Abençoado YouTube!

Por muito irónico que seja, ainda bem que houve um adolescente insensato que filmou uma insensatez ainda maior e a pôs a correr na internet. Agora, claro, o efeito bola de neve leva-nos a visualizar as cenas escandalosas e inadmissíveis que sabíamos, mas não dizíamos, existir no ensino público. Não é confrangedor, é a vida no pior “reality show” da aberração!

Como é que numa sociedade civilizada e superabundante como a dos nossos dias, a selvajaria galga os muros da escola? Isto é tenebroso! Não defendo a postura docente de há umas décadas atrás, jamais o poderia fazer. Reguadas, ofensas ao insucesso e a castrante culpabilização da falha são atitudes monstruosas, indefensáveis e ilícitas. Mas, alguma vez no meu tempo de aluna (nos recentes anos 80) alguém ousava contestar um professor? Sempre houve desestabilização das aulas, os ditos engraçadinhos (que muitas vezes são generosa e realmente engraçados) e aquela parte de testar limites. É saudável e faz parte do nosso processo de socialização. Agora tomar de assalto o poder docente? Que é isto?

Olho para estes vídeos do YouTube e só penso em turbas de selvagens! É isto que nos vai suceder geracionalmente? Estamos desgraçados quando, fracos nas nossas capacidades psicomotoras, estivermos entregues a esta gente sem pingo de sentimento humano ou capacidade relacional em sociedade. Estou a exagerar? Talvez. Mas o que oiço das pessoas que estudaram comigo e que enveredaram pela docência no secundário (eu sendo a que degenerou) é que as salas de aula são a arena dos alunos.

Não é necessário chegarmos aos extremos do pontapear, do injuriar. Basta que a perturbação seja suficiente para não se ouvir a voz do professor. E depois ali está o dito, coacto, sem poder fazer face aos meninos insurrectos. A autoridade docente, digam-me o que disserem e venham-me lá com as teorias psicológicas todas, está esboroada! É como o poder parental: quase desapareceu.

Um miúdo que grita com um professor é bem capaz de chamar “def” e “dah” aos pais e achar que isso é natural. Não percebo qual é o receio que a sociedade contemporânea tem da disciplina. Francamente que não entendo porque é que a imposição de regras de conduta se tornou politicamente incorrecta. Sim senhora, uma criatura de quinze verdes e arrogantes anos insurge-se contra o professor com o melhor da sua prepotência adolescente, leva dez dias de suspensão (se levar depois de ouvidas as partes). Depois elabora-se-lhe um plano de avaliação especial para não perder o ano devido às faltas impostas disciplinarmente. Acho bem! Acho até que está mesmo muito bem! Chamo a isto uma lição bem aprendida: faz-se o que se quer que as consequências são minimizadas pelo paternalismo condescendente de um sistema educativo leniente que se contenta com a mediocridade.

Também fico contente por ouvir as vozes esclarecidas dizer que este tipo de comportamento ocorre em 5% das turmas a nível nacional. Se acham que 5% é uma boa, vulgo, reduzida incidência de bullying ou outro qualquer termo da moda que queiram usar, então eu, de facto, sou uma pessoa muito retrógrada, pessimista e exigente. Nem 1% se admitiria! É intolerável o enxovalho dos professores no seu local de trabalho.

Defendo a restituição da autoridade docente, agora!

16 comentarios:

Sniqper ® disse...

Defendo a restituição da autoridade docente, agora!

Muito certo, muito correcto e de facto um grave problema que prolifera na nossa sociedade, onde os valores são atirados para um canto e nascem os YouTubes da vida.
Mas no fundo pergunto eu...
...o efeito bola de neve leva-nos a visualizar as cenas escandalosas e inadmissíveis que sabíamos...
Será que falar do que se sabe e se condena precisa da publicidade dos meuiso de comunicação? Se assim é então quem sabe e se cala é cumplíce, será?

Manuel Rocha disse...

Blonde, Carissima:

Longe de pretender contestar o que quer que seja do que muito bem fica expresso no texto, deixe que lhe conte que em 1971 no Liceu Nacional de Portimão, o meu Colega Zeca CR estendeu literalmente ao comprido sobre o estrado o prof de mat com um murro ( merecido ) entre os olhos.

Podia contar-lhe mais uma vintena de episódios da minha experiência pessoal todos eles mais graves do que o tema que dá o mote para este texto que ainda assim isso não lhe retira qualquer validade.

A menos que eu tenha frequentado uma escola assim tão diferente ( ou que outros tenham lapsos de memória ...) não me parece que os problemas de disciplina nas escolas e em concreto o desrespeito aos profs seja um fenómeno novo. O que me parece novo é a forma como ( NÂO ) se lida com ele.

Ou seja, o meu colega Zeca CR nunca mais voltou ao liceu.

É claro, ainda, que ao tempo não havia telemóveis fotográficos, internet e TV nas esquinas, fenómenos que tornam tudo mais visivel.

Uma ultima nota ainda. Para que não entremos em parafuso com as comparações, é bom ter em conta que a população escolar multiplicou-se por não sei quantos digidos.

O que se viu é grave, é reprovável, condenável ( inclusive a atitude da professora que não tem que andar em disputas fisicas com um aluno ), faça-se o que se tem a fazer e os papás que começem a meter freio nos cabrestos dos gaiatos porque não compete à escola aturar-lhes as demissões!

Blondewithaphd disse...

Dear Snipqer,
Não, não acho que existam aqui silêncios cúmplices. Acho que, face à leniência com que a indisciplina é hoje tratada na escola ninguém fala porque nada irá ser alterado. Os professores hoje não são ouvidos nas suas próprias questões. Falar-se de indiscilina é levantar um problema que se quer camuflado. Daí, ainda bem que houve a revolução tecnológica e o advento dos reality shows. Pode ser que como as imagens valem mil palavras, alguém desperte para o problema.

Dear Manuel,
Ainda estou a rir com o espalhanço do prof de Matemáticas! Pois... em 71 a minha existência talvez fosse meramente cogitada e cenas de violência na escola confesso que nunca vi. Mas sempre me lembro de os professores serem uma casta distinta da nossa e, daí, ninguém se atrever a mais do que as graçolas próprias da idade.
Agora isso de NÃO se fazer nada contra um problema que se está a avolumar também me dá que pensar. E a família... sim... pois... os paizinhos reféns dos meninos porem-lhes freio? Hmm... isso é outro post ainda mais descontente!

Sniqper ® disse...

Dear Blondewithaphd...
O dito advento dos dos reality shows ou da tão falada revolução tecnológica de facto é a causa de muita gentinha querer subir ao palco e desempenhar o papel principal.
Na realidade a sociedade civilizada e superabundante em que vivemos é farta de lixo e pobre em valores, esses que deveriam nascer em casa e serem posteriormente trabalhados nas escolas.
Serão os professores os culpados da inércia aplicada na educação familiar? Ou será que a inércia e a ausência da maioria dos pais na educação dos seus filhos não está a transformar esta sociedade numa selva?
Para terminar reforço a minha opinião sobre o silêncio, esse que repito e reafirmo que é inaceitável ficar na gaveta de quem sabe e se cala. Deixando uma simples pergunta...
Será medo? Será cumplicidade? Será salve-se quem puder? Será afinal o que o silêncio dos que sabem e nada fazem!?

antonio disse...

Repor a autoridade dos professores? Alguém acredita nisso?

Seguramente não é uma prioridade da actual ministra.

Se o poder paternal desta jovem passasse a ser regulado entre o estado e os pais, pelo menos durante uns tempos, em que a família seria seguida, talvez as coisas mudassem de figura. Não se pode responsabilizar se não tivermos que pagar o preço pelos nossos actos.

joshua disse...

O Estado não tem Moral para intervir. É preciso extinguir o Estado, declarar a falência moral do Estado, bater nas costinhas do Ministério da Educação e dizer-lhe que muito obrigado e tal, mas já não precisamos dos seus (MAUS) serviços, e boa tarde.

O País finalmente respiraria livre deste lastro consumidor de recursos e afinal tão babélico e afinal tão labiríntico.

E um vídeo, sim, força a reflexão, envergonha, obriga à autocrítica e poderá originar novas energias de contenção onde ela não existia. Talvez a Sociedade deteste o que consente de vergonhoso para si mesma.

Só falta filmar o modo intolerável como muitos e muitos pais humilham e desconsideram insultuosamente alguns professores, em especial Directores de Turma e geral outro tanto de bruá e de escândalo.

Também se poderá punir os pais grunhos e puni-los exemplarmente?

PALAVROSSAVRVS REX

quintarantino disse...

À polémica que agora estalou vou abordá-lo por prismas que ainda aqui não foram calcorreados.

Antes, porém, quero frisar que sou a favor de uma disciplina cujas consequências sejam mais evidentes no percurso escolar do aluno mas, e aqui vem o primeiro mas, que também os professores que enveredam por atitudes menos próprias as sofram (o Manuel Rocha aponta o caso do murro ter sido bem merecido e como esse se calhar outros também o foram!); em segundo lugar, e por muito que doa ao Joshuia, não é extinguindo o Ministério da Educação que se resolvem estes problemas.

Estes problemas existem apesar do Ministério; ou será que o "nec ultra plus" da violência se vive só agora? A docente que está a ser julgada por ofensas corporais reiteradas arriscando uma pena de prisão de 5 anos foi criação de Maria de Lurdes Rodrigues ou de qualquer outro titular da pasta, Joshua?

Agora, e em jeito de provocação, que se pode esperar de uma comunidade escolar onde um ressabiado como o famoso Fernando Charrua (por acaso docente no Carolina Michäelis) veio lesto dizer que a culpa do "dá-me o telemóbel, já" era do Estatuto do Aluno (esquecendo-se que na sua escola ainda é o anterior que vigora) e do novo modelo de avaliação?

Este senhor ex-deputado e ex-qualquer coisa na DREN seguramente que deve pensar que somos todos parvos, mas a verdade é que disse aquilo com o maior descaramento na SIC. E ninguém rebateu.
Por exemplo, dizendo ao cavalheiro que a dita Patrícia (assim se chama a aluna) já tinha antecedentes não tão graves e que, apesar disso, foi colocada no 9º C, a turma mais problemática do 9º ano pelo menos.

E isto é o quê?
Porqúe é que ninguém fala desta selecção não natural promovida pelos Conselhos Executivos e pelos senhores docentes com maior capacidade de movimentação nos meandros da escola? Ou é mentira?

Finalmente, e esta é mesmo rasteira, onde esteve o diligente senhor Mário Nogueira sempre tão interventivo quando a coisa cheira a mexer em certos privilégios de capela?
Estaria de férias? Podia estar e elas são legítimas, mas não deixei de estranhar a ausência do cavalheiro que sempre ocupa o pequeno ecrã em tudo quanto é estação televisiva com outras coisas e sempre enveredando pelo caminho que mais lhe convém.

E Maria de Lurdes Rodrigues irá finalmente concluir que transferir um aluno não é pena que chegue?

antonio disse...

Josh, o poeta da nossa inviabilidade.

Quint, tu que és jurista, diz-me como é que com tantas leis, estatutos (que promovem sempre qualquer coisa), chegámos a este estado?

António de Almeida disse...

-O jovem que colocou o vídeo no youtube, prestou involuntariamente um serviço ao país, ficámos todos a perceber, o funcionamento do eduquês. Dizem que na escola pública, ninguém pode ser excluído, pelo que esta aluna, e outros eventualmente piores, têm de permanecer no sistema. É um ponto de vista do qual discordo. Afinal o castigo, a transferência, penalizará não a aluna, mas a escola pública que a irá receber, tornando-se uma figura mediática, uma espécie de heroína. Frizei escola pública, por contraponto ao ensino privado, no qual esta situação jamais iria ocorrer, mas não vamos desviar o debate da autora do texto. Em casos como este, o aluno deveria pura e simplesmente ser expulso, e já que pretendem que o sistema não exclua ninguém, pelo menos que perdesse este ano, com obrigatoriedade de repetição no próximo, tantas vezes quantas as necessárias, até concluir a escolaridade obrigatória. Garanto que teria um efeito dissuasor, já que impossibilitar a frequência da escola num ano, em lugar de andar por lá com ares de vedetismo, e repetir no próximo, já seria um castigo. Quanto á qualidade dos professores, enquanto as escolas não tiverem autonomia para escolher o seu corpo docente, os burocratas da 5 de Outubro continuarão a nomear inadaptados em diversas áreas, com prejuízo para todos. Se as escolas pudessem escolher os seus professores, talvez o trigo começasse a ser separado do joio, assim como as avaliações deveriam ser atribuidas na própria escola, mas os resultados da escola, deveriam ter consequências na dotação orçamental da mesma, para acabar a bandalheira.

Blondewithaphd disse...

Bem, ainda bem que não sou só eu a má da fita!

ANTONIO DELGADO disse...

o tema é forte e de facto não são exageradas as estatisticas que apresenta, suponho que a percentagem até é mais elevada.

Mas a violencia nas escolas não é mais do que o reflexo de tudo o que os alunos tem em casa e veem na rua. Pais com problemas, Familias desagregadas e com problemas economicos devido a salarios baixos ou precaridade de trabalho.Vivencia em bairros mal planificados . Escolas por vezes sem condições, tanto para alunos como para professores. Para estes ultimos o problema limita-se às condições de trabalho e precaridade. Tudo isto e muito mais coisas, tornam a escola num potencial espaço de exclusão e conflito. O tema é muito interessante parabéns pelo debate.

Um abraço e bom fim de semana
António Delgado

Compadre Alentejano disse...

Este caso espelha muito bem o que se passa na sociedade portuguesa.
Então é assim:
A aluna abusou com o telemóvel, a professora reteve-o, a aluna entrou em histerismo, foi mal educada para com a prof., e houve um aluno, qual repórter de guerra, filmou a cena e colocou-a no Youtube.
Antigamente, quando a notícia era má, matava-se o mensageiro.
Parece que querem fazer o mesmo agora...
Um abraço
Compadre Alentejano

bluegift disse...

É uma verdadeira vergonha o ponto a que chegou a indisciplina no nosso país. Há que instaurar leis mais severas que responsabilizem sobretudo os pais destas crianças e adolescentes e que restituam a dignidade à profissão, para o bem de todos nós e sobretudo da população escolar.

Tiago R. Cardoso disse...

Começando pelo exemplo da indisciplina daquele caso.

primeiro a professora não deveria ter ido na de confiscar o telemóvel, simplesmente apontava a porta da rua a aluna, seria uma forma de dizer que ele é que mandava.

De seguida, toda aquela luta, confusão, risos e incentivos, apenas e friamente mostra o nível que temos nas escolas.

Ao contrário do senhor procurador, eu acredito que estes casos, indisciplina, violência são trazidos para dentro da escola e são o espelho da nossa sociedade.

O necessário é, como bem dissestes, devolver a autoridade aos professores, voltarem a ter a imagem do que são, algo fundamental na nossa sociedade, que desempenham um papel importante no nosso futuro como país.

Para isso será a altura de quem manda deixar de os colocar sempre como inimigos, que o mal do sistema de ensino são eles, não as politicas, a sociedade.

Chega de tentar arranjar sempre culpados e começar a investir correctamente no ensino.

Carol disse...

Minha querida, desculpa desde já a demora do meu comentário.
Posso-te dizer que sou totalmente de acordo com tudo, mas tudo o que disseste.
Acrescento, ainda, que me dá vontade de rir do anedótico que é culpar esta Ministra por um problema que tem anos. Em 2001 um aluno chamou-me "filha da p***" com todas as letras. Que eu saiba, a ministra ainda nem sonhava em ter esse cargo...

João Castanhinha disse...

Tudo se resolve, antes uma guerra de telefones do que uma de tiros, como se pode apreciar em países bem mais desenvolvidos do que o nosso (people often forget). Condene-se mas com ponderação; infelizmente ou felizmente temos numa sala de aula reflexos sociais distintos, entre carteiras juntam-se interesses diferentes, realidades familiares diferentes, pessoas diferentes, sempre haverá no melhor dos mundos estes casos, e o professor gestor de gentes e costumes na primeira linha terá de estar o mais habilitado possível a este papel, concordo em absoluto neste campo com a liberalização referida pelo terentino neste aspecto.
Portugal não é caso unico e revolto-me (com moderação)sobre este eterno vício portuga do "tiro na cabeça" amplamente divulgado e sustentado por uma sociedade acrítica.
Nada que antes não acontecesse, agora maximizada pelos bons velhos ardinas munidos de armamento mediático pesado e de nívél sensacionalista, esse sim o nosso verdadeiro drama.