Sacudir água do capote, ou o desporto luso por excelência!

Depois de um Inverno seco e calmo, sem grandes preocupações, surgiram-lhe naqueles dias algumas pequenas questões, mas também aí tudo foi resolvido de forma simples.

Como costumava dizer, nada que umas alterações aos regulamentos não pudessem ajudar a resolver e assim eliminar alguns estudos obrigatórios pelos estatutos.

Com tudo resolvido, olhou para o seu “Breitling” e viu que eram horas para sair. Como a chuva era intensa, teve de vestir o capote.

Já sentado na viatura da empresa, observava o caos que estava instalado na cidade, eram centenas de carros por ali a buzinar, a circular muito devagar, se é que se podia chamar circular àquela movimentação de lesma.

Lentamente o motorista ia tentando avançar, com golpes de volante, mão e pés ligeiros, ia ouvindo as notícias na rádio.

"As chuvas de ontem de madrugada causaram inundações domésticas, corte de vias rodoviárias e fizeram transbordar ribeiras o que causou duas mortes."

Até agora ainda não tinha ouvido nenhuma declaração do Primeiro-Ministro, José Sócrates, relacionada com as cheias, mas também não tinha visto a entrevista dele na SIC, onde provavelmente teria repetido o discurso habitual, já o sabia de cor, não precisava de o ouvir outra vez.

"Basta vir uma chuva e é logo isto", pensou em voz alta.

"Pois é senhor, basta uma pingas e as zonas para escoamento das águas, que não são limpas durante o tempo seco entopem", disse o motorista, achando que falara para ele.

Veio-lhe à ideia, aquele autarca o ano passado que não tendo como fugir aos problemas das inundações avançou que o culpado era o São Pedro, por ter feito chover demasiado.

No mínimo estúpido, podia ter falado do mau planeamento do território, da construção em cima de zonas naturais de escoamento de cheias, o desbastar da floresta e dos incêndios que prejudicam a absorção das aguas e fixação das terras, entre outros argumentos, gente de vistas curtas.

Se calhar o ideal era avançar já com uma declaração antes que ainda lhe apontassem o dedo.

"Estamos numa área de competência de outros. Tem a ver com as infraestruturas. O problema do ordenamento do território já não é o mais sério em Portugal", parecia-lhe bem. Quer dizer, era capaz de dar um pouco de barulho, mas o importante é que a sua declaração fosse a primeira.

Tudo em Portugal é usado como arma de arremesso político, sabia que lá a sede era um dos alvos preferidos, sabia também que a inundação era capaz de chegar ao primeiro piso, mas tinha de satisfazer os sócios do clube.

Além disso se todos passam a culpa uns aos outros, porque é que ele também não o podia fazer? Já adivinhava, aliás, que os outros também o iam fazer, iriam dizer que os regulamentos não são respeitados, que ele alterou os estatutos, enfim, a barulheira habitual.

Claro que ele teria que responder com os argumentos da falta de limpeza, má construção, desrespeito pela lei, enfim, também o habitual.

Atrasadíssimo, chegou à sede, molhado entrou no gabinete.

"Quer que lhe sacuda o capote, Senhor?", perguntou solícito o secretário.

"Não é preciso, eu sei muito bem sacudir a água do capote sozinho", respondeu com firmeza.

Qualquer semelhança entre a personagem e o Ministro do Ambiente, outro Ministro, outro detentor de cargo político ou autarca, não passa de pura coincidência, todas as personagens são fictícias. Como sabemos Portugal é um misto de ficção e coincidências.

38 comentarios:

quintarantino disse...

Para ajudar à festa e dado o adiantado da hora deixo, para já, este "take" da Agência LUSA:

O mau tempo sentido hoje provocou, até às 19:00, 1.960 ocorrências no Distrito de Lisboa, obrigou à evacuação de 121 pessoas e deixou 65 desalojadas, de acordo com o último balanço do Centro Distrital de Operações de Socorro de Lisboa (CDOSL).

Um balanço ainda provisório dá conta de 121 operações de resgate.

Durante o dia, foram mobilizados para o Distrito de Lisboa 2.214 bombeiros, 900 viaturas e um helicóptero que está de prevenção no aeródromo de Tires.

De acordo com o Centro Distrital , prosseguem neste momento os trabalhos de limpeza de ruas e esgotos, estando a situação normalizada.


Somos ou não somos uma piolheira? Cai um bocado de água, Lisboa fica submersa e estala logo uma guerra idiota entre um Ministério e as autarquias!

Tiago R. Cardoso disse...

quintarantino,
Como sempre todos passam as culpas para os outros, nunca ninguém é culpado, todos os anos acontecem as mesmas coisas e todos os anos lá vêem os mesmos argumentos, as mesmas ideias, mas resolver e intervir na base o problema é que é mais mau.

António de Almeida disse...

-Sacudir a água do capote aprende-se nas terras lusas desde tenra infância, ou não fosse este onde a culpa morre sempre solteira, ou então é apontada a qualquer sistema que já existe há anos. Um país que não ordena o seu território, não tem um modelo de ocupação e desenvolvimento definido, é um país de brincadeira. E quando se brinca, acidentes acontecem...

Paulo Vilmar disse...

Tiago!
Estas especialista em ironias finas! Quanto ao pobre São Pedro, aqui, constantemente ele é penalizado com culpas! no sul porque faz chover demais e no Nordeste porque não abre as torneiras...
Abraços.

Tiago R. Cardoso disse...

António de Almeida,
Faz aparte da cultura portuguesa o passar as culpas a outros, como escrevi este exemplo podia ter avançado com outros, onde a historia teria a mesma moral, as personagens é que mudariam, acredito que sirvam a muita gente.

Paulo Vilmar,
Deve ter as costas largas,o São Pedro, o que é de salientar é que a culpa é sempre dos outros, parece que até nisso somos países irmãos.

Blondewithaphd disse...

Sabes que te digo? Uma vergonha!!!!! Quero lá saber quem sacode a água do capote, gostava mesmo era que ganhassem juízo e aprendessem alguma coisa de vez em quando, enfim... acho que estou a pedir o mundo.
Good point!

bluegift disse...

É uma especialidade internacional convenhamos.
Eu custumo rir-me dos bruxelenses pelo pânico em que entram quando chove de forma mais forte (bombeiros, polícia, lagos e rios instantâneos por todo o lado) e digo-lhes sempre "morassem vocês em Portugal e iriam aprender o que é uma chuvada a sério!"
Por isso, olha, não sei que te diga. Concordo com essa do sacudir o capote em múltiplos assuntos, mas nos exageros de São Pedro e na incompetência dos homens em geral para lidar com eles já é outra estória...

Zé Povinho disse...

Não há culpados, como sempre aliás. O S. Pedro que ponha as barbas de molho, porque parece ser o único que ainda não sacudiu a água do capote, nem para dizer que os homens andam loucos.
Abraço do Zé

Sniqper ® disse...

Caro Tiago,
Uma excelente forma de escrita, onde encontramos informação na forma de um produto final "light", mas que é suficiente para de facto parar, pensar e ficarmos submersos na cheia de incompetência que são estes sucessivos governos.
Quem anda à chuva molha-se, eles por sua vez e como é habitual, sacodem a água do capote para o parceiros anterior, mas deixo a seguinte questão:

- Que capote vai aguentar as molhas constantes que somos obrigados a levar em cima do corpinho?

Será que não chegou ainda, ou vamos continuar a andar ensopados até aos ossos o resto da nossa vida? Morrem pessoas simplesmente porque choveu, isto é normal? Que raio fazem as autarquias e o governo central?
Nada, é a resposta, ou melhor o que fazem é gastar e sem explicações o dinheiro dos impostos que pagamos sob pena de irmos parar ao olho da rua, com tudo penhorado, lindo!
Até quando, pergunto eu, vamos continuar a consentir este carnaval?

Tiago R. Cardoso disse...

Blondewithaphd,
Colega, passam os anos as caras mudam pouco, mesmo as que mudam trazem sempre o mesmo discurso, a culpa é dos outros e não aprendem nada.

Bluegift,
Interessa-me particularmente a outra historia, a cultura do não é nada comigo, a cultura da culpa é do outro.

Tiago R. Cardoso disse...

Zé Povinho,
digam ao que eles disserem, a tradição ainda é o que era, culpados, o que é isso ?

Sniqper,
"Que capote vai aguentar as molhas constantes que somos obrigados a levar em cima do corpinho?"

Começo a achar que apesar de isto tudo, este povo que se queixa na hora dos votos, lá para 2009, irá lhes dar um capote novo.

E ai a festa continuará, mas mesmo mudando as personagens acredito que tudo se manterá, é já uma questão cultural e de mentalidade, será necessário que mudem as fundações, onde se avance não com um renovar mas construir de novo.

antonio disse...

O problema é do capote do tipo do Breitling, que é da melhor qualidade e comprado com o cartão de crédito da empresa; para além de não haver chuva que se lhe pegue, rapidamente o despe e o passa a outro... que neste país não faltam capotes para certos senhores.

A chuva é sacudida, o capote passa para outro e a culpa morre com o sofrimento do povo, num país paralisado e de baixa produtividade… talvez uma maior contenção salarial ajudasse a resolver o problema.

Afinal, recordo, não existe alternativa.

lusitano disse...

Só há um processo:
É retirar-lhes o capote!

"Porque quem anda à chuva molha-se" e os gajos, salvo seja, estão a precisar de uma "grande molha"!!!

Carol disse...

Este texto fez-me lembrara alguma coisa... Parece o guião de um policial, a preto e branco...

Quanto à chuva, meu amigo, é o costume! Neste caso, sinceramente culpo as autarquias e não é só em Lisboa que isto acontece. Em Espinho, por exemplo, este ano fui surpreendida com uma nova modalidade de limpeza às ruas da cidade. O lixo é varrido, junta-se num montinho e... ali fica! Ele é beatas de cigarros, plásticos, folhas caídas... Lindo de se ver!
E alguém se queixou, alguém reclama, alguém limpa alguma coisa?! Nada. Quem vier atrás, que faça e que limpe!

joshua disse...

Viram por aí um Ministro do Ambiente?

Tiago R. Cardoso disse...

Antonio,
Bem analisado, essa é a outra perspectiva que está no texto.
Mesmo com essa contenção provavelmente continuariam a abrigar-se da chuva, o que não falta para ai é abrigos.

Lusitano,
Mesmo que se lhe tire o capote, provavelmente encontraram outro mas esse mais privado.

Tiago R. Cardoso disse...

Carol,
O pior ainda é que quem vem atrás deixa sempre para outro, o tradicional tá a chover vou mas é abrigar-me noutro local, quem ficar que arrume a casa.

Joshua,
terá ido ao cinema ?

É um lugar seco para se estar, melhor do que andara chuva, no entanto não acredito que fosse, acho que um dia destes só lá andavam Menezistas.

antonio disse...

Não batam mais no Josh! o homem está de coração partido e penhor de um abraço, que esteve ali ao alcande de um suspiro...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Não sei se viram o "prós e contras" de ontem: um retrato da irresponsabilidade nacional. As cabeças já não pensam, engordam!
E, afinal, o que o ministro do ambiente tem feito nestes três anos?
Um bom texto o seu Tiago! Dava um bom argumento! :)

quintarantino disse...

Eu regresso para acrescentar mais duas ou três ideias.

O ministro podia ter esperado melhor ocasião para avançar com as suas explicações e não se esquecer tão rapidamente que a limpeza das linhas de água é responsabilidade da Administração Central.

Mas eu não deixo de lhe dar alguma razão quando aponta o dedo aos autarcas, embora o raspante também devesse ter sido endereçado aos seus próprios serviços.

Quando se permite que se desviem linhas de água, se canalizem e as coloquemos debaixo de betão a correr estamos à espera de quê?

Finalmente, quem alegremente despeja para as margens das linhas de água plásticos, resíduos sólidos de toda a espécie e feitio está à espera de quê?

No fundo, penso eu, somos todos culpados. Uns mais que outros, é óbvio mas todos culpados.

Dalaila disse...

Mais uma vez, a coincidência transforma-se em realidade, é natural que a chuva provoque danos, mas nada se faz para minimiza-los a montante,cada vez os solos são mais impermeabilizados, as ruas devem ser limpas regularmente, os saneamentos, os poços, e o sofrimento das pessoas que ficam sema nada, quem as entnede quem as percebe, quando acabar a chuva tudo passa, mas a eles não, as noticias calar-se-ão e tudo ficará na mesma

bluegift disse...

Eu também volta para dizer mais uma coisa importantíssima: já virão como a Blue escreveu "costume"? E como é que o ministra da educação ainda tem lata para falar na televisão?!
Esta gente não tem vergonha na cara... tudo na rua e à chuva!!!

quintarantino disse...

Blue, menina, mas que raio de português é este?

Tiago R. Cardoso disse...

Antonio,
Então? Uma ajuda ao pessoal, para os que ficaram curiosos sobre o Joshua, grande Joshua, passem lá no local dele.

J Francisco Saraiva de Sousa,
por acaso era habitual eu assistir ao programa, mas deixei de o ver muito pelas razões, que apresenta no texto do seu blogue.
Aquilo era um retrato da irresponsabilidade em Portugal ou, infelizmente, um retrato normal da realidade ?

Tiago R. Cardoso disse...

quintarantino,
Bom acrescento.
Ontem vi uma imagem no Site do SOL, deveras interessante, uma enchente tão alta que só se via o tejadilho de um automóvel, a sua volta a flutuar na agua, enormes quantidades de lixo.

Dalaila,
deixas algumas das muitas razões para a situação que ocorreu, não se aprende nada de ano para ano, entretanto em vez de avançarem para soluções, ali ficam a praticar o desporto nacional do empurra, a culpa nunca é deles é sempre do outro.

Eduardo P.L. disse...

Adorei o humor na definição de Portugal.

Forte abraço

Fa menor disse...

Bem...
são só coincidências! Baahhh!

Tiago R. Cardoso disse...

Eduardo P.L.,
pois é, se não lidarmos com a coisa com um pouco de humor rapidamente iremos pelo caminho da maioria, a depressão.
No entanto está a ficar muito difícil...

Fa menor,
Coincidências, ficção, empurrar para o outro, infelizmente normal, infelizmente...

mac disse...

Foi ridiculo ontem assistir à batalha de culpas...o que interessa é dizer "a culpa não é minha, é de fulano", agora resolverem os problemas, isso é que não.

NuNo_R disse...

bOAs...

O que posso eu dizer?!
Nada. A realidade é esta mesmo!

Nunca ninguém é responsável por nada e a culpa é sempre dos outros...

A não ser que o assunto em questão seja digno de orgulho e embevecimento pessoal. Aí o caso muda de figura... :(

abr...prof...

Peter disse...

Para se ajuizar do ocorrido, a todos os títulos lamentável e que, em meu entender, deveria ter tido uma palavra, uma, ao menos, dos mais altos responsáveis do País, não chega vir atribuir culpas a sarjetas entupidas.

Isso até eu diria e não sou ministro.

Compadre Alentejano disse...

E é este ministro do Ambiente, ajudante do outro, que autorizou a construção de uma grande infra-estrutura rodoviária em leito de cheia... Parece até que temos o (des)governo que merecemos...
Porca miséria...
Um abraço
Compadre Alentejano

Tiago R. Cardoso disse...

mac,
isso de resolver problemas dá muito trabalho, ainda por cima se os autores forem eles, ai é que fica mais difícil ainda.

NuNo_R,
A tradição é para se manter, infelizmente.

Tiago R. Cardoso disse...

Peter,
Mas teve de vir a correr antes que os outros chegassem primeiro e lhe atribuissem as culpas, falou, retirou-se e voltou para o gabinete quentinho.

Compadre Alentejano,
Constrói-se em todo lado, nem era preciso ser-se técnico bastava perguntar aos mais antigos que eles diziam-lhe onde era a habitual passar as cheias, mas o que importa é construir não interessa onde, depois ve-se e se existir problema reclama-se com os outros.

Fragmentos Culturais disse...

Continua com um humor muito 'fino'!

Eu nem queria acreditar!!

Lamento profundamente a morte de pessoas, sobretudo daquela condutora cujos relatos de testemunhas visuais são dolorosos de ouvir!

Sensibilizada pelo olhar em 'fragmentos!
Um beijo

Tiago R. Cardoso disse...

Fragmentos Culturais,
Nem eu queria acreditar que neste século ainda podessem acontecer coisas assim, onde perante uma tragédia, alguns ficam a por a culpa nos outros, pessoas que estão em cargos que lhes permitiria atacar os problemas, mas é mais fácil empurrar.
Eu é que agradeço o seu olhar aqui no Notas.

Cati disse...

É o terror... não li o texto como deve ser porque passei rapidinho, rapidinho para agradecer o teu "protesto"... eu vou tirar, digamos, umas "férias" de mundo louco, mas não vou eclipsar-me! E quando voltar... tu saberás!

OBRIGADA!

Um beijo!

quintarantino disse...

SEM PENAS, AMIGO ANTÒNIO, grande elogio e que publicidade te é feita.