enredado nas malhas dum Windows XP e dum Avast às voltas com um W32 é que elas se vão regalar lá com estes temas fracturantes.

Vai-se a ver e abri a porta ao "Berloque de Esquerda" aqui no blogue.

Bom serve isto para dizer que tenho o PC a necessitar de ir para assistência técnica (e vai hoje pela manhã), que o sector feminino conspira com temas fracturantes e eu a precisar de dormir ... por isso, e sintetizando ali aqueles dois ilustres predecessores, cadeia com eles ou com elas!

E onde houvesse pelourinhos, retomem-se actividades de público opróbio.
Homem que é homem não bate numa mulher. Nem se deixa agredir!

lusitano disse...

Toda a violência deve ser condenada, obviamente, mas esta violência doméstica exercida sobre as mulheres e crianças, (e muito mais raramente sobre homens), revolta-me totalmente.
Já houve tempos em que fui violento, (não neste tipo de violência, que apesar daquela fase da minha vida sempre me repugnou), ou seja respondia com agressividade a “solicitações” por vezes sem sentido.
Embora já se vejam algumas mudanças, elas estão a avançar com uma lentidão incompreensível, pois ainda há muitos que pensam que este tipo de violência é “privado”, ou que é um quase “direito” do homem, e portanto se deve ter muito cuidado em interferir com ele.
Julgo o contrário!
Que deve ser exposto e severamente punido.
Acresce o facto de a nossa policia ser constituída maioritariamente por homens e a maior parte das vezes sem grande sensibilidade, pelo que estes casos são muitas vezes desvalorizados, quando não, por vezes ainda levam a uma maior humilhação da vitima.
A exposição das vitimas é com certeza muito dolorosa, mas infelizmente acho que só com a demonstração real, visível, destas barbaridades a opinião da sociedade se modificará radicalmente e os agressores passarão a ser devidamente punidos.
Embora não sirva de lenitivo, este problema não é português, pois recentemente li que na Alemanha proporcionalmente é pior do que entre nós, sobretudo na violência sobre as crianças.

bluegift disse...

Carol,
O problema é que a "Elsa" existe. Não é uma personagem de ficção. A única forma de conseguir diminuir a estatística é favorecendo a denúncia. Infelizmente muitos não são denunciados por medo das retaliações posteriores sobre elas próprias ou os filhos e mesmo família. É um problema técnico complicado já que não podes prender o marido e, apesar de este não poder aproximar-se da família, acaba por fazê-lo, e às vezes é demasiado tarde para impedi-lo de se "vingar" da família. Não há muito tempo foi aqui registado mais um caso desses em que o marido pura e simplesmente matou a família, incluindo os sogros, suicidando-se a seguir.
São normalmente pessoas violentas que em vez de procurarem tratamento especializado ficam por aí a alimentar sentimentos de frustração que se transformam facilmente em violência.

O que nos diferencia, sociedade ocidental, daqueles que lapidam, mutilam e se escondem atrás da capa da religião e honra familiar, é a LEI e a EVOLUCÃO sociológica do "grupo".

Lembra-te que mesmo em Portugal a lei discriminatória em relação à mulher só foi abolida após o 25 de Abril. Tem 34 anos! Antes disso a mulher não podia sair do país sem autorização do marido e podia ser assassinada por este no caso de adultério, não se aplicando o caso inverso! Por isso, não há dúvida que é mesmo uma questão de evolução cultural das mentalidades e do valor do humanismo na sociedade.
E depois é como o Quint afirma: homem que é homem não bate nem se deixa bater. Afinal quem é o mais forte fisicamente e a nível da agressividade? Pois...

Está respondido, Manuel? ;)
Não confundas, há mesmo uma grave clivagem cultural entre a sociedade ocidental e os países e imigrantes do Islão. Não generalizando, claro. O pior que se pode fazer é, em vez de os fazermos respeitar a lei ocidental, andarmos a tentar fazê-la regredir em nome de hipocrisias multiculturais e/ou ecunémicas. Como se ainda por cima alguma vez fosse possível o ecuminismo entre cristãos/muçulmanos e judeus. Um perfeito disparate.

bluegift disse...

Carol,
Lembras-te da publicidade acerca da violência contra as crianças? "Por vezes elas gostariam que os pais fossem animais"? É isso mesmo. Muitos animais são melhores que certos homens, mulheres ou sociedades já que protegem os mais fracos e sobretudo as crianças. Já viste uma femea agredir violentamente uma cria pequena ou uma baleia atacar um homem?
Portanto, na nossa sociedade o desporto preferido de alguns, machos ou femeas, é vingarem as suas frustrações nos mais fracos.

António de Almeida disse...

-Quint, para grandes males, grandes remédios, no início deste mês adquiri um portátil novinho em folha, com Vista. A primeira semana foi o cabo das tormentas, que nem uma foto conseguia fazer download, então o Office era para desesperar, mas agora já mais habituado, quero mais é que o XP vá dar uma volta.

Fa menor disse...

Não gosto de fazer publicidade a blogs...
mas agora veio atalho de foice, espero que não levem a mal:

http://mulheresmaltratadas.blogspot.com/

Neste blog, de uma amiga pessoal, que conseguiu dar a volta por cima, tudo é contado na primeira pessoa.
Não é actualizado faz tempo... e ainda teria muito para contar, que eu sei.
Se tiverem curiosidade, visitem!

Acho que é um assunto ao qual deveriamos dedicar um pouco mais de atenção, pois é uma realidade que muita gente ainda esconde...

quintarantino disse...

ANTÓNIO DE ALMEIDA, o problema é que, segundo me dizem, o VISTA tem cá umas manias com as ilicitudes informáticas, digamos assim!

O que me chateia mesmo é que à conta do raio do W32 fiquei sem computador em casa ... ó transtorno ...

Compadre Alentejano disse...

A violência doméstica tem o seu quê de fundamentalismo. Porquê?
Ainda há pouco tempo, o reitor do Santuário de Fátima, numa entrevista à comunicação social, dizia que umas lambadas na mulher fazia bem à convivência familiar...desde que não fosse em excesso...
Por mim, acho que o reitor é xiita ou sunita...muçulmano puro...

Blondewithaphd disse...

Ó Quinn, é impressão minha ou chamaste-me "berloque de esquerda"? Tu tem-me lá paciência mas com berloques não quero nada, sou alérgica a quinquilharia.

Dear Carol,
Descendemos todos de Abraão: judeus, cristãos, muçulmanos. Enquanto humanos também somos iguais. Portanto, queres mesmo que te responda cabalmente a essas últimas questões, que aqui o nosso CEO, acha fracturantes?
A barbárie é inqualificável, indesculpável e inesquecível em qualquer sociedade, qualquer cultura, qualquer religião, qualquer estrato social.

Carol disse...

Meus queridos amigos, hoje, por motivos de saúde de um familiar, não posso dedicar o tempo que gostaria a este post e aos vossos comentários. Daí ter decidido, comentar o que já foi aqui dito na globalidade.

Os dados estatísticos que apresento são da PSP e GNR. Não são números atirados ao acaso.

É evidente que a violência doméstica também atinge homens. Mas não são os únicos. Ela também incide sobre os idosos e as crianças. Mas, hoje, quis falar das "Elsas" deste país, porque conheci e conheço algumas.

Eu sei que este fenómeno tem raízes culturais muito fortes e que ainda há quem a defenda (como esse senhor que é reitor do santuário de Fátima, cuja entrevista li com particular nojo e indignação).

O problema é que, em vez de regredir, este fenómeno está a aumentar e atinge, cada vez mais, as camadas jovens. E isso é preocupante, porque eles nasceram no pós 25 de Abril, porque têm mais acesso à informação, porque contactam com outras culturas e deveriam ser mais evoluídos.

Mas, pelos vistos, não são e devíamos todos reflectir sobre o porquê de não o serem.

P.S.: Sabes, Blue, essa publicidade está 100% correcta porque é mesmo isso que se deseja!

jo ra tone disse...

Eu também não!
Não percebo tanta violência doméstica.
Ora se a mulher (a nossa mulher),tudo nos dá...
Dá-nos de comer e vestir
Dá-nos o seu amor e carinho
Dá-nos os nossos filhos
Passa-nos sempre a roupa a ferro

E nos é sempre fiel
Nos assiste na saúde e na doença

Na percebo o porquê de tanta vilência doméstica

Carol disse...

Blondie,é mesmo de barbárie que se trata!

E o mais interessante é que estes agressores, depois de serem acusados pela mulher, marido, filho, filha, mãe, pai, seja quem for, podem voltar ao local do crime e permanecer lá, como se nada tivesse acontecido!
Esta é a lei que temos!

Muitos se indignaram com a hipotética proibição de piercings e tatuagens em menores de 18 anos, mas não vejo os meios de comunicação e os senhores deputados indignarem-se com as "Elsas" deste país!

JOY disse...

Olá Carol,

A Violência seja ela qual for deve ser sempre um acto condenável mas a violência doméstica é para mim um dos actos mais cobardes levado a cabo por uma pessoa,é transversal a todas as religiões,estratos sociais e idades,com a cumplicidade da solidão e a privacidade de quatro paredes.Não se deve encarar a violência doméstica somente na vertente fisica ,porque a verbal é de igual maneira humilhante e degradante para quem a sofre.Torna-se necessário banir de vez o ditado que "Entre marido e mulher ninguém mete a colher" porque quem o fizer é moralmente coninvente com a situação.

Fica bem
Joy

FERNANDA & POEMAS disse...

Olá Querida Amiga Carol, Tiago, Tino e todos os outros que fazem parte destes Blogues... Votos de uma Santa Páscoa... Beijinhos de muito carinho...
Fernandinha

Tiago R. Cardoso disse...

Um a parte, quero que o Windows e a Microsoft se lixem, por isso Quintarantino tens de te render ao alternativo.

Esta violência está por toda parte, não é exclusiva de nenhuma classe social, é apenas o regresso de alguns ao estado primitivo, se é que alguma vez sairam de lá.

Não existe apenas violência exercida sobre mulheres, existe o outro caso que é o homem a ser a vitima, estes casos ainda mais escondidos.

O fundamental é combater esta vergonha, mudar muita mentalidade que anda por ai, evoluir e tornar esta sociedade realmente justa, igualitária e positiva.

João Castanhinha disse...

WordNet: ecumenical

Adjective meanings:

Meaning: concerned with promoting unity among churches or religions
Synonyms: ecumenic, oecumenic, oecumenical
Synonyms: cosmopolitan, oecumenical, general, universal, worldwide

Alguém vê algum problema nisto?

Óptimo texto Carol, concordo em absoluto.

Manuel Rocha disse...

Blue,

Não estiveste mal, não senhora...

Mas quando tiveres um tempinho logo nos explicas porque é que tanta EVOLUÇÂO tem que se estribar na LEI e mesmo assim é o que se vê, fora o que não se vê...

;)

C Valente disse...

Triste realidade,. bom apontamento
Saudações amigas e votos de Pascoa Feliz

joshua disse...

Nada! Se não agirmos nem denunciarmos, nada.

PALAVROSSAVRVS REX

Paula disse...

O problema da violência doméstica é algo de muito sério e existe de facto. E deixa marcas para a vida!
Precisamos de psicólogos e psiquiatras para tratarem as pessoas que consideram que tudo se resolve à pancada e maus tratos psicológicos!

gostei do que li. Estes assuntos nunca se esgotam...

O meu respeitoso abraço

bluegift disse...

Manuel, é tudo uma questão de mecânica humana. Se não houvesse leis voltávamos à idade da pedra, ou duvidas?
As leis andam a par da evolução sociológica e vice-versa. É uma realidade sociológica, daí eu insistir na lei. O hábito não faz o monge mas acredita que ajuda e muito!