Notas Emprestadas - Filhos do Nada

Dando sequência à divulgação e cooperação com outros autores e projectos, o NOTAS SOLTAS avança com mais umas Notas Emprestadas.
Este é o segundo autor brasileiro que temos o prazer de receber, também um amigo, Luiz Santilli Junior...

A violência no Brasil tem sido tratada pela mídia e por muitos de nós apenas como um caso de polícia.

Porém, o fato gerador da violência não é de origem policial, e muito menos vai ser resolvido com mais policiais nas ruas, ou mesmo o exército. Com seguranças particulares às nossas portas estamos apenas aumentando a extensão da guerra entre dois mundos.

Vivemos há anos em uma Nação profundamente dividida em dois mundos, em lados opostos de uma vala social: a sociedade organizada de um lado, em que vivemos e criamos nossas famílias, e os miseráveis do outro.

Os miseráveis, que vivem em guetos, onde os direitos sociais mínimos, como saúde, educação, emprego, propriedade e dignidade nunca passaram por perto.

Que valor tem a vida humana para uma criança que nasceu com um revolver na mão, sem pai e sem mãe, educado por adultos que tiveram a mesma infância, em que a vida é um acaso e a morte o destino provável de qualquer instante...

Que valores estes meninos podem dar às coisas que nunca tiveram, que nem sabem que existe, pois o Estado lhes sonegou tudo, os ignorou ?

O caco de vidro nas mãos das crianças pedintes é seu instrumento de trabalho, pois lhe faltou primeiro o leite, depois a cartilha e por fim o amor.

Elas não sabem o que representa a vida em sociedade porque esta nunca as acolheu. Vivem em bandos, não em comunidades. Vivem na fronteira da barbárie.

A polícia pode, quando muito, conter temporariamente a criminalidade, mas a fábrica de criminosos continuará aberta e produzindo milhares deles por dia.

E nós nos fechamos em moradias com grades até o tecto, esquecendo que temos que ir à arena todos os dias para ganhar o nosso pão, a mesma arena em que os miseráveis vão buscar os recursos para a sua sobrevivência.

É nessa arena, cada vez mais perto de nós, a cada dia mais trágica, que a luta vai se acirrando.

Quem irá aplicar as medidas que resolveria a questão ?

Uma classe política, que em todos os níveis abriga muitos e muitos corruptos ?

Boa parte dos homens que detêm o poder em diversos níveis está envolvida até o pescoço com o narcotráfico: que esperar dessa casta ?

E seria hipocrisia nossa culpar apenas os políticos porque, em primeiro lugar fomos nós que os elegemos com nosso voto e depois porque nós também contribuímos com pequenos delitos cotidianos, como burlar o IR, pagar propinas, comprar drogas na clandestinidade, comprar CD’s e DVD’s pirata, não emitir notas fiscais, curtir nosso “personal” muambeiro, o caixa dois, contas fora do país e tantos mais.

Quem comete crime deve ser punido, sim. Porém, enquanto a fabrica de assassinos não for fechada, vamos ficar como cachorro correndo atrás do rabo.

Os miseráveis continuarão lá, do outro lado da trincheira, até o dia em que tivermos vergonha na cara, e nos tornarmos uma Nação com uma única sociedade.

Autor - Luiz Santilli Junior - Brasil - Blogues Boa Leitura e Cronicas

16 comentarios:

António de Almeida disse...

-Apenas fui ao Brasil uma vez, a Salvador, pelo que desconheço a realidade brasileira, ainda que tenha um familiar a viver em Brasília, o qual por sua vez também tem família em S.Paulo, aqui em Lisboa, tenho uma amiga também natural de S.Paulo, e depois falo com alguns brasileiros que por cá vivem e trabalham. Esta breve introdução para referir que de facto não sendo um conhecedor profundo, nem de perto nem de longe, da realidade brasileira, chegam-me ecos que a situação está a melhorar, a economia cresce, o real valoriza, a pobreza diminui, embora ainda seja enorme, se tivermos como comparação padrões europeus. Mas espera-se que o Brasil seja uma das economias prósperas antes de meados do sec. XXI, a bem do povo brasileiro, que irá beneficiar desse crescimento, pois não existe outro caminho para fazer o país avançar. Ao que julgo saber, matéria prima e potencial de desenvolvimento, não faltam por lá, falta sim é transformá-los em valor.

quintarantino disse...

Nem de propósito, digo eu.
Ontem a nossa co-autora Blonde avança com o texto sobre questões de segurança e comportamento das forças policiais e hoje temos aqui uma outra face da moeda.

Dada pelo Luiz Santilli, uma alma generosa do tamanho do mundo.

Uma visão quase catastrofista de algumas realidades que tentamos escamotear porque há diferenças sociais... ainda. E quiçá sempre.

Como canta o Sérgio Godinho, a rica teve um menino e a pobre pariu um filho mas a massa que corre na consistência genética é a mesma. E é por isso que, neste texto e na vida real, quem nasceu virado para a Lua também prevarica, comte delitos que ficam impunes.

E todos elegem os políticos que, com as suas tropelias, nos empurram para o fundo.

Duma arena ou dum poço!

NuNo_R disse...

Gostei de ler :)
De facto a realidade brasileira é muito diferente da nossa, mas cada vez a aproximarem-se entre si. Ao invés de serem eles a chegarema nós, nós é que estamos a cgegar a eles. Parece uma redondância mas não o é.
E explico, com o s acontecimentos que estão a passar em Portugal onde cada vez mais se perde qualidade remuneratória face ao aumento do custo de vida, com as politicas economicas aplicadas pelo governo em gestão, pelo aumento do fosso social entre as familias mais ricas e as mais pobres, com a radicação da chamada classe média...
De facto estamos a aproximarmo-nos da realidade brasileira rapidamente.
áS vezes chego a comentar com amigos "zucas", que eles ao imigrarem para Portugal, qualquer dia não darão pela diferença eheh
Até pela questão do Acordo Ortográfico que agora tb se apresenta. ;)


abr...prof...

obs: Passem pelo "O PROFANO", Tenho uma sugestão a não perder...

LUIZ SANTILLI JR. disse...

Queridos amigos
Agradeço profundamente a publicação dessa crônica!
Ela não é catastrofista, é o retrato da realidade, vivida por duas facções de uma sociedade dividida pelas posses!
Escrevi essa crônica, quando um garoto de 8 anos foi arrastado por bandidos por mais de 5 quilômetros, quando roubaram o caro da mãe e esta não conseguiu abrir o cinto de segurança do filho. Assustados com a demora, os bandidos puxaram mãe para fora do carro e sairam em correria e o garoto foi sendo arrastado pelo cinto que insistiu em não se abrir!
Morreu dilacerado, e os bandidos, presos a seguir, eram menores de idade, e não apresentavam a menor sombra de arrependimento!
Foi isso que me inspirou a crônica, foi um fato real, não minha fantasia nem meu eventual pessimismo.
Foi motivada por uma realidade mais perto de nossos filhos do que imaginamos.

Luiz Santilli Jr.

bluegift disse...

Também tenho bons amigos em São Paulo, um dias destes terei de perder o medo e ir visitá-los já que as saudades são mais que muitas. A terrível realidade aqui descrita constrange-me profundamente. Não posso deixar de achar admirável a forma como os brasileiros encaram a situação, sem perderem o encanto e a alegria que tanto os caracteriza.

bluegift disse...

nuno_r,
Achas mesmo que a realidade da América Latina é comparável à da Europa? Eu acho que éuma das maiores enormidades que tenho ouvido a algumas pessoas nos últimos anos. Mais um a acrescentar ao nosso espírito derrotista e maldicente. Não há dúvida que até nisso somos bem diferentes dos brasileiros.

quintarantino disse...

SANTILLI obviamente que quando usei o termo catastrofista não pretendia afirmar que a visão que apresentavas era fruto de uma visão muito própria ou baseada em ficção; pretendia, isso sim, remeter para um quotidiano semeado de violência e contradições, daí ter recorrido à palavra catastrofista.

Fica a explicação pois o amigo merece-a.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

E Portugal está a ficar como o Brasil, devido à corrupção e à burrice nacional! Muita pobreza, uma aberta, outra envergonhada, em contraste com os "endinheirados"! Situação profundamente injusta, porque os últimos não "são" nada: meros animais feios e gordos! :(

Compadre Alentejano disse...

Nunca Portugal se pareceu tanto com o Brasil. É uma república das bananas, corrupção, criminalidade, favelas versus bairros de lata, mensalão...
E os "zucas" que chegam, em vez de aprenderem com os de cá, vão espalhando os seus predicados...prostituição, esquemas, droga...
De qualquer modo um excelente texto
Um abraço
Compadre Alentejano

LUIZ SANTILLI JR. disse...

Caro Quintino

Eu apenas reforcei o termo, em apoio à sua colocação, jamais como contestação, pois sua colocação é correta!
Na verdade é uma redundância falar em catastrofismo, pois a catástrofe já está instalada na vida social!
Ou não é uma catástrofe, no Rio de Janeiro, o narcotráfico se misturar à vida da cidade?
Não é uma catástrofe haver um tiroteio entre políciais e traficantes, nao meio de mulheres, crianças e cidadãos inocentes?
A tragédia urbana já está instalada!
Resta torcer cada um para não ser envolvido nisso, porém é apenas uma questão estatística!
Como ironia, em meus 66 anos de vida, a única vez que fui abordado por uma gang de assaltantes foi, ano passado, na civilizada Barcelona!!
Potanto convido o amigo BLUEGIFT, a vir sem medo a São Paulo, onde a polícia é menos ineficiente!
Santilli

Tiago R. Cardoso disse...

Desde já um excelente texto, mais um do Brasil, este mais interventivo, na onda daqueles que fazem a imagem do Notas Soltas, onde o debate e a troca de ideias são a base de um projecto agora mais globalizado.

Um texto interventivo, de reclamação contra uma sociedade em descontrole e de uma realidade preocupante, mas mai que isso um reclamar para a construção de um país melhor e mais conforme aquilo que é um belo país.

Comparativamente, que foi o que já foi feito, em alguns aspectos somos uns aprendizes, mas em outros somos professores e grandes professores, mas no fundo o que importa não é dizer que é melhor ou pior, o que realmente importa é a construção de um mundo melhor, lembrar que todos vivemos nele e recebemos o troco daquilo que lhe damos.

Lá como cá as aspirações são iguais, melhorar e lutar por algo melhor, que definitivamente não é aquilo que temos agora.

bluegift disse...

Santilli,
Isso é bem verdade. Uma das minhas amigas de São Paulo que viveu 10 anos em Lisboa, a única vez na vida que foi assaltada foi num parque de estacionamento de um supermercado em Espanha. Arrancaram-lhe a mala e ela foi arrastada alguns metros. Felizmente a tira da mala quebrou e ela conseguiu se safar apenas com algumas escoriações. Mas, apesar de tudo, ela me diz que em São Paulo vive no medo e a sua casa está rodeada de arame farpado, câmaras, alarmes. Mas lá irei, pode ter a certeza :)

Peter disse...

Egoisticamente, preocupo-me em sobreviver no meu País, onde aspectos essenciais, não estão a ser devidamente acautelados:
- Saúde.
- Direito.
- Ensino.
- Segurança.
- Emprego.
- Custo de vida.
Utizo os transportes públicos e oiço as queixas das pessoas que viajam comigo, do Povo que vota e que mais se aflige com esses problemas, não o de pessoas que têm outras possibilidades sociais e económicas de contornar os problemas com que, afinal, todos os que aqui vivem se debatem.

Carol disse...

Santilli, amigão, um excelente texto este seu.
Não conheço o Brasil e você é o meu segundo amigo brasileiro, pelo que não tenho um conhecimento muito profundo da vossa sociedade, a não ser pelo que leio e vejo nos meios de comunicação social e por uma curta viagem do meu irmão a esse país.
A violência e a miséria andam, muitas vezes, de mãos dadas, como você muito bem realça. A igualdade de oportunidades, o respeito pelos indivíduos serão a base de uma sociedade menos violenta, certamente.
Não acredito que Portugal e o Brasil vivam realidades muito semelhantes, mas acredito que nos sintamos tentados a compará-las pelo clima de insegurança que se tem sentido nos últimos tempos. Esperamos que o nosso país, os nossos governantes, nós, enquanto cidadãos, possamos evitar que Portugal e Brasil se tornem irmãos também na violência e na criminalidade.
Espero, também, que o povo brasileiro consiga vencer essa luta por uma sociedade mais justa e menos violenta.

Blondewithaphd disse...

É uma pena quando um país está refém da violência e pior do que isso é que se criem barreiras que nos protejam contra os outros e se criem ainda mais divisões na sociedade.
Apesar da distância atlântica partilhamos das mesmas ansiedades.

Zé Povinho disse...

Hoje passei apenas para desejar uma boa semana, e informar que o Zé vai estar afastado por uns dias, mas volta.
Abraço do Zé