Em avaliações e percentagens, estamos garantidos.

"Olha-me este, queres ver que estou lixado?", pensou ele a olhar para o fulano que tinha à frente.

"Estou ver que isto está andar bem, sim senhor, boa progressão, menos queixas, tem feito tudo o que lhe mandam, realmente está no bom caminho", dizia o outro...

Por breves momentos, ficou ali a olhar e a pensar que se calhar o fulano era meio surdo. Ele tinha estado a queixar-se, que não conseguia fazer tudo aquilo que queria, que não se sentia bem com a situação, que olhava e reparava que estava desalinhado, sentia ali uma dormência, uma falta de sensibilidade, estava a ser honesto, mas desta vez não acreditavam nele, se calhar questões de simpatia.

"Sabe como é, as directrizes que me deram é para o mandar trabalhar, não interessa se está bem ou não. Vergar a mola, depois se não conseguir, então nós fazemos nova avaliação", replicou o outro.

Realmente ao que chegamos, um gajo f***** da vida, totalmente lixado com esta fraca progressão e um fulano ali a mandar andar, toca a trabalhar, mesmo sem progredires, tens de andar, mesmo que tenhas de te arrastar para o serviço, não interessa como o fazes, os chefes mandaram e querem resultados.

"Não se preocupes, no final vai levar um bom prémio", garantiu-lhe em jeito de consolo.

"Que se f*** o prémio, que se f**** todos, é que no final quem se lixa sou eu", pensou enquanto sentia uma raiva a subir-lhe à cabeça.

Quer dizer um gajo é destruído, arrasado, esmigalhado, fica ali a olhar para o tecto perante aquela injustiça, agora leva uma palmadinha nas costas, um prémio e siga… andor…

Que de lixem todos aqueles que acham que tudo pode ser compensado com dinheiro, que depois de se ser trucidado, se no final levar um cheque para casa é a felicidade.

Pobre almas que resumem tudo a dinheiro, que tudo pode ser quantificado; tudo não passa de meros valores materiais, que a dignidade, o bem-estar, o "Eu" na realidade são meros euros.

Estúpida sociedade materialista, estúpido mundo de "plástico" que caminha para a ruína, que não repara que se está a destruir a si próprio, esquecendo-se que no final também vale pouco, que não passa de um grão de areia numa engrenagem infinitamente maior.

"Vou marcar aqui um dia para fazer a avaliação definitiva", avançou o de branco.

"Tipo a avaliação agora na moda do José Sócrates?"– disse, tentando aligeirar a coisa com um pouco de humor.

"Então fica assim, o amigo vai agora a 50 %, daqui a um mês leva uma avaliação definitiva de incapacidade, um cheque e siga...", sentenciou o de branco.

"Então e as dores? A recuperação? O facto de se calhar um dia ter de me reformar mais cedo, por não poder exercer as minhas funções? ", inquietou-se.

"Não se preocupe, isso tudo dá mais uns zeros ao número escrito no cheque", indeferiu o outro o seu mísero recurso.

28 comentarios:

quintarantino disse...

Seria bom que tivesses esclarecido que o da bata branca era médico mas não era da Caixa Geral de Aposentações!

Não vá algum precipitado pensar que era disso que se falava!

Tiago, mas tu deixas-me ficar mal ... então e da enfermeira não falas?

Fa menor disse...

Tiago,
deixa lá...
podes sempre ir estudar, tirar um curso... e a seguir tiras outro...
É pá, mas vê lá bem, procura daqueles que te dão um cheque ao fim do mês... não daqueles em que tens de pagar propinas... ;)

Já devias saber que é assim...
Um bom dia para ti!
Força!

antonio disse...

A urgência dos resultados não se compadece com lamúrias... existe por aí muita gente a querer um emprego!

Tiago R. Cardoso disse...

Quintarantino,
achas que é um médico ?

Já vistes que a personagem pode ser tanta gente, pode ser o chefe, pode ser os da juntas médicas, que agora supostamente são todos médicos, pode ser o representante do seguro.

Fa menor,
de facto tirar cursos é que se pode fazer, pode ser que um dia ele tire um curso, mas daqueles que tem de se estudar mesmo, até lá leva uma palmadinha nas costas e siga...

Tiago R. Cardoso disse...

Antonio,
exactamente como dizes, o que importa é apresentar resultados.

Vamos lá avaliar este fulano, sim senhor obedece, não se queixa, leva logo uma boa nota, este tem a mania leva já uma má nota e que vá tirar o cartão do partido.

E este, está doente, não consegue se mexer, siga, vá trabalhar que serve de fisioterapia.

"Está a ver chefe ?
Estou a trabalhar bem, desta lista toda só sois é que ficaram de baixa o resto tá tudo a trabalhar."

"Senhor administrador, este ano a companhia foi só lucro."

lusitano disse...

Dizia o primeiro:
Mas olhe que as coisas não têm corrido bem. Há menos gente, a que há é incompetente e os resultados são fracos.
Respondeu o de branco:
Você é parvo ou quê. Ponha lá que está tudo bem e que os resultados estão acima do previsto. Julga que alguém vem conferir isto? O que interessa é a estatistica, homem! Apresentar resultados!
Ainda contestou o primeiro:
Mas se vem alguém conferir, como é que é?
Diz-lhe o de branco com toda a calma:
Ó meu amigo, se vierem conferir você está feito, mas se não apresentar resultados como eu lhe digo, sou eu que lhe faço a cama...

António de Almeida disse...

-A ver se este comentário já aparece, ontem escrevia, e o blogger apagava-o de imediato. Existe muita gente a lamentar-se, desmotivada, pessoas que entram de manhã no serviço, olham para o relógio e gostariam que fosse o final do dia, mais grave ainda, pessoas que a meio da vida, já gostariam de estar com 65 anos, ainda se houve falar em aumento da idade da reforma, é de deixar muita gente com os cabelos em pé. Não me ocorre outra forma de motivar, que instalar uma cultura do mérito, mas em tese, mesmo admitindo que ela existisse, para lá dos esforçados, daqueles que utilizando uma linguagem futebolistica, capazes de comer a relva, subsistem sempre uns quantos, que continuarão a protestar, vivendo nas margens do sistema. Que fazer com eles? Por mim nada, os cães ladram e a caravana passa.

Tiago R. Cardoso disse...

Lusitano,
gostei do momento teatral da realidade portuguesa, tantas e tantos "actores" que cabiam nesses dois papeis.

António de Almeida,
quanto aqui à plataforma que temos os nosso blogues, estou desconfiado que um dia isto vai tudo ao ar.

Também acredito no mérito, onde quem realmente trabalhe, faça um bom serviço, que tenha dedicação ao que faz, seja realmente valorizado.

No entanto sabemos que não é assim, os "amigalhaços", os "familiares", o fulano da "graxa", tem sempre mérito, é sempre valorizado, os outros ou aceitam os termos ou lixam-se.

Tiago R. Cardoso disse...

Quintarantino,
estava a pensar na da enfermeira...

Alguma preferência ?

quintarantino disse...

... primeiro diz como era a que estava lá na sala ao lado a espreitar-te ... depois logo se vê!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Gostei da ideia da redução do "humano" ao dinheiro, agravada pelo facto do animal humano pensar que não morre. Esta ilusão de um animal que recusa a sabedoria é verdadeiramente terrível, porque, em última análise, desqualifica o "humano". Daí que vejamos indeferentemente o abate de gado, incluindo o gado humano que vive para a reforma. Terrível...

Carol disse...

Tiago, querido, avida hoje é mesmo assim. Não se compadece com dores ou incapacidades, necessidades ou prioridades, méritos ou competências. "Money makes the world go around", meu amigo!

Quanto à enfermeira, não me digas que era uma Scarlet ou uma Charlize... ;)

JOY disse...

Boas Tiago,

Médico ? Qual Médico , o gajo que estava á tua frente poderia estar a vender bolas de Berlim numa praia qualquer amigo, e mais do provávelmente está também a trabalhar para a avaliação dele .

Um abração
JOY

Campainha disse...

A única coisa que interessa são mesmo os números, as pessoas não passam disso mesmo perante as empresas, enquanto nos conformarmos com essa realidade será sempre assim.

Tiago R. Cardoso disse...

Quintarantino,
a Carol avançou com algumas ideias.

J Francisco Saraiva de Sousa,
míseros euros e míseros números, é aquilo que somos, por aqui andamos a pensar neles e chegamos um dia a conclusão que não somos nada nem fizemos nada, pena é que nessa altura já é tarde.

Entretanto vamos sobrevivemos achado que estamos a viver.

Tiago R. Cardoso disse...

Carol,
pois é, uma pena e uma enorme tristeza, já o disse muitas vezes, tem gente, muita gente que precisava de levar um susto na vida para ver realmente a importância do dinheiro e dos números.

Joy,
acredito que sim e como dizes muitos tem de entrar no sistema para não serem atropelados por ele.

Ao longo das hierarquias todos bem sendo apertados, o mal é o que está no fundo da pirâmide que não tem ninguém para passar as coisas, não tem por onde fugir, tem de aguentar com ela.

Tiago R. Cardoso disse...

Campainha,
mas acredite que é muito difícil levantar a cabeça, quem todos os dias trabalha para outro, tem é de apresentar resultados e queixar-se pouco

Infelizmente esta é uma sociedade onde o que conta são números, seja euros, seja estatísticas, lucros, prejuízos, todo é quantificado,menos aquilo que devia ser a pessoa.

tagarelas-miamendes disse...

Tiago,
Antes de mais quero agradecer-lhe ter passado no Tagarelas e deixado o seu comentario. E quero eslarecer que ao contrario do que possa parecer nao eliminei o seu comentario, mas antes por burrice apaguei o Post. Que voltei a repor mas claro esta sem o seu comentario.
Concordo que somos uma sociedade estupida e materialista e que se nao nos estamos a destruir a nos proprios, estamos pelo menos a tornar-nos muito infelices.

Manuel Rocha disse...

Ficou-me da leitura uma reflexão: porque é que na mesma sociedade onde colectivamente reclamamos por menos materialismo, acabamos sempre por colocar as reivindicações materialistas no topo das nossas prioridades individuais ?!

O Guardião disse...

Nos últimos anos trabalhei num serviço onde a média de idades era superior aos 53 anos, e tive uma besta de um superior que se entretinha a fazer estatísticas sobre o absentismo. O défice de funcionários, menos 1/3 do que os necessários, era-lhe indiferente, bem como a admissão de gente nova coisa de que nem queria ouvir falar, e mesmo o facto de ter uma pessoa transplantada (renal) e outra com lúpus lhe retirava a mania das estatísticas. Entretanto reformei-me e soube agora que o tal superior teve um problema muscular, e trabalha apenas dois a três dias por semana, porque está na fisioterapia. Curiosamente, esteve na época de Natal e Ano Novo no Brasil de férias, no Carnaval foi a uma estância na neve e prepara-se para partir para a Madeira para duas semanas de férias da Páscoa.
Isto sim é qualidade de vida, para quem avalia os outros sem ser alvo de avaliação, pelo menos da verdadeira.
Entretanto os trabalhos que antes eram feitos naquele serviço são dados a empresas privadas, pelo dobro do custo anterior, sendo que alguns até passaram pelas minhas mãos. Antes que me esqueça, fui substituido por dois engenheiros e um arquitecto, que até ocupam o gabinete onde eu trabalhei, e que foi remodelado, ampliado e equipado com material do mais moderno que há. Eles limitam-se a fazer adjudicações e a fazer os contratos - exemplar!
Cumps

bluegift disse...

Pois é Tiago, qualquer um de nós poderia estar no teu lugar, que não invejo sinceramente. É preciso muita coragem e nunca deixar de lutar, por mais cretino que seja o sistema.

Também ando com problemas para conseguir comentar no Blogger. Já consegui arranjar um truque para fazer aparecer o botão do "publicar" mas nem sempre funciona.

Tiago R. Cardoso disse...

Tagarelas-miamendes,
não faz mal irei lá repor o comentário.
Uma sociedade que não sabe que vive, limita-se a tentar sobreviver, apesar de tudo ainda tenho esperanças nela.

Manuel Rocha,
bem visto, protesta-se contar o materialismo mas é o primeiro da lista de prioridades.
Para a personagem da historia, amigo Manuel, acredite que é o que está no fundo da lista, interessa-lhe a saude, recuperar e conseguir viver sem dores.

Tiago R. Cardoso disse...

O Guardião,
mais uma triste historia a juntar a muitas outras que fazem a nossa sociedade.
Como já disse noutro comentário, muitos de nós estão lixados, ficam no fundo da "cadeia alimentar", olham para cima é só tubarões.
Eles querem é resultados, sem queixas nem barulho.
Entretanto quem poder vai tirando o seu, chega-se ao ponto de uma pessoa ter de entrar no sistema, porque sabe que se não o fizer outro o fará e fica-lhe com o lugar.
O sistema não para atropela quem olha para o lado.

Bluegift,
aqui a plataforma Blogger está a ficar esgotada, eles lá vão remendando a coisa, mas já começa a ser areia mais para o sistema, todas as semanas tem sido feitas reparações e todas as semanas avarias.

Sabes uma coisa, tem problemas que fazem bem a muita coisa, acredita que esta sociedade precisava de um susto para aprender.

Andamos lá perto, a caminho disso, basta ver os preços do ouro, do petróleo, do trigo, por este caminho brevemente começará a tremer.

Entretanto à que lutar contra o sistema, estou farto da estupidez, dos tristes que se julgam os maiores, quando no fundo são iguais a todos os outros.

Manuel Rocha disse...

Tiago...

Isso já eu tinha percebido...:))

A falha é sua, que devia ter escrito no fim que " sendo este um texto de ficção, qualquer semelhança com personagens ou factos da vida real será mera coincidência", certo ?

:)))

Tiago R. Cardoso disse...

Manuel Rocha,
pois devia ser de ficção devia, pois devia ser mera coincidência existirem pessoas como o fulano de branco devia.
Não sei se é a ficção a ser realidade, se a realidade a parecer uma historia de ficção ?

Manuel Rocha disse...

A realidade supera sempre a ficção, Tiago...nem um criativo como o António Sem Penas consegue ficcionar devidamente uma iniciativa "verde eufémia" sem algo concreto para se apoiar...:))

Blondewithaphd disse...

A malta às vezes é tão ingénua! Pensar que somos mais do que uns meros números ou uns instrumentos produtivos! Oh petulância!

E tu aguenta-te aí rapaz!

Tiago R. Cardoso disse...

Manuel Rocha,
ficcionar, ainda conseguiu ficcionar, mas a criatividade permite dar alguns sustos aos leitores.

Blondewithaphd,
pior é quando olha para nós e acham que temos cara de euros, este vale isto, aquele vale aquilo.

Obrigado pelo apoio.