Benvindos ao Far West!

Costuma atribuir-se à II Amendment da sacrossanta Constituição dos Estados Unidos a justificação para os elevados índices de criminalidade no país. Para quem não sabe, a II Amendment (1791) confere aos cidadãos o direito de possuírem armas. Bem, esta é pelo menos a interpretação comum porque o facto é que lá no texto está escrito “milícia”. Enfim, seja como for, os americanos podem ter direito de posse de armas aos 18 anitos (mas só devem beber uma cervejita aos 21!) e vai daí é um ver se te avias e ele é de chacinar gente nas escolas e andar em batalhas campais nas ruas e por onde calha.

Da última vez que verifiquei, os portugueses são um povo pacífico, amantes, como salientam repetidamente, dos brandos costumes e detentores de uma legislação intolerante com o porte de armas individual. Parece-me, todavia, que ou ando vesga ou ando ao engano ou as coisas mudaram ou então emburreci de vez (probabilidade nada descartável). É que a chacina chegou à rua. Oiço que se compara este “surto” de criminalidade homicida com o que se passa no Brasil. Confesso que esse paralelismo não me interessa nada! Eu não vivo no Brasil, vivo em Portugal. E chamar “surto” a acções que violam o direito à vida de outrem é o eufemismo mais insultuoso que tenho tido o desprazer de ouvir ultimamente.

Também, e mais surpreendentemente, oiço que o que está a suceder não é nada de especial que vá contrariar quaisquer estatísticas existentes (a não ser aquelas do suicídio por auto-apunhalamento). Então a malta anda a cair que nem tordos e, como se diz em Inglês, “it’s all in a day’s business”? Desculpem lá, está tudo doido, ou quê?

Não quero saber de opiniões avalizadas, não me interessam debates televisivos, prescindo de comparações com cenários longínquos (nem Brasis, nem “downtown Bagdad”, nem faroeste ou cascos de rolha). Quero soluções para este “surto” de crimes e para o avolumar da criminalidade neste país. Sinto que temos uma legislação demasiado leniente que permite a bandidagem (muitos bandidos?!) andar aí impunemente à solta. Mas eu, nós, o cidadão comum, sobretaxado de impostos, que anda a dar o litro coitadinho, está desgraçado com o fisco, com as brigadas de trânsito, com os tipos dos parquímetros, mas os meliantes… oh, na boa!

Aqui há dias parei numa operação stop. Estúpida, ignorante e loura burra levava os dois auriculares do telemóvel (então se aquilo traz dois auriculares deve ser para usar, não?). Desconhecia que era só permitido um.

- Bem, o Sr. Agente vai ter de me multar que nem invoco o desconhecimento da lei.
- São 120 euros minha senhora, está aqui no artigo raio que o parta! Se não pagar agora temos de lhe ficar com a carta e a Sra. tem de ir buscá-la à esquadra da sua residência.
- Aceita cheque Sr. Guarda?

A satisfação da autoridade a acenar com o papelucho! A coima! E depois, como eu tenho, de facto, toda a embalagem da loura mononeuronial, foi buscar a bíblia das multas para me mostrar, com o rigor, do preto no branco, o artigo miserável sobre o uso de auriculares.

Levei pois, e bem feita, com o peso da autoridade. Mata-se gente e shiu, pá, nada de levantar a lebre. Não se passa nada. Pois, isto é normal. Há não sei quantos homicídios por dia em Portugal. Pá, isto é só um “surto”. Meu, isto é a comunicação social. É pá, um dos tipos esfaqueou-se a ele próprio, e foi só umas quantas vezes até acertar no sítio. Mau é mesmo em Joanesburgo ou em Medellín. Shiu, toca a calar que o povo quer-se sereno!

Não estou serena. Estou indignada. Sinto-me aviltada. Nem é revoltada, é enxovalhada na minha dignidade de cidadã. Confio na lei, pelo menos quero confiar na lei, mas a lei está a tornar-se demasiado branda para os criminosos, aqueles a sério, os perigosos, os recorrentes, os que deviam estar dentro, mas estão cá fora logo a seguir. Não está na hora de deixar de ter medo e enfrentar o problema?

Post Scriptum: A Blondewithaphd não empreende a lourofobia. Como loura desmistifica o estereótipo rindo dele. Ridendo castigat mores.

18 comentarios:

António de Almeida disse...

-Apesar de tudo, nos EUA a polícia é respeitada, não é como nesta parvónia, onde um polícia dá um tiro para o ar, para dissuadir um marginal, e tem de preencher um formulário para justificar as circunstâncias em que gastou a munição. Começo a questionar, se não deveriamos também livremente usar armas, face á manifesta incapacidade das nossas autoridades em nos protegerem, e aos nossos bens. Entre um cidadão e um marginal, escolho um cidadão, entre a propriedade dum cidadão ganha honestamente a trabalhar, e um marginal, escolho o bem material, estou-me nas tintas para marginais. Por mim dava mais autoridade aos nossos polícias, os excessos que a ASAE utiliza contra pacatos cidadãos, não me importava de ver as polícias a utilizá-los perante marginais, que devem ser tratados com tolerância zero.

bluegift disse...

Vais ter que que concordar comigo, é um dos teus melhores textos. Parabéns!
O que é que te posso responder? Concordo inteiramente com o que afirmas, sentimo-nos injustiçados ao ver tanto crime impune e depois por uma infracção da treta exigem o pagamento imediato da multa. A justiça em Portugal está doente, sabe-se bem que sim. É mais um dos grupos profissionais que necessita de alguém com tomates para estabelecer a ordem. Do caso Casa Pia ao Apito Dourado vão uma infinidade de outros onde a cobardia e suborno dos representantes da Lei, a começar pelos juízes, é chocante. Cada vez que a Polícia Judiciária toma medidas sérias de combate ao crime e regulação interna de procedimentos cai-lhe o Carmo e a Trindade em cima! Não pode ser. A continuar assim vamos nos transformar numa Itália (não temos nada a ver com a realidade Brasileira) onde a máfia reina acima de qualquer Lei.

quintarantino disse...

Eu estou quase, mas mesmo quase como o António de Almeida, mas ... o problema é que os nossos polícias são portugueses e uma pessoa não pode confiar nos portugueses. Quer dizer, pelo menos numa imensa maioria.

Eles dão tiros para o ar, é certo e têm de preencher não sei quantos papéis.
Mas também são dos que são capazes de dar um atesto de porrada a um indivíduo quando ele já está dominado ou simplesmente teve o azar de estar no local errado à hora errada.
Há por aí provas disso ...

E alguns, de pança proeminente, como adoram chegar-se ao cidadão e sem qualquer laivo de civilidade exercer a sua autoridade.

Nó miserável lugarejo onde vivo os energúmenos adoram postar-se num certo local à caça da multa e, em conforme os cidadãos, ou paga ou sai um pedido de favor.

Como é que se pode respeitar isto?

Recentemente sucedeu-me um pouco como à nossa BLONDE ... bem sei que no critério da Lei e numa interpretação literal da mesma estar com o carro a trabalhar, parado numa fila de trânsito e usar o telemóvel dá direito a multa.

Foi o que me sucedeu, mas eu só não posso é deixar de relatar que o ilustre agente da Polícia Municipal que me autuou não só desconhecia que o "bom dia", "boa tarde", "por favor" são parte integrante da língua portuguesa, como sempre fez jus ao cognome de "nazi" pelo qual é conhecido entre colegas.

Eu ali parado no meio do trânsito e o ser manda-me encostar a mim quando à minha frente e atrás de mim estavam não sei quantos carros parados em segunda fila!

Dei-lhe os documentos e pedi-lhe que ne dissesse se ia aplicar o princípio da igualdade pois não só estavam ali aqueles todos parados como passava uma cidadão numa bela de uma Mercedes a falar alegremente ao telemóvel.

Resposta da besta: "Compete ao agente da autoridade escolher o automobilista transgressor que vai autuar".

Bem, eu devo-vos dizer que paguei os 120,00€ e estou à espera da pena acessória que, espero, corresponda a uma pena suspensa de inibição de conduzir, mas que naquele momento se me deu uma coisa no cérebro e insultei o cavalheiro do piorio.

E viste-las? Quando me podia dar ordem de prisão, recolheu a papelada e a pequena pança e engoliu.

São as coisas da vida.

Estão agora a ser julgados dois rapazs que recentemente, a cerca de 500 metros de onde moro, mataram outro à facada. Coitados, eles só viram 1 e acharam que ele só ficou caído para disfarçar, mas a autópsia só (!) contou 18 facadas...

O Ministério Público, por uma daquelas minudências, só pede a condenação de um!

Outro que por aqui mora e é conhecido pelo China e que ambicionava ser o rei dos ladrões aqui dos arredores foi mandado na paz do senhor. E até já apareceu a dar entrevistas na televisão.

Pode? Pelos vistos, pode!

quintarantino disse...

ANTÓNIO DE ALMEIDA eu peço desculpa de só responder agora e aqui neste local.

A história do autocarro da Câmara Municipal de Beja que foi cedido aos professores quanto a mim, e assim numa análise simplista, não tem enquadramento legal na Lei 169/99, de 18 de Setembro, alterada e republicada pela Lei 5-A/2002, de 11 de Janeiro, nomeadamente no artigo 64º número 4alíneas a) e b) pois não vejo qual o interesse municipal/público que possa enquadrar a cedência.

Mas, como disse, isto numa análise simplista.

No fundo, meu caro, é tudo uma massa da mesma farinha.

Antes que alguém questione eu desde já declaro que este modelo de avaliação não serve (por ser demasiado burocrático, especialmente), mas que o anterior é uma vergonha.

E mais me espanta ver os senhores a protestarem mas ainda não ter visto numa contra proposta séria e consistente.

Quase que se fica com a ideia que o querem mesmo é que querem continuar com tudo na mesma.

O que não deixa de ser caricato pois se a Educação está como está, não vejo como é possível que os professores queiram fazer de conta que não são intervenientes no processo educativo!

lusitano disse...

Tenho no meu sitio uma "prosa" que versa mais ou menos o assunto.

Ora bem, o que interessa é o défice!
O que interessa são as contas do estado, que como não acredito que dêem certas hão-de ser manipuladas, para darem os tais números mágicos de que tanto se ufanam.
O cidadão, neste caso o português, é pouco importante para o assunto.
A mim cheira-me que este novo código penal, ou lá o que é, serve para colocar gajos fora das prisões, não por pena deles, mas para não gastarem tanto dinheiro ao estado e assim se equilibrarem as famosas contas.
E depois, como muito bem escreves, vêm as estatisticas e as comparações com os outros que inevitávelmente estão piores que nós, porque os que estão melhores não interessa.
Não se ensinam valores, não se ensina o respeito pelos outros, os jovens têm pais ausentes porque estão a trabalhar que nem uns doidos para poderem sobreviver, (e dar dinheiro ao estado por causa das famosas contas), e claro, a vida não tem valor nenhum e portanto é fácil matar.
E a justiça...Bem a justiça...
"Prontos" não digo mais nada...

Carol disse...

Blondie, My dearest, este é, sem dúvida, um dos teus melhores textos.
Sinto-me tão indignada como tu pelo que aconteceu a ti, ao meu irmão, a milhares de pessoas por este país. Indigna-me saber que assassinos andam à solta depois de matarem duas pessoas (que se saiba) num só diA; que pedófilos sejam presos e a sua reintegração passe por trabalhar em instituições de crianças; que esses mesmos pedófilos não tenham no seu registo criminal a indicação daquilo que são na realidade: monstros hediondos capazes de matar e violar brutalmente crianças. Enoja-me passar à porta de uma esquadra da polícia, perto de minha casa, e ser assediada pelo polícia de serviço. Revolta-me ter uma amiga que foi violada por dois polícias e que estes não tenham sido condenados (isto passou-se em Aveiro, há já uns anos).
Queria ver a polícia e os juízes, que também têm muitas culpas no cartório, a agirem severamente para com os verdadeiros animais que deambulam pelas nossas ruas!

mac disse...

Para a Policia combater a criminalidade, teria de ter mais meios do que tem e também mais poderes. Hoje em dia parece que os cidadãos têm mais poder que a polícia. Mas depois também há aquela face que o Quintarantino menciou...a perseguição ao cidadão comum, que não se pode escapar.

Carol disse...

Quanto ao que o Quin escreveu sobre a situação dos professores, que me desculpem os colegas de profissão, mas estou 100% de acordo!
Este modelo de avaliação não serve, porque não é justo, mas o anterior era anedótico. A classe tem de ser moralizada. É inadmissível que haja professoresa faltar constantemente às aulas e outros a chegarem ao dia do teste e dizerem que não o fazem, simplesmente porque, e passo a citar, "Não me apetece!".

NuNo_R disse...

Pois e para a semana temos de nos haver com os cerca de 1200 criminosos que serão libertados, fruto de um "novo" código que considero desadequado e que somente beneficia quem prevarica :(

Bjs bfds

Blondewithaphd disse...

Apenas um breve comentário:
1. Não acho que este seja um dos meus melhores textos. É apenas um texto de alguém indignado e, por isso, a verbalização crua de um pensamento. Nada de rebuscamentos e artifícios literários. Mas obrigada Blue e Carol pelos elogios.

2. Acabo de vir da Manif dos professores. Não faço parte da classe, não é a minha luta. Mas como pessoa pensante não posso admitir que se desrespeite uma classe profissional que tem, como todas, bons e maus profissionais. O que me causa engulhos é o autismo governamental.

Pergunta estúpida: Para se mostrar o poder institucional a uma classe de cidadãos há força, para combater os bandidos é preciso pedir por favor?

Gimme a break!

Compadre Alentejano disse...

Os crimes ficam impunes e o (des)governo desvaloriza as mortes, afirmando que elas são normais...e que em Portugal não há a criminalidade que há noutros países!...
Quanto à GNR, não quer apanhar os criminosos ou defender os cidadãos, a sua função principal é cobrar multas, quantas mais melhor, para diminuir o défice.
Resultado: cidadão indefeso e desprotegido...
Um abraço
Compadre Alentejano

Tiago R. Cardoso disse...

Antigamente trabalhava no escritório de uma Pedreira, estava lá sozinho, tratava de tudo.

Um belo sábado entrou-me um camião na pedreira, saem dois fulanos, condutor fica mais atrás e o outro dirige-se a mim.

"Bom dia, eu sou o guarda ******, e já falei com o seu patrão sobre uma carga de pedra e ele disse que me arranjava."

Após me ter informado e recebido luz verde par deixar carregar, ingenuamente perguntei:

"Desculpe e as guias para o transporte ?
Tenho de passar alguma coisa para caso haja algo.

Resposta da autoridade "Não se preocupe com isso que eu vou ali sentado ao lado do condutor".

Enquanto ser-se autoridade em Portugal significar proveitos desta matéria, dificilmente aquilo que interessa, o combate ao crime e protecção do cidadão, dificilmente irá acontecer.

bluegift disse...

Não tens que agradecer, é tudo uma questão de gosto, na estética e no conteudo, nada mais.
Pois, a essa manifestação eu nunca iria. Não me parece que a MLR seja uma má ministra e muito menos que seja autista. Ainda por cima quando outros ministros antes dela fizeram barbaridades e ninguém se queixou. Mas olha que numa manifestação para exigir uma melhor justiça e acção da polícia alinhava inteiramente!

Blondewithaphd disse...

Bute lá Blue! Também alinhava nessa;)

quintarantino disse...

Tu vai é dormir que o teu mal é sono!
E para a próxima usa "bluetooth". É o que eu faço agora!

Peter disse...

De que te queixas?
Não é a preocupação principal deste Governo (devia ter escrito com um "g") gerar receitas?
Multas dessas, inserem-se no "Programa Caça à Multa".

antonio disse...

Afinal, tudo isto por casa de uma infracção? Auriculares aplicados em mononeurais louras fazem-me gelar o sangue! O que de mais perigoso poderá existir?

Felizmente a autoridade estava atenta!

João Castanhinha disse...

Há bem pouco tempo até ajudei o GNR a imprimir a minha multa dos 120 euritos, a mini-impressora estava encravada; ele tinha razão, independentemente de um ou mais condutores à minha volta estarem a fazer o mesmo.
O resto que leio são desculpas.
Desculpem lá a sinceridade.