Je vous salut, Madame Alda!

Ocasionalmente o País recorda-se dos seus filhos que um dia pegaram nas trouxas e abalaram daqui para fora.
Tradicionalmente, a altura mais propícia é quando chega o longo verão lusitano e é vê-los a inundarem-nos as estradas com máquinas de matrículas estrangeiras. Sobretudo, francesas, suíças, luxemburguesas, alemãs e belgas.

Alguns, mal um dos pneus da frente calca a imaginária linha de fronteira libertam o “automobilistus parvus rex” que há dentro de si. Devo confessar que a inversa também é verdadeira pois os poucos portugueses que se aventuram por essa Europa fora de carro também passam num ápice a conduzir como nórdicos!

Umbilicalmente ligada a esta epopeia rodoviária surgem-nas as notícias aparentemente bombásticas que na “route” qualquer coisa, um despiste matou uma família de emigrantes.
Curioso que normalmente só se fala dos despistes na já épica e enormíssima recta que assegura o percurso até Bordéus e em Espanha. Das duas uma, ou o raio de acção dos nossos meios de Comunicação Social não passa desse meridiano ou é essa a parte do percurso em que o cansaço derrota inevitavelmente muito desses condutores estivais!

Há uns tempos atrás também se abriam “telejornais” com a sensacional notícia que no Soweto ou em qualquer outro bairro de Joanesburgo mais um português tinha sido derrubado à força de balázio num assalto perpetrado por um grupo de meliantes.
Ultimamente, porém, ou os meliantes passaram a matar membros de outras comunidades emigrantes ou acabaram-se os assaltos em Joanesburgo!

Por estes dias, embora sem os crónicos exageros a que os nossos jornais e televisões são habitualmente dados, fala-se por cá da comunidade lusa radicada em França muito por culpa de Alda Lemaitre, uma portuguesa de 43 anos, nascida num lugarejo perdido nas faldas da Serra da Estrela.

Candidata pelo PSF a Noisy-le-Sec, pequena localidade próxima de Paris que, acreditem, nada tem de especial, esta emigrante contou mesmo com a presença de Segolène Royal na sua campanha.
As probabilidades estão a favor da nossa candidata e espero bem que este exemplo de intervenção e participação tenha êxito.

Isto porque sou adepto do velho ditado “em Roma, sê romano”, coisa que muitos dos nossos emigrantes têm uma especial dificuldade em alcançar.
Por culpa das sociedades que os recebem, mas também por culpa própria. Não há que iludi-lo.
Quando não se participa civicamente, não se é reconhecido.
Ou quando se está num País a pensar no dia em que se regressa às berças, objectivo que ainda hoje é o farol da vida de muitos dos nossos emigrantes.

Claro está que para os nossos emigrantes de luxo, de que Maria de Medeiros (que ontem dava uma entrevista na “Pública”) é um exemplo acabado, tudo se torna mais fácil.
Pelo prestígio e pelo domínio da língua, factor que escapava aos nossos emigrantes de primeira geração.

Interrogo-me também o que raio fazem os nossos Governos pelas nossas comunidades dispersas por esse mundo fora ... Sócrates fala dos emigrantes? Menezes fala dos emigrantes? Barroso fala dos emigrantes? Louçã, esse então ... e o Mário Nogueira fala dos emigrantes?

Mas isto que aqui se escreve serve para quê? - perguntam, entre vós, os mais exigentes.
Para nada, para coisa alguma, para coisa pouca ...
ou apenas para saudar Alda Lemaitre, exemplo de persistência e de integração!

43 comentarios:

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Como mostra o caso que refere, só fora de Portugal os portugueses conseguem "brilhar" um pouco e no PS francês! O nosso país é muito medíocre e as falsas elites agarram-se aos cargos, não por mérito, mas por cunhismo. É Portugal! :(

quintarantino disse...

A esta hora a edição electrónica do "Le Parisien" estava a apontar para uma vitória por 51,8% dos votos. Contudo, e ao contrário de outros locais da Ile de France, ainda não era dada como vencedora a candidata Alda Pereira Lemaitre,, mas pelos números e projecções penso que o feito está alcançado.

bluegift disse...

Quint,
Digo-te sinceramente, aprendi imenso a dar valor aos emigrantes desde que comecei a viver em Bruxelas. Não só aos que observo pelos bairros onde a comunidade portuguesa é aqui dominante, como por alguns programas da RTPi que volta e meia tenho curiosidade em assistir.
A Maria Medeiros não é uma emigrante, é uma burguesa intelectual que foi estudar para Paris e aí começou a trabalhar como actriz. Nem ela nem os chamados "profissionais em mobilidade" de hoje em dia, e dos quais faço parte, que vieram para Bruxelas ou outras cidades europeias para trabalhar nas Instituições ou nas Multinacionais. Todos burgueses intelectuais.
O verdadeiro emigrante vem do povo. Lutou a pulso para conseguir viver com dignidade, sofrendo privações impressionantes e trabalhando como um escravo, sendo frequentemente ostracizado por uma sociedade habituada a olhar para o imigrante como alguém inferior. Quantas vezes longe da família e de uma aldeia que, embora pobre, era muito mais acolhedora. Muitos fugiram de Portugal nos anos de Salazar, "a salto"! Com as balas a passarem-lhes ao lado, e quantas vezes atingidos! Sofrendo fome, sede e frequentemente depositados nas mãos de crápulas! Digo-te sinceramente, é vergonhosa a indiferença com que quer os nossos governantes quer os nossos conterrâneos burgueses olham para esta classe, quantas vezes mais digna de portar a nacionalidade lusa que muitos de nós. É comovente, acredita.

bluegift disse...

Espero bem que ganhe. Bem merece.

'JoAnn's-Digital-Eyes'NL disse...

ooops Quint,
I do not know why I came on this blog, I don't understand a word of it... did you link your profile on this blog? What happened with your other blog...

I posted again some last news about Ios thanks for your support:)

JoAnn

Miguel Ângelo disse...

concordo com o Francisco, realmente os Portugueses brilham fora deste rectângulo, porque, aqui, é já o Paraíso de alguns. A terra já está marcada pela técnica do urso, que crava as unhas nas árvores e urina nelas mesmas, de modo a marcar o seu terítório.
Bem, mas de qualquer maneira, parabéns para Lemaitre...se assim é.

Fa menor disse...

Acho que os bons exemplos devem vir ao de cima. Nunca se acende uma lâmpada para se colocar debaixo da mesa, mas para que brilhe bem alto!
Este será certamente um caso destes... Fizeste muito bem! Gostei, deveras... inda mais se tratando de uma Mulher!

quintarantino disse...

J FRANCISCO SARAIVA DE SOUSA, não encontro razões objectivas para que assim seja.

Obviamente que alguns irão dizer que é por razões culturais ou genéticas; que nos está na massa do sangue ser assim ...

Outros que é por causa do peso excessivo do Estado ...

Penso que resultará do somatório de vários factores e é por aí que gostaria que a discussão fosse!

BLUEGIFT eu compreendo absolutamente o que diz. Fui emigrante por arrastamento, digamos assim pois os meus estiveram radicados na África do Sul por largos anos.

Eu sei o que custa a vida a alguns desses emigrantes, mas nem era por aí que gostaria que a discussão enveredasse.

Era mais pela diferença que se nota na forma de estar e sentir dos emigrantes de primeira geração (os tais que foram a salto) e os de segunda e terceira geração.

E mesmo os tais burgueses de que falas ... e eu, em relação à Maria de Medeiros, até condescendo no epíteto mas gostaria que me dissesses se vês com os mesmos olhos o teu próprio caso e o de muitos outros quadros intermédios e superiores ... pois há quem migre por opção, por força das circunstâncias ... enfim, cada caso é um caso.

Deste um exemplo perfeito e feliz daquilo que não pode, nem deve ser a ponte entre Portugal e as suas comunidades: a RTPInternacional. Tem uma programção (pelo menos a que volta e meia vejo assim de relance) que é um disparate!

Finalizo dizendo que não só a Alda Pereira Lamarte ganhou, como o caso dela se enquadra naquilo que dizes pois é filha de um pedreiro e de uma mulher a dias. Deu foi o passo seguinte que muitos dos nossos compatriotas não querem, não podem ou não sabem dar!

quintarantino disse...

MIGUEL ÂNGELO, os parabéns não são pela Lemaitre são para a Lemaitre. E para o cidadão que será vice-presidente do "Hotel de Ville" de Paris. E para as centenas que se apresentaram a sufrágio nas eleições locais em França.

Eu sou como estes ... já que se lá está, faça-se participação cívica.

Aqui, como bem sabes, é mais fácil a alguns darem-se à inveja e a outros entregarem-se ao poder!

FÁ MENOR, grato.

Em poucas palavras foste de forma profunda ao âmago da questão.

E a Alda ganhou. Em coligação, mas ganhou e isso é que importa.

Rui Caetano disse...

Mas também, por vezes, os portugueses apenas se dedicam, se envolvem, ousam participar, conquistando o seu lugar de cidadania lá fora e cá dentro preferem a passividade.

António de Almeida disse...

-Não é só no PS Francês, aqui há uns tempos vi uma reportagem, onde um luso-descendente era dirigente local da Frente Nacional, de Le Pen, aliás o interesse foi mesmo esse, mostrar que a FN não era xenófoba, integrando pessoas com origens diferentes da Gaulesa. Agora ao que parece, existiram vários candidatos lusos, com possibilidade de eleição, nos EUA temos vários casos de 2ª geração integrada na vida política, sendo Tony Coelho, o mais destacado, por ser, ou foi, congressista. Também julgo que o nosso governo não poderá fazer muito pelos portugueses que decidem rumar a outras paragens, a não ser como outros governos, prestar apoio através de consulados e embaixadas, quando necessário, de resto, não vejo como podem ser apoiadas pessoas, que não raras vezes até solicitam outras nacionalidades, por lá se estabelecem, trabalham, vivem e pagam impostos. Vamos fazer o quê? Tirando algum apoio cultural, que visa sobretudo manter viva a lingua portuguesa, com a nova ortografia, nem sei bem...

Carol disse...

Parabéns, então, à Alda Lemaitre e aos emigrantes que não esquecem as suas origens, mas que não deixam de se envolver e lutar por um país de acolhimento melhor.
São estes emigrantes que abrem as portas a outros, são eles que mostram aos locais desses países que os recebem que há pessoas com valor e com empenho na classe emigrante.

Manuel Rocha disse...

Sair das rotinas conhecidas à procura de novos rumos para a vida, atrever-se, ousar, seja por razões de necessidade premente, por apetência pelo que é mais fácil ou apenas na esteira de sonhos maiores, já é em si um acto de inconformismo, acho eu.

A capacidade de não se conformar é um traço de personalidade, não é necessariamente algo cultural.

Ou seja, quem se aventura no desconhecido representa um género e não uma nacionalidade. Por isso acho que os portugueses, como quaisquer outros, que se aventuram fora de portas, representam-se antes de mais a si mesmos e ao seu género.

Os que ficam, todos os que ficam onde quer que seja, são doutros géneros. Não necessariamente conformados, pois também ficam os que não viram costas às dificuldades, os que optam por ser solidários, os que não pensam primeiro e apenas em si.

O Guardião disse...

Não somos nem melhores nem piores que os outros, quando muito somos diferentes. Devo dizer que os portugueses até são dos povos que melhor se integram socialmente, pelo menos quando alcançam um padrão de vida aceitável além fronteiras. Isto pode não parecer evidente para quem não tenha alguma experiência, ou não tenha tido um contacto directo com a situação, mas pode-se sempre fazer a experiência em sentido contrário, e apreciar a integração de muitos estrangeiros em Portugal.
Cumps

Compadre Alentejano disse...

A Alda seguiu s máxima que també uso sempre: em Roma sê Romano.
Apesar da sua origem humilde, de certeza que estudou e fez tudo para se integrar na vida francesa. Para ela, os nossos parabéns.
Um abraço
Compadre Alentejano

lusitano disse...

Em primeiro lugar parabéns à portuguesa lutadora!
Realmente quando quem emigra pretende viver no país de adopção, o seu próprio país e se fecha à participação na vida do lugar onde está, acaba por ser muito mais infeliz e apenas viver para o regresso que se torna quase "obsessão" diária.
Claro que com isto não digo que negue a sua cultura de origem, mas que tente fazer parte da vida comunitária onde vive até contribuindo com a sua experiência diferente.
Quanto ao governo, aos governos, aos partidos, apenas lhes interessa captar as poupanças, (agora até bastante menos, porque as terceiras gerações já não regressam tanto) e os votos nas eleições.
Basta ver quantos sitios, escolas, existem para que os filhos menores possam aprender português!
Devemos também nós portugueses, aprender com aquilo que fizeram aos portugueses lá fora, para não fazermos agora àqueles que procuram trabalho em Portugal e por vezes são explorados até ao limite.

antonio disse...

Quint, bem visto. Lá fora como cá dentro é fundamental a paticipação cívica!

quintarantino disse...

RUI CAETANO, tem toda razão quando afirma que, "por vezes, os portugueses apenas se dedicam, se envolvem, ousam participar, conquistando o seu lugar de cidadania lá fora e cá dentro preferem a passividade"!

Há inúmeros casos assim.
No fundo, os que emigram quase sempre mantêm a tradição.

ANTÓNIO DE ALMEIDA, claro que não é só no PSF. Penso até que o caso de Alda Lemaitre é mais falado pelos apoios de pesos-pesados socialistas que captou para a sua campanha e para a sua lista.

Conheci um português de nascimento mas cidadão francês (cujas origens radicavam na Póvoa de Lanhoso) que presidia à Mairie da terra em que vivia (um lugarejo próximo de Saint Fargeau Ponthierry) há mais de 15 anos.
Portanto, a Alda Lemaitre não é nem caso único, nem pioneiro ... mas é um exemplo!

Quando coloco as interrogações que coloquei, não pensava em grandes apoios de facto. Pensava, isso sim, em reconhecer os méritos a estes filhos da Nação. Nada mais.

Entre um nabo qualquer a receber uma comenda no Dia de Portugal e a Alda Lemaitre, eu dava a comenda à Alda!

quintarantino disse...

CAROL é isso mesmo. Parabéns e um incentivo para que cada vez mais cidadãos com sangue luso se envolvam na sua comunidade onde quer que estejam!

MANUEL ROCHA, obviamente que cada um é um caso específico, mas tem de convir que há povos que têm na sua matriz uma maior facilidade de integração que outros. Nós, por acaso, até nem seremos dos piores nesse domínio ... mas podíamos ser melhores!

quintarantino disse...

GUARDIÃO tem razão no que escreve, mas deve-se acentuar precisamente que são os que adquirem algum estatuto académico ou económico que mais fácilmente se integram.

Ora, a primeira geração quase sempre fugia a essa regra.
Eu bem o via na África do Sul.

LUSITANO interessante a questão que levanta de se aprender com o que fizeram lá fora aos nossos a ver se cá dentro não fazemos o mesmo a quem nos demanda ...

Sniqper ® disse...

Sempre foi a minha posição e será, quem pega na malinha e vai até outro lugar, que fique por lá, é simples.
Quero lá saber dos emigrantes ou dos feitos deles, muito mais que revolta as facilidades e isenções para não falar de outras que tais de que já foram e são presenteados, ou o esquecimento invadiu a mente ddos postugueses?
Uns coitados foram até África, viveram na boa e quando o mato pegou fogo vieram de malinhas aviadas e nós, os camelos de sempre lá tivemos de os gramar, e pagar com os nossos impostos a reconstrução das suas vidinhas.
Outros, trabalham em condições que são de bradar aos céus mas claro longe da vista do vizinho faz-se tudo, por cá é que é vergonhoso trabalhar em certas áreas, engraçado não é!
Como tal, quem foi que passe muito bem, quem sempre cá esteve, esses sim deveriam ter o reconhecimento da classe governante, porque é desses que até hoje esses senhores vivem, ou estarei enganado?
Como tal quero que essa gentinha passe muito bem, simples.

quintarantino disse...

ANTÓNIO... fundamental é a participação cívica, é sim senhor!

SNIQPER ... mas nem uma pontinha de orgulho sente com exemplos como aqueles?

É que são exemplos desses que deviam ser seguidos. Lá e cá.
Ou não queremos todos que haja luta e participação na sociedade?

Sniqper ® disse...

Caro Quin,
Orgulho sinto pelos que lutam cá, que trabalham para um Portugal melhor, dos outros, esses que andam a fazer trabalho no exterior nem uma pontinha, aliás fechava de vez era a portinha a essa gente, bem como vou ainda mais longe, e sem medo.
O desemprego está alto em Portugal, certo?
Então é fácil, conta-se quantos postos de trabalho existem ocupados por estrangeiros e colocam-se nos mesmos portugueses, como compensação e para não dizerem mal, lá podem levar o bilhete de regresso grátis, acompanhado de uma garrafinha de tintol, um pastelinho de bacalhau e um galo de Barcelos.
Simples e eficaz, digo eu...

quintarantino disse...

SNIQPER, não é desses que eu falava ... era dos nossos que estão lá fora. As Aldas deste mundo luso.

Quanto aos que cá temos, eu não sou tão radical. Só dava guia de marcha aos que não fazem nada ou àqueles que não acrescentam nada. E aos que ainda acham que temos a obrigação de lhes dar tudo e mais alguma coisa, e que enchem a boca com racismos e xenofobias!

Temos outro problema ... é que também por cá temos alguns profissionais do desemprego, mas isso já era para outro post.

Tiago R. Cardoso disse...

Que falta de informação, "Interrogo-me também o que raio fazem os nossos Governos pelas nossas comunidades dispersas por esse mundo fora ..."
Fácil, tem fechado consulados por todo o lado e levado a que muitos desistam de registar os filhos nos consulados, se quiserem tem de percorrer 300 kms até ao mais próximo.

Presumo que estas medidas sejam para seleccionar quem é realmente dedicado a Portugal, se fores realmente português tens de provar e andar tantos kms, mostra o teu amor à pátria.

Temos de nos orgulhar do que somos e de todo o bem que os nossos emigrantes fazem pelo nosso país, temos de deixar de olhar de lado para os que quiseram lutar por uma vida melhor e conseguiram.

Deveríamos seguir o exemplo de quem saltou a fronteira e foi lá para fora ganhar a vida, teve persistência e lutou por um lugar ao sol, construido com sangue e suor.

Quem dera que em Portugal, todos tivessem a mesma persistência e trabalhassem para eles e para o país.

Dalaila disse...

Então não fazem, querem acabar com embaixadas portugueses em muitos lugares

joshua disse...

Alda é como muitos outros portugueses que só crescem por não estarem cá na deprimência de se verem arredados do Bolo, tenham os méritos e as capacidades que tiverem. Suponhamos que Menezes era um imigrante da política: sai do Norte regionaleiro e idiossincrático e planta-se na Grande Puta Devoradora de Gente Provinciana Lisboeta. Poderá ele alguma vez ser uma Alda?

Tu responderias «não», porque antes de mais és socialista, um socialista independente, equidistante, lúcido, que amanda justas bordoadas na quinquilharia-pechisbeque-socratina que nos governa, mas fundamentalmente leal ao teu partido. Eu responderia que não sei e gostaria de saber. Acho que a política, mesma a mais liberalóide pode sempre ser um pouco mais proactiva socialmente e mais imaginativa.

Para ganhar consistência do pé para a mão, era preciso que Menezes fosse lisboeta ou estivesse em Lisboa há tanto tempo quanto Pacheco Pereira e tivesse pago bem pago, como o faz Sócrates imbativelmente, uma imprensa amiguinha, capaz de converter em enunciados congruentes todo o arrazoado aleatório, pomposo e conveniente aos ouvidos gerais com fraca memória, de que se pudesse lembrar.

Por isso, logo que surgiu como líder, Menezes é a reforma da memória na Política, a qual, com ele, deixou de ser fraca para passar a ser hiperssensível e vibrátil e qualquer posta tua sobre isto, Tarantino, o atesta. O politiquês de Menezes tem muitos lapsus linguae, bb fora do sítio, e palavras incompletas e mal articuladas, mas algo moverá o homem assim como algo visceral moveu D. João I a matar o Conde Andeiro enquanto morte simbólica de tudo o que ele representava de lesivo para os nossos ancestrais interesses.

A blogosfera não interpreta o Povo. O cinismo recobre o pensamento sobre o Povo. Ninguém interpreta o Povo. Vendem-se mentiras sobre o País e as causas do nosso atraso. Ninguém lhe reproduz as dores, ao Povo, talvez somente Menezes, como os pescadores grunhos da Galileia, o interprete e o escute, gostaria de acreditar nisto. E acredito-o com a minha intuição, a mesma intuição que rejeita tudo em Sócrates. Talvez!

Menezes é, ainda, um político que pensa alto: a contradição entre ideias resulta de as pensar a todas, de as subscrever a todas porque quase nenhuma é má ou contraditória, somente incompleta. E ao falar em público, elenca-as como quem as escolhe.

Decidir estas coisas normalmente passa-se num gabinete e é uma ponderação conjunta e ampla que frutifica e amadurece. Menezes, todavia, ainda está demasiado só para inovar e para ser eficiente na comunicação porque comunicar para Gaia é incomparavelmente diverso de comunicar com as elites lisboetas e os interesses lisboetas comprometidos com o que está.

Até ver, tem apenas um voluntarismo nortenho que pode ser surpreendentemente demolidor não junto da blogosfera, cujo registo é o do contágio, o da propagação imitativa, o de concordância babante entre os da chamada primeira divisão, os Barrigas-de-Buda da Blogosfera nacional, mas junto do Povo, que tem vindo a olhar demasiado para o forro triste dos bolsos, para as portas que lhe são fechadas na cara e se pergunta «Mas porquê? Porquê logo eu, que estou na maior merda e mais fodido e esmifrado que um ucraniano das Obras?»

Ora, na prática, esta pergunta não pode ser respondida por um homem que pura e simplesmente destesta e abomina e considera intragável essa gentinha medíocre e pedincholas chamada Povo.

Um Povo que não participa com alegria em Meias-Maratonas, que não toma parte do banquete do QREN, que não faz upgrades do Power-Point e só downloada o pouco que come nas suas sanitas e urinóis de Povo e não quer saber da sociedade do conhecimento e outras modernidades sem pão.

Sócrates quererá porventura um empresariado nacional forte. O empresariado nacional quer ser forte e isso está a acontecer. Mas daí não decorre nada de bom para o Povo. O Povo da fome e da sardinha para quatro viveu sob um regime cujo empresariado era efectivamente forte e era de bom tom andar cabisbaixo e cristão numa conformação feliz e bem-aventurada de miseravel pobreza.

Jardim tem razão pelo menos numa coisa: isto, o Estado, está mais corporativista que nunca. Salazar era um aprendiz. Sócrates conseguiu-o magistralmente. Palmas!

Porque andas arredia comó caralho, não há abraços para ninguém.

Há beijos de saudade! Puta que te pariu, Tarantino!

PALAVROSSAVRVS REX

quintarantino disse...

TIAGO R. CARDOSO< olha, eu sempre te digo em verdade ... não sei mesmo se não me ponho no carago ... isto aqui não se vai a nenhures!

DALAILA é, tens razão ... esqueci-me disso.

quintarantino disse...

JOSHUA mas que grande intervenção.

Mas falhas a pontaria em duas coisas ... uma é quando perguntas se Menezes pode ser uma Alda e respondes por mim. Equivocas-te quando escreves "NÂO", porque eu sempre te disse que "SIM", conquanto ...

Como dizes, sou um socialista travesso, avesso e esquinado ...

Também te enganas, mas aí eu até achei piada, e só digo isto não vá alguem pensar que somos frequentadores do "bas fond", que prefiro beijos teus a abraços ... como se diz no nosso Porto,
"foda-se, para lá caralho!"

Blondewithaphd disse...

Bolas Quinn, que até fiquei vesga com esta tua última linha!!!

Pois bem, este é um assunto que obviamente me interessa e não, não é por ter nascido lá fora. Admira-me este país não se indignar colectivamente pelo facto de as pessoas saírem à procura de oportunidades. Nos anos 60 fugia-se ao regime, à Guerra no Ultramar, procuravam-se melhores condições económicas. Agora, lá vão os desgraçados escravizados para as obras na Islândia e seduzidos pelas pseudo-companhias de trabalho-temporário que os arremessam na Holanda. E depois há o "braindrain" (que eu até ensino aos meus alunos) e que é esta coisa espantosa de se emigrar porque o país não investe nos recursos humanos qualificados.
E nós, impávidos, seguimos contentes a dizer que somos um país de emigrantes porque nos é ingénito! Como se isso fosse um orgulho. Eu acho uma vergonha.

Já morei em quinhentos sítios no estrangeiro, não conheço a comunidade emigrante lusa (lá está éramos uns burgueses - Blue não tem nada a ver com o teu comentário, é a verdade e só se toca a quem dói), conheço-os, ironicamente, de Portugal e do seu estereótipo mas, apesar de tudo, dou-lhes valor e, sobretudo, tenho pena: por terem necessitado sair para triunfar, por se terem desenraizado, por serem agora uma espécie de apátridas.

Triste sina a deste país.

Campainha disse...

O que faz o governo e os políticos pelos os emigrantes? pois não é suficiente a boa vontade com que se recebem as divisas que eles injectam na nossa economia?! só isso já dá imenso trabalho, e além disso é muito mais importante ocupar o tempo a legislar sobre matérias fundamentais como os piercings e as tatuagens! e facho era o outro! Enfim, a máxima que se impõe: "é o país que temos", na política, como nas empresas, o mérito dos portugueses é muitas vezes mais reconhecido lá fora do que cá. Mas neste país de brandos costumes habituámo-nos a ser assim e está tudo bem! é até vergonha ter orgulho em ser-se português!
Posto isto, agradecida pela visita, volta sempre que quiseres, basta tocar à campainha! :)

Sniqper ® disse...

Bem depois de ler certos comentários fico cada dia mais distante da tentação, A DROGA.
Um mal que prolifera nesta sociedade, imensas são as campanhas para lutar contra elas, quando afinal bastava ler alguns comentários para ficarmos cientes e conscientes que de facto a DROGA dá cabo da tola do pessoal.
Ainda estou com a tola a girar de tanto ler e nada perceber, ou será que existe uma língua portuguesa diferente daquela que aprendi e utilizo para falar e escrever!
Raios partam esta dúvida, ora esta hein....!

joshua disse...

Sniqper, vai-te foder! Brinca com a andógrina piça ou com a híbrida cona e não brinques com o que não tem qualquer piada. De Drogas estive sempre limpo e estou. Outros seres humanos não é, infelizmente, o caso. Brincar com isso é do mais sem-sabor e triste que há.

Admito que te não conheço e posso ter errado a ficcionar-te um perfil algum dia.

Cala sobre o que não conheces e tu não me conheces!

Ficava-te bem direccionar o teu azedume e altivez para mim e não para implícitos sem nome. «Certos comentários» têm sempre nome. Não há que ter medo!

Além disso, quanto a Língua ou és míope ou és vesga. Tacanha és com toda a certeza. E zarolha!

PALAVROSSAVRVS REX

Sniqper ® disse...

Com as devidas desculpas ao Notas e aos seus editores e comentadores, passo a responder a este triste ser, de nome joshua...
Se um dia, por um mero acaso esse espaço onde impera o vazio, ou seja a sua cabeça me pudesse sequer ficcionar, a sua reacção era de fuga, e porquê, pensa você e pensa muito bem.
O seu dia está marcado na agenda, daquele que o vai julgar e que você abusivamente usa a sua imagem, e digo abusivamente pela sua linguagem que nem classificação encontro no meu dicionário.
Quanto a Medo, isso é sentimento que não uso, procuro sim pautar as minhas acções por uma conduta social e respeitando os que me rodeiam, situação que você não usa, como tal não brinque com palavras que podem virar fogo na sua boca, e consumir para bem da humanidade seres que falta só fazem para perturbar a boa ordem do Universo.
Cuide-se e não provoque, simplesmente porque quem planta acaba sempre por colher algo, e será que depois você tem boca para engolir o que plantou!?
Duvido, ou afirmo, melhor assim, porque basta olhar para o nível que as suas palavras transmotem para ver que é um simples zombie a navegar pelo Universo.
Enfim, para que falar mais, afinal você caiu do pedestal e disse tudo o que o define, se é que existe definição para algo como você, duvido.

quintarantino disse...

BLONDEWITHAPhD, tens razão querida e dilecta amiga, não devia ter exagerado nos têmperos linguísticos.

Peço desculpa.

Sintetizas bens quando afirmas que é triste a sina. Eu só discordo quando dizes do País. Diria melhor que é da Nação.

CAMPAÍNHA, com sinceridade eu digo que gosto de ser português, mas não tenho aquele orgulho espevitado de o ser. Quer dizer, comovo-me com algumas coisas, mas outras bem que as dispensava!

quintarantino disse...

JOSHUA e SNIQPER ... peço-vos, por favor, para recentrarem a vossa discussão, análise ou o que quiserem nos vários temas que aqui se explanaram.

O valor que vos reconheço justifica que faça o pedido.

DS disse...

Concordo com o ditado "em Roma sê romano".Faz parte dos bons costumes adaptar-se às regras do país em que vivemos, e também transmitir a beleza das nossas origens.
Bjos!

bluegift disse...

Quin,
A emigração para as colónias portuguesas ou outras já pertence a um capítulo diferente das motivações e necessidades de saída do país. Já nem falo do clima, é o próprio conceito e tipo de desafio que é totalmente diferente. A burguesia está também muito presente na emigração além Europa, nomeadamente na expectativa de realização de grandes negócios em mundos considerados quase como paraísos terrestres na altura. Para a Europa emigraram os mais pobres, os que nem sequer dinheiro tinham para uma passagem de barco e muito menos de avião. Ciscunstâncias muito diferentes.

quintarantino disse...

DS, para mim, tens razão quando afirmas que "faz parte dos bons costumes adaptar-se às regras do país em que vivemos, e também transmitir a beleza das nossas origens" ... o busílis está em que muitos não sabem como ou parecem não o querer saber ou sequer tentar!

BLUEGIFT, desculpa, não concordo com uma parte do que dizes.

Quem saiu da Madeira para ir para a Venezuela ou África do Sul também o fazia por imperiosa necessidade, assim como quem abandonou os Açores para ir para a Califórnia ou Hawai o fez mais por necessidade que na mira de negócios.

A burguesia, como dizes, é um caso àparte.

bluegift disse...

Desculpa, esqueci-me completamente desses dois casos se bem que a América na altura favorecesse essa imigração pagando as viagens. Não te esqueças das Lages. Mas fica só por aí. No continente muitos saíram pelo gosto da aventura em outros mundos.

bluegift disse...

E ainda há a fuga de cérebros para meios mais estimulantes, mas isso ainda é outro capítulo. Não são de forma alguma exemplos do imigrante típico português.

quintarantino disse...

BLUEGIFT, temas para próximas abordagens?

bluegift disse...

Eventualmente ;)