Mudam-se os ventos, mudam-se as criticas.

Mais uma tarde bem passada. Aquela tradição de ficarem ali sentados naquele banco era algo que eles já não dispensavam.

O movimento era muito, gente a correr de um lado para o outro, sempre com muita pressa, mas também eram muitos os que por ali ficavam sentados a ler o seu jornal, alguns dormitando, outros em conversa, outros ainda tentado mostra em tom mais alto o seu ponto de vista.

A posição dava-lhes uma visão privilegiada da zona, dali podiam observar tudo e todos e, claro, tecer as suas criticas e observações.

Fixavam uma criança que brincava alegremente, inocente e feliz. Trazia consigo a ternura de quem só há pouco tempo sabe o que é o ar da rua, o poder cantar, gritar, a liberdade.

Era também sempre observada por um indivíduo de ar austero, sentado a poucos metros e a comer umas bolachas de chocolate, tinha a preocupação de ser atencioso e simpático, mas como tutor da criança, mostrava sempre um estilo autoritário e dono da razão.

Os quatro homens detestavam o indivíduo, nunca tinham simpatizado com ele, achavam que "amarrava" demasiado a criança.

Era frequente ouvir-se um "vamos por ali que eu é que sei" ou "por este caminho é que chegamos lá" e, aqui e ali, um firme "eu é que sei, tu não sabes nada".

O desagrado dos homens era cada vez maior, queriam tomar uma atitude, estiveram muitas vezes para intervir perante algumas injustiças, mas o que tentavam era sempre à distancia, estavam demasiado amarrados àquele confortável lugar, tinham medo que se levantassem, alguém tomaria o seu lugar.

"O senhor dá-me uma bolacha, por favor?", perguntou a criança.

"Ande lá, dê uma bolacha à criança, deixe de ser assim!", gritaram todos em uníssono, vendo ali uma brecha para resmungarem.

Após algumas hesitações, o tutor deu uma bolacha à criança.

"Obrigado, o senhor é muito fixe" – respondeu a mesma.

Os homens, surpreendidos, olharam uns para os outros e avançaram logo: "Avarento! Invejoso! Com tantas bolachas só deu uma ao miúdo, isso não dá para nada"

30 comentarios:

antonio disse...

Este teu conto não tem nada a ver com uma bolacha Maria, perdão com o 1% do Sócrates, pois não?

É que nós somos como essa tua criança educada e dizemos obrigado senhor!

Zé Povinho disse...

Ainda antes de comentar, porque não li o texto, aqui fica um recado para o Quintarantino: vá ao http://vtmadaquinta.blogspot.com/2008/03/vtima-da-quinta_27.html, que ou ele se mudou, ou eu acabei de o ver por lá.
Já volto.
Abraço do Zé

António de Almeida disse...

-Eu não agradeço a quem me aumentou impostos. Esclareço que a minha posição é tão válida á esquerda como á direita. Bom texto, pleno de criatividade, Tiago.

Zé Povinho disse...

Agora sim, já li este texto do Tiago, a quem peço desculpa pelo entrada intempestiva.
A insatisfação permanente é uma característica humana, por vezes até salutar. A crítica também, desde que construtiva. Quanto à diminuição de 1% no IVA em Julho, é natural que não haja muita gente animada com a notícia, é que já estamos escaldados... .
Lá para a frente veremos em que é que isso se traduz.
Abraço do Zé

Paulo Vilmar disse...

Tiago!
Estás especialista em ironias! Esta está muito bem feita. como disse o Zé, ja escaldados, vamos sempre desconfiar dos políticos!
Abraços!

O Guardião disse...

Um texto bem interessante, sobre o nosso espírito crítico, por vezes não acompanhado por acções.
Se o mote era o IVA e o anúncio da sua passagem para os 20%, direi que a medida não me fez dar pulos de alegria, já que também foi o mesmo governo que o subiu de 19 para 21%, quebrando a sua promessa de não subir os impostos. Se o que agora foi anunciado nos vai aliviar alguma coisa, sou como o S. Tomé, VER PARA CRER!
Cumps

Compadre Alentejano disse...

Esta esmola de 1% é como se não existisse. Continuo a ir a Espanha, onde o IVA é de 16%, faço algumas compras no Carrefour e encho o depósito do carro de gasóleo a 1,047 euros.
E, além disso, faço as revisões dos carros em Espanha, por metade do que levam em Portugal.
Por mim, o Sócrates pode meter o 1% no ..
Um abraço
Compadre Alentejano

bluegift disse...

Espera, este cenário é-me demasiado familiar. Aposto que a criança só começou a comer bolachas em 1986! E mais do que isso é obesa, correndo o risco de sucumbir por excessos no consumo de fast-food! ;)

lusitano disse...

O tutor voltou-se para os homens e disse:
Todos calados, que aqui quem manda sou eu! As bolachas são minhas e eu dou quantas quiser e quando quiser!
Responderam-lhe os outros muito chateados, mas sem saírem do lugar:
As bolachas são para as crianças, é a elas que devem ser dadas!
O outro volta à carga:
Mas seria leviano e tonto dar-lhes as bolachas todas de uma só vez!
E novamente os outros:
Não lhas dês todas, mas pelo menos dá-lhes o suficiente para elas lhes tirarem o sabor! Só com uma nem chegam a provar!
E novamente o tutor:
Se as dou agora, depois fico sem nada para dar!
E os outros:
Áh, o que tu queres são beijos e agradecimentos!

quintarantino disse...

Um retrato bem apanhado da realidade ... curioso mesmo é quase todos se dedicarem à análise da figura do tutor e se esquecerem de ver que, na análise do escritor, somos retratados como uma criança.
E se calhar somos mesmo!

Carol disse...

O tutor é fera e a criança é mmuito bem comportada e disciplinada. Será que somos mesmo assim?
Os senhores sentados no banco deviam era estar caladinhos, que faziam melhor figura!

REVOLTA DE UM POVO disse...

Junta-te a nós.

Divulga

http://vaocomernocupoliticosdemerda.blogspot.com/
A união faz a força do nosso povo.

Peter disse...

Quando fujo de Lisboa e vou para o Sul costumo sentar-me nuns bancos, no centro da cidade e ao pé da estátua a D.Sebastião, da qual os meus amigos mais conservadores dizem mal, mas que eu admiro.
É a estátua dum menino-rei a quem vestiram uma armadura de homem.
Uma prima minha diz que são os "bancos dos reformados".
Pois que sejam, fico ali a ver passar o tempo.

Vejo onde pretendes chegar (1% IVA), mas eu não posso esquecer e nisso ninguém fala, que NÓS fomos sacrificados, mas que CONSEGUIMOS reduzir substancialmente o défice orçamental para 2,6% por cento em 2007.

bluegift disse...

Afinal, até o Raul Castro já deixa os cubanos comprarem telemóveis! Bolacha melhor que esta... cof! cof!

Tiago R. Cardoso disse...

Antonio,
um criativo como tu tem aqui um mar de de siginificados para descobrir, para alem dessa percentagem, escrevi isto com diferentes leituras, acho que é daqueles textos que serve para muitas coisas.

António de Almeida,
obrigado pelo elogio.
As suas opiniões são sempre válidas e respeitáveis, sempre bem vindas.
O problema é que a criança irá sempre agradecer e apoiar o tutor, basta que ele lhe de uma guloseimas e irá esquecer os apertos por onde passou.

Tiago R. Cardoso disse...

Zé Povinho,
não tem de pedir desculpa eu é que agradeço de outra forma não tinha visto a imagem da caricatura do cineasta oficial do blogue.

Mais do que insatisfação, alguns estão sempre do contra, se lhes fazem a vontade, rapidamente mudam de lugar e pegam por outro lado.

Acredito que se traduza em mais uma bolacha para o final do ano e antes das eleições outra, nessa altura a criança dirá obrigado outra vez.

Paulo Vilmar,
é igual em todo o mundo, somos apertados e depois dá-se uns pequenos agrados para encaminhar a coisa a favor do que eles pretendem.

Tiago R. Cardoso disse...

Guardião,
a questão do IVA serviu para exemplificar as coisa, o Quintarantino escreveu sobre isso ontem e muito bem.

Claro que esta bolacha que nos deram serve para tentar calar o pessoal, mas vamos ver se com mais bolachas o povo não se cala mesmo.

Mais do que a questão do IVA, a imagem dos críticos que mudam de opinião para estarem sempre contra é uma coisa que está no sangue de muita gente.

Compadre Alentejano,
falho-lhe a linha, queria portanto dizer para ele meter o 1% no espírito dele ?

Muitas tem de fazer estas coisas, vivem junto à fronteira e acabam por estar mais lá do que cá, infelizmente.

Tiago R. Cardoso disse...

Lusitano,
gostei do dialogo.

Se o tutor de-se as bolachas que os críticos querem, nessa altura esses criticam iriam dizer que ele deu bolachas a mais e está a estragar a saude da criança.

Quintarantino,
exactamente, protestamos pelos doces, fazemos birras e quermos mais, se nos dão poucas protestamos, se nos dão demais destruimos o nosso equilíbrio, mesmo quando temos o suficiente e equilibrado, achamos pouco e queremos o pacote das bolachas todos, chegamos ao ponto de depois não termos mais.

Blondewithaphd disse...

Pois esta Blonde, pobre, mal agradecida, arrogante e temperamental q.b. dizia ao dito senhor para ficar com o raio das bolachas e engasgar-se com elas!

Tiago R. Cardoso disse...

Carol,
não é não senhor, mem um é o mau nem o outro é bem comportado, seria necessário um equilíbrio, de forma a que esta relação fosse produtiva para os dois.
Falastes e bem dos 4 homens do banco, que ali estão a criticar, sempre do contra, um dia quando eles forem tutores de alguém também teram alguém a criticar, embora nenhum deles apresente capacidades para ser tutor de alguém.

Peter,
e conseguimos sim senhor, dai a vénia deva ser feita ao povo e não a quem se acha o dono da proeza.

Dai quem se sacrificou tem também o direito de exigir mais do que uma bolacha, exigir ter direito a um prémio pelo que fez e não receber pequenas migalhas a prestações.

Tiago R. Cardoso disse...

Bluegift,
a bolacha do esquecimento, que muitos comem com gosto, outros limita-se a exigir mais ou implicar com a marca.

Blondewithaphd,
pois diria, mas o tutor dá as coisas aos poucos, para ir lembrando a criança que ele é um bom tutor.

Manuel Rocha disse...

Oh Tiago, eu do texto até gostei, mas quem foi que há dias recomendava que se deixasse de ocupar o tempo com questões menores ?!

( advertência: isto foi uma provocação !! :)))

A sua escrita corre sobre carris nesse registo. Acho que tem aí o seu "nicho"!

Força nessas teclas !!

Sniqper ® disse...

Muito bom, saboroso e baratinho este tipo de sobremesa, no caso tipo de atitude...

Bolo de Bolacha

Ingredientes:
4 gemas
125 gr. de manteiga Primor
250 gr de açucar (fino, de preferência)
+/- 2 pacotes de bolacha maria
café forte
coco para ralar
Confecção:

Bate-se as gemas, o açúcar e a manteiga muito bem até a mistura ficar cremosa. Faz-se café forte. Passa-se as bolachas, uma a uma pelo café, não muito quente, e deixam-se arrefecer. Coloca-se uma primeira fiada de bolachas num prato, como por exemplo em forma de flor, e depois barra-se com o creme. Depois volta-se a colocar outra fiada de bolachas embebidas em café e depois o creme, e assim sucessivamente. Barra-se, por fim, todo o bolo por fora e polvilha-se com o coco ralado. Notas: - O local onde irá fazer o bolo não pode estar calor, senão o creme começa a derreter e o bolo desmancha-se - As bolachas também têm de estar frias quando for meter o creme, pois caso contrário o creme irá derreter. Este bolo é muito fácil de fazer e é muito saboroso, é uma pena é não se ver muito.

C Valente disse...

Saudações amigas e bom fim de semana

Pata Negra disse...

Se bem percebi, devemos agradecer a quem nos deu uma bolacha no fim de nos ter tirado quatro? Não! Obrigado! Isso não é uma bolacha! Isso é um pau de chupa!
Um abraço inconformado

Tiago R. Cardoso disse...

Manuel Rocha,
então e existe coisa mais importante que uma bolacha de chocolate, preferível a certos políticos e politicas que nos tentam fazer engolir.

Sniqper,
gostei sim senhor, muito obrigado, conhecia uma parecida mas esta parece-me excelente.

Evidentemente que vou experimentar, ainda para mais recomendada desta forma.

Tiago R. Cardoso disse...

C Valente,
como sempre uma passagem de um amigo já antigo aqui do espaço, obrigado e para si também.

Pata Negra,
não temos nem devemos agradecer, mas infelizmente muitos receberam a bolacha e futuramente iram receber mais umas, rapidamente irão esquecer o ácido que lhes foi servido.

Kalinka disse...

Dizem os blog-expert que a melhor maneira de acabar com um blogue é fazer longas pausas, terminar e depois voltar, enfim, parecer inconstante...
Isso faz com que os leitores percam o interesse e desapareçam.
Será mesmo?

Percebi que a vida não se arruma, puxam-nos o tapete a toda a hora...e, estou mesmo decidida a «fechar» o meu kalinka...muito sorrateiramente um dia destes estará fechado. Não quero alaridos, tudo feito no silêncio e na dor que a minha vida tem sido, nestes 2 ultimos meses.

Peço desculpa a todos e estás entre eles, que sempre me deram força nos momentos mais difíceis.

Muito obrigada a quem me visita.

Beijinhos.

Fragmentos Culturais disse...

... olha que eu faria tal e qual como a tua 'blonde'... cá do sítio :)

Sensibilizada pelo teu ou seu?! [já nem sei como tratar-te/tratá-lo...] olhar atento e amistoso em 'fragmentos'!

Abraços,

... extensivos a 'Quint'...

Tiago R. Cardoso disse...

Kalinka,
vou falar ai "pessoalmente" ao teu espaço.

Fragmentos Culturais,
já somos três.

Vou ao seu espaço para falar consigo.