O direito à greve e a espada de dois gumes

Num Sábado soalheiro e agradável demais para a época não apetece muito desperdiçar tempo em sinapses nervosas despoletadas por leituras sérias. Com os devidos pedidos de desculpas cá vai o artigo de hoje, que, por sua vez, me foi incutido pela leitura de um artigo polémico aterrado no meu colo a semana passada, Sábado, precisamente.

Nunca me detive muito a pensar se o direito à greve é legítimo ou não e se do seu uso advêm benefícios à Humanidade. Nos meios pensamentos que lhe dediquei ao longo da vida nunca se me apresentou como algo que eu defendesse acerrimamente. Nunca me apercebi que os trabalhadores lucrassem por aí além com as greves que empreendem e sempre considerei que, para que uns exerçam o seu direito, outros tenham de ser prejudicados e, numa perspectiva auto-centrada, a prejudicada era, por vezes, eu.

Ora, como me orgulho da minha abertura de espírito e porque rótulos de direita e de esquerda não me dizem nada, li o tal artigo que sustentava os prós e os contras do direito à greve. Não lhe fiquei indiferente, o que, pessoalmente, acho óptimo, porque nada pior do que ler coisas que não nos acordam e aí sim, aí reside o desperdício de preciosas sinapses nervosas.

Os trabalhadores europeus são os mais bem pagos e mais bem protegidos do mundo e da História humana. Os metalúrgicos alemães espirram e o país treme, os administrativos gauleses saem à rua e a orgulhosa França cede. A greve é, nesta perspectiva, a ferramenta mais potente e legítima que os mesmos têm para se defender de agravos num mundo inclemente em que se intentam drásticas mudanças nas relações laborais.

Os detractores do direito à greve alegam que este é um direito que lesa terceiros e que, portanto, é um direito questionável (têm razão). Defendem igualmente que as greves são marcadas deliberadamente em datas que causam prejuízos máximos a utentes de serviços e patronato ou em datas em que a falta ao trabalho se prolongará fim-de-semana adentro (não terão também razão?). Declaram que, frequentemente, as greves são marcadas precipitadamente, quando outras vias ainda não se esgotaram (também vejo razão nisto). E, por fim, invocam que nem sempre as greves se realizam sob pretextos válidos, justos ou pertinentes (certo, não?). Radicalizam, no entanto, quando afirmam que os sindicalistas são pessoas de trato fácil pois só a sua razão vale e só o seu ponto de vista é considerado o correcto: sem cedências, univocamente.

Do lado oposto da barricada, os defensores do direito grevista constatam que este é o mecanismo legal menos frágil que se interpõe entre quem trabalha e quem dá o trabalho (sim, é correcto). A greve é aquilo que, historicamente, elevou os trabalhadores europeus aos patamares de benefícios de que auferem actualmente (nem questiono este princípio). Estar em greve é a expressão livre da opinião e do direito à liberdade, direitos que não podem ser coarctados (claro que é uma justíssima razão). A greve não é um acto individual, mas uma luta por um Bem maior e colectivo (sim, sozinhos não vamos a lado nenhum). A greve não visa unicamente reivindicações no/do presente, mas a sua tradução no futuro (também não está mal visto). Se este direito deixar de ser consagrado, abre-se caminho para a implementação cega de leis, normativas e actos de cariz mais ou menos totalitário (medo bem fundado nos dias que correm).

Encontro-me numa espécie de terra-de-ninguém no que toca discernir para que lado pende preferentemente o peso desta balança controversa. Entendo ambas as perspectivas e, se, ab initio, me tenho sempre revisto tendencialmente nas primeiras premissas, condescendo que a greve é um direito inalienável ao qual muito devemos nos nossos dias e, se bem usado, ao qual muito ainda ficaremos a dever num futuro talvez não muito longínquo. O meu problema é que este é um direito que se deixou aviltar e banalizar e que, consequentemente, não terá a credibilidade de outros tempos primordiais. Com aquele artigo deixei de associar greves a sindicalistas empedernidos e a extremismos reivindicativos, mas também não deixei de me inquietar com o facto de haver um direito que obsta ao usufruto de outros direitos.

A Demos Cratia é, ainda, e desde os tempos clássicos de Péricles, um modo de governo imperfeito e, paradoxalmente, o que temos de melhor, de mais humano e de mais justo. Farei greve quando assim deixar de ser.

18 comentarios:

C Valente disse...

Direito á greve é gozar enquanto se pode
saudações amigas

quintarantino disse...

Nessa greve eu também alinharei incondicionalmente. Seja ela convocada pela CGTP/Intersindical, pela UGT, pelas Comissiones Obreras ou lá pelos tais metalúrgicos alemães.

Entendo, contudo, que possivelmente, em assunto tão delicado, o meio termo seria o preferível.

Existe bondade de posições nos dois campos. Foi à custa de greves furibundas que o mundo avançou e que os operários e trabalhadores conquistaram direitos e regalias que eram, até ali, inimagináveis.

Alguns derramaram sangue para que se chegasse onde hoje se está. Foram mártires e devemos honrar a sua memória.

Devemos? Sim, todos nós. Começando, quiçá, pelos dirigentes sindicais que se transformaram em marajás, em nababos que ano após ano, reunião de concertação social após reunião de concertação social, falência após falência sempre nos aparecem com os seus arrazoados!

Mais democraticidade, mais abertura, menos olhar para o umbigo por parte de alguns não lhes faria mal nenhum.

Digo eu, que não sou sindicalizado e nunca fui.

António de Almeida disse...

-O direito á greve é, e assim deve continuar, um direito inquestionável dos trabalhadores. Mas, o direito ao trabalho também, logo não aceito o princípio de piquetes de greve aos portões de empresas, onde alguns no exercício dum direito legítimo, pretendem cortar direitos a outros. As greves são mais ou menos eficazes, quanto são justas, em Portugal poucas o são, diga-se, por isso conseguem apenas efeitos mediocres, problema da banalização das mesmas. Pessoalmente nunca fiz greve, nos meus tempos de estudante, no liceu deparei-me com uma greve geral, como não me queriam deixar entrar nas instalações, eu e mais uns amigos ameaçamos chamar a polícia, obrigámos a que nos abrissem a porta das salas de aula, e permanecemos no seu interior 50 min. sem professores, foi simbólico, apelidaramnos de fascistas e fura-greves, mas conquistámos o respeito de professores e alunos, mesmo adversários políticos. Posteriormente, já no mercado de trabalho, um dia tive piquete de greve á porta das instalações da empresa para a qual trabalhava, meia dúzia de individuos, também numa greve geral, a empresa não tinha qualquer problema, queriam evitar que outros pudessem trabalhar, mais uma vez exigi a entrada, atrás de mim outros, mais uma vez a greve ficou por ali, até era amigo de alguns membros do piquete, o que facilitou o diálogo. Farei greve se algum dia a minha consciência assim o impuser.

aryanalee disse...

A greve é de facto um direito de quem quer demonstrar o seu e o descontentamento de muitos outros.
Diz-nos a história passada que houve efectivamente consequências positivas, quando decretadas com saber e prever.
Hoje em dia....greves à sexta feira, antes ou após um feriado não me convencem..
Bom fim de semana

NuNo_R disse...

Boas...

A greve é o último recurso de luta de um trabalhador.
Como tal somente deve ser utilizada quando o dialogo e a negociação não chegar a bom porto.
Mas sem ser usada de forma abusiva pois assim ficaraá desvirtuada e sem fundamento.
É claro que quando se faz alguma greve alguém irá sair prejudicado e também quem a convoca e quem a faz tb sabem disso.
Mas se também não for assim, não serão "escutados" pelos demais, Patronato e Clientes/Utentes.
Pois nesta vida em geral quem cala consente e se não nos calarmos e nos formos manifestando, talvez consigamos atingir o que pretendemos....
Que é melhores condições de trabalho e melhores salários...

E falo assim porque para além de ter tido allguams resposabilidades sindicais acrescidas, Sou Trabalhador!

abr...prof.. bfds

Manuel Rocha disse...

Não li o artigo a que a Blonde alude, mas do que aqui deixa parece-me que estão a ser misturadas duas questões: o direito à greve e o sindicalismo.

O exercicio de um certo tipo de sindicalismo é que "administra" a greve de tal forma que aquela que devia ser uma arma derradeira passou a ser a de primeiro rtecurso.

É curioso que já Lenine tinha sérias reservas em relação ao sindicalismo, defendendo que ele poderia transformar-se num instrumento de aburguesamento do proletariado e com isso derivar para aliado dos capitalismos.

É o que sucede.

O capitalismo moderno precisa de corporações que reinvidiquem mais mordomias burguesas para manter os elevados padrões de consumo sem os quais esta economia não funciona.

Nessa dinâmica o sindicalismo ( corporativo ) e a banalização da greve têm sido optimos aliados.

silvio disse...

O Iva poderá chegar aos 30% , o que é muito grave.
Leia aqui :
http://r-oculta.blogspot.com/2008/02/iva-pode-chegar-aos-30.html

Eu criei uma petição online, assine contra essa medida, e divulgue,
Link :
http://www.petitiononline.com/roculta/petition.html

silvio
.

O Guardião disse...

Compreendo a ponderação que faz, e até as críticas a alguma banalização da greve, que a humanidade nunca será perfeita, por muito que se tente. Há contudo um factor que aqui está omisso, que é o papel do governo na mediação dos conflitos laborais, do qual se demitiu nas últimas décadas, não só porque se assume de facto como patrão, como também pelo facto de não exercer a sua função de mediador e regulador do trabalho respeitando um equilíbrio de posições entre patrões e empregados. Visto esta evidência, pergunto: como se podem fazer valer os direitos conquistados em décadas e que são agora postos em causa e vão sendo suprimidos a cada dia que passa? Como assegurar um equilíbrio de posições? Há outras alternativas? Quais?
É um tema complexo, pois das greves resultam sempre perturbações que atingem terceiros, mas como defender então os direitos e a dignidade de quem trabalha quando são postos em causa?
Cumps

bluegift disse...

Um boa questão Blondie. Eu concordo com o direito à greve e já fiz greve quando achei necessário. Não concordo com o seu uso exagerado e sem que as negociações tenham sido esgotadas. O movimento sindical é muito mais forte no centro e norte da Europa Ocidental onde o direito à greve é sagrado, os trabalhadores sindicalizados ultrapassam os 75%, mas os sindicatos são muito mais activos e inteligentes que os portugueses e conseguem imensas vantagens para os trabalhadores. Ou seja, valem a pena. Negoceiam mais do que guerreiam. Algo que a nossa jovem democracia ainda não aprendeu. Os nossos sindicatos são abaixo de cão; e não é por estarem partidarizados, os mais a norte também estão conotados com partidos e funcionam.

bluegift disse...

Silvio, o valor do IVA é limitado pela Comissão, nunca pode chegar aos 30%, pelo menos nos tempos mais próximos. Vai buscar endereços email para spam noutra freguesia.

joshua disse...

A Demos Kratia está por aprofundar por o não ser de todo, mas uma Pluto Kratia.

Nesse aspecto, tem de haver um acordar doloroso como da Matrix que nos lobotomiza.

E, sim, tem de haver motivos bem justos e bem fortes que conduzam ao direito da Greve. E, sim, há outros mecanismos (radicados na publicidade e no ridículo) mais corrosivos e eficientes na denúncia de Um Abuso e/ou reivindicação de um Benefício.

À falta de melhor, de melhor organização e de maior imaginação,
há sempre a Greve de Zelo, que é quando o indivíduo se sente no limite mais Limite e no Limiar mais Limiar do Abuso.

Ora, penso que em Portugal, Blondie, os Professores foram em muitos casos acantonados nesse magnífico ponto.

Beijos

PALAVROSSAVRVS REX (joshua, muito joshua!)

Fátima disse...

Amigo,

Grande tema, greve ou não?
A greve é um direito mas fundamentada devidamente. Quem a faz, luta pelo seu descontentamento.

:-) um abraço

Isadora disse...

Surprise!

Can't find the letter with your e-mail address, so I've found this as an alternative.

Sitting here on a Saturday night, enjoying a glass of dry, full bodied red wine and almost spit it on the monitor when I read your last message. :) Had I known you've been waiting for me upstairs...well, I would not be sitting here with my wine alone.

About the basket - it contains only those things essential for an outing to such a magical place as you've shown us: white grapes, Jarlsberg cheese, crispy fresh bread, crystal glasses and a bottle of 2003 Demeter XY. Come, sit and tell me about the castle - and then I'll begin my 1001 stories.

Have a great week-end.

SILÊNCIO CULPADO disse...

Blonde
Excelente post que não vou comentar como devia por falta de tempo.
A greve é um direito do qual não se pode abrir mão mas deve ser usado quando se justifica e não como arma de arremesso em questões partidárias.

Tiago R. Cardoso disse...

O grande problema é a banalização da greve, por tudo e por nada logo avançam com ameaças e mesmo concretizam a greve, algumas devido à fraca participação andam perto do ridículo.

Depois temos as famosas centrais sindicais, onde meia dúzia de pessoas, dependentes de partidos, controlam tudo, exemplo foi agora na CGTP, onde não foi aceite a entrada na direcção de uma pessoa, que sendo o representante dos trabalhadores da AutoEuropa, era militante do bloco de esquerda, mais uma vez pluralidade não é bem vinda.

No dia em que eu vir uma independência perante os partidos, já agora umas caras novas, então ai irei com toda a certeza acreditar no sindicalismo e acreditar que estas greves são realmente para ajudar o trabalhador.

Compadre Alentejano disse...

Há greves e greves. Talvez esteja um bocado banalizado o direito à greve. Contudo, penso que esse direito se deve manter.
Fiz algumas greves, descontei no ordenado, e penso que, pelo menos essas foram justas. E greves com o meu próprio partido no poder...
Um abraço
Compadre Alentejano

lusitano disse...

Bem, para mim o problema da greve em Portugal, não conheço os outros paises, é que os sindicatos estão "cheios" de "sindicalistas politicos" e muitas vezes o direito à greve é utilizado como argumento politico, quando não mesmo para forçar decisões politicas que a maior parte das vezes não tem a ver com as condições de trabalho ou dos trabalhadores...
Por isso é um pouco complicado dizer que sou a favor da greve, embora reconheça e concorde que na "sua pureza" é um legitimo direito dos trabalhadores.

antonio disse...

Morreu-se nas ruas do Barreiro pelo direito a um horário de trabalho, pelo direito ao dia de descanso semanal consagrado.

Hoje olha-se para a greve como um anacronismo, pois eu pergunto: estaremos dispostos a voltar a morrer nas ruas do Barreiro para readquirirmos estes direitos que agora achamos, que o patronato mais saloio da Europa, legitimamente ponha em causa?

Deixemos ao patronato as visões de extrema direita, especialmente com travo a bloco de esquerda...