Enquanto Alegre barafusta, António Costa mina?

A nova lei eleitoral para as autarquias locais ainda não saiu da forja e continua a merecer contestação.

Neste momento, o PSD, procurando satisfazer todas as partes, propõe alterações que permitam coligações pós-eleitorais e a concessão de mais competências e meios financeiros às Freguesias para assim compensar a perda do direito de voto na aprovação do Planos de Actividades e Orçamentos da Câmara Municipal por parte dos presidentes de Junta de Freguesia que, como é sabido, têm assento por inerência na Assembleia Municipal.

Está reduzido a isto o PSD: o que ontem era verdade, hoje é mentira!

Mas em Portugal, já se sabe, qualquer alteração ou novidade é admitida desde que rapidamente se transforme numa manta de retalhos para agradar a gregos e troianos.

Quem também apareceu na liça foi António Costa, presidente da Câmara Municipal de Lisboa, que reiterou as suas objecções ao projecto de lei afirmando que “é uma solução que produz uma maioria artificial na Câmara e não a reproduz na Assembleia Municipal”.

“Se temos uma boa experiência ao nível das freguesias e dos governos da República porque é que se vai arranjar uma solução que nunca foi testada em sítio nenhum e tantas dúvidas tem suscitado”, questionou o autarca da capital.

Num fim-de-semana em que exultaram os noticiários e os comentadores com a presença de Manuel Alegre, penso que passou despercebida esta pequena alfinetada de Costa.

E não devia, pois é um sinal (ténue, mas um sinal) que António Costa quis sair do Governo para deixar José Sócrates amadurecer, cair de podre e regressar.

Há diferenças na actuação de ambos.

Alegre, que agora se reivindica como um emérito defensor do povo mas com o qual pouco gosta de privar, não tem uma razão sólida e consistente para fazer mais que criar uma “corrente de opinião” dentro do PS. Nisso, confirma a velha máxima de que onde estiverem dois socialistas há uma tendência.

Costa, por seu turno, é um daqueles políticos feitos dentro da política, que tem sabido gerir com mestria a sua carreira e que tem uma razão: ambiciona ser o primeiro. Não que se lhe conheça uma ideia, um projecto alternativo, embora Alegre também apenas divague sobre conceitos vagos. Mas enquanto um tem a ambição de lá chegar, o outro gosta assim de umas coisas etéreas.

Andam todos entretidos com o Manuel Alegre (não percebendo que este luta pela sobrevivência política), e há alguém que já trabalha no pós-socratismo.

Vão por mim!

31 comentarios:

aryanalee disse...

Neste País de brandos costumes, o que ontem era verdade...amanhã pode ser dúbio...depois de amanhã é pura mentira...e no dia a seguir pode vir a ser um acto irremediável
Uma óptima semana

Sniqper ® disse...

Comento esta crónica com palavras de um amigo meu, pessoa de bem, portador de uma cultura imensa e reconhecida através de muitos livros publicados...

Quando me pergunto ou me perguntam por que razão as crónicas não têm como assunto a política local (onde está a oposição?) ou nacional (que me dizes da versão cavaquista socialista?), respondo ou respondo-me: a maioria dos políticos não merece que nos lembremos dela quanto mais uma crónica. Presentemente, não há Política nem ideários, mas economia e os políticos seus agentes e propagandistas. Não há causas públicas, mas sede de protagonismo pessoal. Não é serviço público, mas meio de auto-governo. À volta de cem mil “militantes” dos partidos do centrão (melhor: a sua nomenclatura) impõem nas chamadas directas os dois políticos que, depois, milhões de eleitores terão de escolher sem outra alternativa. O vira político do centrão não deixa de ser uma forma escondida de ditadura. E, se não fossem as repercussões que tudo isto tem na nossa vida, deixá-los-ia, de boa vontade, a falarem sozinhos. Mais: onde está o dito “quarto poder”, quando os media estão mudos, surdos ou governamentalizados? Não admira, assim, que, cada vez mais, sejam os blogues e alguma imprensa regional os únicos espaço de liberdade e de verdade que nos restam...

Quem é, perguntam vocês? Resposta simples, procurem. Quando a nossa vontade é pouca os nossos horizontes ficam limitados.
Cumps.

Tiago R. Cardoso disse...

Quanto ás autarquia pode se dizer que quiserem, mas para mim o sistema que está não funciona, no entanto não acredito nesta lei que estudam em que se tem maioria sem se ter.

É normal que dentro de cada partido possam existir diferentes correntes de opinião, sem isso significar divisões, pode e deve ser considerado salutar, no entanto como sempre alguns que não consigam estar longe dos holofotes, tenho um gosto pelo protagonismo, muitas vezes prejudicando outro e o próprio partido, enfim é os políticos que temos...

quintarantino disse...

Aryanalee, mudam-se os tempos, mudam-se as vontades ... só que aqui ao sabor das conveniências tácticas dos actores principais da política.

Sniqper, excelente contributo que nos trás através das palavras que aqui deixa. Temos aqui dito recorrentemente, e sei que também o defende, que não tempos políticos estadistas!

Tiago, mal por mal, então que se avançasse para um modelo como o do Governo em matéria de composição.

O modelo novo que preparam, ma minha modesta opinião, ainda é pior que o actual.

Carol disse...

Relativamente às autarquias, todos sabem que o modelo actual não funciona, mas cheira-me que o novo ainda será pior...

Manuel Alegre, pessoalmente, não me diz nada. Penso que o seu tempo já passou e ele não vê (ou não quer ver) isso.

Costa, talvez me engane, mas sempre o considerei capaz de ser um bom líder socialista. Como chefe de governo, não sei como seria, mas talvez venhamos a descobrir daqui a uns tempos...

O PSD, para mim, está cada vez pior e não é uma alternativa viável ou saudável àquilo que temos actualmente...

António de Almeida disse...

-O meu amigo fala aqui de vários temas, alguns só aparentemente relacionados. Comecemos pelo PSD, essa verdadeira manta de retalhos, que afinal não tem uma ideia precisa sobre qualquer assunto, aliás para que saia dali qualquer coisa, teremos sempre de esperar pela reunião das 2 lideranças, mais o parecer da Cunha Vaz e associados, sendo assim, eu que defendo alterações ás leis eleitorais, autárquica e não só, ainda acabarei a defender as actuais. Quanto ao PS, Manuel Alegre quererá manter uma área de influência, que me desculpem os seus admiradores, mas aquilo mais parece uma luta com Mário Soares, procurando ver quem consegue estar mais a pairar, qual Deus no Olimpo sobre o partido. António Costa é seguramente uma hipótese pós Socrates, tem agenda própria, será bom não esquecer António José Seguro, para além claro está de António Vitorino, que a par de Jorge Coelho são quem realmente detém o poder no partido. Mas podem sempre surgir outros, por vezes do nada, ou quase, baralhando as contas.

joshua disse...

Ninguém escapa ileso no nem ser carne nem ser peixe, na túnica inconsútil ou na manta de retalhos.

Quanto a esses dois, Alegre e Costa, os meus sinceros pêsames, Tarantino!

PALAVROSSAVRVS REX

Márcio disse...

Não sei se será tão linar assim, mas a verdade é que talvez e observando por alto... é provavel que tenha um pouco de razão.

Não me acredito que Manuel Alegre tenha assim tanto azar em não conseguir criar a tal "corrente de opinião", visto que há muitos socialistas contra a linha criada por Sócrates...

Quanto ao António Costa, acho que tem razão... está a construir os degraus por caminhos alternativos para chegar ao topo...

lusitano disse...

Bem, a verdade é que em muitas autarquias a coisa não funciona...
Parece-me no entanto que a nova solução, também não soluciona e é feita à medida...
Não me repugna a ideia de que uma autarquia seja governada por quem teve mais votos, tipo governo, mas que se dêem outros poderes à Assembleia Municipal...
Julgo, embora não tenha conhecimentos da lei autárquica para o dizer, que hoje em dia, numa autarquia muito "dividida" em votos, os vereadores da oposição podem praticamente impedir os eleitos com mais votos de governarem a autarquia, mas que sei lá eu...
Quanto ao PS a análise parece-me correcta só que há sempre surpresas...

Paulo Vilmar disse...

Quintarantino!
Muito belo texto, mas difícil de opinar para quem está longe dos fatos! Desta forma, passo aqui para deixar parabéns pela coragem de sempre manter a coerência! Isto é difícil, nos dias de hoje. É mais fácil nadar a favor da corrente...
Abraços!

quintarantino disse...

Carol, uma boa síntese.

António Almeida, meu caro, a inspiração e as musas andam afastadas.
Gostei dos acrescentos que fizeste ao pós-sócratismo.

Joshua ... pêsames? a mim? safa!

bluegift disse...

Quint,
Cada vez percebo menos de autarquias e estes jogos políticos seja em Portugal seja aqui (ainda não há governo, daqui a pouco faz 1 ano...) fazem-me ficar com a cabeça à roda. Preciso de um tempo para arrumar ideias e ver a situação com distanciação. Quando o jogo político é denso há sempre um forte conflito camuflado que se prepara para rebentar.

quintarantino disse...

Márcio, vai por mim, vai por mim ...
No mais, Alegre o que quer é penacho!

Lusitano os males que refere seriam as virtudes da Democarcia desde que vencedores e vencidos soubessem o que é a ética na política e muitos cá andassem para defender o interesse público.

Paulo Vilmar, reconheço e admito que não seja fácil opinar, mas se calhar mudando uns nomes e umas siglas e cá como aí...

lusitano disse...

Claro, quintarantino, completamente de acordo, mas isso não é sonhar muito...infelizmente?

quintarantino disse...

Bluegift, nada como estar expectante, mas uma boa análise sabe sempre bem, não?

Lusitano, eu sei que é. Mas fazer o quê?

SILÊNCIO CULPADO disse...

QUINT
Tu colocas a ênfase de que não há um sentido de Estado nos nossos dirigentes. E eu volto a pôr as minhas dúvidas sobre se há ou não há.
O País tem sido conduzido com mão de ferro, nomeadamente no que se refere às reformas da administração pública, do SNS e das políticas de educação (não esquecer que a escola é e será sempre um veículo das doutrinas do regime). Parece-me pois claro que Sócrates tem um plano e sabe o que quer com ele.
Manuel Alegre não quer perder a imagem do democrata irreverente no meio de tanta pisadela às conquistas de Abril. António Costa é corredor de fundo a aguardar o momento em que deverá arrancar.
Não há dúvidas que as governações deixam feridas mas, em meu entender, as feridas não se saram nem com Manuel Alegre nem com António Costa. Neste longo período pós PREC o PS e o PSD tomaram conta do aparelho do Estado e de todos os lugares-chave da vida nacional. E minaram a credibilidade, e lançaram a confusão sobre a sua correcção e objectivos. Afrontar tal fortaleza não será fácil, por via pacífica, mas não acredito que ela se mantenha inexpugnável sejam quais forem as operações de cosmética.
Abraço

Blondewithaphd disse...

Quinn, bute lá! A malta até vai por ti, que já se sabe que és um pundit, mas alguém me explique política deste país qu'eu num entendo!

Vieira Calado disse...

Essa de que
«ontem era verdade, hoje é mentira»,
pensava eu que era só no Futebol!

Cumprimentos

Zé Povinho disse...

Muito bem observado. Muitas vezes estas coisas não são evidentes para muitos, mas felizmente há quem esteja atento e saiba ler nas entrelinhas.
Abraço do Zé

quintarantino disse...

Lídia, persistentemente discorremos em aparente divergência sobre uma questão menor.
Ambos concordamos com a necessidade das reformas, quiçá até com algumas das medidas e se calhar até discordamos quanto a alguns pontos de actuação.
Dizes que Sócrates sabe o quer e como quer, e que tem implementado as suas reformas com mão de ferro; pergunto eu, mais uma vez: mas são mesmo essas as que mais defendem o interesse público? Ou será que defendem apenas os interesses de alguns?
Da resposta que aqui se der se saberá se ele tem visão de Estado ou não.

Blondewithaphd, caríssima, tu bem me sabes assessor e como tal mais homem de bastidores. Por isso, ou se arranja "generala" ou não se revoluciona.
Explicações de política? Brincas? Logo tu, logo tu ...

quintarantino disse...

Vieira Calado, meu caro amigo, infelizmente ele há coisas que são como a humidades: espalham-se!

Zé Povinho, dentro do possível cá estamos para fazer as nossas análises. Modéstia àparte, tenho visto muita coisa escrita por pessoas que regularmente visito muito melhores que as trivialidades que saem na Quadratura do Círculo.

NINHO DE CUCO disse...

Quint
As reformas de Sócrates defendem só o interesse de alguns, aí não tenho dúvidas.E as opções estratégicas vão no mesmo sentido: defender os interesses desses mesmos. Isso não é sentido de Estado? É. É um Estado ao serviço duma minoria. Ele acha que assim é bom. A mão invisível da economia é que regula tudo e traz um desenvolvimento do caraças. Ah mas a visão do Menezes não faz diferença alguma.
Eu até gosto do António Costa. Acho-o competente e actuante e tem aquele ar de homem que agarra o toiro pelos cornos. Mas não acredito que ele fosse capaz de dar uma volta de 360 graus e corrigir a mão no sentido do desenvolvimento e bem estar social. O Sócrates já não manda nele próprio e o A.Costa também não mandará.
É assim que eu sinto.
Abraço

NINHO DE CUCO disse...

Quint
Não importa essa coisa do sentido de Estado. Deixa lá isso.É mesmo uma questão menor. Olha o aumento brutal do custo de vida e dos bens de primeira necessidade muito acima da inflação estimada pelo governo, isso sim é que é uma questão maior.
Abraço

quintarantino disse...

Ninho de Cuco, caríssima, eu melhor do que ninguém sei, porque o sinto, o aumento brutal dos bens de primeira necessidade e do custo de vida.

E isso resulta de quê?
Do que tu própria disseste.

Esta gente esqueceu que "os ideais políticos não são abstractos.

Reportam-se a situações concretas e conflituais.

A democracia não tem, assim, por missão dar tudo a todos ao mesmo tempo, mas assegurar a regulação pacífica dos conflitos e das diferenças, definir prioridades, harmonizar interesses, ligar o combate a todas as formas de exclusão à concretização de uma justiça adequada às diferenças e à complexidade"

[Guilherme d' Oliveira Martins, artigo "Uma política de valores" na obra "Novo Ciclo - A política do futuro", Notícias Editorial].

É este esquecimento que dói. Pelo menos a mim.

SILÊNCIO CULPADO disse...

Quint
Subscrevo inteiramente o que dizes.
Abraço

antonio disse...

Menino! Boa análise. Se o Sócrates é um fruto em apodrecimento, o Manuel é uma passa ressequida.

O Costa, talvez seja a alternativa, não a Sócrates, mas ao comodismo de todos os putativos salvadores da pátria a quem não lhes apetece chegarem-se à frente!

quintarantino disse...

Lídia, no fundo, e tu bem o sabes, o sentimento de fundo que temos é o mesmo. Podemos é não partilhar algumas análises e pontos de vista sobre possíveis soluções. Mais nada.

António, gostei do tratamento por "menino". Enquanto não for no gozo, trata-me assim ...

C Valente disse...

Os profissionais da politica andam todos á procura do melhor poleiro, ou de votos
Saudações amigas

quintarantino disse...

C Valente, caro amigo, tem toda a razão quanto aos profissionais da política.

Fragmentos Culturais disse...

Tese interessante esta aqui apresentada!!

É bem possível...

Sensibilizada pelo olhar atento em 'fragmentos'!

... a propósito, já fui dar uma espreitadela a 'Mr. Sweenny Todd'... só lendo a resposta ao comentário deixado.

quintarantino disse...

Fragmentos Culturais ainda bem que comungas da admissibilidade desta tese. Irei, certamente, espreitar que me dizes de "Sweeney Todd".