Lá falar de ética, falam eles... o pior é o resto!

Desde as 61.893 fotocópias de Paulo Portas até aos 300 despachos do ministro Telmo Correia, passando pelos incontáveis projectos, todos “feitos” por José Sócrates e as questões de incompatibilidade, o bombardeamento noticioso tem sido intenso. E ameaça continuar.

Somos invadidos por notícias, que reportam coisas mais sombrias da forma como se exerce política nos dias de hoje e se está nos altos cargos de poder.

Não entrando em aspectos jurídicos (pois nunca esqueço o que um amigo meu me disse que, neste domínio, "juntas dois advogados e consegues três opiniões” e, digo eu, às tantas todas válidas), permitam-me ver isto pelo lado ético.

Para quem não sabe, Ética é uma palavra politicamente muito usada.

Mas é assim como a religião, onde a grande maioria é católica mas não é praticante. Pois politicamente todos se definem como bastante éticos, mas já praticar é que é uma chatice...

O que se devia realmente discutir é esta ética que permite fazer 300 despachos numa noite antes de sair do lugar de ministro e depois se venha dizer que não se despachou, pois apenas se colocou um "Tomei conhecimento".
Se assim foi temos que dar os parabéns ao Sr. Telmo Correia. Não é qualquer um que trabalha tanto numa noite, ainda por cima ler tanto papel é obra.

Discutir a ética de se fazer tantas fotocópias de papéis do Ministério, depois de saber que estava de saída e depois vir esclarecer que eram tudo papéis pessoais. Se assim foi, muito bem, isso é que foi trabalhar mas sempre se pergunta é porque é que se copia papéis pessoais?

Discutir a ética de alegadamente assinar projectos de outros ou de supostamente exercer dois cargos incompatíveis.

Discutir a ética de um ministro ou um autarca não passar devidamente a "pasta" ao seguinte deixando-o a "nadar".

Discutir a ética de fazer-se nomeações a correr, fazer-se adjudicações de obras, entre outras coisas, quando supostamente estariam em "gestão" e antes que os novos detentores do lugar entrem.

Mas o que se devia discutir principalmente é a base, o facto de todos os dias vermos exemplos de atropelos à Ética por parte de políticos e outros dirigentes, alegando sempre que não fizeram nada contra a Lei, que estão e sempre estiveram dentro da lei.

Pode ser sim senhor, podem estar dentro da lei mas e as questões de ética?

Então e a imagem e o exemplo que transmitem para a sociedade?

Então e a coluna vertebral ou já a arrumaram há muito num canto, deixando assim de caminharem direitos e de pescoço levantado?

Um dos grande exemplos que eu vi, e reflecte esta sociedade que temos, vem da área desportiva. Num processo bastante mediático, que está em julgamento ou empancado por aí em algum trâmite legal, os arguidos foram acusados de tráfico de influências, ou seja, troca de favores.

Mediaticamente todos gritaram inocência e o normal seria se fossem realmente inocentes irem a julgamento e demonstrarem ao mundo que estão realmente "limpos". No entanto, a estratégia é outra, os advogados deles avançam que não podem ser julgados por que a lei não cobre aquilo de que eles são acusados...

Coitada da ética, apanha cada carga de porrada!

29 comentarios:

António de Almeida disse...

-Não acredito em coincidências, mas lá que elas existem é um facto. Bastou que Socrates tivesse um problemazito, logo surgiu outro visando o principal partido da oposição á direita, o PSD não é por estes tempos coisa nenhuma, por isso suspeito que não existirá até 2009 qualquer caso que atinja Menezes, ou seus mais próximos, a surgir algo no PSD, atingirá alguém que seja opositor de Menezes. Curioso ou talvez não, já repararam que o Telmo também é engº, profissão que nos últimos dias parece sofrer alguma falta de credibilidade nas assinaturas? E a respectiva Ordem? Permanece calada?

Tiago R. Cardoso disse...

António de Almeida,
Tudo coincidências, aliás coincidências é coisa que não falta em Portugal e claro eticamente tudo impecável.

Manuel Rocha disse...

Acredite o Tiago que já ouvi quem estivesse genuinamente convencido que a ética era uma ilha no mar Egeu ! Juro ! E era professor !!
:))
Estão bem colocadas as suas questões éticas.
Deixe-me acrescentar algumas mais simples, como não chegar sempre atrasado a uma reunião, não atender o telemóvel quando estamos a conversar com outra pessoa, enfim, ripar filmes e músicas de originais da net, fazer trabalhos inteiros de copia e cola sem referir a "vitima"...coisas básicas que todos os que se reinvidicam de muito éticos estão todossssssssss os dias a fazer !
E não me digam que é porque "os exemplos vêm de cima " !!

::)))

Zé Povinho disse...

Caro Tiago
A ética e a política são coisas distintas e não compatíveis. A ética deriva de conceitos morais, já a política rege-se por conceitos pragmáticos, mesmo quando exercida de um modo sério. Num mundo perfeito a ética e a política poderíam confundir-se, mas convenhamos que não é assim. Quando um político invoca a ética, ou é ignorante, ou demagogo. O único campo onde se pode invocar a ética, quando falamos de políticos, é precisamente no dos compromissos assumidos perante os eleitores, e disso estamos falados.
Abraço do Zé

Fa menor disse...

Realmente, Tiago, realmente...
É cada uma melhor que a outra!

Tiago R. Cardoso disse...

Manuel Rocha,
São de factos exemplos simples e identificam muito do que este país é, evidentemente quando se olha para cima e se vê os "tubarões" a dar semelhantes exemplos, todos pensam "Então eles fazem isso e eu muito honesto lixo-me sempre, deixa ver onde posso tirar uma coisinha para mim."


Zé Povinho,
Perfeitamente de acordo, eu é continuo a sonhar pelo aparecimento de uma mentalidade onde uma "coluna vertebral" seja o mais importante, onde a palavra e a honra sejam fundamentais. A continuarmos assim a puxar cada um para o seu lado, dificilmente isto mudará.

Fa menor,
Quando julgávamos que mais nada nos poderia surpreender, alguém trata logo de aparecer com algo novo.

Sniqper ® disse...

Caro Tiago,
Para já não falar do resto dessa gente, simplesmente porque é dar-lhes publicidade em demasia, venho recordar uma brilhantes palavras do recente e muito ilustre Bastonário da Ordem dos Advogados que disse o seguinte...

A justiça em Portugal é muito forte para os fracos e muito fraca para os fortes...

E mais não digo, porque afinal de conversa essa gente é farta, de actos ficam pelo narcisismo de ouvir o som da suas brilhantes vozes, em discursos que só alimentam suspeições e nunca os nomes dos ditos cujos, é o que temos e o que consentimos, mais nada.
Cumps.

bluegift disse...

A ética é exigida na razão inversa do poder detido, e deveria ser o contrário, pois é.
Aí estão mais dois casos em que se torna necessário criar legislação que salvaguarde os abusos. No futebol o problema começa logo pela falta de ética da propria lei...

Joshua disse...

Tiago, Ética e Política não têm de ser um paradoxo. Mas não nesta vida.

Tiago R. Cardoso disse...

Sniqper,
Exactamente, dar uns tiros para o ar, mas nomes nada, o importante é fazer barulho.

Bluegift,
Perfeitamente de acordo, a lei deveria se ir adaptando de forma a tapar os buracos que vão aparecendo.
Um exemplo concreto, porque é que existe tanto tempo entre as eleições e a tomada de posse do novo executivo ?

Joshua,
Eu sou um ingénuo, acredito que a ética, a honra, a palavra deveriam ser a base da politica, mas tens razão, não nesta vida.

Compadre Alentejano disse...

Éticamente este governo ou melhor, esta espécie de governo, já não devia estar lá. Com tanta trapalhada e malfeitorias que tem feito já devia ter "basado"...e de uma vez para sempre...
Um abraço
Compadre Alentejano

Carol disse...

Tiago, meu amigo, passei aqui de fugida. Tão de fugida que nem li os comentários que já foram feitos. Como é óbvio, tens razão quando dizes que ética e política não andam de braço dado, antes de candeias às avessas. Mas tinha que deixar aqui umas achas para a fogueira:

- Será ético um professor dar explicações remuneradas aos próprios alunos?

- Será ético um médico dizer a um paciente do SNS e cujo caso não é grave, que o opera ou encaminha para um especialista, mas só se for numa clínica ou consultório privado?

- Será ético um agente da autoridade avisar os amigos de que uma cidade vai ser cercada e a grande maioria dos condutores e viaturas fiscalizados à entrada ou saída da mesma (isto é um facto e aconteceu há pouco tempo)?

A ética, tal como o brio profissional deveriam ser incutidos e valorizados nos membros de uma sociedade desde a mais tenra idade.

MIMO-TE disse...

Tiago,

Estou aqui porque tu tens ética! :)
Se ter ética é ser ingénuo(a) então eu sou...

Coincidências? Será que pensam que somos tontos? Realmente neste país somos, pois só assim se admite que este género de coisas continue a acontecer sem que se tomem medidas que não só as punam como sirvam para justificar a existência de ética.

Infelizmente esta falta de ética e esta permissão para que a mesma falta permaneça, está em todas as àreas, não somente na política.

Mas Tiago eu que sou ingénua peço-te, continua ingénuo e a escrever assim :)))

Bjo
Mimo-te

Kalinka disse...

OLÁ AMIGO TIAGO

Hoje, longe de Carnavais, resolvi agradecer alguns prémios que recebi; depois...tive que nomear outros que merecessem o prémio, e, como acho que há blogs fantásticos, entre eles o teu, aviso-te que podes levantar o que te pertence, no kalinka.

Continuação de boa semana.

SILÊNCIO CULPADO disse...

Tiago
De uma leitura rápida aos comentários não posso deixar de reforçar o que diz o António Almeida. A coincidência do caso Telmo a seguir ao caso Sócrates.

E só um pormenor, Tiago, qual foi a tua fonte para chegar à noticia do Telmo Correia? Por acaso a comunicação social tão criticada no caso Sócrates?

Os eleitores têm o direito de exigir daqueles que os governam, ou que participam em órgãos de soberania com o seu voto, que cumpram os seus compromissos de honradez. Todas as formas de denúncia a essas ausências de honradez, são válidas e deverão ser investigadas. E nós devemos procurar defender a verdade, de forma isenta, doa a quem doer.

Tiago R. Cardoso disse...

Compadre Alentejano,
O amigo tem uma certa razão, no entanto junto com eles deveriam também todos os outros que mesmo estando na oposição, já provaram que estando no governo não são assim tão diferentes.

Carol,
perfeitamente de acordo, deixastes mais um exemplos da falta de ética, para não dizer falta de vergonha que graça na nossa sociedade.
Também acredito que sem uma educação verdadeira, onde sejam incutidos os bons valores e sem uma renovação de mentalidades, dificilmente iremos longe.

Tiago R. Cardoso disse...

Mimo-te,
tens toda a razão, a falta de ética não se resume só à politica, como se vê por alguns exemplos já avançados por comentadores anteriores.
Apesar de tudo tenho esperança que isto mude, mas a coisa está bastante escura...
Muito obrigado.

Kalinka,
Obrigado por se ter lembrado de mim, irei recolhe-lo e afixa-lo no respectivo lugar.

quintarantino disse...

António Arnaut escreveu em jeito de interrogação se ainda há "na política lugar para a ética, como queria Hegel, ou apenas para a astúcia, como ensinou Maquiavel?
E, se for este o caso, como parece pelo número cada vez maior dos seus discípulos, devem as pessoas sérias afastar-se da vida partidária, como acto de protesto, ou afrontar as labaredas em que se podem queimar?".

NINHO DE CUCO disse...

Boa noite, Quint
Deixa-me opinar sobre tão importante pergunta.
A vida partidária, tal como se apresenta, não merece credibilidade. Militar num partido é, ou assumir uma constante disciplina partidária engolindo sapos, ou procurar passar pelos intervalos da chuva a ver se nos calha qualquer coisita. Porque, se apresentamos ideias diferentes, começamos a ser olhados com desconfiança, marginalizados, sentimo-nos mal e acabamos por sair.
Nesta perspectiva não acredito que seja na militância partidária que se melhore a qualidade da nossa democracia. Os partidos têm que se regenerar e só o farão se se sentirem desapoiados.Há que lhes mostrar um cartão amarelo. Agora este é o meu sentir e admito que outros sintam doutra forma. E, nesse caso,ninguém se queima por defender aquilo em que acredita.
O pior Quint, é que a maioria das pessoas não acredita naquilo que defende.

bluegift disse...

Todo o despacho assinado após o resultado das eleições devia ser anulado até à tomada de posse seguinte. Ou então restringir-se a despachos estritamente necessários, nunca o número impressionante verificado. Há que fazer a caça a esses abusos e limitá-los por lei, só assim se evitarão os abusos.
A Ética tem que ser regulamentada, que remédio...

quintarantino disse...

Lídia, ainda tenho uma ténue esperança que seja possível obrigar os partidos a mudarem, mas travando o combate lá dentro.
Quanto ao facto de a maior parte das pessoas não acreditar naquilo que defende, isso é mal que não vem de agora. Agravou-se apenas. Tem de convir com os exemplos que vemos no dia-a-dia ...

Fragmentos Culturais disse...

Suponho que não há coincidências...

Esta 'febre' de despachos e de legislação por 'dá aquela palha' é doentia!!

Quanto ao conceito de 'Ética' segundo diz tão 'badalada' ultimamente [confesso que ando um pouco arredada da 'desinformação' que o país sofre] considero que a maior parte dos que a empregam deveria ler os filósofos da Antiguidade!

Claro que concordo com o teu 'alerta' sobre esta questão... a da Ética!

Sensibilizada pelo teu olhar sempre 'fiel' em 'fragmentos'! Não tenho andado muito comunicativa... fragmentos da vida...

Continuação de uma excelente semana!

Nota: o teu amigo advogado tem razão!

NÓMADA disse...

Quint
Quem acredita não deve recear nada. É ir em frente mas sem perder o sentido crítico também ele necessário e ético. O perigo é quando servimos apenas como tampões de choque ou para bater palmas.Conheço as "vidas" partidárias por dentro e, sinceramente, não me revejo nem acredito que ali se construam sociedades mais justas.Ali são arenas duns contra outros, clubismos fanáticos e ânsias de protagonismo.E não me refiro a um partido específico.
Também não sou capaz de sancionar pelo voto quem provoca situações sociais tão gravosas como as que encontro à minha volta.
É essa liberdade que nunca quero perder. A de não ver o mundo pelos olhos dos partidos.
Mas cada caso é um caso e esta é apenas uma opinião.
Um abraço

Tiago R. Cardoso disse...

Lidia,
Infelizmente questões de falta de ética podem ser encontradas em muitos e diferentes sectores.
Eu acredito que muitos quando entraram na politica ou quando começaram a ocupar os lugares, não estariam contaminados pelo sistema, ainda acreditavam em muitas coisas, no entanto aos poucos foram sendo moldados dentro das juventudes e aos poucos começaram a ganhar "tiques". Não acredito que num futuro próximo se consiga mudar alguma coisa, não com estas renovações partidárias que estamos a ver...

Quintarantino,
tu ainda tens a ténue esperança, eu olhando para a situação no momento e pelas perspectivas futuras, não acredito que isto mude, os aspectos negativos em Portugal não são combatidos, muitos consideram que fazem parte da cultura do país.

Tiago R. Cardoso disse...

Fragmentos Culturais,
Pena é que muitos que empregam, de forma descarada estes termos, como ética, tenham por norma ler a mesma cartilha de onde leram os seu lideres.
Muito obrigado pela sua participação, é sempre um prazer receber a sua visita.

Cati disse...

A ética está pelas ruas da amargura... assim como o respeito, a honestidade e a honra. Tenho visto pouco disso nos noticiários.
E é triste.

Um grande beijinho!

Tiago R. Cardoso disse...

Cati,
Como tu também tenho visto pouco desses aspectos fundamentais numa sociedade.

antonio disse...

Depois de ter recebido garantias de que o meu comentário não foi eliminado, por alguém recém convertido ao grande estadista com estofo de maratonista, repito-o outra vez.

Protestava eu então contra a ingratidão nacional! Então o homem desdobra-se em anotamentos e registos de estratégia, num total de 61.839 documentos pessoais e nós a criticar! O outro esforça-se noite a dentro, em trabalho puramente altruísta, uma vez que já estava de saída, podia deixar aquilo tudo em cima da secretária, mas não, ali afincadamente no duro! E nós a criticar…

Não é justo.

Tiago R. Cardoso disse...

António,
Não foi apagado não senhor, não teriam sido problemas técnicos teus derivado ao Carnaval ?