Portugal bom aluno ambiental? Como somos bons alunos, podemos poluir mais.

Todos temos os nossos interesses, todos gostamos mais de uma matéria do que outra e ainda bem que assim é.

Isso permite trazer, por exemplo, aqui para o “Notas Soltas” diferentes perspectivas e diferentes matérias.

Considero que insistir numa matéria não deveria ser considerado chato, deveria sim ser considerado um batalhar para acordar consciências e o debate; por isso tomei a decisão de insistir num assunto que me interessa, que é o ambiente.

No meu último texto tentei trazer para a discussão o tema da contradição entre o que as pessoas dizem e aquilo que realmente fazem quando são colocadas perante o tomar uma atitude.

Como referi na altura "muito colocariam as mãos nos bolsos e assobiaram para o lado".

Sem ser exagerado, quando escrevi a palavra biodiversidade até cá de casa se conseguia ouvir gente assobiar ou a suspirar por se sentir enfadada.

Desconfio que se tivesse semeado José Sócrates, Cavaco Silva e Filipe Menezes no texto, às tantas tinha conseguido mais aplausos.

Mas como não andamos cá para recolher o aplauso pelo aplauso, bastou-me sentir que consegui respostas de alguns e até considerações sobre tópicos saídos de comentários.

À vaca fria…

Sabiam que o trabalho feito na área do clima, poluição do ar, água, recursos naturais e qualidade ambiental valeu a Portugal o 18º lugar no Índice de Desempenho Ambiental 2008, elaborado por uma equipa das universidades de Yale e Columbia, apresentado ontem no Fórum Económico Mundial em Davos, Suíça?

Muito bem, digo desde já. Parece que, de facto, estamos no bom caminho; aliás, segundo o mesmo estudo, os Estados Unidos surgem num modesto 39º lugar, influenciados pelo seu fraco desempenho em matéria de gases com efeito de estufa e no impacto da poluição do ar nos ecossistemas.

"O desempenho dos Estados Unidos mostra que a próxima Administração não deve ignorar os impactos ambientais nos ecossistemas, bem como na política agrícola, energética e gestão da água", comentou Gus Speth, da Universidade de Yale.

Eu gostava que assim fosse. Por acaso gostava …

Como não há bela sem senão, das seis categorias analisadas, Portugal tem o pior desempenho na área da biodiversidade e habitat ficando abaixo da média. Na verdade, os piores resultados surgem no indicador de áreas marinhas protegidas e conservação efectiva da natureza.

Apesar disso, quando achamos que estamos no bom caminho eis que nos surge uma "boa nova"

"Até 2020 Portugal pode aumentar 1% das emissões de dióxido de carbono (CO2) nos sectores não abrangidos no Comércio Europeu das Licenças de Emissão (CELE), como o dos transportes”, anunciou a Comissão Europeia.

Traduzindo, podemos poluir mais porque estamos dentro das cotas programadas para o conjunto da Europa. Quer dizer, podemos poluir mais um bocado… mas eu acho que está mal.

Assim como acho mal essa história de andar a comprar e vender cotas de poluição; quer dizer, então um Estado polui mais do que deve mas pode comprar a outro o que lhe sobra?

Não seria aceitável definir uma cota para cada país e fim de discussão?

Não seria mais lógico que quem não passasse a cota, muito bem; quem passasse pagava multas?

Alonguei-me e mesmo assim não escrevi tudo o que pretendia, mas deixo ainda mais esta: "A Câmara de Valongo aprovou uma proposta de alteração pontual do Plano Director Municipal (PDM), que permite a instalação de armazéns na Reserva Ecológica, apenas com os votos favoráveis de dois eleitos da maioria social-democrata e com a abstenção do PS e de três vereadores do PSD".

Ah, valentes!

22 comentarios:

António de Almeida disse...

-Estes indicadores são muito pouco fiáveis, o único interesse dos mesmos é quando comparados com eles próprios após novo estudo, porque os métodos são os mesmos, de resto, ninguém se pode admirar, que outro estudo, apenas porque elaborado seguindo outros critérios variáveis, possa proporcionar outro resultado. De acordo com a ideia que cada país deveria valer por si, mas apenas dentro da U.E., para consumo interno, porque em matéria de tratados e protocolos a nivel global, o peso da U.E. é superior, e vale como um todo, assina por todos. Mas sem dúvida, que no tema bio-diversidade, Portugal tem muito que andar, desde logo e para começar, explicar aos cidadãos, que aposto, mais de 80% nem sabem o que isso é, quanto mais identificarem o problema. Alguém se preocuparia com a poluição, caso não existisse informação sobre camada de ozono e outras?

Fragmentos Culturais disse...

Concordo com o comentário anterior, há muito para educar!

Concordo com a persistência de ideais...

Temos a 'mesma' paixão: o Ambiente! Outra?!

Embora não escreva sobre o tema, batalho por ele todos os dias, sensibilizando novas gerações...

Lamento andar tão afastada, mas outros afazeres me roubam imenso tempo...

Um abraço muito amistoso

Francisco Castelo Branco disse...

Só sei que em termos de poluição não somos os mais NÃO VERDES.
Esses chamam-se EUA!!!
Que assinem Quioto de uma vez por todas.....
Em Portugal, eu plantava árvores e construia jardins em vez de rotundas..........

Blondewithaphd disse...

When I started reading I knew it had to be you! That's your style and your topic, no need to apologise for that. This is a Tiago's text!!
As for the subject, coming from a country with serious environmental policies for common citizens I find it perplexing the attitude of neglect of the Portuguese towards the environment.

quintarantino disse...

Bem, eu cá gostei foi de ver aquelas abstenções estratégicas ... ou será que foram um sinal de guerra interna?

É que parece que o presidente da Câmara ameaçou que tiraria os pelouros a quem tivesse votado contra ...

Manuel Rocha disse...

Tiago,

Naturalmente aplaudo a atitude e a conciência que ela revela.

Concordo com o A.Almeida qd ele refere que estes estudo e rankings não querem dizer necessariamente grande coisa.

Isso não obsta a que se faça tudo o possivel para melhorar a consciência de cada um dos individuos que somos para o tamanhão da nossa "peugada ecológica".

Uma sugestão que lhe deixaria nesse sentido seria a de incidir sobre questões concretas associadas aos consumos e comportamentos quotidianos. Desde os saquinhos plásticos das compras, aos produtos pluri-empacotados, passando pelo lixo desnecessários que produzimos ou pelos transportes públicos que não usamos.

Uma certeza no entanto lhe deixo: nunca será um discursos "simpático"...:), porque o que a nossa má performance "ambiental" revela sobretudo o que a Blonde refere, as nossas imensas lacunas, individuais e concretas, de formação cívica. Um cidadão consciente não precisa nem de decretos nem de bons exemplos; é ele próprio o primeiro a dar o exemplo.

Abraço.

Carol disse...

Olha, Tiago, não tens que te desculpar por seres pró-ambiente. Houvessem muitos em Portugal!
Relativamente às audiências, também não é por isso que andamos aqui e, como está visto, há sempre uns amigos que gostam de nos ler e conversar sobre os temas abordados.

Quanto ao post não tenho muito a dizer. Concordo em absoluto com o que dizes: a questão das quotas é anedótica e é ridículo que digam "Ah, poluíste pouco este ano, por isso podes poluir mais no próximo!".

De resto, concordo com o M. Rocha quando diz que é preciso educar e ensinar as pessoas, pois esse é o único caminho a seguir.

antonio disse...

Tiago, eu cruzo os braço e assobio para olado à espera questa moda do aquecimento global passe...

Joshua disse...

Acho que o empenhamento ambiental é uma questão sempre pertinente, Tiago. Desde há muito tempo que há um discurso que procura que os seres humanos tenham uma relação JUSTA com os outros e com o que os rodeia.

O espírito predatório e usurário dos torturadores de AbuGrahib é o de todos nós, que somos monstros contidos e destruidores parcimoniosos, controlados pela Cidade e pela 'Civilização' e por escrúpulos de circunstância.

Também não concordo com cotas. Toda a poluição é para ser banida, assim como a mesquinhez, a inveja, a hipocrisia, que poluem projectos válidos não se percebe em nome de que clarificação.

Aquele Abraço

PALAVROSSAVRVS REX

Compadre Alentejano disse...

A partir de 2009, com os executivos paridos pela nova lei autárquica é que vai ser um regabofe: então é que eles aprovam tudo!...
Um abraço
Compadre Alentejano

Peter disse...

Congratulo-me com o 18º lugar no índice do Desempenho Ambiental. Penso que a população portuguesa tem sido sensível ao problema da Defesa do Ambiente.
Lamento o facto de termos o pior desempenho na área da biodiversidade e habitat. Nas áreas marinhas protegidas e conservação efectiva da natureza, apresentamos mesmo os piores resultados.
Aqui não somos nós a agir, deveriam ser os governantes (Governo e Administração Local) a actuar e que não actuam, como se verificou no exemplo que dás da Câmara de Valongo, em que o PDM foi alterado pelos votos favoráveis de 2 vereadores PSD e a abstenção dos do PS (no fundo não há diferenças entre eles) e de 3 vereadores PSD.
Mas foi aprovado, tal como no filme “call girl” o Presidente da Câmara acabou por aprovar o abate de milhares de sobreiros. Era difícil resistir a um “avião” daqueles …

No que respeita à “compra e venda de cotas de poluição” não estou de acordo contigo:
- o que está em causa é manter e, se possível diminuir, esse nível de poluição que, suponho, deverá, ou deveria ser repartido entre as nações do mundo;
- sendo assim, as nações mais ricas e desenvolvidas industrialmente, portanto mais poderosas economicamente, sob pena de verem diminuir o seu desenvolvimento, o que afectaria a economia global, que é um facto, compram as quotas das nações em que o seu desenvolvimento é mínimo, ou mesmo nulo. Mas tal deveria ser pago a peso de ouro, para constituir um Fundo de Defesa do Planeta, administrado pela ONU;
- o pior são as economias emergentes, nomeadamente a China e a Índia, em que a utilização do petróleo e principalmente do carvão, é um facto. Talvez que estas duas potências devessem poder “comprar” mais poluição, mas tal não interessa aos USA, como é óbvio e daí a atitude destes já mais sensíveis ao Protocolo de Kioto, ou à sua renegociação.

bluegift disse...

Este tema é sempre bem vindo, Tiago. Quanto mais não seja para evitar que cheguemos à situação deplorável da maioria dos países europeus mais industrializados. Que o seu estado deplorável de poluição nos sirva de exemplo.

Sem estudos estatísticos ainda andariamos mais às cegas no tratamento deste problema. Há que verificar a credibilidade da fonte dos estudos e, nestas coisas, prefiro os realizados por equipas de nacionalidades mistas como é a Eurostat por exemplo.

As cotas na UE só poderiam funcionar em termos globais tendo, no entanto, os seus limites e obrigação individual de tomada de medidas de redução (aquelas em que estamos na cauda dos resultados).
O problema que está na base desta "negociação de cotas" é o do perigo de crise económica que poderá surgir em alguns países que tenham que reduzir drasticamente os factores de poluição.

Mais uma vez entramos no dilema: aumento rápido da produção versus manutenção da saúde e ambiente. O que é preferível: ser pobre e ter saúde ou ter dinheiro e morrer mais de cancro e outras doenças relacionadas com a poluição, como acontece na europa ocidental? Há que procurar um equilíbrio e aceitar "andar mais devagar"...

Infelizmente acho que a educação ambiental tem que ser complementada pela lei. As pessoas precisam ser ajudadas à tomada de consciência civíca face ao ambiente e a muitos outros assuntos. De outra forma já sabemos que só uma minoria mais sensível a esses problemas lá chegará.

Esses deputados que se absteram lavaram as mãos como Pilatos. Espero que alguém apresente superiormente um recurso a essa decisão, tão cobardamente votada na Câmara de Valongo.

Peter disse...

Voltei, para indicar um livro "bestseller" do New York Times e recem-publicado entre nós:

Elisabeth Rogers e Thomas M. Kostige, "O livro verde", o guia do dia-a-dia para salvar o planeta. Um simples passo de cada vez.

"Faz o que eu digo (escrevo) mas não faças o que eu faço" ?

MIMO-TE disse...

Na verdade é muito raro, mas estou totalmente de acordo com o que escreves.:) Sei que não é correcto, mas como sou do contra, comento levantando algumas questões: Será que poluir o ambiente não é algo errado? Então como é possivel dizerem-nos que podemos poluir mais "um bocadinho" ou seja, não precisamos de ser tão correctos, podemos errar mais "um bocadinho" :)... Que somos números já sabia, que o que conta são as estatisticas também, mas os principios! Deixaram de existir? serei eu ingénua? Ou está tudo mudado? Não entendo!... :(

Bjo
Gosto da vossa energia
Mimo-te

O Guardião disse...

Um bom post a alertar as consciências, quase todos nós podemos fazer mais e melhor pelo ambiente, até porque depois dos primeiros tempos, torna-se um hábito saudável.
Um pouco menos a sério, mas verdadeiro, acho que o senhor ministro das doenças está tornar-se o maior defensor da biodiversidade, logo seguido pelo inefável Lini, já que um desertifica, em termos humanos, o interior do país, dificultando o acesso à saúde, e o outro cria desertos onde bem lhe apetece.
Cumps

SILÊNCIO CULPADO disse...

Tiago
Relativamente à primeira consideração que fazes o que acho é que devemos agir sempre de acordo com a nossa consciência. "Insistir numa matéria como o ambiente para acordar consciências e incentivar o debate é, não só um dever cívico, como uma opção de louvar. Quanto aos aplausos, meu querido, mal de quem anda no mundo para os ouvir.
Efectivamente concordo com grande parte das opiniões aqui já expressas nomeadamente do António Almeida, quando põe em causa a fiabilidade dos indicadores, e do Peter quando se sente honrado com o 18º.lugar obtido por Portugal no que concerne ao Desempenho Ambiental, na conferência de Davos.
Um abraço
Lídia Soares

Fa menor disse...

Brevemente irei escrever algo sobre...

Já era para ter sido, mas como fiquei sem pc entretanto e o texto estava lá começado... felizmente não se perdeu!

Inté

lua prateada disse...

É isso mesmo amigo, quando as coisas são válidas para se insistir pois insiste-se até se conseguir fazer ouvir .Desistir NUNCA...

Nas ruas desertas de minha alma
Passo aqui deixando
O que de mim emana por ti...
Um feliz fim de semana!...
Beijinho prateado
SOL

C Valente disse...

Saudações amigas e bom fim de semana

Lampejo disse...

Tiago,

As discussões sobre a educação ambiental no mundo contemporâneo estão relacionadas àquelas mais gerais sobre as questões ambientais que têm feito parte das preocupações dos mais variados setores da sociedade.

Apesar das diferentes abordagens com que têm sido tratadas essas questões, todas as discussões apontam para a necessidade de políticas públicas de educação.

Dizem que a espécie humana é a mais importante do planeta. Grande engano. Sem as outras espécies nós humanos não existiríamos. Na verdade, não existe nada vivendo sozinho na natureza. Todos os seres estão ligados, a vida de um depende dos outros.

Excelente a tua postagem Tiago..!

Bom fim-de-semana!

(a)braços e flores:)

Tiago R. Cardoso disse...

Hoje senti que vale a pena continuar a discutir o Ambiente e que recebi boas respostas ao que eu pretendia.

Obrigado a todos vocês que se deram ao "trabalho" de comentar.

Dalaila disse...

temos sempre as questões amibientais em comum