Bélgica : Um país colado a cuspo!

Se andamos por aqui tão empenhados na denúncia de injustiças nacionais e algumas outras internacionais, mergulhando até em petições que sustentam a nossa indignação face ao que se passa a mais de 10.000 km de distância, porque não, já agora, olharmos bem debaixo dos nossos narizes para os atentados à Democracia no coração da nossa tão “democrata” Europa?

O que dizer de um país que deveria funcionar como modelo prodígio e exemplar de tolerância e solidariedade entre povos de língua diferente e que, na prática, estala completamente o verniz quando os interesses de dominância e segregação de uma das comunidades, maioritária, são colocados em causa?

É impossível ficar impassível quando o cinismo de um politicamente correcto que tresanda a hipocrisia rebenta pelas costuras bem diante dos nossos olhos. Vivemos constrangidos numa revolta calada que nos obriga a “comer e calar” sob o risco de infringirmos, com repercussões graves, o maior Tabu da Europa dos 27 : A discriminação linguística na Bélgica!

Ao mesmo tempo que da boca dos representantes governamentais belgas transbordam palavras de superioridade internacional no respeito pela liberdade e defesa dos direitos humanos, arrogando-se como país evoluído e civilizado, correm-lhes pelas mãos toda uma panóplia de medidas, leis e princípios que mais não visam que a imposição arrogante de uma língua como condição sine qua nom de aceitação de um cidadão como membro de pleno direito na comunidade nacional.

Na Bélgica, cerca de 40 % da população fala francês sendo que 30% ocupa a Valónia (a sul) e 10% Bruxelas; a norte concentram-se os flamengos que constituem cerca de 60 % do total; a população estrangeira, incluindo a europeia, utilisa o francês como língua principal e reside fundamentalmente em Bruxelas e nas freguesias limítrofes. A existência de discriminações linguísticas e o surgimento de um racismo entre as duas comunidades linguísticas são desde há muito um verdadeiro tabu nacional, sendo o recenseamento linguístico proibido POR LEI e realizando-se apenas por dados de registo não oficiais.

Não é por mero acaso que após conhecidos os resultados das eleições federais tenham sido necessários 9 meses de intensas guerras de bastiadores, para só agora ter sido formado um “protótipo” de governo federal. Este simulacro de governação pretende, acima de tudo, não agravar a imagem internacional de descrédito a que chegou a realidade política actual do país.

A situação chegou a tal ponto que o Comité das Nações Unidas para a Eliminação das Discriminações Raciais, habituado a receber queixas de discriminação de origem étnica ou racial pela parte de marroquinos, turcos e congoleses, começou a ser invadido por queixas da própria comunidade belga! Nomeadamente da valónica e da europeia, que escolheram o francês ou o inglês como língua de comunicação. Uma opção que se julgava lógica numa cidade que se apresenta como a mais internacional da Europa e, mais grave ainda, alberga as mais importantes instituições da Comunidade Europeia, os headquarters das Multinacionais e outras instituições de relevância internacional. Porém, face às medidas segregacionistas e impositivas da comunidade flamenga, tal paraíso multicultural tem-se revelado um verdadeiro quebra cabeças para Bruxelas e arredores.

Este mal estar entre as comunidades esconde uma estratégia dominadora activa da comunidade flamenga face ao resto do país, nomeadamente da região de Bruxelas que conta com 90 % de habitantes de língua francesa. Infelizmente uma “ilha” em região flamenga, a poucos km da zona francófona, ligação geográfica que os flamengos tentam evitar a todo o custo.

A Mafia Flamenga está de tal forma impregnada nos organismos privados em Bruxelas que praticamente todos os quadros superiores são ocupados por Flamengos.
Nos organismos estatais responsáveis pela gestão do desemprego (equivalente ao nosso IEFP) as ofertas de emprego, quando existem, são colocadas prioritariamente aos Flamengos deixando no desemprego milhares de francófonos. Mesmo os organismos responsáveis pela formação (paga pelos 27 países com o dinheiro do orçamento comunitário) dão clara prioridade aos Flamengos e falantes de flamengo*, lançando no desemprego todos os que não dominam esta língua. Imaginem o que se passa com praticamente todos os acompanhantes dos milhares de trabalhadores que se encontram nas instituições internacionais...

Frequentemente a informação recebida pelos habitantes encontra-se em flamengo, quando a inscrição é realizada em francês e na região bilingue que é Bruxelas. O propósito é evidente: viciar as estatísticas fazendo aumentar o número de habitantes que utilisam o flamengo.

Por lei, 50% dos lugares públicos de Bruxelas são para a minoria de 10 % dos flamengos, uma vez que a região de Bruxelas se pretende à viva força bilíngue flamengo/francês. Ou seja, a única comunidade que é verdadeiramente “protegida” é a flamenga logo que se encontra em regiões onde se encontra em minoria, a outra comunidade que se amanhe...

Como se não bastasse, os flamengos trabalham em Bruxelas e pagam os impostos na Flandres, onde residem. Ou seja, “roubam” o emprego aos bruxelenses e ainda mais os lucros indirectos da sua actividade. Tal situação revela-se economicamente desastrosa em termos de receitas uma vez que o país se gere por 3 regiões economicamente autónomas : Bruxelas, a Flandres e a Valónia.

Os habitantes de língua francesa ou inglesa que habitam a perifera de Bruxelas, apesar de constituirem uma maioria, sofrem constantemente a violência dos extremistas flamengos que os colocam ostensivamente em lugares secundários face aos restantes habitantes.
Os comerciantes e orgãos públicos são obrigados a falar flamengo com os clientes e utilisadores e a colocar toda a informação exclusivamente nessa língua.

Até as crianças que pretendem frequentar os parques infantis em região limítrofe são obrigadas a comunicar em flamengo, estando completamente proibidas de falar outra língua. O acesso encontra-se frequentemente bloqueado às que não falam flamengo. Situação que apesar e não ter sido aprovada por lei, devido a pressões superiores europeias, acaba por ser praticada no dia-a-dia.

Este ano, os presidentes da câmara de língua francesa que ganharam os eleições nestas zonas, não foram instituídos no cargo a que tinham direito por se terem “atrevido” a enviar informação em francês aos cidadaos inscritos nessa língua...

E que dizer de medidas LEGAIS mais recentes que obrigam a que um cidadão que queira residir numa região flamenga tenha que falar obrigatoriamente o flamengo?

Isto para não falar do facto de o cargo de primeiro-ministro em vez de ser rotativo calhar consecutivamente a um Flamengo. Como justificação é alegado o facto de o povo eleitor do país ser maioritariamente flamengo... Se assim se procedece na União Europeia, nem Portugal nem outro país com menor número de habitantes teria direito à presidência da União ou da Comissão...

O mais grave nesta situação é a não existência de organismos oficiais que recebam estas queixas e consigam auxiliar as vitimas. É um assunto demasiado sensível, demasiado sujeito a pressões de todo o género e, claro, não se pretende assumir publicamente o embaraço e a vergonha de uma situação destas. A única forma que as autoridades arranjaram para resolver o problema de forma “eficaz” é fingir que pura e simplesmente não existe! Mascarando toda e qualquer denúncia!

Entretando, e dando continuidade à palhaçada, os responsáveis flamengos, qual virgem despeitada, revoltam-se contra as Nações Unidas negando a existência de tal discriminação. Isto enquanto a população a vai vivendo na pele diariamente, com repercussões gravosas para a economia e bem estar das regiões não flamengas e das freguesias limítrofes de Bruxelas.

O Comité das Nações Unidas para a Eliminação das Discriminações Raciais chegou mesmo ao ponto de convidar a Belgica a assinar a Convenção internacional para a protecção das minorias, algo que até ao momento nunca se tinha revelado necessário num país da Europa Ocidental. Como é que que é possível que tal país tenha a autoridade de do alto do seu pedestal falar em Liberdade e Respeito pelas minorias?

Por quanto tempo ainda irá a comunidade internacional continuar a colaborar nesta farça e para quando medidas menos hipócritas e mais incisivas da União Europeia nesta inacreditável facada à Democracia em pleno coração da Europa?

Vícios privados, públicas virtudes?


* O flamengo é uma variante do holandês, ambos considerados uma língua neerlandesa. Apesar da obrigatoriedade e imposição se referir à língua neerlandesa, por uma questão prática, referirei apenas a flamenga.

19 comentarios:

quintarantino disse...

Eu andava deveras intrigado lá com a história belga, mas tinha alguma dificuldade em conseguir apreender na plenitude algumas questões referentes à crise larvar em que há muito vive.
Quer dizer, sabia de valões e flamengos mas faltava qualquer coisa mais.
Este texto permite ir mais além.
Li e fiquei preocupado, pois era suposto os belgas já terem aprendido algumas coisas depois de terem provado duas vezes do aço teutónico recentemente, francês nos tempos imperiais de Bonaparte e até espanhol (isto já para não falar que também podiam aprender com as asneiradas alheias).
Mas não, andam entretidos em guerras artificais quando se podiam dedicar a remediar disparates absolutos como os aqui retratados.
Enfim, nem Poirot os salvaria!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

BlueGift

Não gosta mesmo nada da Bélgica! Mas compreende-se a razão..., depois de ler o seu post.

Manuel Rocha disse...

Reli Astérix na Bélgica para me documentar para este comentário e de facto lá está a liderança bicéfala...:) (deve ser a metáfora para essa indecisão linguistica...).Obelix simpatizava com eles devido às suas incessantes orgias gastronómicas, mas Abraracourcix já era da opinião que esses "Belgas são loucos"

:)

antonio disse...

Estarrecido! Um Kosovo que ainda os media não descobriram! José Rodrigues dos santos para a Bélgica já!

António de Almeida disse...

-A Bélgica terá viabilidade enquanto país? Ou acabará fragmentada? Os flamengos irão juntar-se aos holandeses? Fiquei a conhecer um bocadinho mais da questão, mas parece-me que ainda existem por aí muitas complexidades.

Manuel Rocha disse...

Então vamos lá a ver se a discussão pega ...:))

"Facada á Democracia" ?!

Não percebo ! Então a Democracia não é o governo pela maioria ?! As maiorias flamengas estão ou não legitimadas pelo voto de uma maioria de eleitores ( flamengos, naturalmente...)?? Porque se estão, o que aqui se discute é uma questão de direitos de minorias, certo ?

Blondewithaphd disse...

Ainda aqui há dias estava a falar com um amigo alemão que é historiador sobre a não-linearidade da História da Europa Central face à nossa. Acho que é em parte este amalgamar de histórias e povos que explica, ainda hoje, as difíceis convivências em países cujas fronteiras são tudo menos estáveis. Depois, lá está, é um caso em que a maioria quer impor-se como tal.

Tiago R. Cardoso disse...

Não conhecia tão complexa situação, apenas poso deixar que me surpreendeu e deixou-me a pensar.

A pensar que estamos tão entretidos com coisas, importantes, mas que estão muito longe, enquanto debaixo do nosso nariz, existem coisas realmente preocupantes.

Carol disse...

Bem, Blue, deixaste-me de boca à banda com este post.
Meu Deus, que ignorancia a minha!
Entretanto, vou procurar descobrir mais sobre esse país tão sui generis...

bluegift disse...

Quint,
Não aprendem. Na altura em que precisavam uns dos outros para conseguirem a independância eram só beijinhos e abraços. Depois, a Valónia começou a fazer fortuna com o carvão e o aço enquanto a Flandres plantava batatas, e aí o país era praticamente sustentado pelo sul, sem qualquer problema. Agora que a situação se inverteu e é a Flandres que é mais rica, já não convém estar tão ligado à Valónia... Daqui por uns anos quando a Flandres estiver repleta de velhos e de população estrangeira, aí vais vê-los a clamar pelos bons irmãos do sul... Cambada de arrivistas complexados e egoístas, só isso.

bluegift disse...

Francisco,
Há coisas positivas e negativas como em todo o lado. Não é fácil viver num clima destes, seja meteorológico, social ou político...

bluegift disse...

Manuel,
Há diferenças muito marcantes entre os dois povos e é sabido que os flamengos sempre foram bem mais materialistas e calculistas que os valónios, bem mais bonacheirões e solidários.

bluegift disse...

António,
Bem mais complicado que o Kosovo, acredita.

bluegift disse...

antónio de almeida,
Não, os flamengos nunca se juntarão aos holandeses. Há uma diferença fundamental: os holandeses são protestantes e os flamengos são católicos (da treta, mas católicos quand même). O país existe graças a esta distinção e à influência da família real. Se não fosse a pressão da UE muito provavelmente ainda existiria mas sem a Flandres, apenas com Bruxelas e a Valónia.

bluegift disse...

Manuel Rocha,
A discussão é muito complexa. A situação é muito bem abafada devido às graves repercussões internacionais que pode gerar. A Democracia, neste caso, refere-se ao direito das minorias a nível federal e das maiorias a nível das regiões. Na prática, os flamengos são uma maioria que pretende obrigar toda a população a falar flamengo e a agir sob a sua égide. O problema mais grave coloca-se a nível de Bruxelas já que se trata de uma cidde internacional que logicamente tende a utilizar as línguas europeias que servem de elo entre todos os países, ou seja, o inglês e o francês. Se outra língua se seguisse seria sempre o alemão e jamais o flamengo/holandês que é uma língua claramente minoritária em todo o mundo e na Europa. Mais que um direito das minorias falamos aqui do facto de as instituições internacionais terem andado a comprar gato por lebre, uma vez que nunca passaria pela cabeça de ninguém que uma região como esta fosse alvo de uma máfia deste calibre. No aeroporto internacional de Bruxelas, em Zaventem, região flamenga dos arredores de Bruxelas, várias máquinas e outras informações são dadas exclusvamente em Flamengo! Ora, estes "senhores", além de andarem a ganhar uma fortuna com as instituições internacionais aqui presentes ainda querem obrigá-las a utilizar o flamengo! Quando antes, no início de todo o processo de internacionalização, o Francês era a língua corrente. Jamais alguém iria pensar em instalar-se aqui tendo por base uma língua tão pouco representativa a nível internacional quanto a flamenga. O problema é bem complexo e não sei muito bem como esta gente irá descalçar esta bota.

bluegift disse...

Blonde,
Na realidade esta luta entre norte e sul que se regista em praticamente todos os países assume especial importância quando a juntar às diferenças territoriais aparecem as linguísticas e "tribais". O que une estes povos terá que ser sempre mais forte que os que os separa, de outra forma estas "guerrinhas" (esperemos...) acabam por explodir inevitavelmente.

bluegift disse...

Tiago,
Na Europa vive-se muito de aparências. Esta é a forma mais sofisticada e elaborada, "evoluída", de aqui se viver uma guerra hoje em dia. 50 anos atrás teriamos sem dúvida uma guerra acesa com direito a mortos e feridos, não tenho a mínima dúvida. Hoje, acumulam-se tensões, negoceia-se, e esperemos que a "coisa" não rebente pelas costuras... Há demasiados interesses internacionais em jogo.

bluegift disse...

Carol,
Procura várias fontes. Por exemplo, a informação existente na Wikipédia está cheia de militantes flamenguistas. Até doi a versão deturpada que dão da história do país. É preferível procurar fontes mais neutras.

alfacinha disse...

Como belga de origem flamenga quero sublinhar, neste blog está escrito muitas falsidades sobre a situação belga. Também alguns comentários testemunham de um ódio profundo contra os flamengos. Adoro Portugal e por isso acho chocante ler estas críticas infundadas.
http://blog.seniorennet.be/lisboa