Mistério da Fé...

Anunciamos Senhor a Vossa Morte,
Proclamamos a Vossa Ressurreição…

A Páscoa sempre me fascinou. Muito mais até do que o Natal. Nunca percebi, contudo, porque é que lhe damos menos importância do que ao Natal. Talvez porque não haja troca de presentes. Talvez porque os dias antes do Domingo de Páscoa são austeros e penitenciais (embora ninguém se ande por aí a penitenciar, como é óbvio). Talvez porque o Natal mete nascimento e nestes dias se fale mais em morte. Talvez porque no Natal todos os abusos consumistas são permitidos. Não sei. Só sei que na Páscoa sempre me reencontrei com a fé, mesmo quando dela tenha andado mais arredada (é difícil manter a constância da fé e eu não me auto-excluo, estilo iluminada, de fases mais insípidas do meu contacto com a Religião).

Mais do que qualquer espírito celebrativo, fascina-me como é que uma Religião, em que o sofrimento se tornou na pedra angular de um intrincado sistema de crença, se manteve e persiste ao cabo de tantos séculos. Adoramos uma cruz, símbolo de tortura. Ajoelhamo-nos diante de um Homem morto em tormento, escorrendo sangue, arrepiante na Sua lividez. Bebemos-Lhe o Sangue e comemos-Lhe o Corpo. Recriamos a Sua Via Dolorosa até ao martírio final. Tudo isto é dor. Tudo isto é horrível. E tudo isto nos é natural.

Muitas vezes penso como será, para quem olha de fora, observar esta Religião. Que pensarão, por exemplo, os muçulmanos que nem admitem a representação da vida animada? Ou os judeus, dos quais nos fraccionámos tão violentamente? Ou os budistas que crêem, antes, num percurso espiritual que os encaminha para a apreensão contemplativa da realidade? Não nos acharão macabros no nosso gosto pela mortificação? E nós, o que pensamos nós desta Religião que, na maior parte das vezes recebemos em herança sem questionar?

Sim, acho que, em face deste lado pesado e expiativo da nossa Religião, não paramos para pensar no horrendo porque nos lembramos sempre que há um outro lado salvífico, redentor. Vivemos a Religião no paradoxo, no binómio opositivo dor/salvação, horror/beleza, trevas/luz.

Hoje é aquele dia intermédio e, para mim o mais fascinante. Que terá feito o Cristo neste dia? Terá descido aos Infernos? Terá ido ao Pai? O que se passou ali naquela tumba para que amanhã Dele só reste uma mortalha abandonada? O que é que está entre a Morte e a Ressurreição?

Mistério da Fé!

Cremos no impossível, porque há o impossível.

A todos uma excelente Páscoa!

10 comentarios:

António de Almeida disse...

-O que se terá passado naquele sábado, se é que foi mesmo sábado, se é que realmente aconteceu da forma que hoje conhecemos, também gostava eu de saber. Porque tenho uma educação católica, muito conturbada é certo, enquanto adolescente pelos meus porquês, porque me afastei da Igreja Católica já lá vão uns 25 anos, sem que entretanto tenha escolhido ou professado qualquer outra confissão, porque mergulhei no gnosticismo, sem renegar a origem, não suporto as ofensas jacobinas á Igreja Católica, mesmo que já não faça propriamente parte do rebanho. Enquanto o Natal é algo meramente simbólico para mim, pelo que não questiono, porque não tem a ver com fé, a Páscoa levanta-me questões, e muitas, cada vez mais. A começar por uma história demasiado romanizada para meu gosto, onde parece que tudo foi narrado para agradar á audiência em Roma, quando um debruçar das tradições hebraicas, aponta obrigatoriamente, que no mínimo se estudem outras hipóteses. Mas sou fã de Jesus Cristo, um homem extraordinário, dos mais extraordinários que um dia habitaram este planeta. Mas não quero aprofundar uma discussão teológica, afinal também continua a existir um grande espaço para a fé, até pelas lacunas historico-científicas.

quintarantino disse...

De forma singela admito Cristo embora não tenha a certeza absoluta que seja efectivamente mais que um Homem que pela força da sua obra se ergeu acima dos restantes ou se realmente filho do Pai.
Possivelmente nem isso seria ou deveria ser importante pois o que se deveria discutir era antes se aquilo em que nos tornamos é aquilo que ele desejava.

Não sei o que se passou naqueles dias, nem me parece que a história esteja demasiado romanizada. Estará, isso sim, demasiado institucionalizada e adaptada àquilo que eram as necessidades de afirmação e poder de uma instituição emergente que sempre soube retirar o melhor do que existia à mão ... de Roma o que convinha, de Cristo as memórias quiçá selectivas de apóstolos e de cronistas.

Não sou nem crente, nem ateu friso desde já e, neste momento, penso estar um pouco como Oscar Wilde de quem se diz que, no leito da morte, e face à presença de um padre que não desejava mas alguém chamara respondeu, quando questionado se já havia feito as pazes com o Criador, que ele soubesse "não estivemos zangados pelo que não vejo a necessidade disso!".

De qualquer modo, quiçá como agnóstico, é um excelente momento de reflexão que aqui nos fica pela mão da autora.

Fa menor disse...

A minha fé [que é a Fé da Igreja, e não uma fé privada e subjectiva], diz-me que Jesus [Cristo] é verdadeiro homem e verdadeiro Deus. Antes de ser homem [há dois milénios atrás] já era Deus antes de todas as coisas.
Assim sendo, neste dia "intermédio", como homem, o seu corpo estava sepultado por estar morto, só voltando a ganhar vida ao terceiro dia; como Deus, podia estar em qualquer lugar, ou em todos. Sabemos o que Ele disse: "Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estarei no meio deles"...

Uma Santa Páscoa para todos. Fiquem com a certeza de que Ele está vivo e no meio de nós e em nós, que o acolhemos!

antonio disse...

Fez-se homem para nos salvar, porque o queria fazer pelo amor e não pelo poder que detém.

mac disse...

Acredito na mensagem de Jesus, não acredito na mensagem da Igreja. Admiro e acredito nesse Homem, que esteve muito à frente do seu tempo, e por essa razão morto. Trouxe ensinamentos muito válidos, e quis fazer deste mundo, um mundo melhor. Agora se ressuscitou ou não, se nasceu duma imaculada conceição, ou se é filho do Pai, são questões que me passam ao lado.
Acredito neste Homem e na sua mensagem, tudo o resto é secundário...

SILÊNCIO CULPADO disse...

A toda a equipa do Notas Noltas os meus votos de Páscoa feliz.

Tiago R. Cardoso disse...

Tudo o que leva a interpretação do homem tem sempre problemas.

Cada um interpreta as cisas à sua maneira e ao longo dos tempos a igreja foi mudando as coisas, então em 2000 anos, muito foi alterado.

Seria necessário o voltar às origens, ao essencial.

Tudo este momento seria a mensagem de repensar a vida, renascer para ela, deixar para trás a escuridão, acreditar num bem melhor, não isto que temos neste momento.

A vida é mais do que isto, é mais do que o material, é mais que o palpável, é muito mai do que andar todos os dias a sobreviver.

Miguel Ângelo disse...

Meu caro amigo, Quintino, estás muito filosófico. O que te deu filho? Gostas muito de dissertar sobre a essência da religião por esta altura. Ainda bem que acompanhas o espírito da época...
Quero desejar-te umas boas Páscoas e a toda a equipa do NOTAS.

Cati disse...

Fantástico!
Uma maneira muito interessante de ver a Páscoa...

Mistério da Fé... é mesmo a frase chave de toda a época, senão de todo o Cristianismo.

Um beijinho*

lusitano disse...

Sou cristão e católico, praticante empenhado na vida nova que Jesus Cristo nos oferece e gostei muito deste texto.
Vivi quase trinta anos afastado da fé em que fui educado e gostei muito deste texto.
Que a Páscoa que agora vivemos seja vida nas nossas vidas.