No Country for Small Children

Todos os dias, a umas muito pouco cristãs sete da manhã, ouço, na Rádio Comercial, uma rubrica inspirada nas ansiedades do nosso Exmo. Sr. Presidente da República, o “Minuto pela Natalidade” que, a brincar a brincar, até tem muito de verdade com que nos deveríamos preocupar.

Sabemos, à exaustão, que o país está a envelhecer irremediavelmente. E também sabemos que países com taxas de natalidade pobríssimas têm vindo, com muito bons resultados, aliás, a reverter a sua situação. E não, não vou dizer que a imigração poderá ser a solução para este mal que nos aflige. Importa, primeiramente, encontrar soluções intramuros com a matéria-prima nacional.

No entanto, por muito inspirador que seja o “Minuto pela Natalidade, não é com música que vamos rejuvenescer a população. Se há país que maltrata a natalidade é este, infelizmente, daí a apropriação al revés do título do filme dos Coen.

Nos desvairados anos 70, a licença de maternidade do país em que nasci era já de cinco meses. Aqui, os cinco meses só chegaram no novo milénio e, mesmo assim, quem escolher ficar em casa com um bebé pequenino no quinto mês só recebe 80% do vencimento. Agora inventaram um tal de subsídio pré-maternidade, uma fortuna incalculável capaz de convencer qualquer alérgico a fraldas a procriar alegremente. Ademais, o tal de complemento à maternidade exclui parte da população que, já de si, incrivelmente abonada se chama classe-média. Acho visionário que se criem complementos precisamente para o segmento populacional que mais contribui para o incremento populacional e que se continue sem atacar um problema premente das classes médias, as que mais produzem para o PIB e que, por conseguinte, mais absorvidas pela incomplacência laboral, menos se dedicam à natalidade.

No tal país em que nasci cada bebé vale hoje 25.000 euros. Está bem, dir-me-ão que é um país rico e nós somos pobres (a lengalenga costumeira). Por cá, o abono de família também é só para certos segmentos populacionais. Mais uma vez, as divisórias sociais. A discriminação à nascença que também tanto me aflige. E, claro, o abono de família é mais do que incentivo à natalidade!

Parece, entretanto, que o Estado vai criar mais uns quantos jardins-de-infância. Acho bem. Tal como me parece ainda melhor que:
a). As escolinhas dos meninos e meninas tenham férias como na escolinha dos meninos e meninas grandes que é para os pais matarem a cabeça de stress e preocupação sem saberem onde deixar os miúdos;
b). As escolinhas tenham horários desfasados dos horários dos pais e muitas cobrem à hora (e até à meia hora) extra após o período normal de funcionamento, o que lá deixa os pais no stress de irem buscar os miúdos a correr;
c). As escolinhas diferenciem as propinas entre os paizinhos mais pobres e mais ricos e os ditos tenham de andar a mostrar o IRS, que eu considero documentação privada, diga-se de permeio.

E depois, imaginando, que a malta lá se inspira pelo “Minuto pela Natalidade” e até se reproduz, é também animador constatar o rigoroso limite de faltas que um profissional pode dar para assistência à família. Do mesmo modo que é surpreendente que o progenitor que não fica com a licença de mater(pater)nidade tenha direito a “gozar” aqueles cinco dias depois do nascimento. A munificência estatal é, de facto, de louvar!

Só para finalizar, também considero encorajador verificar que, em caso de divórcio (cruzes canhoto!), o desgraçado que perde a custódia (triste sina ser pai) possa “ver” (adoro a expressão!) a prole a espaços temporais mais ou menos alargados! Que tal “ver” os filhos um fim-de-semana de quinze em quinze dias?

Bem, já vi que não me safo nem que me toquem o “Careless Whisper” às sete da matina!

18 comentarios:

quintarantino disse...

É o que faz ...

Antigamente eles vinham às catadupas sendo até de assinalar, nas palavras de Bob Monkhouse, que a ideia de libertação feminina da sua bisavó era conseguir sair do quarto e enfiar-se de vez na cozinha!

Hoje, desgraçadamente, muitos nem na cozinha, nem no quarto conseguem estar.

Ele é o sair para o trabalho ou para o emprego (é conforme) bem cedo;
ele é perder uma, duas horas do dia emperrado na estrada ou amassado nos transportes públicos;
ele é chegar e ter de cozinhar, mas antes ter de ir às compras, a reunião fora de horas, o compromisso com os amigos, a ida à ginástica, o ir ao café para relaxar ... enfim, um sem número de compromissos que atiram qualquer desejo para as calendas!

Depois há ainda aqueles que apertados pelo litro da gasolina a quase 300$00 (curioso este exercício de converter euros em escudos), o café a 120$00, o jornal a 220$00, o pão a 25$00, e aquelas contas esmagadoras do supermercado, da água, da luz, do gás, do telefone, e sabe-se lá que mais concluem que chegados a meio do mês quase não dá ... e se houver mais gente em casa então é que nada!

E também há quem não "truca truca para procriar" (como diria a Natália Correia) por motivos estéreis ...

Do lado do Estado arranja-se uns cêntimos que, como dizes, quase dão com o contemplado em doido tal a quantia faraónica; é todo um sistema montado a fazer de conta que apoia mas, bem vistas as coisas, não apoia nada ou quase nada!

As coisas, postas como estão, quase que levam à doidice qualquer progenitor em vias de o ser ... mas, e agora digo aqui eu garboso pai de prole de gêmeas, ele há lá coisa melhor!
Mesmo que o destino nos reserve ser pais em Portugal.

Blondewithaphd disse...

Bless you my child! (Mesmo assim, desculpa lá a brutalidade da estatística, mas ainda não contribuíste o suficiente;))

António de Almeida disse...

-O estado, pela mão do actual governo, auxiliado por uma certa esquerda folclórica, decidiu gastar o dinheiro dos nossos impostos em IVG's, dinheiro que não existe para políticas de incentivo á natalidade. Pessoalmente não defendo subsídios, e sim incentivos fiscais ás famílias numerosas, nomeadamente através de forte redução em sede de IRS. Isto a par de corrigir outras bizarrias no IVA, onde muitos produtos para recém nascidos são taxados a 21%. Quanto ao programa, nunca o ouvi, ás 7H da manhã, a minha música é outra, se me levantar cedo, é a hora a que toca o despertador.

António de Almeida disse...

“Careless Whisper” às sete da matina!
-Uma provocaçãozinha, todas as horas são más para tocar aquela... música? I don't like George Michael.

Manuel Rocha disse...

Gostei!

Mas vou comentar na “margem”. Espero que não se importe...:)

A primeira vez que ouvi falar do “envelhecimento irremediável” dos portugueses foi em 78, em vésperas do lançamento do primeiro livro do que era então meu prof de demografia. O livro chamava-se exactamente o “ O Envelhecimento da População Portuguesa”, Nazareth, AS, 1979.

Ao tempo tivemos uma pequena “pega”. É que considerei a tese algo malthusiana, algo contraditória com a essência dos conhecimentos recém adquiridos que nos diziam que as variáveis demográficas mesmo perante circunstancialismos idênticos são se repetem no tempo com resultados iguais, associadas que estão a considerações subjectivas ( decisões individuais ).

Mas em 1979 Pt ainda era um pais operário com uma fortíssima incorporação de mão de obra intensiva na economia. Inevitavelmente a mecanização e a automação alteraram isso. E de situações de desemprego sazonal e de sub emprego flutuante, passamos para desemprego consolidado na casa do meio milhão de criaturas. Ora um desemprego desta magnitude é um desequilíbrio estrutural que no presente contexto tem mais de demográfico que de económico, e que corresponde a um excedente efectivo de população para a estrutura económica instalada.

Ainda há pouco tempo, de volta de uma “maltês” de certa idade, Nazareth reconhecia naturalmente a descontextualização das premissas que lhe suportaram a tese de 78. De facto, a economia levou grande volta. Qualquer economista sério reconhece que a tendência do emprego não se irá inverter. Ora nesse contexto, mais gente para quê ? Qual a diferença entre sobrecarregar os activos com prestações para os subsídios de desemprego ou para reformas ? Não estarão os problemas de desemprego ( estruturais ) associados às (in)decisões de procriação ? E não poderá a tendência inverter-se a partir do (re)encontro do ponto de equilíbrio entre demografia e economia ? Provavelmente ! Mas por razões que a razão ( até do próprio ) desconhece, a tese de Nazareth de 78 mantém-se de excelente saúde e reproduziu-se além-europa!

Desculpem o post...:((

bluegift disse...

O problema que colocas faz parte do tal paradigma da nossa sociedade ocidental, que há algumas semanas aqui coloquei e a que o Manuel agora aludiu. Pelo menos já não sou a única por aqui a dar por ele.

Se queremos continuar a ser realmente "civilizados", democratas, ter qualidade de vida e outros princípios que tais, como é que vamos conciliar isso com o crescimento da população?

Vamos matar os idosos? Vamos encher a "casa" de idosos e crianças? Vamos encher a "casa" de pessoas até rebentar pelas costuras?
Qual é o verdadeiro objectivo desta campanha: "toca a fazer filhos mesmo que não te apeteça pois que os papões do idoso e do imigrante vão rebentar connosco"?

Será que já se parou um bocadinho para pensar a sério nas consequências futuras desta obsessão pela necessidade de procriar?

Ou será que é todo o sistema de Trabalho e de Segurança Social que terá que ser alterado para se adaptar à evolução dos tempos?

Ao Estado, a única coisa que interessa é ter mão de obra, de preferência nacional, que possa produzir e garantir as pensões dos idosos. NADA MAIS!

Aos empresários, a ÚNICA coisa que interessa é ter mão de obra barata, o mais jovem possível (barata, forte e pouco rezingona), mantendo uns poucos de idosos em lugares chave. O resto vai para o desemprego pelos 35/40 anos! Já são muito caros, têm mais reivindicações, saem caros à segurança social. E nós sabemos muito bem o quanto que o Estado quer evitar o pagamento de pensões elevadas... Portanto, por mais incrível que pareça, num futuro próximo, e a continuar a lógica ridícula em que caímos, o desemprego só vai trazer vantagens para o Estado...

Tudo isto para dizer que o sistema está viciado à partida. Estamos a correr para o abismo. Os nossos filhos estão condenados a uma sociedade de jovens a trabalhar em CDD's e de seniores e idosos no desemprego! E gente aos magotes por todos os cantos! Olha que bom que é como modelo social!!!
É isto que se pretende com a tal política obsessiva da procriação a todo o custo?

Por isso Blonde, desculpa lá, mas eu acho que, apesar de ser super importante adoptar todas as medidas que descreveste para ajudar os pais que QUEREM realmente ter filhos, o mais importante é repensar o Sistema de Pensões e Segurança Social que está completamente caduco e já não serve o bem estar da sociedade actual.
E, mais importante ainda, há que controlar as medidas empresariais (do liberalismo selvagem) que cada vez mais vão instalar o trabalho precário (dos jovens) e lançar no desemprego uma geração que teoricamente ainda poderia trabalhar mais 30 a 35 anos até atingir a reforma. E aumentar a imigração para as tarefas mais básicas, ainda por cima.

Acho que o problema é muito mais profundo e exige uma reflexão séria urgente sobre como :
1.repensar o trabalho,
2.a acção cega de lucro dos empresários,
3.e o sistema obsoleto das pensões.

Estes são os verdadeiros grandes desafios dos próximos anos.

Compadre Alentejano disse...

Em Portugal é muito difícil procriar. Infantário oficial não se encontra, pelo que há que colocar a criança num infantário particular, e não fica em menos de 400,00 euros.Se forem dois...
Os transportes, os combustíveis, os colégios...está tudo pela "hora da morte"...
Um bom fim de semana

O Guardião disse...

Uma sociedade em que os salários são miseráveis e a protecção social diminui a cada dia que passa, não se renova com toda a certeza. Também se deve considerar a insegurança laboral e a ineficácia da justiça nesta equação.
Depois podemos falar de subsídios e outras ajudas, mas são sempre medidas complementares e não de fundo.
Cumps

Mariano Feio disse...

"Em Portugal é muito dificil procriar"...
Oh amigo compadre, sendo o amigo alentejano, procure ai nas memórias dos mais maduros o que era procriar no Alentejo há sessenta anos! Fale com uma tia avó que esteja boa da memória e ela explica-lhe o que era olhar para 1/4 de pão duro, um ovo e uma espinha de bacalhau e fazer contas de cabeça para arranjar a ceia para a meia dúzia de bocas sentadas à mesa. E no dia seguinte quando saia ainda de noite para a apanha da azeitona, deixava o mais novo de meses entregue á mais velha de seis anos !Dificil de procriar agora ?Porquê ? Só se agora os gaiatos se fazem de costas e não dá jeito, será por isso ? Se não fôr garanto que não entendo!

Carol disse...

Eu não tenho filhos e vou continuar sem ter, apesar de estar constantemente a ouvir: "Estás mais do quew na idade!", "Daqui a unstrêsanos, já é muito perigoso!" ou, o meu preferido, "Olha que os teus pais não duram sempre e,depois, ficas sozinha!" (eu que vivo sozinha há uns cinco anos tenho um medo que me pelo da solidão! E, realmente, quem tem filhos nunca fica só!...).

Só quem não pensar é que se mete a ter filhos com a instabilidade laboral e financeira em que muitos de nós vivemos, com ordenados que dão para meio mês, com preços absurdos nos infantários, creches e produtos para bebés!

Olha, eu, pela minha parte, não procrio nem que me pusessem o Bublé a cantar em casa! (às 7 da matina, ainda se arriscava a ficar paralítico, coitado!).

bluegift disse...

Atenção, há imensos jovens no desemprego e a emigrar! Porquê? Então não precisamos de jovens?
Há imigrantes a chegar todos os dias ! Então porquê? Há ou não há desempregados prontos a trabalhar ?
A sociedade não se renova ? Então e os idosos que vivem até mais tarde e os que morrem menos devido à medicina ?
Afinal não é só um problema de falta de nascimentos, ou é ?

Porque é que as pessoas enfiam "princípios falsos" na cabeça e se metem a repeti-los como papagaios sem conseguirem olhar à volta e ver a realidade? A cegueira provocada pela falsa propaganda política e religiosa é um problema que afecta muita gente, não há dúvida, principalmente na cabeça !

bluegift disse...

Carol,
Ter filhos só se for pelo prazer pessoal de os ver crescer. Quando eles crescem ganham asas e tchau, ou bem que ficas com os netos em casa ou ficas sozinha de novo.

antonio disse...

Vejo que o meu texto sobre os escuteiros te inspirou!

Tiago R. Cardoso disse...

Vamos lá toca a reproduzir, que é isso de problemas, ainda por cima leva-se ali com aquele abono de família que dá para comprar meia dúzia de carcaças.

E vão me desculpar as meninas, mas discordo, se seguirmos a lógica de não termos filhos, por causa da instabilidade e por causas dos problemas da nossa sociedade, nunca mais os teríamos.

Na altura diz-se isto está difícil, não pode ser, não temos isto, não temos aquilo e depois esquecemos rapidamente tudo quando olhamos para eles.

A solução para este nosso local, Portugal, será uma politica que invista no futuro, uma politica de incentivo à natalidade, quem manda parece que não compreende que este tipo de investimento é aquilo que dará futuro ao país.

bluegift disse...

- A mãe devia poder ficar em casa pelo menos até aos 6 meses da criança;
- As creches deviam ser mais numerosas e mais baratas;
- Qualquer creche ou escola devia ter a possibilidade de abertura das 7h às 19h;
- Os impostos de famílias com crianças deviam ser reduzidos;
- Os materiais escolares deviam ser muito mais baratos;
- Os pais deviam ter mais dias reservados ao acompanhamento dos filhos em caso de doença.

Medidas simples que sem dúvida iriam facilitar a vida a muitos casais e, de forma natural, aumentar a natalidade.

Tiago, tens toda a razão, mas é preciso exigir que estas condições melhorem, em nome do bem estar e da saúde mental de todos!

Osvaldo Lucas disse...

Quanto menos pessoas maior a quantidade de bens imóveis/"permanentes" per capita. Ou seja menos necessidade de rendimento para adquirir/usufruir desses bens.

O problema da segurança social é um falso problema. Ou seja, se houver falta de dinheiro usa-se uma qualquer função - com tempo de transição - para "comer" as pensões mais elevadas. Ou então retira-se dinheiro do investimento público. Afinal, mais estradas, hospitais, aerportos, etc, etc para cada vez menos pessoas?

Blondewithaphd disse...

People,
Pois é, esta questão do "crescei e multiplicai-vos" é cá uma dor de cabeça no séc. XXI! E ainda nem sequer falámos do egoísmo de quem, afinal, não quer mesmo embarcar numa de perpetuação dos genes. Trabalhamos tanto, temos acesso a tantos bens de consumo, queremos o nosso tempo, o nosso espaço e a nossa independência que, se calhar, nunca é a hora porque nunca queremos que seja a hora. Também dá que pensar. Bolas, que isto de viver no Mundo Ocidental tem muito que se lhe diga!

calminha disse...

ainda bem que alertas-te para este tema, e concordo plenamente com a tua exposição, não é com pequenas medidas que fazem ate rir , que se resolve o problema da natalidade, que depois da generosidade de quem os quer ter, nao sente o apoio da sociedade para os ajudar a crescer, deixando duvidas e medos para se deixar nascer ais uma criança, um dom inegualavel para cada familia.
bj