O manifesto do protesto

Protesto contra tudo; aliás, hoje apetece-me mesmo por tudo em causa.

Protesto contra a divisão do país em dois, em três, em quatro ou no raio que os parta a todos.

Protesto contra as divisões de partidos, contra a estupidez daqueles que se mantêm só num caminho, como burros com palas que só olham para a frente.

Detesto estas "novas" definições Esquerda, de Direita, de Centro mas pior detesto o sítio onde estamos.

Protesto contra reformas a torto e a eito, não interessa se bem ou mal, detesto reformas que queiram transformar o mau em pior, protesto que queiram deixar nome numa página da Historia a qualquer custo.

Protesto contra a Utopia de José Sócrates, detesto o populismo de Filipe Menezes, não percebo o resto dos partidos, odeio o conformismo, o só olharem daquela forma, todos fiéis a ideologias e dogmas que o povo não entende.

Detesto o conformismo, o estar sempre ali, imóveis, cada um no seu lado, sem pensarem nos outros.

Odeio o egoísmo, protesto contra o "primeiro EU", contra o tacho, contra a panela, contra a frigideira, contra todos esses que andam só para ganharem algo, que só querem é o lucro e a fama.

Protesto contra a falta de unidade no País, onde cada um rema para o seu lado, detesto a falta de união em torno de um bem comum.

Protesto contra a Justiça lenta, a degradação da Educação, da Saúde, detesto a aniquilação do Estado Social sem equilíbrios, o retira daqui para dar ali, o "toma lá e eles que se lixem", como odeio o estado "ama seca" do cidadão.

Protesto contra o povo, que se deixou iludir, que se deixa iludir com esmolas, com doces e chocolates e que se deixará iludir, dando autorização para continuarem, detesto a oposição diluída que de oposição só tem nome e alternativas nenhumas.

Protesto contra os que protestam sem apresentar soluções, os que não pensam só se queixam, que não gostam de diálogo, apenas de gritos.

Protesto contra todos aqueles que se retiram dos seus deveres de participar, que apenas vivem o presente, que se ausentam do futuro, que apenas reclamam quando são atingidos.

Protesto contra censores, contra os donos da verdade, aqueles que acham que o que dizem é lei, mas também detesto os mal educados, aqueles onde o insulto fácil é normal, onde a participação, para eles, apenas significa um bocejo e um "que se f**** todos !"

Protesto contra o protesto, contra os que se manifestam e não dizem nada, detesto os que não protestam e aceitam tudo como normal, protesto contra todos os que acham que o normal é anormal.

Detesto o pessimismo, os pessimistas, os fantasmas do passado, do presente e do futuro, contra todos os que querem e ressuscitam esses fantasmas.

Mas acredito, tenho esperança em algo melhor, acredito no futuro, como acredito que tudo tem uma causa e uma consequência.

Agradeço o que me aconteceu, agradeço o meu presente, como agradeço o meu futuro e o meu regresso.

E já agora protesto contra este manifesto.

E nem os semáforos dão luz, nem o professor escapou à censura!

Estava ali sentado já há algum tempo.
Nos intervalos de erguer a chávena do chã, ia tamborilando com os dedos o tampo da mesa… sabia bem que era um barulho que podia ser irritante para quem o rodeava mas, quando estava mais impaciente, não havia como lhe escapar.
A cadência era certa, sincopada e lembrava a dos tamborileiros das garbosas fardas napoleónicas que, num verdadeiro espectáculo de cor, som e dor tinham varrido outrora terras do Atlântico quase até aos Urais.
Mais tarde outros haveriam de tentar e haveriam de sucumbir, enregelados nos seus uniformes “feldengrau” e com os rostos escurecidos pelo fumo dos “pänzer” …

Curiosamente, ambos soçobraram ...

Este pensamento desviou-o do rascunho que estava a elaborar em jeito de protesto cívico quanto ao facto de durante dois longos meses uns míseros semáforos numa estrada nacional se encontrarem avariados e sem que conseguisse descortinar uma resposta a contento das suas justas reclamações e cívicas angústias.

Desde que descobrira que as Estradas de Portugal tinham criado uma espécie de livro de reclamações electrónico que lhe dava bom uso.
O problema é que, embora sempre respondessem, neste caso particular insistiam que a conservação dos semáforos não eram responsabilidade sua, antes da autarquia local.

Nesta, enquanto um eleito local garantia que não senhor, não era nada com a senhora dona autarquia, um técnico da mesma garantia que sim senhor, era com a senhora dona mas que já tinha mandado reparar … mas a verdade é que daqueles semáforos não saía um único raio de luz!
Se este tinha sido o assunto que lhe prendera a atenção até ali, os pensamentos sobre campanhas militares e afins desviara-lhe o curso de pensamento e levara-o a pensar em como, por vezes, homens geniais se equivocam e acabam trucidados pelo porvir.

Não, não sequer falava de militares, antes de criadores, literatos e afins que, a dado momento, apostaram, como aqueles jogadores profissionais, tudo no 7 para a roleta, qual mulher caprichosa, ir languidamente entregar-se noutro número qualquer!

E, pensava ele, havia casos em que pagavam um preço demasiado alto por isso.
Louis Ferdinand Céline. Ezra Pound. Robert Brassilach … eis alguns dos que enfileiravam uma galeria de derrotados pela vida.
Não compreendia porque não se entendia, ou não se queria entender, que sendo génios (ao caso da Literatura) também eram homens.
Mas que as opções que fizeram como homens não deviam obscurecer a sua capacidade criativa.

Mais sorte teve Yukio Mishima, talvez por ter perpetuado a sua obra com o suicídio ritual que cometeu em 1970 em jeito de protesto contra a perda de valores e referências que descortinava na sociedade nipónica.
Azar contínuo tem tido, de igual modo, Mário Vargas Llosa, quiçá escritor ainda de maior grandeza que Gabriel Garcia Marquez, mas a quem persistentemente é negado o Nobel da Literatura (e cujo papel de reconhecimento da genialidade literária se pode cada vez mais questionar) por razões aparentemente políticas.

E através deste raciocínio chegou ao caso de um docente universitário contratado que terá sido “gentilmente” convidado (e nós sabemos bem como são feitos estes gentis convites) a cessar com a sua actividade nos blogues que mantinha por terem existido colegas que achavam que, só por si, a actividade desprestigiava a instituição (ver, a este propósito, a edição de ontem do jornal “Público”).
Consta que alguns acharam que o conteúdo também era passível de censura.

E, por amor de Deus, desta vez não me venham com as lérias que é por causa do Sócrates.
Isso é a mesma coisa que eu aqui ter invocado o nome do Senhor em vão, pois ambos têm mais que fazer…
Isso é mesmo provincianismo, mesquinhez, tacanhez e filha da ….!!!

Violência escolar: dizer NÃO é o nosso dever!

Em Outubro de 2007, o Procurador-Geral da República (PGR), Pinto Monteiro, declarava a violência escolar como uma das suas prioridades até 2009 no âmbito da nova Lei de Política Criminal ao afirmar que iria emitir uma directiva para que o Ministério Público fizesse o levantamento de dados de indisciplina e violência, começando pela participação de todas as ocorrências nas escolas portuguesas.

Um mês depois, o PGR dizia preocupar-se “com cada caso de um míudo que dê um pontapé num professor ou lhe risque o carro”. Tudo porque dizia não querer “um sentimento de impunidade, nem que esse míudo se torne um ídolo para os colegas”.

Aliás, Pinto Monteiro até entrou em rota de colisão com a actual ministra da Educação pois dizia que “há várias pessoas, até a senhora ministra da Educação, que minimizam a dimensão da violência nas escolas”, reforçando que “ela existe”. A ministra Maria de Lurdes Rodrigues afiançou, por outro lado, que ele estava a dramatizar e que esta forma de violência “é rara e não está impune”.

Em Fevereiro de 2008, após mais um caso de agressão em que um professor foi pontapeado por um aluno de catorze anos, o gabinete de Pinto Monteiro, quando contactado pelo "Diário de Notícias", adiantou que esse famoso levantamento ainda “não está feito”.

Sobre o caso em questão, referiu ainda, que aguardava a comunicação da ocorrência da Polícia de Segurança Pública ao Ministério Público.

Quase quatro meses depois das suas declarações, tão do agrado de quem vive do e para o ensino, Pinto Monteiro nada tem a dizer sobre o fenómeno de violência escolar no nosso país. O PGR não dispõe, ainda de dados concretos sobre a mesma, porque aquilo que afiançou fazer não foi feito...

A violência escolar existe e é direccionada a alunos mais frágeis, a professores e a pessoal de acção auxiliar. Essa é a realidade e todos nós conhecemos casos destes.

No entanto, esse facto parece não preocupar nenhuma das autoridades competentes.
E a nós, enquanto cidadãos, preocupa?
Estaremos nós a educar de forma correcta as crianças e jovens deste país?

Ontem recebi um e-mail com um vídeo que ilustrava situações corriqueiras do quotidiano:
a mulher que deixa cair uma série de sacos e que ninguém ajuda;
o marido que ameaça e agride verbalmente a mulher;
o condutor que insulta outro na estrada...

Em todas as situações havia uma criança que repetia, imitava os gestos e atitudes do adulto.

No fim, surgiam duas afirmações: "Children see. Children do"...
"As crianças vêem. As crianças fazem" ...
Não estará, pois, na altura de sermos educadores na verdadeira acepção da palavra?

A caminho da Utopia - Teoria de Sócrates

O caminho já era antigo, por ali já tinha passado muita gente, os historiadores afirmavam que tinha quinhentos anos.

Os dois homens percorriam o caminho com bastante ligeireza, eram pessoas experimentadas em contornar obstáculos, fugir ao buracos e sempre de olho nas bermas, não lhes fosse saltar ao caminho algum fantasma pois era sabido que ali existiam muitos.

Alguns já não induziam medo a ninguém, não passavam de figuras anedóticas da região indo até ao ponto de muitos dos habitantes locais fazerem questão de andar por ali, só para ver se os conseguiam ouvir e ver.

Diziam os antigos que, de vez em quando, se ouvia, em dias de nevoeiro, fantasmas de antigos filósofos que tentavam regressar à vida.

Uns juravam que se ouvia num gemido a sentença "O Luís é um grande líder politico" e que diziam ser de um fantasma que tentava voltar fingindo admirar outro.

Ou então ouviam: "Não foi organizada por nós mas o jornada de luta da Frente Comum é uma clara demonstração do descontentamento da população, será um ponto de viragem". Neste caso alguns defendiam que não era de um filósofo, mas de um indivíduo que procurava regressar através dos outros.

José aproveitava aquelas caminhadas para ir ditando umas teorias ao seu secretário e hoje sentia-se particularmente inspirado:

"Acredito na importância crucial do bom Governo. Governar bem é governar com competência e com rigor, é pôr sempre o interesse geral acima dos interesses particulares, é trabalhar a favor da estabilidade e da confiança nas instituições. É manter uma linha de rumo, é realizar um programa, é apresentar resultados."

"Desculpe senhor, disse interesse particular acima do interesse publico, não foi ?" perguntou o secretário.

"É melhor não, que isto é para todos lerem. Eu disse interesse geral acima dos interesses particulares", corrigiu José.

Continuaram a avançar, enquanto José continuava a pensar no que dizer. Em princípio, e para não fugir às teorias que tinha escrito até agora, deveria avançar com umas dissertações e indirectas a antigos filósofos, com vista a desfazer a imagem deles já que tinha de ser o detentor da verdade final custasse o que custasse.

"Quem não sabe honrar os compromissos que livremente assumiu, os acordos que livremente celebrou e que demonstra uma falta de sentido das responsabilidades que não hesita em faltar à palavra dada, não pode nem merece regressar"; excelente frase pensou, realmente era mesmo isto que estava a precisar para a completar a teoria.

"Desculpe senhor, estamos a chegar à encruzilhada, que caminho devemos tomar para chegar a Utopia 2009, o da direita ou o da esquerda?"

"Sabes, sempre tive uma inclinação para a esquerda mas agora escrevo muito melhor com a mão direita, o que achas?"

Hoje deu-me para vos dar música!

Já alguma vez batalharam contra um tema impossível?

Contra um assunto que poderia ser um texto a pedir meças e, sabe-se lá porquê, não vos sai nada? Pois, é que eu, à altura de estar especado frente ao computador a escrever este texto, estou assim.

Fosse um criador, um literato ensaiaria dizer que estava numa fase de bloqueio. Assim, nem sei que lhes diga…

Imaginem que se me meteu na cabeça que havia de escrever sobre música. A coisa andou a atormentar-me (e ainda o faz pois tenho a certeza que no fim de ter escrito esta coisa horrorosa, me arrependerei), mas como também me caracterizo por uma certa teimosia…

Recordo que, tendo sempre ignorado soberbamente a vastíssima colecção de discos de fado de meu pai (o que, na generalidade, ainda faço tirando o Marceneiro, o Ferreira Rosa e a Noronha, nos da velha escola), havia por lá uns discos dos Shadows, Cliff Richards, Tom Jones e de uns The Archies que me abriram portas ao admirável mundo novo do “yé-yé”.

Já um pouco mais “espigadote”, e também já por terras de Portugal abandonada que foi a minha saudosa Pretória (hoje Tswhane), deu-me para começar a ouvir o Luís Filipe Barros no “Rock em Stock” e o António Sérgio, especialmente no “Som da Frente”.

E foi num concurso qualquer do Luís Filipe Barros que me saiu na rifa o meu primeiro álbum.
Nada mais, nada menos que os Camel com o “Rain Dances”. Iniciava assim uma discografia que contou com centenas de álbuns e hoje conta com centenas de cd’s.
O passo seguinte foi comprar os The Police que rebentavam com as colunas com o “Reggatta de Blanc”.

Andei depois por ali entre os Talking Heads (de quem tenho a discografia toda) e muito do que era new wave (sei lá, assim coisas tipo Martha and the Muffins que tinham um êxito e depois desapareciam…).
Digamos que era um tipo de gosto variado… os ditos Camel encontraram parceiros no Mike Oldfield, nos Yes, nos Van der Graaf Generator, enquanto que dos The Police cheguei ao ska e ao reggae … algures lá pelo meio entraram-me porta dentro os Sex Pistols e os Ramones que, para mim, metiam aqueles num bolso!

Devia ser um gajo meio esquisito, pois passei a ser assim uma espécie de enciclopédia ambulante a quem os amigos consultavam para se inteiraram e informaram sobre tendências, discos e novidades.
Um, com apurado sentido para a música que a cocaína haveria de abafar, tinha uma daquelas bandas de garagem e que, aqui e ali actuava nuns bares com “covers”, sabendo-me perito em inglês nomeou-me “pilha letras” oficial da sua banda… eu ouvia as músicas e tentava sacar as letras em versão completa... coisas que a "internet" veio simplificar!

Com outros dois percorríamos discotecas onde passávamos tempos infinitos a ouvir discos e, quando o “graveto” escasseava e o dono se distraía, um ou outro disco saiu abafado dentro daqueles famosos blusões muito largos que se usaram! Sim, sim… foi assim que conheci os XTC e pus as mãos nos Joy Division

Estes últimos, saídos da escola do som de Manchester, levaram-me a conhecer meandros mais soturnos por onde passavam coisas ainda hoje complicadas de ouvir para muito gente. Death in June, Virgin Prunes, Test Department e Diamanda Gallas são apenas exemplos de sons quase industriais que me afagavam um espírito atormentado!

Já mais nos trintas é que me dignei olhar para aquilo que antes desdenhara: os “seventies” e “sixties”… sim, imaginem que eu, a certa altura, achava tipos como os Stones e os Doors poucos dignos de crédito, apenas dando atenção aos Velvet Underground, ao John Cale e à Nico.

Hoje, como lhes disse, na casa dos quarenta, consegui repescar quase de tudo… e é por isso que até tenho um catálogo incipiente em que tive de classificar em grandes grupos a colecção de discos… agora, conforme a estação e o estado de espírito, o som.

Se estiver mal disposto ou “down”, sai metal ou um som mais acelerado. Não sei se é por os anos irem de chumbo mas ultimamente muito tenho eu ouvido de Metallica, Led Zeppelin e AC/DC

Não posso deixar de finalizar sem publicamente afirmar que com este texto pretendo mesmo desafiar uma enorme amiga a aprender a gostar de Nick Cave! Com ou sem os Bad Seeds...

E vocês? Que sons vos apaixonam?

Notas Emprestadas - O fluxo da vida.

Dando sequência à divulgação e cooperação com outros autores e projectos, o NOTAS SOLTAS avança com mais umas Notas Emprestadas.
E é uma dupla novidade dado que é uma autora nova e ao mesmo tempo, é o primeiro texto vindo de além-mar.
É uma excelente escritora, uma pessoa fenomenal e uma amiga que acompanhamos e lemos com prazer há muito tempo. Conceição Britto de seu nome...

Eu não quero me acostumar à beleza da luz do amanhecer.

Eu não quero porque desejo desfrutar diariamente como um presente inesperado.

A cada minuto, o céu muda suas cores e à medida que a poderosa luz do sol abre caminho fazendo com que as sombras nocturnas fujam apavoradas e incapazes de resistir à beleza que a claridade faz ao surgir um novo dia.

Eu sempre gostei de contemplar as paisagens, estender o olhar até as coisas mais impossíveis.

Lembro-me quando menina saltava com toda as minhas forças e tentava ver o que se escondia além da linha que unia num só beijo o céu e a terra, e estava segura de ter visto que o que ninguém jamais havia podido contemplar.

Lá, atrás da última fronteira, eu pude ver a Dona Dulcineia del Toro, na sacada de seu " castelo" esperando a chegada de seu cavaleiro Dom Quixote e seu fiel escudeiro Sancho Pança. Havia também piratas, princesas. E juntos lutavam contra as forças do mal.

Hoje já não é a mesma coisa.

Nem os sonhos, nem os objectivos, nem sequer as ilusões são as mesmas.

Eu vou mudando e comigo uma vida. A qual eu agarro, mas as recordações eu as levo comigo.

Sempre me questiono e chego à conclusão que a única coisa que permanece inalterável é, ao mesmo tempo, o que nos muda.

Veremos o mesmo céu e desfrutaremos de suas mil cores. Transcorrerão as mesmas horas e os dias seguirão dormindo suas noites.

Passaremos pela vida descobrindo novos mares, descobrindo novas terras, até que um dia, sem sabermos chegaremos ao nosso último horizonte.

E ao lançarmos nossa visão, o passado saberá que o Tempo que a tudo muda e nada respeita, continuará jovem em sua senilidade, tirando sarro daqueles que não souberam desfrutar o que estava diante dos seus olhos e assim, conheceremos à alegria e a tristeza em doses iguais.

Transbordou-se o fluxo da vida.

Agora só se sabe dizer adeus.

Autora : Conceição Britto - Escritora convidada do Brasil

Porque nunca haverá um Requiem!

Andava eu a navegar nas páginas online de um dos meus periódicos de referência, para o caso o Der Spiegel, quando diante dos meus olhos me surgem dois daqueles paradigmas que, perdoem a minha parcialidade, muito favor faziam à Humanidade se jamais tivessem existido. Ali, lado-a-lado, Fidel e Hitler. E, nem de propósito, como se fosse um pseudo-estudo em Semiótica, no meu ângulo esquerdo de visão, o cubano, no oposto, o teutão, ambos em fotos a preto-e-branco, tais memórias que se querem passado mas que persistem e, esperemos, continuem ad eternum, espinhos na memória colectiva do horrendo que já recaiu sobre o género humano.

Como sempre, admiro o espírito auto-flagelatório dos alemães, a eterna lembrança da Guerra, a omnipresente culpabilização (ainda que a detestem quando vem dos outros), o não limpar a História (nem me venham falar dos Neos porque esses os há em todo o mundo). Andava eu, dizia, a navegar por ali à procura, precisamente, de informações sobre a recente renúncia à presidência de El Comandante, porque era sobre isso que eu queria escrever hoje, quando me salta ao caminho Der Führer (curioso como até nisso não há imaginação). Inverti a marcha.

Fidel Castro renunciou mas deixa um legado histórico. Cuba não vai mudar já do dia para a noite. O passado não se apagará porque Fidel sai do palco. E quando o velho tirano morrer fisicamente continuará a existir na memória das vítimas do seu regime. E quando estas também, por sua vez, morrerem, Fidel viverá na História. Afinal, Fidel é eterno. Não pode haver um Requiem por quem não morre, ou será que pode?

Tal como nunca houve um Requiem por Hitler que vive, ainda. E está tão vivente que se publicou agora um estranho dicionário, com o nome bizarro de Wörterbuch der 'Vergangenheitsbewältigung', ou qualquer coisa como Dicionário para a Pacificação com o Passado, no qual se listam as palavras anátema que invocam os tempos Nazis. Não se trata somente do tabu de usar expressões como “Endlösung”, que, convenhamos são muito específicas e ninguém, na plena posse das suas faculdades mentais, se lembraria de proferir. São palavras tão banais como “Selektion” que são expurgadas e piores do que politicamente incorrectas (se nos quisermos lembrar de um dos posts desta semana : Politicamente correcto ? No raio que os parta!).

Apraz-me pensar: “Coitados dos alemães, não bastava não baptizarem crianças com o nome Adolf, como têm de ver limitado o seu vocabulário à conta do dito cujo”, mas não penso porque não vitimizo os alemães e porque isso seria dar a importância que não quero ao monstro (apesar de querer dar importância ao monstro para que nunca seja esquecido – complicado?).

Portanto, Hitler e Fidel não são enterrados e esquecidos. Não lhes fizemos, nem faremos, um funeral, catarse dos nossos males, ainda que certos historiadores blasfemos e, pasme-se, as cabeças pensantes de países que connosco mantêm seculares alianças e que levaram com a Blitzkrieg e a Luftwaffe em cima (oops, se calhar não devia usar estes termos), queiram ver fechados certos capítulos dolorosos da nossa História comum.

E assim foi. Queria vir escrever sobre o Fidel e como penso que Cuba não se libertará dele e acabei por dar tempo de antena ao Hitler. As voltas retorcidas que o pensamento dá! Ali continuavam ambos à minha frente no ecrã, Fidel e Hitler, pólos antagónicos dos extremismos. Rivais ideológicos (talvez de um tempo em que a ideologia era inflexível porque era a Ideologia, não sei). Exemplos da divergência consumada.

Mas será mesmo assim? Quando o Comunismo se torna totalitário e o Nacional-Socialismo ditatorial haverá uma tão grande diferença? Poderão dizer que sim, que são incomparáveis e argumentar com a parafernália verborreica do aparelho ideológico. Aceito. Porém, (todavia, não obstante…) vergar povos à imposição de ideias, à censura do pensamento e à limitação do livre-arbítrio, seja em que extremo for do espectro, não é igualmente vergonhoso e horrífico num caso e no outro?

Conclusão: Nem Fidel, nem Hitler, nem outra qualquer epítome correligionária ou corolária de qualquer um dos visados.

PIN errado, tem até 2009 para acertar no código!

Todos temos um PIN, seja ele do que for.

Pode ser do telemóvel, do multibanco, do acesso à Internet, entre outros exemplo.

Dado assumido é que em algum momento somos obrigados a ter ou usar um PIN.

Para quem não saiba, até Portugal tem um e que condiciona muita gente, sendo que alguns estão activamente preocupados em conseguir a combinação certa.

Os Projectos de Interesse Nacional, conhecidos como PIN, criados pelo Sr. José Sócrates e pelo seu Governo, são projectos apoiados pelo Estado se trouxerem grande desenvolvimento para o País, em diferentes sectores, entre as quais a Saúde ou a Segurança Pública, consequências benéficas primordiais para o Ambiente, ou outras razões imperativas de reconhecido interesse público, mediante parecer prévio da Comissão Europeia.

Até aqui muito bem, mas imediatamente se coloca a dúvida sobre quem define o que é interesse público, a lei ou quem a interpreta?

A demonstração do que é interesse publico, é feita logo no primeiro projecto lançado, no âmbito dos PIN, segundo o estado a construção de um projecto turístico imobiliário denominado Costa Terra, no litoral alentejano, com as seguintes características:

"A Herdade da Costa Terra comporta 204 moradias, três aparthotéis com 560 camas, quatro aldeamentos turísticos com 775 camas, quatro conjuntos de apartamentos turísticos com 823 camas, uma estalagem com 40 camas e um campo de golfe de 18 buracos, além de equipamentos complementares, como supermercado, igreja, restaurantes, zona comercial, clube hípico, centro de talassoterapia e uma estação de serviço.”

Desculpem, mas tem mais ainda: "Herdade do Pinheirinho comporta 204 lotes para moradias, dois para hotéis e quatro para aparthotéis, três para aldeamentos/apartamentos turísticos e outros lotes para equipamentos complementares, num total de 2912 camas, bem como um campo de golfe de 27 buracos, com cerca de 90 hectares."

Para rematar este projecto é feito dentro da Reserva Natura 2000, o que significa que se transforma este massacre ambiental em interesse público.

Pergunta seguinte: consideram isto interesse nacional, ou existem outros sítios e sectores a serem apoiados?

Concordo que se vão criar novos postos de trabalho, que é um enorme investimento, mas a destruição da zona, mesmo correndo o ricos de ser chamado de exagerado pelo presidente da Câmara de Grândola, Carlos Beato, que não gosta de opiniões contrarias, é muito pior para o País do que o que se pretende criar.

O que parece neste caso e deverá voltar a acontecer, é que este sistema de PIN serve e servirá para se continuar a arrasar o ordenamento nacional, já bastante mal tratado e agora, caso se continue a interpretar a lei desta maneira, com tendência a piorar.

Entretanto, o Tribunal Administrativo de Lisboa suspendeu o loteamento e mandou parar a obra na sequência de uma providência cautelar interposta pela Quercus e pelo GEOTA. Prontamente o Governo irá recorrer, tentando mostrar que ele é que sabe o que é o interesse nacional.

A minha esperança é que estes senhores, mantendo este rumo e constantemente a introduzir de forma errada o código PIN, como têm vindo a fazer em diversos sectores, em 2009 o "multibanco" povo, lhes "coma" e bloquei o cartão.

Portugal, Portugal ... não te governas, nem te deixas governar!

Enquanto José Sócrates anunciava mais umas quantas medidas para o bem do País e pensava nos três anos de mandato, lembrei-me que, a querermos ser justos e rectos, temos de admitir que nem tudo é péssimo ou mau.
Pois se até Pacheco Pereira concede nalguns domínios do “Simplex”

Li algures que quem resmunga e reclama o faz apenas porque não pode comprar um LCD hiper, antes um de média dimensão. Penso que quem tal escreveu deve ser um “pipi” urbano que nunca descobriu o que é viver nalguns sítios deste nosso Portugal ou sequer andou no meio do suor do povo em hora de ponta num autocarro dos STCP ou da Carris, por exemplo.

Sócrates tem-se esforçado, na recta final, por combater a ideia de arrogância que deixou que se lhe colasse. Se isso vai chegar para dissipar as nuvens que sobre si pairam em matéria de suspeições sobre o seu carácter só o tempo o dirá.

E desconfio que na hora certa o povo, magnânimo, lhe perdoará. Portugal gosta de quem surge com uma imagem de decisor e de mão firme.

Já assim era com Cavaco Silva que ganhava por maioria absoluta, embora o mais frequente era ouvirmos “eu nem votei nele…”!

O busílis da questão é que eu penso que os antigos de facto tinham razão quando afirmavam que somos uma nação que não se governa nem se deixa governar.

Ao correr da pena vou dar alguns exemplos concretos. Sucintos, pois não quero ser maçador.

Num hospital público (embora sob a dita gestão empresarial) uma paciente, por acaso minha filha, vai ao serviço de Ortopedia retirar o gesso a um pulso partido. Médico de banca imaculada, de poucas falas e ainda menor simpatia. Serviço feito, indicações fornecidas e o aviso: “Nas próximas duas a três semanas não pode fazer exercício físico”. Natural e evidente surge o pedido de uma declaração médica nesse sentido. Resposta: “Eu ainda tenho mais gente para ver e estava bem aviado se tinha de estar para aqui a tratar de preencher papelada!”

Na EN206, que atravessa a localidade onde resido, existem uns semáforos numa passadeira avariados há mais de dois meses. Reclamei junto das Estradas de Portugal. Dizem-me que é com a Câmara Municipal. Nesta que é com as Estradas de Portugal… e andamos nisto.

Desconfio, e até já perguntei, se alguém se apropriou do domínio público rodoviário?

Numa escola secundária, num processo de avaliação externa, a preocupação foi arregimentar pais e encarregados de Educação que enaltecessem as virtudes da escola denegrindo as de escolas vizinhas. Dá para acreditar?

Mas aos que nos lêem e já exultam pensando que me converti às virtudes do liberalismo, eu agora dou outros exemplos.

Tenho um vizinho que há mais de quinze dias espera que o picheleiro (que não é funcionário público) se digne ir lá a casa mudar-lhe uma torneira. Bem sei, bem sei… foi a outros e nalguns ladinamente disseram que “para mudar uma torneira, não compensa!”.

Ontem, a ASAE, em apenas duas sortidas, apanhou 9 toneladas de alimentos fora de prazo de validade e estragados. Alguns destinados a lojas ditas “gourmet”, ou seja, topo de gama onde lhe vendem zurrapa a preço de ouro!
E quatro toneladas eram delícias do mar que estavam a ser embaladas de novo para serem postas à venda!

Tenho para mim que Portugal é mesmo uma parceria público/privada na versão “piolheira” onde cada um trata é de se safar enquanto trama a vida ao vizinho.

Se é no sector público é porque são uns calaceiros; se é no privado andam a ganhar o deles?

Mas digam lá mesmo se na maior parte das situações o que mais campeia não é mesmo a mediocridade?

E sendo assim, quando Guterres e Barroso fugiram na primeira oportunidade, ainda querem que Sócrates não hesite em se candidatar?

À deriva...

A semana ficará certamente na história do país e, também, do mundo. Por razões diferentes, mas para sempre se falará destes últimas dias pela diversidade e interesse dos acontecimentos que tiveram lugar. Ele é as cheias na zona de Lisboa, o chumbo do pedido de empréstimo por parte da Câmara Municipal de Lisboa, a renúncia de Castro, as eleições paquistanesas, a entrevista de José Sócrates à SIC... Oh, esqueçam, que disparate! Eu referia-me a assuntos interessantes e isso foi algo que Sócrates não consegue produzir há muito, muito tempo.

Hoje debruçar-me-ei sobre a questão quente da nega que o Tribunal de Contas deu a António Costa e ao seu Plano de Saneamento Financeiro. Como é sabido, a Câmara lisboeta apresenta uma enormidade de dívidas e, como tal, o executivo preparou um pedido de empréstimo à banca no valor de 360 milhões de euros.

No entanto, este foi chumbado pelo TC alegadamente devido à forma como este foi fundamentado. O acórdão refere que algumas das propostas apresentadas "são mais desejos do que objectivos". Para além disso, critica a falta de esclarecimento sobre o tipo de reorganização dos serviços e "da calendarização das acções previstas".

Para além disso, o plano do município não apresenta um Plano de Investimento o que só se pode justificar se não se pretender realizar qualquer "despesa com investimentos nos próximos doze anos", período de tempo previsto para o empréstimo. Por fim, é dito que «há insuficiência e falta de sustentabilidade» do plano o que tem por consequência o "não preenchimento do condicionalismo previsto no artigo 40" e aponta-se a possibilidade de intervenção do Governo na "declaração de desequilíbrio financeiro estrutural ou de ruptura financeira".

Agora, há duas coisas que gostava que alguém esclarecesse:

- Se António Costa é considerado o "pai" da nova Lei das Finanças Locais, como é que não conseguiu apresentar um Plano de Saneamento Financeiro sustentável?
- E, já agora, porque é que houve quem desse "pulinhos" de alegria com esta recusa?! Não era suposto que todos estivessem a tentar solucionar a situação dramática da Câmara Municipal de Lisboa?

Enfim, Lisboa é, neste momento, um espelho daquilo em que o país se tornou: um barco em que cada um rema para onde lhe convém e não para terra...

Sacudir água do capote, ou o desporto luso por excelência!

Depois de um Inverno seco e calmo, sem grandes preocupações, surgiram-lhe naqueles dias algumas pequenas questões, mas também aí tudo foi resolvido de forma simples.

Como costumava dizer, nada que umas alterações aos regulamentos não pudessem ajudar a resolver e assim eliminar alguns estudos obrigatórios pelos estatutos.

Com tudo resolvido, olhou para o seu “Breitling” e viu que eram horas para sair. Como a chuva era intensa, teve de vestir o capote.

Já sentado na viatura da empresa, observava o caos que estava instalado na cidade, eram centenas de carros por ali a buzinar, a circular muito devagar, se é que se podia chamar circular àquela movimentação de lesma.

Lentamente o motorista ia tentando avançar, com golpes de volante, mão e pés ligeiros, ia ouvindo as notícias na rádio.

"As chuvas de ontem de madrugada causaram inundações domésticas, corte de vias rodoviárias e fizeram transbordar ribeiras o que causou duas mortes."

Até agora ainda não tinha ouvido nenhuma declaração do Primeiro-Ministro, José Sócrates, relacionada com as cheias, mas também não tinha visto a entrevista dele na SIC, onde provavelmente teria repetido o discurso habitual, já o sabia de cor, não precisava de o ouvir outra vez.

"Basta vir uma chuva e é logo isto", pensou em voz alta.

"Pois é senhor, basta uma pingas e as zonas para escoamento das águas, que não são limpas durante o tempo seco entopem", disse o motorista, achando que falara para ele.

Veio-lhe à ideia, aquele autarca o ano passado que não tendo como fugir aos problemas das inundações avançou que o culpado era o São Pedro, por ter feito chover demasiado.

No mínimo estúpido, podia ter falado do mau planeamento do território, da construção em cima de zonas naturais de escoamento de cheias, o desbastar da floresta e dos incêndios que prejudicam a absorção das aguas e fixação das terras, entre outros argumentos, gente de vistas curtas.

Se calhar o ideal era avançar já com uma declaração antes que ainda lhe apontassem o dedo.

"Estamos numa área de competência de outros. Tem a ver com as infraestruturas. O problema do ordenamento do território já não é o mais sério em Portugal", parecia-lhe bem. Quer dizer, era capaz de dar um pouco de barulho, mas o importante é que a sua declaração fosse a primeira.

Tudo em Portugal é usado como arma de arremesso político, sabia que lá a sede era um dos alvos preferidos, sabia também que a inundação era capaz de chegar ao primeiro piso, mas tinha de satisfazer os sócios do clube.

Além disso se todos passam a culpa uns aos outros, porque é que ele também não o podia fazer? Já adivinhava, aliás, que os outros também o iam fazer, iriam dizer que os regulamentos não são respeitados, que ele alterou os estatutos, enfim, a barulheira habitual.

Claro que ele teria que responder com os argumentos da falta de limpeza, má construção, desrespeito pela lei, enfim, também o habitual.

Atrasadíssimo, chegou à sede, molhado entrou no gabinete.

"Quer que lhe sacuda o capote, Senhor?", perguntou solícito o secretário.

"Não é preciso, eu sei muito bem sacudir a água do capote sozinho", respondeu com firmeza.

Qualquer semelhança entre a personagem e o Ministro do Ambiente, outro Ministro, outro detentor de cargo político ou autarca, não passa de pura coincidência, todas as personagens são fictícias. Como sabemos Portugal é um misto de ficção e coincidências.

Politicamente correcto? No raio que os parta!

Somos uma equipa jeitosa, temos um projecto que acho bom e, aqui e ali, damos e recebemos umas caneladas, diria eu se tivesse de procurar definir o projecto que dá pelo nome de NOTAS SOLTAS, IDEIAS TONTAS (também podia dizer que gostaria que fosse visto como um espaço de acutilância, rebeldia, espírito crítico e solidário).

Que eu saiba nenhuma das pessoas que actualmente colaboram activamente no projecto quer galarim, não procura os holofotes da ribalta, não é “his masters voice”, não faz fretes e não é politicamente correcto.

Aliás, porque raio havia qualquer um de nós querer produzir escritos politicamente correctos?
Não são esses escritos e essas ideias que estão a inquinar muito do pensamento hodierno?
Ser-se politicamente correcto é não circunscrevermo-nos ao banal, à falta de “cojones” que nos impossibilita de questionar ou mandar para cima da mesa temas, pessoas e situações?

Este fim-de-semana, por exemplo, quem nos leu foi confrontado com duas opiniões sobre temas que dão polémica e não primaram pelo correcto.

Quem também tiver lido a edição da revista “Sábado” desta semana terá certamente visto um arremedo de entrevista miserável a Laura e John Midgley, dois britânicos fartos do politicamente correcto (quem também estiver e quiser pode dar uma espreitadela ao endereço http://www.capc.co.uk/) e que iniciaram uma campanha contra essa prática.

Exemplos de politicamente correcto existem muitos e alguns a raiar a estupidez.
Vejam, por exemplo, que ali se referia que uns vizinhos se zangaram porque o cão de uns só ladrava ao namorado preto da filha dos outros; ora, se o cão fazia isto só com aquele cavalheiro, então o cão era racista!

Na América (nos míticos States) os pretos são afro-americanos, na Inglaterra e até em Bruxelas se escondem os enfeites e as festas de Natal para não ofender susceptibilidades islâmicas, os homossexuais sentem-se com direitos acrescidos em relação a qualquer matéria, nada se pode dizer muito fora da linha sobre os judeus sob pena de se ser apodado de nazi …

Pois bem, agora digo eu … e se eu disser que um indivíduo como o Reverendo Jackson é preto, estou a mentir?
Ou que o Barak Obama pode ser tudo, menos branco estou a mentir?
São só os muçulmanos que podem ficar ofendidos com o Natal? Os budistas não? E os agnósticos? E os ateus?
E se eu achar que um homossexual, só por o ser, não tem de ter mais direitos que qualquer outro, serei um atrasado mental?
E se disser que, nalguns domínios, os judeus são belos intérpretes da canção do desgraçadinho estou a ser um SS?
Ou que a política nacional feita das “casinadas” do nosso Pedro Santana Lopes, aliado do Telmo Correia, antecedido do José Luís Arnaut e do Durão Barroso, das “submarinadas” e fotocopiadas do Paulo Portas ou as “assinaturadas” de José Sócrates é um poço de esterco?

Eu, por mim, já decidi. Se querem politicamente correcto então exijo que digam que sou europortuguês e jamais admitirei que digam que sou branco. Para começar...

E vocês?

Kosovo independente e punição do genocídio étnico

Onde começa e acaba o direito de um povo à sua auto-determinação e independência?
Qual o direito de invadir outro povo exigindo a sua anexação e reconhecimento internacional do acto?
Que peso real terá a opinião de um povo quando expressa democraticamente?
E qual o papel da comunidade internacional na mediação de conflitos étnicos?

Questões importantes que emergem da notícia explosiva deste fim de semana:
Contra a vontade da Sérvia e da Rússia, o Kosovo vai declarar a independência!

Possuindo uma história rica em estatutos de maior ou menor soberania territorial, o Kosovo oscilou sucessivamente entre os domínios otomano, albanês ou sérvio. Após anuência à dominância política de base equalitária fortemente defendida pela Jugoslávia de Tito, o Kosovo vê a identidade fortemente abalada com a morte deste e a posterior intervenção oportunista do dirigente comunista da Sérvia, país “hospedeiro”. O seu nome: Milosevic.

É Milosevic quem magistralmente vai utilizar os habituais complexos de vitimização histórica, que tão bem servem para justificar despotismos políticos de vária ordem (a juntar aos judeus, flamengos e outros do mesmo estilo), de forma a defender a intrusão abusiva naquela região autónoma . Convence assim, e infelizmente, a comunidade internacional que na altura decide "fechar os olhos". Milosevic ordena a abolição de todos os traços de autonomia e subjuga a maioria étnica albanesa às sua autoridade. Dissolve o parlamento, destitui o governo kosovar dos seus poderes e apresenta-se como acérrimo defensor da supremacia política da minoria de 8% de kosovares servos...

Após desencadear, por razões semelhantes, a guerra com a Croácia e a Bósnia - mais fortes política e militarmente que o Kosovo, Milosevic declara a retirada das famílias da etnia albanesa de suas casas visando o acolhimento de refugiados sérvios, entretanto expulsos daqueles países. Como se não bastasse e porque, convinhamos, o número demasiado elevado de kosovares albaneses (mais de 90%) não lhe agradava, inicia aquilo que poderá ser considerado como o maior massacre dos últimos anos registado às portas da já formada União Europeia: o genocídio do povo kosovar!

Se bem que a eliminação deliberada da população kosovar albanesa tenha começado lentamente, uma intensificação desesperada tem início com a entrada da NATO no teatro de guerra. Furiosos por verem os seus intentos mais uma vez contrariados, lançam-se no massacre cego da população, sem poupar crianças, mulheres e idosos. Entre outros, ficam gravados na História os terríveis massacres de Cuska, Podujevo e Velika.

Uma sensação de déjà vu invade o espírito dos europeus... Destroiem todos os símbolos da cultura e tradição de etnia albanesa; mesquitas, igrejas, monumentos históricos otomanos de valor incalculável, nada escapa à fúria sérvia...

Preso e levado ao banco dos réus, Milosevic não sobreviveu à confrontação destes factos realizada no Tribunal Internacional de Haya que pretendia julgá-lo por crimes de guerra, crime contra a humanidade e crime de genocídio.

De nada lhe valeu negar a soberania deste Tribunal. Nem apresentar como desculpa um pretenso massacre da minoria sérvia que habitava a região, apesar da compreensiva hostilidade da etnia albanesa face à sérvia quando a autonomia foi colocada em causa. A guerra nesta região foi sempre, mas sempre, iniciada pelo desejo de dominação da Sérvia sobre as regiões limítrofes.

Morreu de ataque cardiaco, dizem...
De qualquer forma: cobardemente! À imagem do suicídio do congénere Hitler, politicamente oposto, mas de “veia” partilhada.

O Kosovo tem agora o direito de fazer finalmente justiça, de vingar os seus mortos, de fazer a sua cultura renascer das cinzas, recuperar as suas igrejas e mesquitas. De se levantar, de se afirmar como povo!

E, mais importante ainda, de mostrar com a sua independência que o Genocídio de Povos não será recompensado!

Haverá melhor forma para um julgamento post mortem de Milosevic? Não creio...

Viva a independência do Kosovo!

Be wellcome!

Errámos pelo Passado?

Este é um tema que me apaixona: Ciência Política em estado puro, um campo que oferece imensa matéria de reflexão, que, raramente obtém consensos e que é, paradoxalmente, uma área que regula a vida humana em sociedade e à qual, por muito que não gostemos da política (com letra minúscula), não podemos fugir. Este é também um tema que, na Quarta-feira passada, conheceu um desenvolvimento que há anos espero com alguma curiosidade. Se concordo ou não pouco interessa agora, uma vez que o fundamental é a discussão.

Façamos disto uma aula.

Em 1910, a Commonwealth of Australia, país representado pela Coroa Britânica e com um governo autónomo e democraticamente eleito sem nada a ver com a Grã-Bretanha, instituía políticas de assimilação para os nativos Aborígenes que se mantiveram até aos meados da década de 1970. As políticas de assimilação (a não confundir com políticas de integração) presumiam, no caso australiano, a retirada das crianças Aborígenes das suas famílias a fim de serem criadas como crianças brancas. O intuito era miscigená-las com a população caucasiana até que os indivíduos perdessem os traços autóctones. O propósito: a aniquilação progressiva e não genocídica da raça Aborígene. Milhares de australianos hoje não sabem a sua origem, milhares perderam todos os laços com o seu povo, milhares lutam com a incerteza identitária, milhares foram sacrificados sob estas políticas. Na Austrália, estes milhares de indivíduos apátridas de um povo chamam-se The Stolen Generation, A Geração Roubada, muitos são da minha idade, o que nos mostra que o passado ainda é contemporâneo.

Mais do que a restituição dos terrenos nativos ancestrais, retirados pelos colonos britânicos, o povo Aborígene tem vindo a reclamar um pedido formal de desculpas por parte do governo da Commonwealth of Australia. No ano dos Jogos Olímpicos de Sydney, 2000, o povo australiano pediu desculpas pelo que havia sido perpetrado sob a sua indiferença. O governo conservador de John Howard, no entanto, sempre se recusou à desculpa política alegando que não eram os governos do presente que deveriam desculpar-se pelos actos de governos passados. O povo Aborígene, os australianos e, claro, muitos politólogos defendem que o governo de um Estado, independentemente de quem o encabeça, é uma instituição una e perpétua e, por conseguinte, um governo do presente representa uma linha contínua de uma entidade viva. Logo, o governo poderia/deveria pedir desculpa em nome, não de um governo, mas do Governo enquanto instituição.

No final de 2007, um novo governo toma o poder em Canberra. Desta feita, Kevin Rudd, trabalhista, é o novo líder recém-eleito. Na Quarta-feira pediu desculpas ao povo Aborígene pelas décadas de assimilação forçada.

Não vou entrar no debate inútil da Esquerda vs. a Direita. O meu interesse é outro. Até que ponto se pode e/ou se deve pedir perdão por actos do passado? João Paulo II, líder de outra instituição perpétua, a Igreja Católica, também pediu perdão por actos persecutórios passados. Aqui mesmo no nosso pequeno burgo reclamou-se há bem poucos dias o silêncio formal por uma morte Régia. Até que ponto o presente tem a incumbência de se flagelar pelo passado?

João Paulo II e, agora, Kevin Rudd demonstraram grande sentido de Estado e grandes preocupações morais. Os seus gestos nobres apaziaguaram feridas, mas não as curaram. Ninguém, hoje, restitui a vida aos que pereceram nas fogueiras inquisitórias. Ninguém, hoje, solda as famílias Aborígenes dilaceradas nem encontra a identidade perdida da Stolen Generation. As instituições formais de um Estado são perenes, contínuas cronologicamente, mas…

Mas… e se um dia os sobreviventes do Holocausto (inegável) exigirem um pedido de desculpas ao Estado alemão? E se um dia as nossas ex-colónias nos pedem o mesmo? E se um dia os descendentes de escravos requererem do Estado Federal americano a desculpa pelo esclavagismo? E nós, descendentes históricos do passado, pedimos desculpas por quem nos antecedeu porque somos os herdeiros ou ignoramos o passado e só testemunhamos o presente? A Ciência Política dá que pensar, não dá?

Nota: Sobre a Stolen Generation v. o filme "Rabbit-Proof Fence" (2002) de Phillip Noyce baseado no livro Follow the Rabbit-Proof Fence de Doris Pilkington Garimara. Antídoto seguro contra a indiferença e um capítulo brutal e escondido da História recente de um dos países mais civilizados à face da Terra.

Dr. Amado, se você o diz ...

Exmo. Sr. Ministro dos Negócios Estrangeiros, Dr. Luís Amado:

Permita-me escrever esta missiva para lhe endereçar os parabéns pela excelente entrevista que deu à revista "Visão"; como eu tenho por costume dizer, muito bem!

Foi realmente com enorme satisfação que li e apreciei o facto do Senhor Ministro, para além de ter reproduzido o discurso do Sr. José Sócrates, foi mais longe e conseguiu reproduzir as vírgulas e os pontos finais.

Permita-me aqui, humildemente reproduzir os seus pontos de vista, bater palmas e acrescentar pequenas observações de um simples cortador de aço, que tem a noção quando está perante um estadista

"Quando se pretende reformar, a tensão tem que existir, porque, senão, não há mudança. Esse trabalho tem sido desenvolvido, nem sempre bem, mas com correcções importantes nos últimos meses, que perspectivam um novo ciclo de políticas", afirma.

Humildemente, aqui deixo um reparo: se o trabalho tem sido bem feito (?), então tem sido muito mal explicado. Imagine que alguns, gente de fraca visão, acham que estão a transformar, com este espírito reformador, o mau no pior.

"É preciso que o poder político sinta as dificuldades que as famílias e as pessoas sentem", é outra das afirmações que nos deixa.

Então e não tem sentido?

Basta ver todos os dias os políticos a apertarem o cinto, recusarem reformas milionárias, a recusarem empregos milionários como administradores de empresas, com as quais, enquanto membros do governo negociaram contratos; todos os dias os vemos a fazerem contas à vida para no meio do mês terem ainda dinheiro para pagar os 45 cêntimos que custa uma sandes na Assembleia da Republica, a fazerem um enorme sacrifício para se sentarem nas "sucatas" dos automóveis do Estado, digo eu, que um dia destes passei pelo parque de estacionamento do Câmara Municipal do Porto e tive medo de apanhar tétano ao passar perante tanto ferro velho, mais uma vez povo ingrato.

"A política de Educação foi conduzida, ao longo dos anos, centrada nos interesses dos professores e não dos alunos. Esse é que foi o problema. Olhando para a última década, nós gastámos mais dinheiro, temos mais professores, menos alunos, e os resultados são confrangedores. É, talvez, o problema mais grave do país", é outra das sentenças lapidares que nos deixa.

Muito bem Senhor Ministro, mesmo muito bem, a culpa é sempre dos professores, nunca é do sistema.

Eles é que são os maus, eles é que tem excelentes condições para ensinar, eles é que têm estabilidade no trabalho, eles é que todos os anos sabem que têm emprego e onde vão ensinar e mesmo sabendo tudo continuam a queixar-se. Eles é que estão errados, eles é que não compreendem o que os senhores têm feito.

Excelente o senhor Ministro ter tido a capacidade de reconhecer que existe uma tensão na sociedade relacionada com o sector da Educação, mas que, na sua opinião, é "importante (...) que se mantenha, porque é criativa".

Mais uma vez muito bem, encarar os protestos e providencias cautelares como "tensão criativa", pois só mostra que o Senhor Ministro tem uma noção exacta da realidade.

Permita-me também bater palmas de pé pelo facto do senhor Ministro afirmar que, caso se venham a confirmar as situações de ilegalidade no sobrevoo do território português, sem a autorização e conhecimento de Portugal, irá pedir explicações aos EUA. Como todos sabemos temos um peso tão grande aos olhos dos "américas" que virá o próprio presidente Bush a Portugal dar as necessárias explicações.

Obrigado por ter explicado que, neste momento, com os EUA existem apenas "conversações a um nível técnico", sobre a base das Lajes; presumo que seja para ver que tipo de tapete utilizaram os americanos para limpar os pés ao passarem por lá.

Desculpe ter-me alongado, mas fiquei fascinado e esclarecido pela visão que tem sobre o País; fiquei muito mais descansado, sabendo que realmente estamos em boas mãos.

Senhor, livrai-nos de haver petróleo no Beato ou em Torres Vedras!!!

“Aqui, não há petróleo e é bom que não haja. Quero ter paz!", replicava com veemência Maria Damas Santos, assim reagindo ao estudo geofísico do subsolo que pelos lados de Torres Vedras se vai fazendo.

Consta que, em Ponte do Rol, “os fios de cor laranja e preta não deixam ninguém indiferente. Atravessam ruas e estradas, sobem passeios e muros, entram nas propriedades e até nas habitações, desde que previamente autorizados”.

A nossa resistente, que não cedeu às pretensões da empresa norte-americana que anda por ali a esmiuçar o solo, garante que "foram pedir-me autorização, mas eu até tenho pouca fé com os americanos e não quero que estraguem os nossos solos".

Mulher de Deus, assim nos estragas as perspectivas de futuro!, vociferam entre dentes alguns dos seus vizinhos.
É que, alguns, já se imaginavam magnatas do petróleo a fazerem como os texanos que no auge do ouro negro mandavam encher as piscinas a águas “Perrier” ou como os sauditas a jogarem ao “Monopólio” com notas de euro verdadeiras.

Está na massa do sangue dos “tugas” esta aptidão para, em descortinando um nicho de mercado, uma oportunidade de negócio, conseguir folgar as costas e viver faustosamente.

Vinham as caravelas da Índia e iam directas à Flandres descarregar as especiarias que, rendendo grossa maquia, já estavam todas tomadas pois a Corte cedo se habituara a viver da conta corrente.
Tipo um deve e haver à moda das antigas mercearias.

“Devo 5000 moedas de ouro porque há 2 naus que vêm a caminho pejadas de sândalo, canela, pimenta e moscada! Faz favor, anote aí”, dizia lá o contabilista d’ El Rei e assim se fazia.

Depois veio o ouro do Brasil e tudo se gastou.
Grossos carcanhóis que se nos esfumaram das mãos.
Do Portugal de aquém e além-mar também nunca conseguimos tirar proveito que se visse.
E dos fundos comunitários que nos jorraram como água em bica aberta também se pode discutir alguns proveitos que por aí se fizeram.

Daí que esteja como a vizinha da nossa ajuizada Maria Santos que aos costumes e ao “pitrol” diz: "Somos pobrezinhos, mas temos terrenos ricos que nos dão batatas, trigo e vinho. Haja saúde para trabalhar que é a melhor felicidade que se pode ter. Não precisamos do petróleo".

Tenho para mim que seria o dia mais infeliz da nossa vida e existência colectiva.
Descobrir petróleo em Torres Vedras ou em qualquer lugar desta “piolheira” à beira mar plantada, seria um convite à balda institucionalizada.
Qual trabalho, qual caraças…

Viveríamos como nabados e marajás.
A gastar à tripa forra.
E já nem o Mundial 2018 os espanhóis veriam, pois seria coisa só da lusa nação.
E pontes sobre o Tejo?
E aeroportos?
E TGV’s?
Upa, upa … haja petróleo!

Claro está que tudo isto é do mais antipatriótico que existe.
De Cavaco Silva a Francisco Louça, passando pelos nossos José Sócrates e Luís Filipe Menezes, todos, em lendo isto, exclamariam: “Real besta! Cavalgadura asinina que estavas tão bem calada!”
Mas eu cá me mantenho na minha, petróleo nem no Beato nem em lado nenhum!

Herança envenenada

Há cerca de trinta anos atrás, os meus pais decidiram abandonar a minha terra natal -África do Sul, e regressar a Portugal. Aqui chegados, instalaram-se em Espinho, cidade à beira-mar plantada onde cresci.
Habituei-me desde cedo a viver com o mar por perto, a conhecer-lhe as marés e correntes, a sentir o cheiro a maresia a entrar casa adentro e a atravessar um longo areal sempre que desejava sentir o seu toque gelado no meu corpo...

Hoje não preciso de caminhar tanto para poder molhar os pés, ou antes, as pontinhas dos dedos dos pés, porque a água está ainda mais gelada do que nos tempos da minha infância e adolescência.

Essa longa caminhada já não é necessária, porque o areal das praias espinhenses diminuiu drasticamente. Aliás, como tem vindo a acontecer, também, em zonas como a Figueira da Foz ou a Vagueira, em Aveiro.

Daí que, na passada sexta-feira, não me tenha surpreendido nada com uma notícia na secção Ciência, do Diário de Notícias. De acordo com a mesma, e dando voz às críticas do físico, investigador e coordenador do projecto PortCoast – Filipe Duarte Santos, cerca de 67% da costa portuguesa está “em risco de erosão e perda de terreno graças aos efeitos das alterações climáticas”.
Duarte Santos destaca, ainda, que existe uma linha quase contínua entre Viana do Castelo e a Nazaré e, mais a sul, a Praia do Ancão e Vila Real de Santo António” onde é mais evidente essa vulnerabilidade costeira.

No entanto, diz o mesmo investigador, estes são dados preliminares que necessitam de ser confirmados através da realização de um estudo global da costa portuguesa. Até porque, como salientou, é fundamental perceber que zonas devem ser reforçadas para poderem manter a ocupação humana ou, pelo contrário, devem ser desocupadas, porque vão ficar submersas devido à subida do nível do mar”.

A inexistência deste estudo implica a inexistência de “ uma estratégia global (...) para fazer face às consequências das alterações climáticas” . O mais interessante é que essas alterações foram um dos temas definidos como prioritários pela presidência portuguesa da União Europeia...

Em que ficamos, afinal?

O ambiente deve ou não ser uma área prioritária para Portugal e para a Europa?

E, se a resposta for afirmativa, estaremos nós, enquanto cidadãos, a zelar pelos interesses ambientais do nosso país? E as autarquias, o governo que estão ou deveriam estar a fazer pela preservação da costa portuguesa?

Será este legado de “mamarrachos à beira-mar plantados” que queremos deixar aos nossos filhos e às gerações vindouras?

Politica? Justiça? Ambiente? Estou indeciso...

As coisas andam melhor.

Ele, pelo menos, sente que assim é e tem se sentido melhor de dia para dia. É evidente que existem dias em que subitamente sente que andou para trás, mas isso são daqueles dias em que basta uma brisa para se sentir pior.

Sentado em frente àquele ecrã, vendo pela janela um dia de verão, pensa que as estações estão realmente trocadas, alguns andam por ai afirmar que na realidade, este verão em Fevereiro não passa de um alteração climática normal, que fazem parte da historia do planeta, coisas que envolvem a correcção e alteração do eixo do planeta, ele suspira e avança com o já normal "tá bem eu acredito..."

Tem de escrever, tem de lutar contra a preguiça… claro que tudo o que escreve é por gosto, sente que se fizer um texto e ele for lido por uma pessoa e se essa pessoa o comentar, nessa altura sente-se realizado.

Não procurou fama, nem a procura, sente apenas um prazer de escrever, prazer recente mas um prazer sublime.

Uma ânsia de escrever, de comunicar como quem procura um copo de água perdido no deserto, onde o oásis onde pode beber a água é naqueles pequenos comentários que recebe - nem que sejam umas linhas - pois nessa altura sente que alguém leu, que alguém pensou e que conseguiu comunicar com alguém.

Que iria escrever?

Sente-se indeciso, procura noticias, falar de política e do badalado José Sócrates?

Falar de Justiça e do começo do julgamento do "Apito Dourado", que começou logo com requerimentos e tentativas de atrasar o início, sem que se queira limpar o nome apenas atrasar, apenas com o objectivo de se aproveitar a Lei e arrastar o processo, para no final tudo ser arquivado?

Falar do duplo atentado em Timor, perpetrado contra Ramos Horta e Xanana Gusmão, território onde muitos não sabem o que seja democracia, onde a lei da bala parece ser mais importante do que a vida e a Liberdade?

Pensou que podia falar das suas tão amadas questões ambientais, agora que o Governo teve uma brilhante ideia e está a pensar em transferir para as autarquias os poderes de limitação da Reserva Ecológica Nacional, onde as autarquias terão o poder de diminuir ou alargar a REN… Sabendo ele como funcionam muitas autarquias, ficou no mínimo perplexo.

Já estava a imaginar que com toda a certeza os limites nunca seriam alargados, possivelmente todos seriam diminuídos, olhava pela janela e onde via um riacho cercado de árvores, já via um "belo" armazém e possivelmente ao lado algum "pato bravo" a construir ninho!

Como ele se lembrava da sua bela terra, onde nasceu e foi criado, onde tudo era calmo e sereno, onde existiam zonas verdes, mas verdes mesmo, de origem, florestas e terrenos considerados reserva agrícola e agora o que produzem são uns belos "mamarrachos" a que chamam prédios, um lugar onde o betão e o alcatrão são agora considerados desenvolvimento

Pensou em escrever sobre tudo, pensou em escrever sobre nada e perante aquele teclado, bebeu um gole do seu copo com whisky de malte, cruzou os braços e ali ficou deprimido a observar este mundo...

Enquanto Alegre barafusta, António Costa mina?

A nova lei eleitoral para as autarquias locais ainda não saiu da forja e continua a merecer contestação.

Neste momento, o PSD, procurando satisfazer todas as partes, propõe alterações que permitam coligações pós-eleitorais e a concessão de mais competências e meios financeiros às Freguesias para assim compensar a perda do direito de voto na aprovação do Planos de Actividades e Orçamentos da Câmara Municipal por parte dos presidentes de Junta de Freguesia que, como é sabido, têm assento por inerência na Assembleia Municipal.

Está reduzido a isto o PSD: o que ontem era verdade, hoje é mentira!

Mas em Portugal, já se sabe, qualquer alteração ou novidade é admitida desde que rapidamente se transforme numa manta de retalhos para agradar a gregos e troianos.

Quem também apareceu na liça foi António Costa, presidente da Câmara Municipal de Lisboa, que reiterou as suas objecções ao projecto de lei afirmando que “é uma solução que produz uma maioria artificial na Câmara e não a reproduz na Assembleia Municipal”.

“Se temos uma boa experiência ao nível das freguesias e dos governos da República porque é que se vai arranjar uma solução que nunca foi testada em sítio nenhum e tantas dúvidas tem suscitado”, questionou o autarca da capital.

Num fim-de-semana em que exultaram os noticiários e os comentadores com a presença de Manuel Alegre, penso que passou despercebida esta pequena alfinetada de Costa.

E não devia, pois é um sinal (ténue, mas um sinal) que António Costa quis sair do Governo para deixar José Sócrates amadurecer, cair de podre e regressar.

Há diferenças na actuação de ambos.

Alegre, que agora se reivindica como um emérito defensor do povo mas com o qual pouco gosta de privar, não tem uma razão sólida e consistente para fazer mais que criar uma “corrente de opinião” dentro do PS. Nisso, confirma a velha máxima de que onde estiverem dois socialistas há uma tendência.

Costa, por seu turno, é um daqueles políticos feitos dentro da política, que tem sabido gerir com mestria a sua carreira e que tem uma razão: ambiciona ser o primeiro. Não que se lhe conheça uma ideia, um projecto alternativo, embora Alegre também apenas divague sobre conceitos vagos. Mas enquanto um tem a ambição de lá chegar, o outro gosta assim de umas coisas etéreas.

Andam todos entretidos com o Manuel Alegre (não percebendo que este luta pela sobrevivência política), e há alguém que já trabalha no pós-socratismo.

Vão por mim!

Notas Emprestadas - Drugs don´t work

Mais uma vez, e dentro da nossa prática de aqui dar voz a autores de outros blogues, o NOTAS SOLTAS dá à estampa um texto de um convidado.
Que, ao caso, é o Nuno, mais conhecido como "O Profano".


Este texto foi escrito por mim em 1992 ( tinha eu 16 anos) no âmbito de um trabalho de grupo de uma associação de jovens a que pertenci na minha juventude e como continua bastante actual e pertinente, aqui fica o texto para todos o lerem e comentar...

Jovens,
Libertem a vossa ira contra esta nossa tão deprimente sociedade, que só nos faz ficar cada vez mais desiludidos com o que somos.

Cada vez mais nos tornamos mais obsessivos e depressivos, devido ao que este mundo se está a tornar.

A podridão está à nossa frente em qualquer canto; a droga está cada vez mais próxima de nós. Os "flashes", as "pedras", os estados alucinantes e inesquecíveis que ela nos provoca; faz-nos ficar alheios ao que nos rodeia.

Mas não é por este o caminho que nós (Jovens) devemos seguir, pois mais cedo que tarde pagaremos a factura de tais tresloucados e irresponsáveis actos. Apenas temos de pegar "de caras" cada situação que à frente nos apareça.

Temos de lutar! Temos de Viver!

Porque no mundo actual, desistir é sinónimo de morrer, e morrer não é a solução ideal para fugir aos problemas. Somente temos de os enfrentar.

Apesar de parecer fácil este discurso, sei e assumo que não o é.

Mas não pudemos seguir apenas o culto do "laisse faire..." porque deste modo não chegaremos a lado algum como pessoas.

Actuem! Façam algo que realmente vos dê prazer!

Reúnam-se por quem vos faça somente bem e deixam de acreditar em promessas fáceis ou vãs, pois nada na Vida acontece sem alguma luta.

E principalmente DIVIRTAM-SE!!!

Esta deve ser para mim, a "palavra" mais correcta que se deve passar à Juventude, enquanto a podem usufruir; para que num futuro próximo não afirmarem que não gozaram a vossa juventude.

Mas espero que a usufruíam de uma maneira saudável e sem molestar outrem, com os vossos divertimentos ou problemas, porque não nos podemos esquecer que a Liberdade não é Una mas de Todos.

É apenas isto que Vos posso dizer.

Ouçam: "Acreditem em Vós próprios e Actuem!"

11/02/1992 - Nuno Raimundo - http://oprofano.blogspot.com/

O direito à greve e a espada de dois gumes

Num Sábado soalheiro e agradável demais para a época não apetece muito desperdiçar tempo em sinapses nervosas despoletadas por leituras sérias. Com os devidos pedidos de desculpas cá vai o artigo de hoje, que, por sua vez, me foi incutido pela leitura de um artigo polémico aterrado no meu colo a semana passada, Sábado, precisamente.

Nunca me detive muito a pensar se o direito à greve é legítimo ou não e se do seu uso advêm benefícios à Humanidade. Nos meios pensamentos que lhe dediquei ao longo da vida nunca se me apresentou como algo que eu defendesse acerrimamente. Nunca me apercebi que os trabalhadores lucrassem por aí além com as greves que empreendem e sempre considerei que, para que uns exerçam o seu direito, outros tenham de ser prejudicados e, numa perspectiva auto-centrada, a prejudicada era, por vezes, eu.

Ora, como me orgulho da minha abertura de espírito e porque rótulos de direita e de esquerda não me dizem nada, li o tal artigo que sustentava os prós e os contras do direito à greve. Não lhe fiquei indiferente, o que, pessoalmente, acho óptimo, porque nada pior do que ler coisas que não nos acordam e aí sim, aí reside o desperdício de preciosas sinapses nervosas.

Os trabalhadores europeus são os mais bem pagos e mais bem protegidos do mundo e da História humana. Os metalúrgicos alemães espirram e o país treme, os administrativos gauleses saem à rua e a orgulhosa França cede. A greve é, nesta perspectiva, a ferramenta mais potente e legítima que os mesmos têm para se defender de agravos num mundo inclemente em que se intentam drásticas mudanças nas relações laborais.

Os detractores do direito à greve alegam que este é um direito que lesa terceiros e que, portanto, é um direito questionável (têm razão). Defendem igualmente que as greves são marcadas deliberadamente em datas que causam prejuízos máximos a utentes de serviços e patronato ou em datas em que a falta ao trabalho se prolongará fim-de-semana adentro (não terão também razão?). Declaram que, frequentemente, as greves são marcadas precipitadamente, quando outras vias ainda não se esgotaram (também vejo razão nisto). E, por fim, invocam que nem sempre as greves se realizam sob pretextos válidos, justos ou pertinentes (certo, não?). Radicalizam, no entanto, quando afirmam que os sindicalistas são pessoas de trato fácil pois só a sua razão vale e só o seu ponto de vista é considerado o correcto: sem cedências, univocamente.

Do lado oposto da barricada, os defensores do direito grevista constatam que este é o mecanismo legal menos frágil que se interpõe entre quem trabalha e quem dá o trabalho (sim, é correcto). A greve é aquilo que, historicamente, elevou os trabalhadores europeus aos patamares de benefícios de que auferem actualmente (nem questiono este princípio). Estar em greve é a expressão livre da opinião e do direito à liberdade, direitos que não podem ser coarctados (claro que é uma justíssima razão). A greve não é um acto individual, mas uma luta por um Bem maior e colectivo (sim, sozinhos não vamos a lado nenhum). A greve não visa unicamente reivindicações no/do presente, mas a sua tradução no futuro (também não está mal visto). Se este direito deixar de ser consagrado, abre-se caminho para a implementação cega de leis, normativas e actos de cariz mais ou menos totalitário (medo bem fundado nos dias que correm).

Encontro-me numa espécie de terra-de-ninguém no que toca discernir para que lado pende preferentemente o peso desta balança controversa. Entendo ambas as perspectivas e, se, ab initio, me tenho sempre revisto tendencialmente nas primeiras premissas, condescendo que a greve é um direito inalienável ao qual muito devemos nos nossos dias e, se bem usado, ao qual muito ainda ficaremos a dever num futuro talvez não muito longínquo. O meu problema é que este é um direito que se deixou aviltar e banalizar e que, consequentemente, não terá a credibilidade de outros tempos primordiais. Com aquele artigo deixei de associar greves a sindicalistas empedernidos e a extremismos reivindicativos, mas também não deixei de me inquietar com o facto de haver um direito que obsta ao usufruto de outros direitos.

A Demos Cratia é, ainda, e desde os tempos clássicos de Péricles, um modo de governo imperfeito e, paradoxalmente, o que temos de melhor, de mais humano e de mais justo. Farei greve quando assim deixar de ser.

Composição : Assembleia da República.

A Assembleia da República é um lugar muito grande, com muitas cadeiras, e eu vejo na televisão que umas estão ocupadas outras não, fica em Lisboa.

No centro da sala fica uma cadeira muito alta onde se senta um senhor, que está lá para mandar calar os outros. O meu pai diz que é o Presidente da Assembleia da República, que é o Senhor Jaime Gama.

Por baixo senta-se um senhor a quem chamam Primeiro-Ministro, que é o senhor José Sócrates e dos dois lados dele uns a quem chamam Ministros. Às vezes parece assim em minha casa na mesa grande quando o meu avô fica no centro e nós todos à volta.

O resto das cadeiras são ocupadas por uns senhores e senhoras a que chamam deputados, mas cá em casa o pai chama-lhes outras coisas, algumas não percebo bem.

Ele uma vez disse que aqueles senhores eram uns cromos. Na altura fiquei muito triste, pois faço colecção de cromos e nunca me saiu um cromo desses, ao que o meu pai me disse "Ainda bem !!!", eu não percebi...

A mamã diz que a Assembleia da República é um lugar onde uns senhores vão para beber um café, ler o jornal de graça e conversar com os amigos, diz ainda que gostava era de ver aqueles senhores todos com enxadas e vassouras nas mãos. Eu também não percebi, e quando lhe perguntei ela mandou-me estudar e estar calado.

Ontem estava à espera de ver o meu programa preferido, que se chama "A ilha das Cores", quando vi imagens de uma conversa, que estavam a ter na Assembleia da República sobre uma coisa que chamavam de tratado.

O meu avô explicou-me que o tratado que falavam, era um papel onde estavam escritos os termos da rendição de Portugal aos invasores europeus.

Eu mais uma vez não percebi nada, nem sabia que estávamos em guerra, mas se o avô diz, eu acredito, afinal ele sabe sempre tudo.

Depois fui perguntar à minha querida avó o que era para ela aquilo tudo e ela respondeu-me, que gostava muito de cozinhar caldo verde e adorava arroz de feijão.

Na sala de aula, a minha professora ensinou que as pessoas podem ver os debates mas que não podem falar, nem que seja para dizer olá a alguém, ela disse que foi lá uma vez e perguntou à Senhora Ministra da Educação pela mãe dela e logo foi mandada para a rua mas que antes o polícia lhe pediu o nome e mais umas coisas.

Eu só sei que a Assembleia da República é um lugar muito divertido e por isso já pedi ao meu pai para comprar os bilhetes para ir lá, ao que ele respondeu "nem que me pagassem!!!". Eu não entendi, então o meu papá não gosta de rir?

Eu adoro rir, ainda por cima se tiver uns senhores engraçados a dizer uns disparates aí é que eu me divirto e se ainda fizerem umas acrobacias, uns saltos e umas piruetas, então é que é.

Advogados na política, casamento de amor ou de conveniência?

Recentemente José Miguel Júdice, um dos advogados mais políticos do País, chamou-lhe demagogo, Mussolini, Chavez e garantiu-o candidato populista contra Cavaco Silva.
Marinho Pinto é o seu nome.

Desta feita, o homem bomba abre outra frente de guerra e arrisca-se a apanhar com um campo de minas. Ele quer tornar incompatível o exercício simultâneo de deputado e advogado. Quase que apetece dizer: “Ó Cerejo, investiga esta!”

"Quem faz leis no Parlamento não pode, ao mesmo tempo, aplicá-las nos tribunais", proclama, sob pena de, se assim não suceder, "pairará sempre a suspeita legítima de que muitas das leis possam estar mais voltadas para os interesses dos clientes de alguns legisladores do que para o interesse público e para o bem comum".

Isso é "um disparate", asseveram os senhores doutores advogados deputados.

"O sr. bastonário mete tudo no mesmo saco e não tem razão alguma. Que os deputados sejam obrigados a explicar a sua situação económica acho bem, em nome da transparência. Agora que um advogado não possa exercer um cargo público é um disparate", considera Paulo Rangel, do PSD.

"Entendo que as profissões liberais não devem ser retiradas da Assembleia da República, porque assim estaríamos a fazer dos deputados funcionários públicos", argumenta o socialista Ricardo Rodrigues. Os advogados até são "uma mais-valia no Parlamento", pois estão "melhor posicionados" para trabalhar no processo legislativo.

E remata com um portentoso remate: não faz parte do programa eleitoral. Ponto.

"É uma solução possível mas radical. A presença dos advogados na Assembleia da República tem algumas vantagens, como a de introduzir maior qualidade na produção legislativa", concorda Rogério Alves, ex-bastonário.

Pois, e tudo isto porquê? Porque dos 230 deputados, 51 são advogados. O PS tem, à sua conta, 23 numa bancada de 121 eleitos, o PSD 20 (75 deputados), o CDS/PP 6 e a CDU 2

Quase um quarto dos 230 deputados em funções na Assembleia da República são advogados, ou seja, são 51 os deputados/advogados. Destes, 23 estão na bancada socialista, 20 na social-democrata, seis no CDS/PP (12) e 2 na CDU (11).

A dar provas que ou a guerra de interesses é grande ou a certeza que algo de esquisito se pode passar, refira-se que a Ordem dos Advogados (OA) também chegou a pensar, em tempos, impedir a existência de senhores doutores advogados vereadores.
Foi grande o escarcéu e tudo se esqueceu.

Mas fico cá com as minhas dúvidas.

Será que ter na casa onde se tomam das mais importantes decisões do País, eleitos que são simultaneamente advogados é bom ou é mau?
E nas autarquias onde se decidem coisas que mexem no dia-a-dia de pessoas que, neste caso, acedem mais facilmente a quem tem o poder?
Têm a palavra os que assim o desejarem.

Afinal, os burros somos nós...

Eu sou uma devoradora de livros. Gosto de ler, cirandar pelas livrarias, pegar nos livros e sentir-lhes o cheiro. Houve tempos em que os comprava de maneira quase compulsiva. Comprava por achar o nome giro, por conhecer o autor, porque lia um excerto e despertava-me a curiosidade... Mas o facto de passar a trabalhar por conta própria e ter responsabilidades para com colaboradores e senhorio, tornaram-me mais poupadinha.

Apesar disso, continuo a ir religiosamente às livrarias, a pegar nos livros, a sentir-lhes o cheiro e o toque, a descobrir relances da narrativa para me permitir divagar e imaginar como se desenrola...

Há alguns meses atrás, deparei com um novo best-seller. Confesso que esses não são normalmente os que atraem a minha atenção, mas por todo o lado ele dominava os escaparates e toda a gente me falava nele. Até fiquei curiosa, mas nunca o comprei. Mas dizem que o destino é mais forte do que qualquer outra coisa e acabaram por mo oferecer no Natal...

A autora do livro em questão diz que este constitui um mestrado que nos permite “perceber o poder invisível" da nossa mente, o poder e força do nosso pensamento. Diz o povo que “quando a esmola é grande, o pobre desconfia” e foi isso que senti. De qualquer forma, decidi ser um pouco mais condescendente e iniciei a sua leitura...

Neste momento, vou na página 35. Nem parece meu, ainda não ter concluído a sua leitura mas outros livros se atravessaram no meu caminho... Mas isso é outra conversa!

Rhonda Byrne defende nesta obra que “a lei da atracção é uma lei da natureza” e que é “precisa e exacta”, tal como a lei da gravidade. Esta lei da atracção é supostamente ditada pelo poder do nosso pensamento que tem a capacidade atrair tudo aquilo que desejamos. O busílis da questão é que é preciso programar esses pensamentos.

E isto porquê? Porque, segundo o livro, os nossos pensamentos são enviados para o Universo, e atraem magneticamente todas as coisas semelhantes que estão na mesma frequência.” E nós constituímos uma autêntica “torre de transmissão”. E porque é que não podemos pensar na negativa?
Porque o Universo não descodifica palavras, pensamentos, desejos expressos na negativa. Daí que, segundo a autora, se todos pensarmos de forma positiva num determinado assunto, isso irá realmente acontecer pois estamos todos na mesma frequência, a desejar o mesmo e da mesma forma. O mesmo acontecerá quando nos focarmos nos aspectos tristes, negativos das nossas vidas ou das dos outros.

Por outras palavras, quando há uma catástrofe, segundo a lei da atracção, ela dá-se porque muitos pessoas estavam na frequência errada, simultaneamente. Assim, não podemos pensar, desejar aquilo que não desejamos, isto é, não podemos pensar “Eu não quero ter um acidente!” quando tudo o que queremos é ter uma viagem tranquila. Então, para colocar o poder do pensamento ao nosso serviço, devemos pensar: “Quero ter uma viagem tranquila!”.

E, assim, graças a um daqueles livros por quem eu não dava nada, descobri a resposta àquelas questões que se colocam a todos, (bem, quase todos) os portugueses: mas em que país é que José Sócrates vive? Como é que ele pode achar que a economia apresenta um crescendo, que o desemprego diminuiu, que Portugal está bem e recomenda-se?

Pois é, meus, amigos, ele é que está certo! Ele leu O Segredo e está a aplicar rigorosamente a lei da atracção aí defendida!
O problema é que nós estamos todos na frequência errada...

Lá falar de ética, falam eles... o pior é o resto!

Desde as 61.893 fotocópias de Paulo Portas até aos 300 despachos do ministro Telmo Correia, passando pelos incontáveis projectos, todos “feitos” por José Sócrates e as questões de incompatibilidade, o bombardeamento noticioso tem sido intenso. E ameaça continuar.

Somos invadidos por notícias, que reportam coisas mais sombrias da forma como se exerce política nos dias de hoje e se está nos altos cargos de poder.

Não entrando em aspectos jurídicos (pois nunca esqueço o que um amigo meu me disse que, neste domínio, "juntas dois advogados e consegues três opiniões” e, digo eu, às tantas todas válidas), permitam-me ver isto pelo lado ético.

Para quem não sabe, Ética é uma palavra politicamente muito usada.

Mas é assim como a religião, onde a grande maioria é católica mas não é praticante. Pois politicamente todos se definem como bastante éticos, mas já praticar é que é uma chatice...

O que se devia realmente discutir é esta ética que permite fazer 300 despachos numa noite antes de sair do lugar de ministro e depois se venha dizer que não se despachou, pois apenas se colocou um "Tomei conhecimento".
Se assim foi temos que dar os parabéns ao Sr. Telmo Correia. Não é qualquer um que trabalha tanto numa noite, ainda por cima ler tanto papel é obra.

Discutir a ética de se fazer tantas fotocópias de papéis do Ministério, depois de saber que estava de saída e depois vir esclarecer que eram tudo papéis pessoais. Se assim foi, muito bem, isso é que foi trabalhar mas sempre se pergunta é porque é que se copia papéis pessoais?

Discutir a ética de alegadamente assinar projectos de outros ou de supostamente exercer dois cargos incompatíveis.

Discutir a ética de um ministro ou um autarca não passar devidamente a "pasta" ao seguinte deixando-o a "nadar".

Discutir a ética de fazer-se nomeações a correr, fazer-se adjudicações de obras, entre outras coisas, quando supostamente estariam em "gestão" e antes que os novos detentores do lugar entrem.

Mas o que se devia discutir principalmente é a base, o facto de todos os dias vermos exemplos de atropelos à Ética por parte de políticos e outros dirigentes, alegando sempre que não fizeram nada contra a Lei, que estão e sempre estiveram dentro da lei.

Pode ser sim senhor, podem estar dentro da lei mas e as questões de ética?

Então e a imagem e o exemplo que transmitem para a sociedade?

Então e a coluna vertebral ou já a arrumaram há muito num canto, deixando assim de caminharem direitos e de pescoço levantado?

Um dos grande exemplos que eu vi, e reflecte esta sociedade que temos, vem da área desportiva. Num processo bastante mediático, que está em julgamento ou empancado por aí em algum trâmite legal, os arguidos foram acusados de tráfico de influências, ou seja, troca de favores.

Mediaticamente todos gritaram inocência e o normal seria se fossem realmente inocentes irem a julgamento e demonstrarem ao mundo que estão realmente "limpos". No entanto, a estratégia é outra, os advogados deles avançam que não podem ser julgados por que a lei não cobre aquilo de que eles são acusados...

Coitada da ética, apanha cada carga de porrada!

Na política, pelos vistos, é de besta a bestial!

Gosto de pessoas assim. Ponto.
Cheias de certezas absolutas onde outros hesitam.
Capazes de numa simples frase resumirem extensos pareceres da Procuradoria-Geral da República, de cilindrarem interpretações jurídicas e de nos animarem os dias.
Fala, obviamente, do jornalista do "Público", José António Cerejo.

O dito jornalista, em declarações a uma estação de televisão, garantia que o então deputado "não podia desempenhar qualquer actividade profissional. Ponto."
Ficou-me no goto esta sua capacidade redutora de transformar em dogma o que escrevera.

Eu tenho a impressão que o jornalista não deve ser uma pessoa muito, mas mesmo muito, perdulária na gestão do seu tempo.
E tenho de memória, e uma rápida pesquisa através do Google permite confirmar o que vou dizer, imensos escritos seus em que são sempre visados políticos do Partido Socialista.

Não sendo infelicidade ou obsessão de quem escreve, então é azar da pessoa colectiva visada que, a avaliar por muito do que por aí se escreve, acolheu no seu seio recolheu a maior cáfila de meliantes de que há memória.

Isto porque sou dos que não acreditam, nem aceitam a teoria da conspiração que alguns puseram a correr que naquele periódico tudo mudou desde que uma certa OPA correu mal!

Admitindo, por absurdo, que tudo o que Cerejo escreve é a mais cristalina das verdades e tudo o que Sócrates afirma rotunda falsidade, o que se alcança com aquelas notícias, para além da notícia em si?

Nada.
É que o português comum gosta de ser ele a ter o exclusivo da má-língua, mas convive mal com o bota abaixo sistemático.
Desconfio bem que com esta algazarra nem o jornal aumenta a tiragem, nem fere de morte José Sócrates.

Aliás, as reacções, se é que eram esperadas, não foram tão acaloradas quanto isso.

Jerónimo de Sousa, por exemplo, garantiu que não vai "usar como arma de arremesso" as notícias do Cerejo.
António Pinto Leite afirmou que "apreciações de ordem moral e ética devem ser feitas com rigor" e lembrou que em 2009 o que vai contar será "a relação entre o grau de credibilidade de Sócrates perante os portugueses e a situação no PSD".

Cavaco Silva foi ainda mais lapidar: "É bom que tenhamos agora quatro dias em que não se fala de política, para os portugueses não pensarem nisso e os próprios políticos poderem gozar com tranquilidade".

Isto é, vale o que vale o que o Cerejo escreve.
Para mim, que aqui tenho criticado a acção do Primeiro-Ministro nalguns sectores, até já fede tanta insistência do “Público” nesta tecla.

Pode não ter nada a ver, mas não sei se repararam que bastou Correia de Campos sair do Ministério da Saúde para logo muitas das carpideiras analistas que temos saírem a terreiro a bradar que não se faz.
No futebol é de bestial a besta; na política, pelos vistos, é de besta a bestial!

Despotismo, preguiça ou ignorância da ASAE?

Às 24 badaladas do dia 31 de Dezembro de 2007, António Nunes festeja com largas baforadas de cigarrilha a entrada em vigor da proibição de fumar em zonas de utilização pública não delimitadas.

E fá-lo ostensivamente! À vista de todos ! Com a convicção firme de ser o mais bem colocado acima de uma lei cujo controlo, em primeira instância, sabe lhe pertencer inteiramente.

Após uma atitude que mais não teria merecido que uma demissão imediata e exemplar sem azo a explicações esfarrapadas - é mais que sabido que se encontrava numa zona não delimitada para fumadores - só seria de esperar a gestão escandalosamente irresponsável e déspota que se verifica na implementação das directivas de higiene europeias na comercialização de refeições.

Que se proceda a inspecções em cozinhas e espaços de consumo, visando o cumprimento das regras básicas de higiene e conservação de alimentos, dando seguimento a análises aleatórias de produtos, procedimentos e materiais, creio que estamos todos de acordo. Mas daí a condenar totalmente a comercialização de produtos caseiros, abalando economias familiares e condenando o consumidor ao produto industrial, liofilizado, de qualidade muito inferior, só pode fazer perder a paciência a todo o santo que se preze.

Vamos a exemplos concretos : Na Sexta-Feira fui almoçar por volta das 15 horas. Escolhi um snack familiar, bem conhecido pelos eurocratas cá do burgo, situado em pleno coração do quartier européen de Bruxelas. Como prefiro almoçar nas horas de menor movimento, entrei, naturalmente, a seguir à hora do almoço. Praticamente todas as mesas estavam por arrumar e limpar. Sentei-me com uma colega numa das mesas, coloquei o recheio na mesa ao lado, peguei no menu, pedi um dos pratos fait maison (não industrial, a cozinha é aberta, produtos e cozinheiros à mistura) e um copo de vinho tinto, da casa (não estava selado). Temperei o prato utilizando o galheteiro existente na mesa (igual ao que tantos de nós tem em casa). A seguir pedi um café que foi servido com leite num jarrinho à parte (e não em pacote fechado) e o açúcar num açucareiro normal (não empacotado) …

Ou seja, não me lembro ainda de ter visto nesta terra, em plena « boca do lobo », praticamente nenhuma das imposições histéricas agora proclamadas pela ASAE relativamente a estabelecimentos de produção caseira. Há regras básicas de higiene a respeitar, certo, mas nada que se compare àquilo que tenho lido e observado na imprensa e medias portugueses.

A quem é que passa pela cabeça impor tais regras, por exemplo, a um restaurante com estrelas da Michelin? Já por si bem apertadas, mas não caindo no ridículo das proclamadas pela ASAE. Mas isto está tudo doido nessa terra?!

O que é impreterível, isso sim, é correr-se com esse incompetente de uma vez por todas e arranjar alguém com idoneidade e sensibilidade suficientes para adaptar as directivas a cada caso específico e não da forma cega, preguiçosa (sim, porque dá trabalho fazer o estudo de cada caso) e despotista de um António Nunes completamente desfasado da realidade e, pior que isso, assumindo a velha postura tuga, bem evocada pelo Herman José, do « eu cá é que ponho e disponho, eu cá é que sou o Presidente da Junta»!

Excelentíssimo António Nunes, a sua credibilidade, a partir da última badalada de 2007… esfumou-se!

Para conhecer o "Guia para Controlo da Segurança Alimentar em Restaurantes Europeus": clique aqui .