Herança envenenada

Há cerca de trinta anos atrás, os meus pais decidiram abandonar a minha terra natal -África do Sul, e regressar a Portugal. Aqui chegados, instalaram-se em Espinho, cidade à beira-mar plantada onde cresci.
Habituei-me desde cedo a viver com o mar por perto, a conhecer-lhe as marés e correntes, a sentir o cheiro a maresia a entrar casa adentro e a atravessar um longo areal sempre que desejava sentir o seu toque gelado no meu corpo...

Hoje não preciso de caminhar tanto para poder molhar os pés, ou antes, as pontinhas dos dedos dos pés, porque a água está ainda mais gelada do que nos tempos da minha infância e adolescência.

Essa longa caminhada já não é necessária, porque o areal das praias espinhenses diminuiu drasticamente. Aliás, como tem vindo a acontecer, também, em zonas como a Figueira da Foz ou a Vagueira, em Aveiro.

Daí que, na passada sexta-feira, não me tenha surpreendido nada com uma notícia na secção Ciência, do Diário de Notícias. De acordo com a mesma, e dando voz às críticas do físico, investigador e coordenador do projecto PortCoast – Filipe Duarte Santos, cerca de 67% da costa portuguesa está “em risco de erosão e perda de terreno graças aos efeitos das alterações climáticas”.
Duarte Santos destaca, ainda, que existe uma linha quase contínua entre Viana do Castelo e a Nazaré e, mais a sul, a Praia do Ancão e Vila Real de Santo António” onde é mais evidente essa vulnerabilidade costeira.

No entanto, diz o mesmo investigador, estes são dados preliminares que necessitam de ser confirmados através da realização de um estudo global da costa portuguesa. Até porque, como salientou, é fundamental perceber que zonas devem ser reforçadas para poderem manter a ocupação humana ou, pelo contrário, devem ser desocupadas, porque vão ficar submersas devido à subida do nível do mar”.

A inexistência deste estudo implica a inexistência de “ uma estratégia global (...) para fazer face às consequências das alterações climáticas” . O mais interessante é que essas alterações foram um dos temas definidos como prioritários pela presidência portuguesa da União Europeia...

Em que ficamos, afinal?

O ambiente deve ou não ser uma área prioritária para Portugal e para a Europa?

E, se a resposta for afirmativa, estaremos nós, enquanto cidadãos, a zelar pelos interesses ambientais do nosso país? E as autarquias, o governo que estão ou deveriam estar a fazer pela preservação da costa portuguesa?

Será este legado de “mamarrachos à beira-mar plantados” que queremos deixar aos nossos filhos e às gerações vindouras?

22 comentarios:

quintarantino disse...

Obviamente que apostamos em semear mais uns monos lusos à beira-mar. Não se pode desperdiçar nem espaço, nem oportunidades.
Isso são lá os outros, nós cá temos de fazer jus ao West Coast of Europe!
Oh, yes...

António de Almeida disse...

-Serão as alterações climáticas as únicas responsáveis pela erosão das nossas costas? Décadas de desordenamento, construção em cima de dunas, derrocada de falésias, açoreamentos entre outros factores bem lusos, não terão também a sua quota parte? Não na subida do nível do mar é claro, mas no desaparecimento dos areais. Vêm-me á memória as marés vivas na Costa da Caparica, com origem na movimentação de areias na barra do Tejo. Parece-me que o aquecimento global tem as costas bem quentes, é mais fácil culpabilizar outros, que olhar para as nossas práticas. Não estou a minimizar outros factores, estou mesmo é a atirar aos pecados cá do burgo.

joshua disse...

Boa parte da perda do areal que referes deve-se a estruturas humanas mais a norte: barras, sobretudo, e ao atenuamento cíclico das correntes marinhas.

As correntes marinhas Norte-Sul são ritmadas e temporalmente estáveis/previsíveis no curto e médio prazo e têm sempre o mesmo efeito cíclico de repor e retirar, reposicionando-os, os inertes.

O mais provável é que te dês conta de que em poucas semanas o areal espinhense se recompõe.

Não se deve negligenciar nisto tudo o papel humano, como dizia o António de Almeida, com os seus desmandos, negligências e erros.

Quanto à subida no nível do mar e ao Aquecimento Global, cabe-nos assinar petições, gerar sinergias inteligentes para reverter alguma tendência verificável nesse sentido. Há ainda muitos dados de verdade duvidosa, mas não desprezíveis de toda a nossa atenção.

Os Furacões Atlânticos e os Tufões Pacíficos cumprem o seu papel, cada vez maior e devastador, de um arrefecimento pontual e local, como sabemos.

A Tecnologia e a união das vontades poderá fazer milagres e coisas extraordinárias, mesmo à escala planetária, so I dream and believe!

PALAVROSSAVRVS REX

Manuel Rocha disse...

Carol,

Relacionar "alterações climáticas" e problemas de ocupação e dinâmica costeira é um "tiro na água".

O A Almeida deixou as notas certas para entender os problemas que refere. Tal como os leitos de cheia, a linha de costa devia ser e é zona de não edificação e onde as intervenções ( portuárias, p.e ) deveriam ser melhor pensadas.

A preservação possível da costa, que não é entidade estática, atenção, cabe a todos. Importa não esquecer que os mamarrachos são propriedade de pessoas concretas. Se não houvesse mercado para as "vistas de mar" não estavam lá !


Joshua,

Não resisto a deixar-lhe uma nota. Cuidado com a leitura dessas informações e com as ilacções que delas se podem retirar. Isto é um pouco como o "atentado" ao Ramos Horta que refere lá no seu lado...:))

Carol disse...

Quin, no fundo, no fundo, essa era uma questão retórica porque todos nós sabemos que a construção à beira-mar vale muito, mas mesmo muito dinheiro!

António, atenção que eu nunca disse que as alterações climáticas eram as únicas responsáveis por estes factos. Aliás, se reparar bem nas questões que deixo no final do texto, elas apontam noutros sentidos. E alguns deles eram esses que referiu no seu comentário.


Joshua, lamento dizer4 isto mas o areal espinhense nunca se poderá recompor. A perda é imensa e não há Natureza que consiga contrariar os disparates que nós, humanos, cometemos todos os dias!
I also dream and believe, that´s why I decided to write this post. I still have faith...

Manuel, meu caro, eu não estou a fazer apenas essa relação. Daí questionar, no final do post, que fazemos nós, enquanto indivíduos e cidadãos, para reverter essas situações; que fazem as autarquias e o governo?!

Tiago R. Cardoso disse...

Alguns alegam e agora parece que com mais força, que estas alterações todas são naturais, que isto das alterações climáticas é um processo normal, qualquer coisa a ver com a correcção do eixo da Terra, alterações de intensidade do Sol, segundo avançam são situações que se vêem repetindo ao logo da historia do planta.

O que seria interessante de perguntar a essas pessoas porque razão situações "normais" que deveriam acontecer ao longo de milhares de anos, subitamente acontecem num espaço de 50 anos, ou menos.

Tudo junto, as alterações climáticas pela acção sobre o ambiente global acompanhadas por intervenções directas no local pelo homem, o construir em tudo o que é lado, a construção de molhos, muitas vezes para protecção directa de um local sem terem noção de que existe uma implicação directa sobre outros, enfim um conjunto de factores, que nos coloca perante o desaparecimento da costa.

Podem alegar que o avanço do mar é normal, não discordo, mas a esta velocidade ?

Tiago R. Cardoso disse...

Carol,
voltei porque esqueci-me de te dizer que logo ás 19.15 aqui estarei, evidentemente, a ouvir e gravar a tua intervenção na rádio, já ali está em destaque,no lado direito, amanhã ponho lá a gravação.

Carol disse...

Pois é, Tiago, parece que é tudo normal, mas o que é certo é que a água está cada vez mais fria, o areal é cada vez menor e nós, humanos, estamos cada vez mais egoístas.

"Que interessa o que vai acontecer daqui a não sei quantos anos, se já não estaremos cá para ver?! Os vindouros que se amanhem!" - este é opensamento de muitas pessoas, infelizmente.

O pior é que não perceberam que nós já estamos a pagar essa factura. Ainda não perceberam que a mudança tem de ser iniciada o mais depressa possível, agora, já! Ainda não perceberam que é preciso mudar mentalidades, educar as pessoas e apostar forte no ambiente. Ainda não perceberam que, se a Terra morre, nós morremos com ela!

Carol disse...

P.S.: Obrigada, Tiago, pelo apoio moral. Vamos lá ver é se vão conseguir ouvir alguma coisa... A voz está ainda mais rouca.

Liz / Falando de tudo! disse...

Pulando de blog em blog, cheguei até o teu, e gostei demais!! Parabéns!
Pode até ser que nossos blogs nao se identifiquem muito, mas a gente pode trocar alguns comentarios de vem em quando, o que você acha?
Um abraço e apareça quando quiser.

Carol disse...

Liz: Sê bem-vinda ao nosso espaço! Penso que a ideia que temos de blogosfera é a mesma: trocar comentários, gerar a discussão comunicativa e produtiva. A diferença é sempre positiva, porque nos enriquece. Volta sempre!

Zé Povinho disse...

Por ironia do destino hoje somos governados por alguém que se dizia há uns empos defensor das causas ambientais. Alguma coisa mudou? Não! Pelo contrário piorou e um qualquer título PIN permite tudo e mais alguma coisa em prejuízo das leis vigentes.
É a vida, dizem eles, com o Vitorino a pontuar com o inevitável - HABITUEM-SE!
Abraço do Zé

Sniqper ® disse...

Minha Cara Amiga,
Tdos nós somos mais ou menos culpados pelo que descreve, essa é a grande verdade.
Não interessa quem tem mais ou menos culpa, o importante é que pelo nosso consentimento a destruição continua, em Portugal e no resto do planeta Terra, até quando?
Vivemos numa sociedade com um ritmo consumista, como tal só vamos acordando quando realmente a água nos toca nos dedos dos pés, sentindo nesse momento que de facto algo se está a passar, mas será que ainda vamos a tempo de parar?
Talvez sim, digo eu, mas para tal todos nós teremos de participar, de abdicar de muitas mordomias consumistas que contribuem para o avanço da destruição, essa é a grande verdade, mas será que vamos empreender essa luta, ou esperar até que seja tarde demais?
Em nome do progresso e da globalização estamos a assassinar uma civilização.

Blondewithaphd disse...

Resposta preliminar: Óbvio que o ambiente deve ser uma prioridade política e governamental. Inquestionável.

Agora, eu que já fui uma radicalista ambiental e que, no entretanto corrigi certas posturas fundamentalistas, não tenho a certeza de que se possa atribuir à acção humana, sobretudo, alterações climáticas num planeta pouco estável. A erosão costeira é precisamente isso: erosão. Nós é que, por diversas razões, temos vindo a invadir as zonas lacustres das quais os nossos directos antepassados fugiam. Por isso, estamos também mais próximos e mais alerta para as questões da mudança de linhas costeiras.
Acredito que a acção humana pode somente explicar parte das inúmeras alterações ambientais que ocorrem. Não desminto a sua influência, daí a urgência de se dar prioridade às políticas ambientais.
Quanto aos mamarrachos à beira-mar plantados... pois, esse é ainda um dos fundamentalismos que não corrigi para uma versão mais soft, por isso demito-me de expressar a minha escandalosa opinião.

Go get 'em Carol!!!!! I'll be cheerleading from the distance;)

SILÊNCIO CULPADO disse...

Carol
Infelizmente não é só na zona de Espinho que se faz sentir a erosão da costa. Acontece um pouco por todo o lado mas o Algarve é um exemplo vivo do desordenamento da construção, que matou espaços paradisíacos, em prol de interesses imobiliários. Quem conheceu há 3 décadas Albufeira, Praia da Rocha, Quarteira e Vila Moura entre outros, fica com o coração apertado com a devastação que os olhos confirmam agora.
Desapareceram falésias duma beleza inegualável, construiu-se em cima de dunas arrancando a vegetação que segurava as areias,foram colocados espigões nas praias para suster o avanço do mar... Simplesmente desolador. É a acção do homem no seu pior.
Beijinhos

São disse...

Custa-me escrever isto, mas parece-me bem que se pretende deixar ás gerações que aí vêm uma selva virgem de mamarrachos ... e desde o litoral até Espanha. Ou me engano muito.
Saudações.

mac disse...

Depois de terem estragado o Algarve, prepara-se agora a destruição da Comporta...As dunas, vegetação e as falésias existentes à beira mar estão lá para alguma coisa. Servem para proteger precisamente do avanço do mar e da erosão sobre a costa e negligenciamente, deixou-se contruir e destruir estas barreiras naturais. Daqui a alguns anos quem quis casa à beira mar, estará mais perto do que aquilo que desejava.

bluegift disse...

É preciso falar neste assunto, Carol, quanto mais melhor.
O chamado "domínio público marítimo" devia ser alargado e toda e qualquer construção sólida (excepto em madeira, para uso turístico e respeitando certas normas estéticas) devia ser "dinamitada" e removida. A zona costeira devia ser considerada petrimónio nacional de toda a população e nada mais.
A erosão pode ser devida a muitos factores que deviam ser estudados com isenção. Há zonas de erosão e outras de sedimentação; será ou não razoável inverter a tendência natural? Não sei. Haverá com toda a certeza especialistas que permitam determinar qual a melhor solução para o equilibrio geral do movimentos costeiros.

Carol disse...

Zé Povinho: Habituemo-nos, então, porque não vejo mudanças reais no horizonte!

Sniqper, é isso mesmo que precisamos fazer: abdicar de luxos e mordomias que nos podem custar a existência! Será uma escolha assim tão difícil de fazer?!

Blondie, claro que a erosão é um processo natural. Mas ao invadirmos espaços que não devemos estamos a permitir-lhe que alargue o seu raio de acção e é contra isso que temos de nos mobilizar. Eu sei como é bom viver junto ao mar, mas deixemos-lhe espaço de manobra.

Lídia, infelizmente esta é uma realidade que acompanha toda a faixa costeira do nosso país. è mesmo como dizes: a acçãodo Homem no seu pior!

São, parece-me que não se engana nada!

Mac, uma pergunta: barreiras naturais, o que é isso? Andamos aqui há tantos milhões de anos e ainda não percebemos que há um ciclo natural, existem factores de equilíbrio que necessitam de tempo e espaço para manterem tudo em funcionamente. Nós estamos a parar toda uma engrenagem perfeita!


Blue, a Blondie não vai achar piada nenhuma a essas intenções demolidoras... Mas concordo contigo!

bluegift disse...

Vai, de longe ou de perto vais ver que vai ;)

Ó girl, onde anda a gravação da tua participação no programa do clube dos pensadores?

Manuel Rocha disse...

Carol,

Obrigado pela resposta à nota que lhe deixei.

Tentarei clarificar o sentido do que escrevi.

Quanto a mim a questão é que num tempo que vive sob uma tremenda pressão mediática de noticia com potencial sensacionalista, a formação da consciência ambiental tem de ser feita ( a meu ver, claro ) sobre matérias sólidas ( ordenamento do território vs construção sobre orla costeira ) em lugar de se estruturar sobre questões muito mais "fluidas" ( eufemismo para falta de solidez de fenómenos como "alterações climáticas antropocêntricas").

Ou seja, temos imensa matéria de facto sobre a qual trabalhar consciência ambiental, alterando comportamentos e atitudes com décadas de erros acumulados, sem necessidade de para isso usar a "agenda mediática" que talvez nem seja nuito séria...

Espero ter sido mais claro...:))


Tiago,

Há de facto dinâmicas costeiras que são muito rápidas. Por vezes bastam fenómenos de conjugação de probabilidades ( sequência de temporais com a mesma orientação ) para que grandes alterações ocorram...Tem na costa sistemas lagunares que há poucos anos eram mar ( Melides, Salgados ). A intervenção humana na costa, acelera uns processos, trava outros, altera a lógica de terceiros. O que também não quer dizer que a dinâmica costeira "natural" pudesse ser menor...:))

Carol disse...

Blue, eu sei que sim! Quanto à gravação, não faço a mínima ideia. O Tiago é que é o responsável por esse departamento! lol

Manuel, não tem que agradecer. Sempre que posso gosto de ir dialogando com vocês.
Mas, agora, não tenho mais nada a dizer. Afinal, defendemos o mesmo: há que educar as pessoas, mudar mentalidades!