Errámos pelo Passado?

Este é um tema que me apaixona: Ciência Política em estado puro, um campo que oferece imensa matéria de reflexão, que, raramente obtém consensos e que é, paradoxalmente, uma área que regula a vida humana em sociedade e à qual, por muito que não gostemos da política (com letra minúscula), não podemos fugir. Este é também um tema que, na Quarta-feira passada, conheceu um desenvolvimento que há anos espero com alguma curiosidade. Se concordo ou não pouco interessa agora, uma vez que o fundamental é a discussão.

Façamos disto uma aula.

Em 1910, a Commonwealth of Australia, país representado pela Coroa Britânica e com um governo autónomo e democraticamente eleito sem nada a ver com a Grã-Bretanha, instituía políticas de assimilação para os nativos Aborígenes que se mantiveram até aos meados da década de 1970. As políticas de assimilação (a não confundir com políticas de integração) presumiam, no caso australiano, a retirada das crianças Aborígenes das suas famílias a fim de serem criadas como crianças brancas. O intuito era miscigená-las com a população caucasiana até que os indivíduos perdessem os traços autóctones. O propósito: a aniquilação progressiva e não genocídica da raça Aborígene. Milhares de australianos hoje não sabem a sua origem, milhares perderam todos os laços com o seu povo, milhares lutam com a incerteza identitária, milhares foram sacrificados sob estas políticas. Na Austrália, estes milhares de indivíduos apátridas de um povo chamam-se The Stolen Generation, A Geração Roubada, muitos são da minha idade, o que nos mostra que o passado ainda é contemporâneo.

Mais do que a restituição dos terrenos nativos ancestrais, retirados pelos colonos britânicos, o povo Aborígene tem vindo a reclamar um pedido formal de desculpas por parte do governo da Commonwealth of Australia. No ano dos Jogos Olímpicos de Sydney, 2000, o povo australiano pediu desculpas pelo que havia sido perpetrado sob a sua indiferença. O governo conservador de John Howard, no entanto, sempre se recusou à desculpa política alegando que não eram os governos do presente que deveriam desculpar-se pelos actos de governos passados. O povo Aborígene, os australianos e, claro, muitos politólogos defendem que o governo de um Estado, independentemente de quem o encabeça, é uma instituição una e perpétua e, por conseguinte, um governo do presente representa uma linha contínua de uma entidade viva. Logo, o governo poderia/deveria pedir desculpa em nome, não de um governo, mas do Governo enquanto instituição.

No final de 2007, um novo governo toma o poder em Canberra. Desta feita, Kevin Rudd, trabalhista, é o novo líder recém-eleito. Na Quarta-feira pediu desculpas ao povo Aborígene pelas décadas de assimilação forçada.

Não vou entrar no debate inútil da Esquerda vs. a Direita. O meu interesse é outro. Até que ponto se pode e/ou se deve pedir perdão por actos do passado? João Paulo II, líder de outra instituição perpétua, a Igreja Católica, também pediu perdão por actos persecutórios passados. Aqui mesmo no nosso pequeno burgo reclamou-se há bem poucos dias o silêncio formal por uma morte Régia. Até que ponto o presente tem a incumbência de se flagelar pelo passado?

João Paulo II e, agora, Kevin Rudd demonstraram grande sentido de Estado e grandes preocupações morais. Os seus gestos nobres apaziaguaram feridas, mas não as curaram. Ninguém, hoje, restitui a vida aos que pereceram nas fogueiras inquisitórias. Ninguém, hoje, solda as famílias Aborígenes dilaceradas nem encontra a identidade perdida da Stolen Generation. As instituições formais de um Estado são perenes, contínuas cronologicamente, mas…

Mas… e se um dia os sobreviventes do Holocausto (inegável) exigirem um pedido de desculpas ao Estado alemão? E se um dia as nossas ex-colónias nos pedem o mesmo? E se um dia os descendentes de escravos requererem do Estado Federal americano a desculpa pelo esclavagismo? E nós, descendentes históricos do passado, pedimos desculpas por quem nos antecedeu porque somos os herdeiros ou ignoramos o passado e só testemunhamos o presente? A Ciência Política dá que pensar, não dá?

Nota: Sobre a Stolen Generation v. o filme "Rabbit-Proof Fence" (2002) de Phillip Noyce baseado no livro Follow the Rabbit-Proof Fence de Doris Pilkington Garimara. Antídoto seguro contra a indiferença e um capítulo brutal e escondido da História recente de um dos países mais civilizados à face da Terra.

39 comentarios:

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Não devemos pedir desculpa por actos praticados no passado, porque isso é hipocrisia. Devemos, sim, zelar pela memória e resgatar o sofrimento de todas as vítimas. :)

quintarantino disse...

Nós não pedimos desculpas de nada.

Só as pedimos em momentos tão pontuais como estes em que, por força de um necessidade de marcar a diferença, acentuar uma novidade se avança com o "sorry".
No caso da Austrália, mais que as desculpas, importaria saber se foram ou serão anunciadas políticas que minorem o mal que se pretende ver desculpado?

No caso da Igreja Católica ouço dizer que o novel Papa recua nalguns domínios face ao seu notável antecessor e até encontrou razões "de iure" e de ciência para Galileu Galilei ter andado como andou.

As desculpas surgem, pois, ao sabor dos ventos da História e das conveniências do politicamente correcto.

No caso do Holocausto elas já foram presentes de várias formas e quase sempre direccionadas para o mesmo povo. Numa política de justiça equitativa, impor-se-ia, quiçá, talvez num tom de voz mais moderado, que aos também trucidados civis alemães que acompanharam a toque de caixa (e na frente, não na rectaguarda) o avanço estalinista pela Europa oriental ou que foram morrer na Sibéria.

E Espanha pediu-as aos Incas? E ainda existem Incas? Ou Aztecas? Maias ainda os há, mas querem-nos varrer para debaixo do tapete.

E aos índios norte-americanos quem lhes pede desculpas? Os americanos brancos ou os europeus que para lá mandaram os seus filhos indesejados.

Pois é, a Ciência Política de ciência quase que só tem o nome!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

As questões que coloca no final mostram que recorrer "à desculpa" é má "ciência política": abre precedente grava para a regressão à "idade da cavernas". Os aborígenes querem é vida fácil... Vida fácil resulta em decadência, como se vê aqui na Europa... Regressão cognitiva, atrofia mental, violência, gordura... Precisamos é de pessoas lutadoras, autodeterminadas, sem compaixão... A compaixão é terrível..., perfeitamente dispensável. Cabe-nos a tarefa de legarmos um mundo habitável e possível..., e não viver neste presente eterno.

António de Almeida disse...

-Assumir que no passado foram cometidos erros parece-me mais aceitável do que pedidos de desculpa. Salvo se forem expressos por voz própria, como aconteceu na África do Sul, quando muitos responsáveis pela política de apartheid, olhos nos olhos, cara a cara, pediram desculpa ás vítimas, ou o inverso, porque elementos do ANC na sua justa luta, também se excederam, e pelos erros pediram perdão, aí sim, pode realmente colocar-se uma pedra sobre o assunto. O resto é julgar a História, se esta política existiu na Austrália até á década de 70, existirão certamente responsáveis ainda vivos, a par das vítimas. E nem todos os governos da Austrália até á década de 70, foram de direita. Quanto a julgar a História, tenho dúvidas que tal deva ser feito, não deve a Alemanha pedir desculpas, nem os Estados Unidos, aliás Portugal, um dos primeiros países a abolir a escravatura, foi pioneiro no comércio de escravos de África para a Europa e América. A hipocrisia é desnecessária, mas agora está na moda o politicamente correcto...

quintarantino disse...

Perfeitamente de acordo com o António de Almeida.
O politicamente correcto está na moda e gera estas situações.
Só tenho pena que seja politicamente correcto ser-se politicamente correcto quando convém!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

E o que acontece no Zimbabwé (Rodésia), África do Sul,ou noutros países não-ocidentais? Contra-racismo ou, como diz Arendt, racismo étnico! Quanto às colónias portuguesas, o que aconteceu? Apoderaram-se de tudo, destruiram os países e agora somos os responsáveis???? Têm de aprender a trabalhar e a assumir as suas próprias responsabilidades, sem as atribuir aos outros!
O que acontece com as eleições nos USA? Os candidatos democratas vão ser vencidos pelo republicano. Mas, em vez disso, discutem "negro ou mulher"... Assim não vamos longe... Isto não é política autêntica. :(((

quintarantino disse...

Em desacordo consigo na questão dos "Donkeys" estarem a discutir a diferença "preto/mulher".

Hillary Clinton apresenta-se muito mais consistente que qualquer um dos candidatos e prova com o discurso que apresenta que estaria preparada para o cargo.

Barak Obama, por quem se têm lançado toneladas de foguetes, está a beneficiar de factores exógenos como Oprah, da complacência de largos sectores da Comunicação Social e do proprio tom de pele.
Até a avó lhe foram descobrir ao Quénia, embora até ele não pareça ter muito interesse por ela neste momento pois pode estragar um dos artifícios da sua campanha ... é que se repararem bem, e seguindo o conselho do Reverendo Jackson, Obama é o Michael Jackson da política ... ele é descendentes de pretos, mas parece branco!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Também apoio a Hillary Clinton. :)

quintarantino disse...

... pois, mas parece que a coisa está preta! ops, se calhar não se podia dizer ... e agora, vou saborear aquelas três magníficas "ponchas" do Caldeirão!

Jorge A. disse...

Sobre o post: sou contra o pedido de desculpas e faço minhas as palavras do António de Almeida.

Mas caro quintarantino, mais uma vez em desacordo consigo... anda, anda, torna-se norma. ;)

Quando diz, em relação à afirmação do j francisco saraiva de sousa:

"Em desacordo consigo na questão dos "Donkeys" estarem a discutir a diferença "preto/mulher"."

Olhe que de certa forma estão, e a culpa é de Hillary. Sempre que pode refere que eleger uma mulher para a casa branca é uma grande mudança (para não falar no choro fingido já por duas vezes no dia anterior a votações importantes), e o seu marido Bill tentou lançar a discussão da raça de Obama para a campanha (fez ricochete).

"Hillary Clinton apresenta-se muito mais consistente que qualquer um dos candidatos e prova com o discurso que apresenta que estaria preparada para o cargo."

O discurso é pior que o de Obama, e as ideias não diferem tanto quanto isso... gostava de saber onde Hillary é diferente, e para melhor, do que Obama.

E para alguém tão bem preparado para liderar o país mais importante do mundo tenho a focar dois pontos: fez uma má avaliação na questão da guerra do Iraque; está a fazer uma gestão da campanha péssima quando tinha tudo para ser a vencedora (má gestão do dinheiro disponível, erros tácticos grosseiros, etc...). Isto para não falar que na década de 90 foi incompetente a implementar a sua reforma para a saúde (ainda bem, digo eu...) e agora surge como a salvadora do sistema de saúde americano.

Paulo Sempre disse...

"Da discussão nasce a luz".
O acaso "tranportou-me" a este seu "espaço". Bendita a hora!!! Obrigado
Abraço
Paulo

Zé Povinho disse...

As desculpas tardias mais não são do que hipocrisia vã. Nas mentalidades há um estado evolutivo, tal como nas sociedades, e o que importa mesmo é não se cair em erros já praticados no passado, e lutar pela igualdade de direitos e oportunidades. Isso é que é realmente importante, o resto é só para a fotografia.
Abraço do Zé

Blondewithaphd disse...

Não gosto muito de vir aqui deixar comentários nos dias em que escrevo, prefiro que a discussão se desenrole. Mas parece-me que há aqui uns pequenos pormenores que necessitam clarificação.
Ponto nº1: Que é isso de "má ciência política"? A Ciência Política é um dos ramos das Ciências Sociais que se ocupa do estudo da política tal como a Biologia se ocupa da vida ou a Geografia do espaço terrestre. Por acaso há má Biologia ou má Geografia? No caso vertente, a Ciência Política avança justificações em prol ou não de pedidos de desculpa desfazados no tempo. Convida ao pensamento mas não é valorativa/normativa.

Ponto nº2: O caso dos Aborígenes. Pois... um povo que perdeu a identidade, as terras, os modos de vida, que vive em reservas, um povo cujo último sobrevivente exclusivamente aborígene morreu no séc XIX, um povo que já perdeu quase três mil formas dialectais, um povo que não opôs resistência armada aos colonos (contrariamente aos Maoris neo-zelandeses), um povo que tem a mais alta taxa de desemprego na Austrália, os maiores índices de depressão, suicídio e alcoolismo, a menor esperança de vida, as maiores percentagens de famílias disfuncionais é um povo à beira da extinção. E vêm agora perverter e descontextualizar as teorias da Hannah Arendt que, juntamente com a Susan Sontag, é apenas uma das mais brilhantes pensadoras do séc XX?

Obviamente que este comentário é endereçado a j. francisco saraiva de sousa.

Peter disse...

A História segue o seu curso, não se pode voltar atrás, não se pode remediar o irremediável. Aceito e aplaudo que um Governo se penitencie pelos erros praticados, procure corrigi-los e indemnizar os prejudicados.
Mas isso não fazem eles.

Aceito igualmente a reabilitação de personagens proscritos, como foi o caso de Galileu, ou talvez não, porque foi a sua obra, fruto do seu saber, que o reabilitou a si próprio.

Não aceito que:
- se apague a História, prática comum na ex-URSS e agora em Inglaterra a propósito do Holocausto.

Não é ignorando-o que ele deixa de ter existido.

A destruição de estátuas, a mudança do nome de ruas, de pontes ... se a primeira corresponde a uma reacção das massas populares, já a mudança dos nomes é pensada, planeada e posta em execução pelos novos Senhores do Poder, eles mesmos futuras vítimas, quando forem apeados.

A História segue o seu curso ...

bluegift disse...

Ninguém no presente tem culpa do que aconteceu no passado... a menos que persista no mesmo tipo de política.
Creio que os pedidos de desculpa a que hoje assistimos se destinam, prioritariamente, a deixar clara uma distanciação a favor de um presente claramente mais humano e de maior respeito pelas minorias e valores de cada um.
Se os aborígenas são "feios" e não "trabalham" nem "vivem" nem "aproveitam a terra" em acordo com uma visão ocidental, tal se deve mais à mentalidade estreita e impositiva de certos grupos que insistem em olhar e interpretar o mundo segundo uma lógica arrogante de pretensa "superioridade" e dominância do mundo ocidental.
Que se defenda a mentalidade ocidental no seu próprio espaço estaremos todos de acordo (apesar de...), mas impô-la a outras civilizações pretendendo que a ocidental é a mais "correcta" e os outros são uns "preguiçosos" porque não trabalham nem aproveitam os recursos, é pura ignorância e falta de sensibilidade para entender as múltiplas manifestações de vida no planeta.
Ideias como estas revelam um etnocentrismo exasperante, não é verdade Francisco? ;)
Assim estamos muito mal em matéria de filósofos :))

bluegift disse...

Peter, indemnizar? Quem, nós? Vira essa boca p'ra lá!!!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

De facto, sou orgulhosamente todo ocidental e não vejo como se pode defender as minorias a não ser em termos ocidentais! A Razão é Ocidental: é um facto incontornável. A democracia é ocidental. A ciência e a tecnologia são ocidentais. E a política não é uma ciência e ainda bem! São os ocidentais que protegem essas minorias! Não percebo como se pode analisar esses problemas a não ser com instrumentos ocidentais.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

BlueGift

Como sabe, os aborigenes pertencem a outro ramo, conforme demonstra qualquer estudo biológico sério. Por uma questão política, esses estudos são proibidos! :(
Não estamos mal de filósofos mas sim de cidadãos que não pensam. A igualdade é uma ideia falsa. Não somos iguais. Se o fossemos não seria necessário defender a diferença!
Arendt não aprovaria essa "desculpa" porque é filósofa. Basta ler o livro Crises da República! Sontag não se dedicou à política. Saber se são as melhores pensadoras do século passado é outra história, porque objectivamente não são! Adorno, Marcuse, Sartre, Heidegger, Bloch, Lukcás, Wittgenstein, Russerl, Husserl, Ponty, Bergson, Horkheimer, uma infinidade deles bem superiores. E reafirmo a política não é uma ciência nem pretende ser tal coisa. Além disso, a ciência é falível... :)

Blondewithaphd disse...

Caríssimo,
Bluegift e Blondewithaphd são duas instâncias distintas. Considere-as como tal por gentileza.
Se o seu travejamento mental se quedou pelo séc XIX recomendo-lhe a leitura dos estudos de, por exemplo, Henry Louis Gates, Jr. e porque não do influente "Social Darwinism in American Thought" de Richard Hofstadter (já que também prefere a masculinidade ao pensamento feminino).
Saberá também que o pater familias do darwinismo social, Herbert Spencer, cujos fascinantes e completíssimos estudos pioneiros não podem deixar de ser estudados como os estudos de Freud estão para a psicologia, é um autor analisado e contextualizado num plano historicista e que, a sua linha de pensamento, se bem que notável e inegavelmente importante, já foi, há muito corrigida.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Blondewithaphd

O darwinismo social sempre foi uma ideologia reaccionária. Spencer e Freud já foram, mais o promeiro do que o segundo! Não percebi a sua "irritação"... :(

Blondewithaphd disse...

Claro que não percebeu...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Blondewithapd

Contudo, penso que propõe um nivelamento a partir debaixo... Essa é a ideia que critico. Supostamente defende a diferença, mas depois nivela a partir debaixo...
Quanto ao masculino versus feminino, para mim o que conta é a qualidade. Referi H. Arendt que é mulher e que nunca defendeu tais argumentos sexualizados. E tb não respondeu aos meus argumentos... :)

Sniqper ® disse...

Pois é, pedir desculpa é de facto um modo de ficarmos bem vistos aos olhos dos outros, simples, eficaz e que nos coloca sempre num patamar de arrependidos, podendo deste modo fazer mais umas quantas e voltar de novo a pedir desculpa, simples.
Quando se faz algo, deve-se começar por analisar com rigor todas as consequências, prevenindo assim as situações que depois surgem e são tratadas com o remédio eterno das desculpas, não será?
Se existe uma situação que detesto é falsos arrependidos, por eles este mundo continua a caminhar na senda do "salve-se quem puder", e tudo o mais é pura demagogia.

Cumps.

Manuel Rocha disse...

Erramos pelo passado ?
Sim ! Em "barda" !

Desculpas por isso ?
Pior a emenda que o soneto, não resolve nada, pois ainda não há como regressar à História senão nas comédia de ficção.

Lamentar erros passados, isso sim, podemos e devemos. Como ? Construindo e divulgando memórias que não sejam meras lembranças "lavadas" pelos anos,mas compreensão bem informada que nos possa ajudar a construir futuros com sabedoria.

Disse um dia S Suntag que " o Ocidente como civilização era o cancro da humanidade ". Um comentário não é local onde caiba essa discusssão. Mas cabe deixar nota de que se efectivamentre assim é, também é o Ocidente quem melhor posicionado parece estar para resolver a "doença", o que seguramente não se alcança com "pedidos de desculpa".

lusitano disse...

Tenho para mim que é mais "siginificativo" as nações, os povos, as instituições, reconhecerem publicamente que erraram, do que o pedido de desculpas, que "cheira" muitas vezes a uma solução, sobretudo para acalmar consciências, e para "obrigar" os "ofendidos" a calarem os seus protestos.
A história por muito que queiramos situa-se nos tempos em que aconteceu e não "deve" ser vista à luz dos nossos tempos.
O que no tempo em que aconteceu não constituia um "erro" grave, hoje reveste-se de um "crime terrivel" á luz de uma sociedade totalmente diferente.
Claro que há crimes que o são sempre, porque já no tempo em que aconteceram o eram, como o holocausto, como as purgas soviéticas, e por aí fora.
O pedido de perdão por parte de João Paulo II, tem a ver com o reconhecimento dos erros dos homens da Igreja, e é realizado, esse reconhecimento, com um pedido de perdão para seguir a praxis da Doutrina da Igreja, para seguir os ensinamentos de Jeus Cristo, isto no meu entender, que sou cristão católico apostólico romano.
Resumindo, se o pedido de perdão, ou o reconhecimento do erro leva a uma pacificação e a um melhor entendimento entre as pessoas e os povos, então é de aplaudir e "implementar", mas nunca numa atitude vazia de sentido, apenas para ser "politicamente correcto".

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Penso que a nossa amiga Blondewithaphd andou a ler Austin! :))))

bluegift disse...

Francisco,
Não há Ciência Política? Tem a certeza? Seguindo essa linha de pensamento também podemos chegar à conclusão que não existe Francisco, é pura ficção... Sabes bem que em Filosofia tudo é possível tudo depende das permissas e do contexto considerado.

Qual é o problema dos aborigenes terem várias caracteristicas que não pertencem ao homo-sapiens? E mesmo se fossem macacos, qual era o problema? É razão que justifique as atrocidades inqualificáveis cometidas pelos ingleses? E em nome de quê? São eles que têm de aprender a trabalhar ou nós a deixá-los em paz com a sua vida? Ser superior é compreender a diferença como parte de um todo universal e não querer formatar tudo em redor em acordo com a nossa imagem e semelhança.
Tal como o Manuel diz, somos um cancro, sobretudo quando ultrapassamos as nossas fronteiras, e um cancro difícil de debelar.

Espero que um dia, pelo menos, o Francisco perceba do que se está a falar neste post. Será realmente um sinal de... verdadeira "Superioridade"! ;)

quintarantino disse...

Vejo por aqui que já se discutem características e apegos.

Uns gostam de trabalhar, outros nem por isso ... uns fazem isto, outros não fazem nada disso ...

É possível e perfeitamente admissível que se tenha este ponto de vista. Basta estar atento. E ver com olhos de ver que até nós, os ocidentais, nos tropicalizamos quando vamos para o Hemisfério Sul.

Eu, se fosse aborígene australiano, também era capaz de ser candidato àquelas características de que aqui se falou. Pelo calor, pela dificuldade em encontrar muito mais do que aquilo que a própria Natureza nos dá, pela ignorância da ambição de acumular bens materiais, pelo ... tanta coisa.

Fiquei foi preocupado com a descoberta que fiz a partir daí (e nem sequer me atrevo a citar autores pois corro o risco de me caírem em cima e porque já descobri que há por aqui quem tenha artilharia mais pesada que a minha): devem ter emigrado muitos aborígenes cá para Portugal ... é que a avaliar pelo estado mental a que chegou a maior parte do "portuga" médio!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

BlueGift

Eu nunca disse que os aborigenes não mereçam que os deixemos em paz!
Acho mesmo que devem continuar a levar as suas vidas nas áreas que lhes foram reservadas! Mas isto sem sacrificar o Ocidente!
Sou como Spengler: se tiver de morrer, morro com as armas nas mãos.
A política não é uma ciência ou, se é ciência, então não sei o que é ciência, embora até pudessemos fazer umas experiências cruéis com os políticos... Pelo menos, poderiam ser cobaias e morrer com alguma dignidade, sobretudo os nacionais. :)))

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

BlueGift

É provável que estejam mais próximos dos "macacos"... (n fui eu que usei a expressão). Mas, quem os conhece de perto, dizem que são macacos agressivos... Outro exemplo: os nossos amigos de Timor, muito agressivos... Mas respeito tb isso... Afinal, somos diferentes! :)))

Rui Caetano disse...

Um texto com uma reflexão pertinente e sempre actual. Um bom final de semana.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Falando filosoficamente, em sentido estrito, cada um de nós só pode ser (moderadamente) responsável pelos seus actos. Criar uma responsabilidade colectiva é uma ideia terrorista! Porque é o mesmo que assumir uma versão secular do "pecado original". Estaremos sempre "condenados". O perdão tb tem esta dimensão "individual": só eu posso perdoar o outro que me ofendeu ou prejudicou. Um perdão colectivo é outra aberração: como posso perdoar ou pedir desculpa por aquilo que não fiz ou pelo que outros que não conheço fizeram? Pura hipocrisia! Ou Má-Fé ou...
O que podemos fazer é dar-lhes uma oportunidade de "vida digna". O Papa pode perdoar, porque o perdão faz parte da sua visão do mundo. Ligamos ou não ligamos: tanto faz! Aliás, Galileu não precisa desse ritual: está salvo nos esclarecidos! :)

Blondewithaphd disse...

Ó vida santa, e pode-se saber o que é que a Blondewithaphd andou a ler de Austin? Perdão, não é suposto ser Austin Powers, ou será? Espera, se calhar era Jane Austen! Acho que estamos a ir numa de "Pride and Prejudice" nitidamente em vez de nos ficarmos por "Sense and Sensibility", mas enfim, é tudo muito relativo quando o enciclopedismo se arma em bandeira.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Oh a Blondewithaphd gosta de brincar com as palavras! Contudo, não era essa a obra mas a outra, onde ele diz que falar é fazer... Tb gosto de Austen! :)

Compadre Alentejano disse...

Não concordo com o pedido de desculpas. O governo australiano deve é perguntar o que pode fazer para rectificar ou, pelo menos, amenizar o seu grande erro.
Agora, entre aborígenes e descendentes de condenados à morte ingleses, venha o diabo e escolha...
Uma grande ofensa que se pode fazer a um australiano é perguntar qual era o número (de presidiário) do pai...vão mesmo aos arames...
Um abraço
Compadre Alentejano

Tiago R. Cardoso disse...

Evidentemente que se pede exige um pedido de desculpas, evidentemente que se exige um pedido de desculpas sentido, de que aprendeu e se arrepende das atrocidades que foram feitas em nome da nação, por preconceito ou em nome de uma fé.

Seguindo aqui o exemplo deste nosso amado país.

Orgulhosamente cantamos as nossas descobertas, gritamos que fomos os descobridores, que descobrimos o mundo, que somos uma nação valente e imortal, nessas alturas não interessa se isso foi à centenas de anos apenas interessa o encher o peito de orgulho.

Quando é para reconhecer o mal que foi feito, dizer que somos culpados de muitas atrocidades, injustiças, escravatura, etc. Nessa altura então avançam logo que isso faz parte do passado, é da responsabilidade dos antigos, mas nós não samos a continuação deles ?

Típico, para colher louros todos aparecem, para prestar contas ai é que é mais difícil.

bluegift disse...

Tiago, para prestar contas teríamos de colocar quase toda a população ocidental e oriental no banco dos réus... mea culpa mea maxima culpa.

joshua disse...

Vi pela BBC em directo e reparei que as lágrimas rolaram.

Foi um Espectáculo de Ciência Política e de estratégia. Pedir desculpa é fácil. Complicado é restituir.

PALAVROSSAVRVS REX

Carol disse...

Como diz alguém que me é muito querido, as desculpas não se pedem, evitam-se!
Para quê pedir desculpa, se as políticas descriminatórias, persecutórias e humilhantes se mantém?!
A Igreja pediu desculpa pela Inquisição, mas aprendeu a respietar a diferença? Não!
Na África doSul uns pedim desculpa aos outros, mas vive-se em harmonia e em prol do bem-estar do país, da sua economia? Não!
Não gosto de hipocrisias. PARA SE SER HIPÓCRITA, PREFIRO QUE SE SEJA POLITICAMENTE INCORRECTO, MAS SINCERO!