Patrão sem instrução, empresa sem futuro? Sim ou não?

O nosso amigo estava para ali sentado, ladeado por lídimos “self made men” lusitanos, entre gargalhadas estridentes, bater de talheres nos pratos, copos de tinto e verde, faceirice e candidatos às “novas oportunidades”.

Qualquer uma das carteiras pertença a um representante do capital sofria de falta de espaço. Todas recheadas, bem almofadadas. E em face do recheio ora se ouvia um sonoro “não tem nada mais caro?”, ou, a propósito de uns óculos de sol partidos, um irritadiço “meu amigo, eu tenho dinheiro para comprar esta merda toda!"

Agora que um contava a última peripécia corneante em que se envolvera, o que fazia, como bom alarde que é, enquanto mastigava e cuspia perdigotos, o nosso amigo lembrou-se de ter visto algures que quase 75% dos patrões portugueses não tinham atingido mais que o 9º ano no seu percurso escolar e que quase metade destes (36,1%) só tinham frequentado a escola primária.

Não entendia como era tal possível.
Como se podia ser simultaneamente rico e, na maior parte dos casos, praticamente ignorante. Pôs-se a pensar e começou a ver a que se dedicava cada um dos presentes e o grau de instrução.
Aqueles dois ali empreiteiros, ambos com a 4ª classe, este da confecção de meias o 2º ano do Ciclo Preparatório, ali o gordo rissóis e outros congelados chegara a andar na Escola Industrial, o dos chinelos metera-se agora a tirar o 9º ano lá as Novas Oportunidades e este, o mais emproado, cobertores e a 3ª classe.
Ah, e este aqui é o chefe das Finanças cá do sítio mas é de outro campeonato.

Nenhum diversificara produção, as fábricas são todas barracões à moda antiga, trabalha-se muito e paga-se pouco, minimiza-se todos os custos (nem que para isso se tenha de construir mais um aumento ilegal ou despejar efluentes sem ser no sistema de tratamento de águas residuais) e maximizam-se os resultados (com um contabilista a fazer uns malabarismos a coisa vai lá, e se vier uma Operação Furacão, que remédio paga-se… só aquele ali foram mais de 300 mil euros que teve de entregar. Mas não fora por mal que não o fizera antes, foi esquecimento!).

Era este o cenário que ali estava, espalhafatoso…
Um espirro ou um soluço dos clientes e era um ai Jesus na empresa… mas quem os visse e ouvisse havia de pensar que estavam ali empresários capazes de ombrear com o melhor dos melhores.

Claro está que nenhum destes queria lá saber que no Japão “os patrões só ganham vinte vezes mais que os operários”, como bem salientara Angela Merkel.
Na sua empresa mandavam eles e era para comprar um Mercedes, comprava-se um Mercedes. Se era para fazer uma plástica para tirar banha da pança, faça-se!
Obviamente que se definiam todos como homens de direita e, à conta disso, foi castiço de ouvir os mimos que dedicaram a Bagão Félix quando tomaram conhecimento que o mesmo dissera que “hoje, em vez de uma convergência, verifica-se uma divergência no valor dos salários, o que não é aceitável”.
Filho da mãe foi um dos mimos mais brandos que ali se escutaram.

Quer dizer, Bagão Félix dissera o óbvio e ele é que é o burro?
E que dizer quando se vem com o argumento que os nossos gestores são assim bem remunerados pois caso contrário seriam facilmente recrutáveis para trabalhar no estrangeiro?

Ora deixa cá ver, os gestores portugueses de topo ganham 32 vezes mais do que a média dos salários das bases porque são tão bons, tão bons que, a não ser assim, vinham por aí essas multinacionais todas e levavam-nos?

Sorte teve Hugh Massingberd, que se celebrizou pelos obituários que escreveu anos a fio no “Daily Telegraph”.
Fosse o homem português e o rebolo que não havia de ser com os obituários que por cá escreveria.
É que o homem pelava-se por retratar, entre outros, vigaristas e patuscos!

38 comentarios:

quin[tarantino] disse...

Em jeito de complemento devo referir que os elementos citados foram dados à estampa pela revista "Visão" na sua edição de 10.01.20008 a página 25 sob o título PATRÕES COM POUCA ESCOLA.

Mais de 70% dos patrões portugueses não foi além do terceiro ciclo do ensino básico
(9º ano). Aliás, cerca de metade
(36,1%) frequentou apenas a escola primária.
O seu grau de escolaridade é inferior ao da restante população empregada.


Manda a verdade que se diga que existem 13,9% com o Ensino Secundário e 12,0% com o Ensino Superior.

Os dados foram retirados dum estudo do economista Eugénio Rosa.

Admito que existam casos de sucesso empresarial em projectos modernos, eficientes e com uma visão adequada aos novos tempos, mas penso que um dos males da nossa economia (a par de outros) radica na falta de preparação académica do nosso tecido empresarial.

A famosa Universidade da Vida pode ajudar, como certamente ajuda, mas não é solução miraculosa para tudo.

quin[tarantino] disse...

Consultem ainda RESISTIR INFO para o estudo de Eugénio Rosa.

Sobre posições assumidas por parte de sectores mais reputados da classe empresarial consultem COMPROMISSO PORTUGAL.

Carol disse...

Dado o adiantado da hora, não fui fazer as consultas que recomendas. No entanto, posso dizer que considero que muito do atraso da economia portuguesa se deve, de facto, à falta de instrução não só do patronato, mas também dos seus funcionários.
Apesar disso, terá de haver algo mais a justificá-lo. Afinal, não me parece que Belmiro de Azevedo e Américo Amorim tenham grandes estudos... A falta de visão estratégica e o pensar,não a curto, mas a longo prazo serão, também, factores determinantes.

Bom início de semana para toda a equipa.

António de Almeida disse...

-Quint, esse visual tem inspiração Matrix? Bem, agora vamos ao que interessa, o post, também vi o estudo, mas não gosto de generalizações, porque nos induzem em erro. Existem empresas com vencimentos acima da média nacional, o BCP ou a PT, os seus administradores não são patrões, nem têm propriamente falta de instrução, apesar de considerar que não tenho nada a ver com a questão, classifico os seus rendimentos de obscenos, a minha reacção? não sou cliente, nem de uma nem de outra empresa! Mas no universo da economia nacional, a realidade que descreve existe, contudo também há patrões justos, posso garantir-lho, que trabalham lado a lado com os seu funcionários, procurando assegurar a sua própria sobrevivência. Depois existe o chico-esperto, julgo que já foram mais, procurando pagar o mínimo e ganhar o máximo, só que muitas dessas empresas têm vindo a fechar, não é dificil, muitas delas até por terem visto partir trabalhadores com espírito de iniciativa, que lhes "desviaram" os melhores funcionários, e concorrendo, os obrigaram a fechar portas. Mal do patrão que não se converte em empresário, não terá futuro, o mercado ser-lhe-á implacável, para que uma empresa sobreviva, seja concorrêncial, é necessário motivar trabalhadores, partilhar lucros, porque os riscos já estão partilhados á partida, o patrão pode fechar portas, o funcionário cair no desemprego. Sou muito céptico quanto a patrões, acredito em empresários, sei que em Portugal existem ambos.

Manuel Rocha disse...

Eu alinho por aqueles que não consideram a "instrução" formal uma condição necessária para se ser uma pessoa bem educada, com bons princípios e, no caso, com uma atitude patronal responsável.

Aliás, sou mesmo daqueles que não subscrevem o abaixo assinado que pretende impingir a ideia de que mais escola equivale a melhor sociedade.

Entre os oportunistas assumidos que aqui se descrevem e os engravatados afectados por clichés de supostas boas maneiras que rolam na alta finança, prefiro os primeiros - são autênticos, não disfarçam aquilo que são ::))

Tiago R. Cardoso disse...

O meu primeiro emprego foi nos escritórios de uma empresa de construção civil.

O patrão pessoa já de idade sem os mínimos estudos, ergueu sozinho aquela empresa desdo nada, até se transformar numa de média dimensão, mas com muito prestigio no mercado.
Embora muitas vezes um pouco "bruto" aprendeu a respeitar opiniões, moderou o discurso, aprendeu a lidar com as pessoas.

De vieram os três filhos, todos eles achavam que dado o dinheiro que tinham não precisavam de estudos.

Assim um deles apesar de não ter estudos ficou no escritório e foi aprendendo as coisas e começou a ver que só tirando uns cursos chegava lá.

Os outros continuaram a mandar nas obras, num estilo "embrutecido", condizido bons automóveis, são a imagem de que endinheirados que nunca souberam o que era trabalhar duro...

Joshua disse...

Estou, sinceramente, tentado a experimentar o mundo da Construção Civil: ser trolha em Espanha por uns tempos. Que postas maravilhosas a experiência me não insuflaria! Estou a meditar!

Isto tem tudo a ver com a tua pertinente posta.

Laurentina disse...

Com instrução ou sem ela qualquer um pode singrar na vida desde que tenha sorte ou golpe de vista.
Agora, saber ser ... saber estar ...saber mandar ...saber e saber tem muito que se lhe diga e não é para todos, só para aqueles que trazem de berço uma enorme dose de humildade e respeito pelo proximo.

Boa semana

Beijão grande

bluegift disse...

Pois é, dear Charles, nem o Bill Gates acabou a licenciatura! Não porque lhe faltasse a oportunidade e o dinheiro mas porque não estava interessado no que se aprendia nas faculdades. Hoje, as faculdades é que estão interessadas em aprender com ele... O que não obsta que se trate de um tipo bem educado, culto, com bons princípios. Nada que se compare a esse tecido empresarial deprimente, muito bem retratado no artigo.
Segundo a Eurostat, os empresários portugueses ganham tanto ou mais que os da Europa dos 15, enquanto os trabalhadores são os mais mal pagos. Ainda se os resultados fossem superiores, óptimo, estariamos todos de acordo, mas bem pelo contrário. Conta-se pelos dedos os empresários capazes de salvar ou dinamizar empresas. É um verdadeiro escândalo que se agravou na época do Cavaco e que desde aí não parou de aumentar. Uma situação inflacionária que ainda nenhum governo teve a coragem de contrariar. Porque não pedir uma forte indemnização a esses senhores quando os resultados fossem negativos? Pelo menos isso...

Carol disse...

O saber não ocupa lugar. Eu estou em crer que instrução nunca é demais, mas não se confunde com educação, civismo. Saber ser, saber estar são coisas que vêm do berço, independentemente de ele ser de ouro ou de lata...
Sinto-me tentada a recordar um provérbio popular ( e eu adoro estas coisas, pelo que têm de tradicional e, muitas vezes, de verdadeiro): Não sirvas quem já serviu, nem peças a quem pediu.
Conheço vários exemplos de pessoas que singraram na vida, mas que não sabem reconhecer o esforço e dedicação dos seus funcionários. Muitas pessoas esquecem-se que, sem uma boa equipa de trabalho, nunca conseguirão singrar, por muita sorte que tenham.

SILÊNCIO CULPADO disse...

O tema carece duma análise que não pode ser de todo linear.
Há saberes, que a escola valida através dum diploma e outros saberes, não menos importantes, que não fazem parte do curriculum académico.Depois há ainda a considerar que um indivíduo pode adquirir fora das faculdades os conhecimentos que as mesmas ministram. São conhecidos casos de falsos médicos, excelentes profissionais e conhecedores da profissão que nem sequer puseram os pés na faculdade. Por exemplo, o conhecido empresário Nabeiro, tem apenas a 4ª.classe. Li, com interesse, um trabalho dele sobre marketing que me acrescentou alguma coisa apesar de ser a minha área de formação e de experiência profissional.
Porém, por mais que se pretenda minimizar o valor dos cursos, penso que os mesmos são fundamentais para aquisição de todo um conjunto de competências profissionais que serão muito mais difíceis e incompletas, salvo raras e horonsas excepções, se esses cursos não existirem. Embora a experiência seja mestra há todo um background que os cursos nos transmitem e que cria apetências e capacidades para desenvolver outras áreas do saber e melhorar o rendimento no trabalho e a auto-avalorização profissional. Os bons profissionais, sem estudos, são bons em áreas específicas e têm, normalmente, uma visão retutora do que deve ser o seu papel numa equipa e como fazendo parte dum todo empresarial.
Por outro lado há que ter em conta o meio ambiente donde saiu esse empresário. Porque se ele não tem um curso universitário mas provém duma família que, pela troca de opiniões do dia a dia e pelos cursos complementares que lhes proporcionou, lhe transmitiu conhecimentos iguais ou superiores a uma faculdade, o cenário é um. Se o indivíduo provém duma família de fraco capital escolar e que singra num determinado ramo pelo Know how específico que adquiriu, ele dificilmente conseguirá expandir-se. Muito menos no mundo presente em que a envolvente externa exige saberes profundos e diversificados, e logo um empresário com visões mais alargadas, flexíveis e cultas.
O nosso tecido empresarial deixa muito a desejar sobre esta matéria e esse é um dos motivos que, em minha opinião, contribui, de forma decisiva, para o atraso em que nos encontramos.

migvic disse...

Não confundir educação com instrução.

Nem instrução com boa formação.

Dalaila disse...

há pessoas que têm visão para o negócio, mesmo sem escolaridade, julgo que depois deverão crescer e juntar-se com uma equuipa multidisciplinar que os apoie, não acredito nos vãos de escada, e da lápis atrás da orelha toda a vida, acredito que se possa começar, e há uns anos até funcionava bem, agora com as novas tecnologias acho mais difícil.

Mas se escolher bem a sua equipa, acredito sim

O Guardião disse...

A instrução dá as ferramentas necessárias para se assimilar o que se aprende com a experiência. Podia falar na humildade e na consciência socila, mas lembrei-me que estava a falar de patrões e alftos cargos de gestão, por isso fico-me por aqui!
Cumps

ALEX disse...

Sobre este texto nada melhor que falar da minha experiência pessoal.
Tenho uma empresa de geotecnia de média dimensão.
Os trabalhos de sondagens são feitos no terreno, com todo um conjunto de máquinas, e analisados em laboratório próprio. O quadro de pessoal da empresa está vocacionado essencialmente para conduzir máquinas, fazer perfurações e andar no campo. As análises eram feitas por mim e pelo meu sócio.
Sempre incentivei todos os meus funcionários, do porteiro ao motorista, a tirarem cursos nomeadamente cursos universitários.Todos sabiam que quem queria estudar e, tinha aproveitamento, eu pagava as propinas e o material escolar. Muitos se formaram e saíram, outos ficaram. A empresa lucrou sempre em ter este pessoal qualificado porque desde a secretária, que tinha uma visão que lhe permitia sugerir e corrigir, até todos os outros que pensavam no que faziam e não eram autómatos.
Há dois anos atrás o meu sócio morreu esmagado por uma máquina no campo. Quase de seguida eu adoeço com gravidade. A empresa, em circunstâncias normais, teria que fechar e haveria trabalhadores sem emprego. Mas o meu pessoal reuniu-se, distribuíram-se entre si consoante as formações e experiência e tomaram conta de tudo. Análises de laboratório e tudo.
A empresa vai fechar o ano de 2007 com mais lucros que o ano passado e entretanto, com o meu filho regressado definitivamente do estrangeiro, está garantida a sua continuidade.
O conselho que dou é que não se tenham visões tacanhas. Sempre paguei aos meus trabalhadores vencimentos adequados às funções e, anualmente, consoante os lucros há sempre prémio para todos.Os cursos universitários ajudam a rasgar horizontes. Penso que isso é o principal. Agora não misturemos o que não tem nada a ver. Educação é outra coisa completamente distinta.
Estamos a falar do capital escolar dos nossos empresários.

sniqper ® disse...

Belíssima salada para emagrecer ainda mais a nossa vontade! Comparar educação e instrução é o mesmo que dizer que branco é preto e que preto é branco, mas enfim.
Cada um fala daquilo que julga entender de forma como o quer fazer, para isso pagamos o custo da Liberdade De Expressão, porreiro não é!

Jorge disse...

Este é um tema sobre o qual já escrevi noutros lados.

Para começar: algum destes ilustres comentadores é empresário? Provavelmente não.

e porque não? Porque a escola não prepara ninguém para ser empresário, antes pelo contrário.

a escola, em Portugal, só prepara as pessoas para serem funcionários públicos. De preferencia, professores.

Já li noutro blogue que cerca de 80% dos licenciados seriam professores.

Quem se atreve a ser empresário? Muitos é simplesmente porque, não tendo habilitações, não têm qualquer hipótese de "subir na vida" sem ser a de se fazerem empresários.

Como alguém comentou, a generalidade dos empresários que conheci são pessoas inteiramente dedicadas à sua empresa, muitas vezes sem vida própria para além da empresa, onde existe uma enorma coesão entre empregados e patrão.

Claro que há patrões abonimáveis, mas isso não é a regra; a regra são empresas pequenas muito coesas que subsistem nesta selva que é a economia nacional, onde as empresas estrangeiras têm todas as facilidades e as nacionais têm todas as dificuldades. A primeira das quais é a de que as pessoas que fizeram a escola e arranjaram o seu belo emprego de funcionário público só compram o produto estrangeiro, ao contrário do que acontece noutros paises.

A culpa do atraso do país não é dos empresários que temos, é dos que não temos - é sua e minha, nós que temos habilitações é que deveriamos ser empresários não é? Então, porque é que não somos???

quin[tarantino] disse...

Apesar de um ou outro comentador não ter reparado, assinalo com satisfação que a generalidade dos comentários foram produzidos tendo em consideração que em título se havia colocado duas perguntas.

Primeira - Patrão sem instrução, empresa sem futuro?

Segunda - Sim ou não?

De certa forma, ao formular a primeira quis deixar subtentendido que, apesar dos exemplos que apresentei, todos reais, acho que a resposta tem de ser não.

Shark disse...

É mesmo verdade que instrução e educação não se confundem. Nem podem. Basta ver que há muito quem tendo (julga-se) instrução, não tenha educação nenhuma.

Mas enfim, é o que temos.

Quanto ao texto, embora discorde de uma parte substancial do que ali está dito, acredito firmemente que a globalização e a crescente competitividade exijem que cada vez mais se tenha instrução. Universitária ou não é irrelevante.

O autor não o disse, mas se calhar seria pertinente sabermos quantos daqueles patrões exportam?

Já agora, e como bem se assinalou por aqui, patrão (que é aquilo de que se fala no texto) não é sinónimo de empresário. Se não acreditarem vão à esmagadora maioria das confecções do Vale do Ave perguntar.

antonio disse...

Quint, o mais grave é que só arrisca quem não tem instrução. Só empreende o desqualificado.

Assim o programa das novas oportunidades cria potenciais empregados, mas nenhum empregador! Será?

Rosa disse...

Não percebo o conteúdo de um comentário que vem falar de salada entre instrução e educação.

Quem trabalha numa fábrica sabe e compreende a distinção entre patrão e empresário.

Basta ver a forma como os trabalhadores são tratados nalgumas fábricas para se saber bem da diferença.

É evidente que não se pode tomar a nuvem por Juno e creio firmemente que não é esse o sentido que se pode retirar do substracto do texto. Que o tem, embora alguns persistam em não o querer ver.

O que se pretende assinalar é uma realidade que escapa a muitas análises e frisar que a mudança também tem de ser feita por quem tem o capital.

Dou um exemplo: se um patrão daqueles, que por norma nunca delegam nada em ninguém, quiser exportar, como se vai desenrascar numa reunião de negócios onde tenha de falar Inglês? E quantos dominam fluentemente um língua que lhes permita aceder a novos mercados?

Blondewithaphd disse...

A boss is something; a leader is something else. But yes, I agree with this overall picture of what goes on in Portugal. Money is the ultimate objective of bosses and, horrible as it may seem, many people still put education down in their priorities. Besides just look at this country in which a graduate professional, in so many cases, earns much less than an unskilled professional.
Still, I'm a strong defender that the way to go is through education and mere instruction will be the new illiteracy.

Daniel J Santos disse...

O qua seria ideal era que as pessoas se mantivessem actualizadas, por muito bons patrões que sejam, que tenham conseguido construir grandes empresas, têm de ter a capacidade de aprenderem e se modernizarem.

NÓMADA disse...

Feita a distrinça entre e educação e capital académico e assumindo que o que se pretende com o texto é saber se a baixa escolaridade é impeditiva dum tecido empresarial de qualidade, a minha resposta é que se não é impeditiva pelo menos é limitativa na maioria dos casos.
O comentador Alex apresenta o seu próprio exemplo de pessoa que (sei) tem dois cursos académicos e um doutouramento. Isso fê-lo investir com força no capital humano e dar-lhe mais qualificações o que lhe permitiu dispor de trabalhadores com polivalências que permitiram reagir em tempo real às adversidades. Este comportamento de patrão é mais vulgar em quem tem estudos do que em quem não os tem mas, num e noutro casos, há excepções que confirmam a regra.
A ideia que tenho das empresas industriais com que trabalhei é que os patrões se agarram a um know how que por vezes passa de pais para filhos e se mantêm fechados à inovação de risco.

ana disse...

Neste tipo vislumbro um retrato de um tipo de empresário português.

Um percurso escolar limitado, a aposta em sectores de actividade onde não é preciso inovar nem diversificar, a dependência de um grupo relativamente restrito de clientes ou nichos de mercado, a aposta em mão de obra barata e, nalguns casos (e eu friso àqueles que leram sem lerem, que o autor apenas a um aponta nítida falta de educação à mesa e a dois arrogância e sobranceria quanto baste, pelo que importaria fazer as contas) falta de educação.

Caiu o Carmo e a Trindade para alguns.

Que se estava a misturar instrução e educação, que isto e aquilo e um mono até de liberdade de expressão falou!

Ninguém se deu ao cuidado de reparar ainda que o autor finalizava chamando a uns patuscos e a outros vigaristas, enquanto em comentário lateral chamava a atenção para propostas como as do Compromisso Portugal.

quin[tarantino] disse...

Nómada, defeito meu... não consegui explicar o que pretendia como o fez no seu primeiro parágrafo. Ele há dias assim.

NÓMADA disse...

Quintarantino
O texto não tem problema. Para mim está claro e objectivo. Mas é normal uma mensagem ser recepcionada de diferentes formas consoante as pessoas que a recebem. Eu apenas quis clarificar o sentido da minha opinião.

NINHO DE CUCO disse...

Se a pergunta consiste em saber se, em minha opinião, um patrão com menos do
9º.ano pode ser um empresário capaz de responder aos desafios actuais, minha resposta é "não" embora admitindo que haja quem consiga sobrepor-se aos constrangimentos sobretudo se tiver equipas de trabalho qualificadas.
Lápis atrás da orelha e vão de escada está fora de questão.
As exigências em termos de qualificação são cada vez maiores. Os cursos académicos precisam ser complementados com formação específica em determinadas áreas.
Como é que se entra em mercados internacionais, se inova, se assumem riscos e se gerem equipas, sem dominar idiomas, saber informática e saber analisar bem os números?

Manuel Rocha disse...

Quin:

Indo directamente à questão que deixa em titulo, a dita tem um problema, que é o de remeter para uma resposta em que qualquer correlação no sentido do "sim" ou do "não" possa ser interpretada como causalidade - e não pode !

Hoje em dia estuda-se tudo e o seu contrário e apresentam-se resultados que derivam de abordagens com uma falta de qualidade de tratamento estatistico que brada aos céus.

Para se ser capaz de uma inferência séria para uma correlação do tipo que sugere, todas as demais variáveis ( micro e macro económicas ) teriam de estar controladas, e nunca estão!

Parecendo que este comentário é vontade de complicar ::)), ele apenas pretende alertar para a imensa quantidade de "estudos" que com base em amostras reduzidas e mal estabelecidas hoje nos inundam dizendo que " o que parece é" , ou seja, que correlação é o mesmo que causalidade - e não é !

:))

quin[tarantino] disse...

Manuel, você não complica, homem.

Você, a par de muitos outros que prezo imensamente, explica!

Guilherme Santos disse...

O que se pretende é que os empresários assumam que só com uma mentalidade moderna e dinâmica, podem realmente progredir.
Aquele que fica parado e não se actualiza rapidamente será engolido e desaparecerá.

Bruno Pinto disse...

Joshua, é parece que ser trolha em Espanha não é assim mau de todo, financeiramente...
Quanto à pergunta central do post, penso que a verdade absoluta nessa matéria não existe, não podemos ser simplistas nem demasiado lineares. A instrução académica será sempre uma mais-valia, em muitas áreas penso ser absolutamente decisiva, mas não acho que uma empresa não tenha futuro, pelo simples facto de o dono, o empresário, não ter instrução superior. Há casos que apontam nesse sentido.
Há aspectos importantes num empresário, como espírito de liderança, de iniciativa, de empreendedorismo, de relacionamento interpessoal, que não depende da instrução, mas muito mais da própria personalidade. Óbvio que se houver o complemento académico, a preperação é maior.
Uma sociedade mais avançada, mais moderna, 'pede' mais instrução, mais qualificação, isso para mim é claro. Mas, da forma directa como a questão foi formuladam, a minha resposta será 'não, nem sempre'. Aliás, há para aí muito licenciado incompetente.

LUIZ SANTILLI JR. disse...

Esse problema da falta de escolaridade dos chefões das empresas familiares é uma coisa séria!
É inegável o tirocínio que tiveram para gerar e fazer crescer seus negócios, numa época em que a intuição era mais do que suficiente para tanto!
Então vieram as multinacionais, com visão de mundo e de mercado e foram atropelando esses senhores ricos, arrogantes e cegos!
Não viram que era hora de profissionalisar suas empresas!
Resultado, na economia globalisada não sobrou nenhum!
Apenas alguns gênios por aqui, como Camargo Correia que era operador de motoniveladora e construiu uma das maiores empreiteiras do mundo, o maior cliente privado da Caterpilar.
O Grupo Pão de Açucar por ter encontrado na pessoa do filho do velho padeiro Valentim, Abílio Diniz, um grande gênio do comércio varejista de alimentos.
E assim, uma a uma, as empresas "genuinamente nacionais" foram sendo vendidas aos grandes grupos econômicos que gravitam pelo planeta!

indomável disse...

Quint,

Digo sempre que o problema das empresas em Portugal é a reduzida escolaridade dos patrões e empregados, a par com a falta de responsabilidade social dessas mesmas empresas.

A escola existe desde sempre para ensinar em pouco tempo o que se levaria uma vida inteira a aprender.
Sempre nutri grande admiração pela minha avó paterna, senhora de um saber formidável da terra, dos animais... da natureza humana sobretudo, mas analfabeta!
Ainda assim, era capaz de fazer negócio com quem quer que fosse sem que conseguissem enganá-la. Costumava dizer que não havia nada de que se esquecesse e isso incluia nomes e caras! Ora isto é fantástico e marca a diferença em relação aos dias de hoje em que se vive o minuto e já não se consegue vislumbrar a hora, o dia, a semana...
Ser capaz de recordar permite que não se cometa os mesmo erros vezes sem conta.
A escolaridade faz falata aos patrões? Sem dúvida. De outra forma como saberão que os erros que cometem hoje já foram cometidos outras vezes, por outros tantos patrões na história da humanidade?
Para isso serve também o conhecimento de tudo!

A Universidade não é um fim, um objectivo. O canudo não serve para mais nada, nem sequer para dar estatuto. A meu ver, um estudo superior serve como ponto de inicio, o principio de uma vida para a qual se parte sem tantas barreiras que a vida sempre nos apresenta.
Parafraseando mais uma vez a minha avó, temos uma vida (eu acredito em mais que uma) e é tão pouco para aprendermos tudo o que há para aprender.

A responsabilidade social das empresas seria fundamental para elevar a motivação do nosso tecido empresarial. Quando um patrão que tem um vencimento dezenas de vezes superior ao comum dos seus empregados, prefere despedir alguém que é nacional, tem família, é pagador de impostos e tem responsabilidades inadiáveis, para contratar um imigrante, cujo rendimento será para enviar quase na totalidade para outro país, que não paga impostos, que não tem responsabilidades financeiras aqui e que se calhar até estará ilegal, só porque pagará menos de vencimento, revela que as empresas existem apenas para servir os patrões e não o conjunto que é a empresa, incluindo os seus empregados e a sociedade em geral.

A mentalidade deveria alterar-se na base. Não deveriamos encarar a empresa como fruto do trabalho de alguém em particular. Não foi um empresário que construiu uma empresa do zero, porque ninguém constroi nada sozinho. Aos que trabalham connosco deve ser transmitido a satisfação de os ter ao nosso lado na construção de algo que nos ultrapassa e que serve a todos. Os interesses da empresa passam a ser superiores aos particulares e a responsabilidade perante todos os que dela fazem parte é que lhe dá consistência.

indomável disse...

Só mais uma coisinha que poderá ser mal interpretada...

Não sou contra a imigração, não sou contra ninguém que se faça à estrada e deixe para trás a família, a casa, o seu pais e tudo o que conhece como seguro para procurar novas oportunidades. Os imigrantes pouco ou nada têm a ver com o problema do desemprego em Portugal.
O que eu sou contra é a visão pequenina de homens pequeninos que gostam de se olhar ao espelho de aumentar e que para isso sentem a necessidade de diminuiro todos os outros à sua volta.
Se um português e um estrangeiro em Portugal se candidatassem a uma oferta de emprego em igualdade de circunstâncias, eu torceria sempre por aquele que tivesse as melhores qualificações. O que não aceito é que se contrate aquele que será a mão de obra mais barata, só porque é estrangeiro e é ilegal e não pode erguer a voz para que respeitem os seus direitos.

responsabilidade civil das empresas é um conceito que tem ainda muito caminho a percorrer em Portugal, mas eu gostava de ainda chegar a ver isso acontecer no meu País.

Espectadora Atenta disse...

Caro Quintarantino
Eis um tema muito interessante e pertinente!
Muitos dos problemas nas empresas em Portugal reside precisamente na direcção das mesmas e na falta de visão estratégica e empresarial de muitos "patrões"!

quin[tarantino] disse...

REMATE FINAL da autoria de Baptista Bastos no "Diário de Notícias" de hoe, dia 16 de Janeiro:

As afrontosas injustiças sociais conduzem as pessoas a um cada vez maior afastamento do acto cívico e ao desprezo repugnante pelos políticos. As estatísticas são reveladoras. Nunca será de mais referir as evidências. Está em marcha uma espécie de "mexicanização" do regime, em que apenas o PS e o PSD estão dotados da autoridade do poder. A tentativa de se amordaçar a voz dos pequenos partidos destrói a tese segundo a qual, em democracia, as singularidades devem ser afirmadas, reivindicadas e, inclusive, estimuladas. Aos homens da minha geração e àqueles que se nos seguiram causa calafrios a doutrina de que os "outros" não dispõem de bons argumentos.

Temos, talvez, "excesso de memória", como disse a investigadora Irene Pimentel: possuímos o lastro de uma História cuja linguagem se choca com esta realidade, que serve de ligação a versões turvas da liberdade, da equanimidade e da justiça.

As perversões bradam aos céus. Vão-se conhecendo as "reformas obscenas" [expressão de Bagão Félix] atribuídas a "gestores" de instituições públicas; os salários indecorosos; os privilégios e os prémios; as mordomias e as sinecuras. A soma das iniquidades causa ressentimento num país com dois milhões de pobres, elevadas taxas de desemprego, velhos a morrer nos jardins, jovens perplexos com o futuro.

A revista Visão publicou [10 de Janeiro, p.p.] um documento impressionante, no qual são reveladas as diferenças das folhas de ordenado em 25 grandes empresas. Os números são revoltantes. Henrique Granadeiro, administrador-mor da Portugal Telecom, aufere, mensalmente, 185 590 euros [cerca de 37 500 contos], ou seja: 128 vezes mais do que a empresa gasta com 128 trabalhadores, na base de que cada um destes recebe 1449 euros [cerca de 300 contos] mensais. O rol de disparidades não se limita a este caso. E um tal Rui Luz, "perito" em recursos humanos, sustenta a indecência com a frase: "A escassez de talento justifica os salários de directores de primeira linha." Na interpretação deste cavalheiro, estamos perante Einsteins, Oppenheimers, seres incomuns, com elevados graus de genialidade. Não é assim. Conheço alguns dos indicados, cujas meninges deixam apreensivos todos aqueles que não escrevem samarra com cê de cedilha e polícia com U.

Mas este é o discurso do poder e os seus ecos mais condenáveis. Perdeu-se o sentido das proporções, e a ética foi torpedeada por uma democracia administrativa que protege e premeia quem a defende e vitupera e persegue quem a critica. Não há grande variação das formas da palavra. Entre os que decidem, os que se submetem e os que reivindicam existe o domínio de classe que tende a confundir a generalidade e o interesse geral.

Quem nos acode?

Pata Negra disse...

Os empresários que temos são os empresários que temos! O governo através das finanças está a dar cabo dos empresários de 4ª classe, só podem fugir ao fisco os grandes!
Veremos se o país não precisa desses empresários e da parte da economia paralela! Por aqui, na província, eles estão a cair que nem tordos, os seus empregados estão a emigrar, as suas firmas estão a falir asfixiadas pelas inspecções das finanças, é uma roda de vida de pobreza. Este Sócrates é um génio, é só encaixar!
O país real, é outro e está a ficar asfixiado!
Esse tal Bagão Félix pode dizer uma acertada mas já teve oportunidade de mostrar de que lado está!|