O desejo de morte chamado eutanásia é um direito?

Imaginei-a no terraço, sentada na sua cadeira de baloiço, a olhar o mar. O seu fiel amigo ao colo, um xaile de cores vivas a cobrir-lhe os ombros criando um contraste com o seu cabelo branco- acinzentado...

Sorri. O cabelo da Avó Isaura era motivo de orgulho da mesma e de inveja das vizinhas. Mesmo de manhã, ainda de pijama e robe, o seu cabelo estava impecavelmente arranjado!

Apressei-me. A vontade de a rever era enorme. Depois de mais uma semana no I.P.O., ainda não tinha tido oportunidade de a visitar. Que saudades tinha...

Dei comigo a pensar em como era uma mulher batalhadora e corajosa.

A Avó Isaura casara cedo. Uma menina bonita, frágil e trabalhadora.
O marido, um bruto, obrigava-a a trabalhar no restaurante da família enquanto se divertia pelos cafés e cabarés da cidade.

“Outros tempos!” – dizia ela com o seu sorriso de mulher conformada.

Ganhou novo ânimo quando conseguiu, finalmente, engravidar. Era uma menina, mas a vida arrancou-lha dos braços e atirou-a para um buraco na terra. Teve ganas de morrer, mas agarrou-se a Deus e à fé e aprendeu a aceitar.

Depois, aquela doença maldita. Uma, duas, três vezes! Boca, mama, útero... Lutou sempre, lutou muito e venceu!
Agora, quinze anos mais tarde, a doença voltara.

- “Lamento, mas é cancro nos intestinos” - dissera o médico, de forma seca e taxativa.
A vontade de viver era, no entanto, enorme.
“São outros tempos... A medicina evoluiu muito e eu já venci três vezes!” foram as suas palavras quando me deu a notícia.
Acreditei.

Chegada a sua casa, decidi entrar pelo portão. Subi as escadas e abri a porta.
Dirigi-me para o terraço, mas ouvi a sua voz vinda da sala de estar. Ao entrar, não a consegui reconhecer. Sentei-me a seu lado e li-lhe o sofrimento no olhar, em cada linha do rosto...
O corpo, muito magro, perdido no robe azul- bebé. O cabelo grisalho, num total desalinho. Com as mãos trémulas, tapou o saco das fezes, repleto de sangue, que estava meio escondido como se me quisesse poupar ou se tentasse proteger.

Demos as mãos e ali ficámos, em silêncio, durante horas.
Quando me levantei e despedi, disse-me com os olhos inundados de água:

“Estou cansada de lutar e de sofrer. Tive uma vida de sofrimento, agora só queria que me deixassem morrer... ".

Não consegui responder.
Saí e não voltei a visitá-la.
Não tive coragem de a ver definhar, de a ver morrer a cada segundo que passava.
Quinze dias depois, a minha mãe ligou.

“A Isaura morreu...”- disse com a voz embargada.

Não consegui chorar naquele momento, nem nos dias seguintes.
O seu desejo de morte cumprira-se.

Há muitas Avós Isauras no nosso país, embora ninguém queira registar e tornar oficiais estes “desejos de morte”.

Mas a eutanásia é condenada pela Igreja e considerada “moralmente condenável” e “juridicamente inaceitável” pelo Comité de Bioética do Conselho da Europa.

Países como a Holanda, a Suíça e a Bélgica tornaram-na um desejo concretizável obedecendo, obviamente, a determinadas condições.
Os E.U.A. permitem, em determinados estados, a criação de um testamento biológico vivo (“Living Will”) em que o indivíduo expressa a negação de tratamento terapêutico e o desejo de morrer com dignidade.

40% do corpo médico oncológico português concorda com a eutanásia.
Eu também.
E pergunto:

- Seremos os únicos em Portugal a pensar desta forma?
- Terá alguém o direito de decidir que outro viva num sofrimento atroz, com perda significativa da sua dignidade e, muitas vezes, dependente de terceiros?

Digam de vossa justiça.

48 comentarios:

quintarantino disse...

Olha, para já é para desejar felicidades na estreia.
A responsabilidade é grande, mas quer-me parecer que te safas.
Ou não fosses minha irmã.
Depois comento.

Carol disse...

A responsabilidade não é grande, é enorme! Espero corresponder e estar à altura dos restantes membros da equipa. Obrigada pela oportunidade.

António de Almeida disse...

-Para estreia escolhe um tema fracturante. Sou simultaneamente contra e a favor da eutanásia, traduzindo, tolero-a quando aplicada a casos verdadeiramente excepcionais. Casos como os de Ramon Sanpedro, para quem não viu, aproveito para recomendar o excelente filme "Mar Adentro", casos cujos doentes tenham tomado essa opção previamente, e nunca tomá-la de forma condicionada. Mas aqui a fronteira é muito discutível, agora decisões tomadas por familiares, sou intransigentemente contra.

SILÊNCIO CULPADO disse...

Carol
Fico contente com tua estreia que contribuirá para o enriquecimento do Notas Soltas.
O tema que abordas põe-me doente só de pensar nele.Sou uma defensora da vida mas da vida com dignidade.
Nesta perspectiva entendo que não se deve prolongar artificialmente a vida vegetativa de pessoas que não têm qualquer possibilidade de recuperação. Mas isto é diferente de eutanásia. E em relação à eutanásia eu tenho dúvidas mas admito-a em circunstâncias extremas e sempre a pedido do próprio. O sofrimento pode, penso que quase sempre, ser evitado com cuidados paliativos que não acessíveis aos bolsos do cidadão comum. E isto choca-me. Por outro lado há sempre a esperança de que possa surgir a cura para aquele mal. E nunca se sabe. Tenho uma tia que teve cancro. Tirou os dois peitos, o útero, os ovários e uma parte dum pulmão. Os médicos davam-lhe pouco tempo de vida. Isto foi há 40 anos. A minha tia está viva e recomenda-se e tem ido ao funeral de muitos que disseram que ela estava a morrer.
Carol, eu não sei. Tenho muitas dúvidas, sinceramente. Mas gostei da abordagem.

Carol disse...

António, o filme de que fala retrata, de facto, uma situação real e exemplificativa de situações em que, para mim, a eutanásia se justifica.
Para além de defender que cada indivíduo deveria ter o poder de decidir sobre a sua morte e os seus últimos tempos de vida.

Lídia, obrigada por me considerares uma mais-valia para o Notas.
A Avó Isaura não é um produto da minha imaginação. Ela não era minha avó de sangue, mas foi quem eu escolhi para avó. Na verdade, ela teve acesso aos chamados cuidados paliativos, mas em determinnada altura isso não é suficiente.
Quanto a esta doença, infelizmente não é caso raro na família. É verdade que quem a contrai não sabe o seu futuro. Mas prolongar o sofrimento de um doente terminal à espera de um hipotético milagre não me convence.

Francisco Castelo Branco disse...

Carol , bom tema

A Eutánasia é um dos temas que mais divide a sociedade portuguesa. Até lá fora, este problema é discutivel

Que te diga.........

Eu acho que a pessoa tem o direito a escolher o seu destino.
É um principio.
Embora saibamos que essa pessoa não está nas condições perfeitas em termos mentais.
Não estará o suficiente para querer morrer?
Não chegará dizer que prefere morrer?
Sujeitar uma pessoa a um sofrimento indeterminável, não me parece adequado.
É o que eu te digo, atrás,...........
Apesar de tudo, a pessoa está em primeiro lugar e é a ela que cabe decidir.

P.S- Gosto deste blogue, devido aos temas que são tratados.
Têm temáticas muito diversificadas e completamente distintas do que se vê por aí na blogosfera.
Comenta-se muito os temas actuais de um maneira jornalistica.
Aqui não, é uma espécie de queixume e jornalismo.
Ou seja, é uma mistura entre uma opinião pessoal e o dito "jornalismo" da blogosfera.

Continuem com o bom trabalho

7 Pecados Mortais disse...

Parabéns pela estreia. Gostava de dizer, que mesmo não sendo de sangue, a "Isaura" era e é a avó escolhida por si e isso é que importa, o sentimento e o Amor que essa pessoa lhe transmite. Tenho uma Avó que muito Amo e sei o que significa tal pessoa, a tal palavra "Avó". Se quiser, a título de curiosidade, pode ver o poema que eu fiz para a minha, publicado no meu espaço, em Setembro de 2007, com o título: "Minha Avó".
Quanto à segunda parte do texto, subscrevo no geral, as palavras do António de Almeida e da Lídia. Pouco mais, há a acrescentar na minha opinião que se cruza com a deles. Só mais um aparte, eu deixo a Igreja totalmente de fora nesta questão. Para mim, não têm moral para ditar leis...as leis divinas, é bom que eles não falem delas...pois levam com recado da Inquisição. O sentimento Humano pelos nossos, sobrepõem-se a qualquer valor religioso. Nós, não podemos misturar as coisas (fé e sentimento), nas horas de decisão, o coração e a consciência, são os nossos verdadeiros aliados nesta matéria. Gostei da entrada...

LUIZ SANTILLI JR. disse...

A eutanásia deve ser tratada fora do contexto religioso.
Aplicá-la deve ser objeto de uma análise racional, lógica e de probalidades.
Quando disse que um médico me aconselhou a preparar-me para a morte de minha mãe, em nenhum instante se cogitou de suspender seu tratamento, pois não havia sofrimento físico, apenas uma falta de reação aos medicamentos propostos. E a atitude do médico foi mais de alerta, porque não havia nenhuma doença irreversível, apenas um quadro de anemia profunda.
Tanto foi, que bastou uma sonda alimentar para que, em 60 dias, ela saisse do quadro de inanição e hoje vive quase normalmente, passados 120 dias.
No caso de minha mulher, o câncer derivou para uma metástase óssea, sem a mínima condição de um tratamento quimioterápico.
Não havia a mínima chance de sobrevivência.
Então há situações e situações!
Cada caso deve ser visto à luz do que é melhor para o conforto e o bem estar do paciente.
Deixar que a degradação o leve ao extremo sofrimento, à perda total de sua autoestima é quase a volta à barbárie.
A vida é um direito que deve ser respeitado se for vivida dignamente do ponto de vista biológico.
Na minha opinião a eutanásia deveria ser regulamentada do ponto de vista exclusivamente clínico, e com a condição de o paciente ter seu desejo respeitado se estiver lúcido. Caso contrario, o responsável legal por ele deve ter o direito à decisão, se for recomendável clinicamente a eutanásia.
Sob o viés religioso, estes podem optar por não praticá-la, dentro do mesmo critério de não usar preservativos anti-concepcionais, ao invés de tentarem praticar a ditadura da fé, pois ninguém no mundo livre, é obrigado a ter uma religião.
No meu caso, senti uma sensação de alívio e tranqÜilidade quando ela se foi, pois a percepção e a certeza da perda foram se amainando em 18 meses de angustia!

Lampejo disse...

Carol,

Esta talvez seja a idéia precursora do Suicídio Assistido.

Atualmente a eutanásia pode ser classificada de várias formas, de acordo com o critério considerado.

Sou contrária à Eutanásia de todos os tipos, pois uma vez vivo, temos ainda a esperança de recuperação, seja por cuidados médicos, seja por milagre de Deus, e em casos de pacientes em faze quase terminal, acredito e muito que a 2ª opção seja a mais viável e possível de acontecer, pois Deus sempre está disposto a fazer o melhor por cada um de nós.
Eu acredito no amor sublime no amor que tudo pode, tudo é possível.

Gostei da abordagem do assunto.

Sinto muito pela perda da sua
( Avó Isaura)

(a)braços e flores :)

C Valente disse...

História comovente, como tantas outras da vida real, eu sou a favor da eutanásia, pois tudo o resto é hipocrisia. Trata-se mal os idosos e doentes, quantas vezes o Estado os deixa ao abandono, basta ver as reformas de miséria que não dão para os medicamentos, as pessoas deveriam se livres de dispor da sua vida, lhes pertence não ao Estado
Saudações amigas

sniqper ® disse...

Carol...
Quem visita e conhece o seu blogue como eu, não fica em nada admirado nem da sua coragem, nem da sua sensibilidade, como tal era uma das pessoas que tinha a certeza que iria escrever no Notas Soltas.
O tema que aborda para muitos é sensível, respeito essas opiniões mas gostaria de perguntar a quem assim pensa, se viver num constante sofrimento adiado e sem solução é viver com dignidade?
Existem muitas abordagens a este tema, tomando como exemplo o religioso que condena a eutanásia, gostaria de perguntar a quem apoia a posição da igreja, e também aos que pela sua voz induzem os outros a esse pensamento, se sofrer dia após dia, tendo por base uma esperança que sabemos que irá terminar na maioria dos casos num sofrimento duro e penalizante, num percurso que nos leva à morte, é a solução moral correcta?
Na outra vertente, a social, eu pessoalmente sou a favor da eutanásia, por experiência própria, assisti por mais de uma vez, familiares e amigos a percorrerem essa estrada, resignados no seu sofrimento, tirando bem lá do fundo um sorriso para presentear quem os visitava, mas se colocarmos a mão na nossa consciência, nem eles, nem nós devemos ser sujeitos a tal situação, quando sabemos que cientificamente não existe uma cura, muito menos a tal esperança que por base se sustenta no milagre, porque simplesmente milagres são situações para as quais existem explicações que nos ultrapassam, ou não, mas será que existem de facto?
Uma sociedade tem por base uma construção saudável, quando temas como este são discutidos na praça pública, com as opiniões que fazem nascer podemos analisar quem é quem, e assim sem dúvida alguma encontrar o caminho para estruturar uma sociedade justa e real.

O Guardião disse...

è utema difícil de abordar e de comentar. Por princípio muitos de nós agarramo-nos com unhas e dentes à esperança, mas há casos em que a esperança simplesmente não existe. Estabelecer essa fronteira entre o possível e o impossível é um caso muito delicado.
A dignignidade e o sofrimento inútil do próprio e dos mais chegados perante algumas situações extremas também é um factor a ponderar.
É difícil ser-se imparcial e muitas vezes só consideramos a hipótese quando assistimos de perto a casos destes.
Quando não há a mínima possibilidade, penso que há que considerar todas as hipóteses, em consciência e deve-se poder tomar (o próprio ou os familiares mais chegados) uma decisão devidamente fundamentada.
Cumps

Tiago R. Cardoso disse...

Para já não tens de agradecer a oportunidade, eu é que agradeço que tenhas entrado no Notas Soltas, é mais um grande contributo para aquilo que o fundador e meu amigo cineasta me disse quando aqui cheguei, um espaço opinativo, de debate saudável e troca de ideias.

Subscrevo os alguns do comentários que aqui foram colocados, concordo que a eutanásia deva ser efectuada perante um pedido expresso da pessoa, mas que seja uma decisão não condicionada pela já presente doença ou por outros aspectos.

Não acredito que um familiar, mesmo que muito próximo, tenha o direito de decidir pelo fim da vida do doente, para mim ninguém pode ter esse direito seja em que circunstancia for, não somos donos de nada, muito menos da vida.

Carol disse...

Agradeço a todos os que já participaram nesta conversa.
Pelos comentários, vê-se, efectivamente, essa divisão que o tema suscita na sociedade.

Depois de ler o comentário de Lampejo, gostaria de acrescentar uma questão:

- Quem não acredita em Deus, terão essas pessoas que viver de acordo com as crenças daqueles que o rodeiam? Será isso justo e moralmente aceitável?

Compadre Alentejano disse...

Sou partidário da eutanásia desde que seja por desejo expresso do doente, e atestado pelo médico assistente, de que não existe cura possível.
Gostei do post, parabéns.
Um abraço
Compadre Alentejano

Manuel Rocha disse...

Sobre esta pertinente questão, invoco apenas uma divisa da casa:" a dignidade é um direito - mesmo na morte" !

M.M.MENDONÇA disse...

A eutanásia é um tema pertinente e fracturante.
Sou incondicionalmente a favor em situações irreversíveis e que causem sofrimento. Nestas situações deverá ser a equipa médica a emitir o parecer que pode ser sancionado pelo doente, se tiver condições para isso, ou por um familiar.

despertador disse...

Se não escolhemos nascer, deixem-nos pelo menos escolher morrer.

Joshua disse...

Boa Carol, pela tua escrita, entrevejo no teu olhar um olhar semelhante ao meu. Já passei exactamente pelo mesmo com a minha avó, o mesmo problema.

Concordo com uma Boa Morte em todos os casos. Mas regulamentar a Boa Morte, Carol, é absolutamente perigoso. A Lei é generalizadora e as pessoas são singularíssimas. Daí a porta aberta ao Crime e à Injustiça.

«Hoje em dia, é nos crentes que certos princípios fundamentais para a nossa liberdade encontram a voz mais desassombrada. Por exemplo, a ideia da dignidade e da autonomia da pessoa como limite para experiências políticas e sociais. Numa cultura intoxicada pela hubris da ciência e das ideologias modernas, certas religiões conservaram, melhor do que outros sistemas, a consciência e o escrúpulo dos limites. O mesmo se poderia dizer da questão da verdade, que a ciência pós-moderna negou, sem se importar de reduzir o debate intelectual ao choque animalesco de subjectividades. Não, não é preciso fé para perceber que das religiões reveladas (e doutras tradições de iniciação espiritual) depende largamente a infra-estrutura de convicções e sentimentos que sustenta a nossa vida. O seu silenciamento no espaço público não seria um ganho, mas uma perda. No dia em que não pudermos ouvir Bento XVI, seremos
mais obscurantistas e menos livres. Obrigado aos "sábios" de Roma por nos terem dado ocasião para lembrar isto.»

Zé Povinho disse...

Difícil, muito difícil comentar este assunto. Cada caso é um caso mas acho que por vezes se prolonga demasiado a agonia mesmo sabendo-se que cientificamente é um acto inglório. A fé de alguns impede-os de desligarem as máquinas ou terminarem com o sofrimento, e tenho de respeitar isso, mas noutros casos pretende-se acabar com aquilo a que se chama o sofrimento desnecessário, e também aqui há que respeitar a opção. Pode-se conciliar estas duas posições com uma fórmula legal? Talvez, mas ainda não há soluções perfeitas e indiscutíveis.
Abraço do Zé

quintarantino disse...

Gnericamente sou a favor. Ponto.
Mas isso sou eu que procuro lidar (ou pelo menos penso que assim o falo) de forma racional e fria com questões mais emocionais.
E que, não sendo um ateu, também não sou um modelo de religiosidade.

Penso que entre o prolongamento desencessário e até atroz de uma agonia e sofrimento ou a tomar-se uma medida aparentemente tão radical, e encontrando-se o paciente em condições de lucidez, se deve dar a oportunidade de ser este a tomar a decisão.

Obviamente que se podem colocar questões de ética médica, mas a vontade do paciente devia ser suprema.

O problema é quando o paciente não está em condições de decidir. Que fazer em casos como os da Mariana, uma menina de 11 anos ainda há dias profusamente abordado na SIC, que se encontra num estado vegetativo permanente e irreversível?

Que, estando assim, parece que nada sente, nada vê, nada ouve, nada ... simplesmente existindo?

Ou de pessoas que, sabendo-se antecipadamente que morrem, são condenadas a viver em agonia?

Ou de quem, por força da sua crença (e que profundamente respeito), mesmo em sofrimento, entende que assim deve continuar pois a vontade de Deus é a da Vida e não a da Morte?

Um tema difícil e para cuja discussão pouco contribui a dificuldade das sociedades modernas em lidarem com a morte.

não ligo a nomes disse...

Por força das circunstâncias, todos os dias contacto com pessoas doentes. É fácil ler nos olhos as que já desistiram de lutar, mas é difícil ler se querem de facto morrer. O suicídio está mais ou menos à disposição de toda a gente, mas poucas pessoas a ele recorrem. A eutanásia é um pedido de morte que envolve segundos e terceiros. Poucos quererão satisfazer este pedido. Ajudar a morrer uma pessoa consciente não é o mesmo que rodar o botão de uma máquina que mantém viva uma pessoa em estado "comatoso" e deixá-la partir. Por outro lado, terá, quem quer que seja, o direito de pedir a outrem que lhe tire a vida, ainda que por piedade?
É uma pergunta complexa e provavelmente sem resposta, porque terá em cada um de nós uma, demasiado íntima para que prescindamos de a respeitar.

Carol, os meus parabéns, sobretudo pelo modo como apresentaste o tema.
Espero ter ajudado...

Paulo Vilmar disse...

Carol!
Não podemos, nesta questão, aceitar a hipocrisia desumana da Igreja e seus representantes que em defesa de seus interesses(poder e dinheiro) querem nos fazer viver sob dogmas que nada acrescentam à condição humana, simplesmente introjetam culpa, para como ovelhas, seguirmos os sábios pastores. Há muito ela (igreja) perdeu o direito de opinar sobre a vida, assentada, que está, sobre os cadáveres de milhões(mortos em nome da fé)!

Dito isso, penso que a dificuldade maior está na pluridade dos casos! Como já foi dito aqui, leis são genéricas e dessa forma abririam espaços para verdadeiros assassinatos, pois como sabemos, muita coisa está em jogo, numa simples morte (sobretudo bens e dinheiro). Como igualar numa lei o caso de alguém que sofre dores lancinantes por anos a fio de alguém que nestes mesmos anos simplesmente vegeta,sem emitir qualquer som ou demonstrar qualquer entendimento do que se passa em volta?
Apesar de advogado, não sou muito de buscar esta solução, mas creio que no caso, a Justiça deve ser a forma mais adequada para decidir! Criar-se, um ritual de processo onde não tenha lugar atos simplesmente protelatórios, nem dê margem a terceiros (principalmente a Igreja) se aventarem parte no processo, que seja sobretudo célere, mas que veja o entorno da morte assistida (heranças, seguros, testamentos, pensões e outros interesses dos "vivos")! Note-se que falo em casos irreversíveis cientificamente, se não vamos criar o suicídio assistido! Não basta o querer morrer!
Cria-se a dignidade na morte
Assim como não somos obrigados a morrer, não podemos sermos condenados a viver, sem um mínimo plausível de dignidade. Triste esta condição de sermos acorrentados a leis visíveis e invisíveis! A vida...
Belíssima estréia!
Beijos.

Erotic Spirit disse...

Try to comment and my connection fell, so this might be a repeat.

This post touched me...
Haven't been to Portugal in a long time and I can come up with a million reasons but deep down it is my granmother... Love her sooo much!! Can't bring myself to visit her in the exclusive Lar and listen to her cry to take her out of there, to take her home... I can't... there is no home, she is better there, she is not abandoned... family visits her daily, she is well but aware the end is near and it is not the way she envision it. I need to eventually sooner than later get over myself and visit the woman that was my other mother ... it is just sooo hard

:(

FERNANDA & POEMAS disse...

Olá Querida Carol, parabéns pela tua estreia no Notas Soltas.
Muito bem gostei do tema.
Um lado meu, é pela vida!
O outro lado, que essa vida tenha dignidade.
O que vêmos cada vez mais è miséria nos nossos idosos, sem lar, sem família etc.
Para não fugir ao tema, digo-te que deviamos ter uma lei que permiti-se, enquanto estamos lúcidos fazer um testamento, que nos desse a hipótese de sermos nós a decidirmos o que fazer com a nossa vida.
Eu pessoalmente desejo isso para mim.
Carol, adorei o teu tema, que dê um bom debate de ideias.
Beijinhos minha querida.
Fernandinha

Blondewithaphd disse...

Man, what a team! Welcome Carol!

As for euthanasia. I'd like to say that as a practising Catholic I'm against it. But as a thinking human being I'm in favour. Dignity above all things: in Life and in Death.

Dalaila disse...

Eu sou a favor da eutanásia, em muitos e diversos casos, há situações em que ninguém vive, nem quem está doente, nem quem lida com essa pessoa todos os dias, não merece pelo menos alguém ter qualidade de vida, merecem passar anos e anos a vegetar, e quem vive com essas pessoas?
eu acho que em muitos casos devia haver um pedido de eutanásia ou pessoal ou da família, e uma comissão cientifica de médicos, psicologos que avaliassem com isenção.
As pessoas saudaveis têm o direito a por termo à sua vida, as que não se conseguem mexer, não, acho errado. Nós somos donos do nosso corpo.

Alma Nova disse...

Carol, gostei da sua estreia, quer pela qualidade do texto, quer pelo tema abordado.
Este é um tema que não é de fácil discussão e que divide e radicaliza opiniões. Talvez por ser uma área que "mexe" com a sensibilidade própria, assim como com antepassados culturais e religiosos enraizados há muito. Muitas vezes o factor emocional de cada um, na sua dificuldade em lidar com a "perda", embota a razão e eleva a emoção para primeiro plano, esquecendo o factor fundamental, o respeito pela dignidade de quem sofre. Eu sou a favor de qualquer medida que permita uma vida digna, assim como o seu fim. Considero que, nesta como noutras áreas, a cada um deve ser permitido ter opções sobre a sua vida e que as mesmas devem ser respeitadas sejam quais forem as circunstâncias. É óbvio também que nalguns casos, como já foi referido, o doente poderá não ter condições de optar. Nestes casos concordo com o que já foi referido, os médicos e familiares deverão fazer a opção tendo em conta, primordialmente, a dignidade e o evitar sofrimento desnecessário e inglório à pessoa em causa.
Enfrentar e assumir as realidades que se nos apresentam nem sempre é fácil mas é essencial que o façamos se pretendemos respeitar cada pessoa humana como tal. Ter esperança é positivo, mas agarrarmo-nos a quimeras que não levam a lado algum é destrutivo e martirizador, para nós e para os outros.

Fa menor disse...

Tema pertinente, Carol, mas complexo!
Eu acho que não deve bastar o querer morrer. A morte é o que temos mais certo na vida. Assim como não somos donos da vida – não pedimos para nascer – não somos donos da nossa morte – ela é certa!
Não se deve legalizar uma coisa destas, quando sabemos que depois de uma lei aprovada, passa a valer tudo. Já estamos como na questão da lei do aborto, a meter a Igreja ao barulho... ponham a mão na consciência e vejam que não é a Igreja que está dum lado e a sociedade civil que está do outro. Cada vez existem mais soluções para minimizar o sofrimento, tais como os cuidados paliativos.
Escusado será dizer que sou pela vida, sempre.

bluegift disse...

Viva Carol! E uma vez mais wellcome aboard"! Acho que nos vamos divertir e, se espaço houver, falar de temas sérios ;)

Vamos ao tema. Sou a favor da Eutanásia. Uma das razões porque pretendo adquirir a nacionalidade belga é essa também: a de eu ou alguém da minha família ter o direito de escolher o meu destino.
Não me parece que Portugal lá chegue tão depressa.

Há o direito a viver com dignidade e, sobretudo, o de não morrer em dôr, seja este sofrimento físico ou psicológico. Os cuidados paleativos não são suficientemente eficazes em todos os casos e também não aliviam a parte psicológica, mesmo que o doente se sinta no nirvana devido às doses elevadas de morfina. Está drogado, alucinado, mas não é parvo.

A parte mais delicada é a que se refere ao estado vegetativo. Aí coloco sérias dúvidas, ainda mais se o paciente é jovem. A capacidade de recuperação diminui com a idade. Sou favorável ao desligar das máquinas quando se ultrapassou uma idade que permita ainda uma recuperação consciente e minimamente operacional. Há pessoas que ficam 15 anos em estado vegetativo. Se o cérebro não tiver sofrido lesões sérias, porque não tentar?

Quanto a Deus. Cada um o utiliza como muito bem entender, com raiva ou convicção. Tenho como base uma educação católica dominicana, se bem que com a idade seja o Budismo a forma de espiritualidade que mais me preenche. Daí que não me pareça fazer sentido dizer que o "todo poderoso" defende a vida até à última instância. Se assim fosse, a morte física pura e simplesmente não existiria. Mas isso são discussões filosóficas que não são agora para aqui chamadas.

Já estou como a Blonde: this is a hell of a team!

Peter disse...

Um belíssimo texto real e extraordinariamente bem escrito.
Mais uma vez os meus parabéns ao blog, extensível a toda a equipa.
Sobre o tema, que é o que verdadeiramente interessa, no que me diz respeito e sem qualquer conotação de carácter religioso, não quero que me matem, a minha vez chegará. Penso que os médicos não se opõem a que o doente, em fase terminal, seja sedado. É isso que quero que me façam: ponham-me a dormir.

MIMO-TE disse...

Olá, é bom vir ao vosso canto :)
Só tem um se não, é que ficamos aqui horas...!! :) Temas interessantes, este bem polémico. Parabéns Carol, começou em um tema forte! :)

Realmente é dificil dizer simplesmente sim ou não.Mesmo retirando qualquer caráter(s/c conforme novo acordo ortográfico) religioso, e nesse campo estou segura porque não sou religiosa, não me parece que se possamos abordar-lo só cientificamente. Na verdade cada individuo é unico, cada situação é também ela única. Quantas vezes sabemos de pessoas que se encontram em coma profunda e de repente voltam como que de um milagre se tratasse!? Qantos de nós perante o sofrimento não desejamos morrer e após algumas horas sentir uma imensa vontade de viver ou até somente aceitar a doença e viver mesmo com algumas restrições. Claro que todos devem pensar nos casos mais graves em que não há solução, e em que o doente está em grande sofrimento. É complexo, por isso eu não sendo contra, ponho imensas reticencias. Porque não há casos iguais e a ciencia pode evoluir de um momento para o outro.
Então e as crianças que nascem com paralisias graves, devem viver? quem decide? Os pais? O que é viver com dignidade? Uma pessoa com uma depressão grave vive com dignidade?, Um idoso que passa fome vive com dignidade? Carol, querida o teu tema é realmente pretinente e a decisão a tomar também. Não me alargo mais, sei que deixo mais duvidas do que respostas, mas também assim se comunica e eu sou mais emoção que razão :)))

Beijos
Mimo-te

Lampejo disse...

Carol,

O teu texto fala de uma Eutanásia voluntária: quando a morte é provocada atendendo a uma vontade do paciente.

Eu não posso responder pelos os que não acreditam em Deus ou pelos que não acreditam em milagres.

Mas posso dizer que: O homem não tem o direito de praticar a eutanásia, em nenhuma situação, ainda que a eutanásia seja a demonstração aparente de medida de caridade ou aliviar a dor do paciente.

Penso que é melhor esperar que a natureza se encarregue da morte.

E digo mais: A eutanásia sempre será um crime e uma fuga.

(a)braços...e boa sorte!

Carol disse...

Obrigada, mais uma vez, a todos os que participaram e àqueles que ainda poderão vir a comentar.
Fiquei feliz pelas reacções ao post e espero conseguir corresponder aos vossos incentivos e expectativas.

Blondie and Blue, it's wonderful to be a part of your team!

Notas Soltas, Ideias Tontas disse...

NOTA AVULSA Continuamos a notar um interesse inusitado por parte de algumas pessoas pelo conteúdos deste blogue, pelos comentadores e pela sua proveniência. Não entendemos o porquê de tal prática, mas que se deliciem. E podem aproveitar o trabalho que aqui fazemos.

Maria P. disse...

Este foi um dos post aqui editado que mais me tocou, pelo tema, claro, mas sobretudo pela forma com foi escrito, a forma tão humana.
Excelente.

Um abraço*

sniqper ® disse...

Um pedido de esclarecimento?
Após ter lido um texto de excelente qualidade, o de hoje publicado pela Carol, e os comentários que o mesmo provocou, com opiniões diferentes mas todas elas bem interessantes , só não entendo de facto este comentário:

NOTA AVULSA Continuamos a notar um interesse inusitado por parte de algumas pessoas pelo conteúdos deste blogue, pelos comentadores e pela sua proveniência. Não entendemos o porquê de tal prática, mas que se deliciem. E podem aproveitar o trabalho que aqui fazemos.

Será que alguém me pode esclarecer?

Carol disse...

Não Ligo a Nomes: Olha, eu também não ligo a nomes, mas dava jeito saber quem és. Quanto mais não seja para perceber em quê e como é que me ajudaste...
Se me puderes esclarecer, agradecia...

Carol disse...

sniqper: A mensagem tem um destinatário que a há-de perceber.

quintarantino disse...

Sniqper ... na paz, na paz. Como disse a Carol o destinatário, que não é você, perceberá.

sniqper ® disse...

Agradeço o vosso esclarecimento, mas como sempre deixo a minha opinião que é bem simples, tal como o meu comportamento que digo o que penso quando entendo que o devo fazer.

Falar directo é o caminho. As palavras que dúvidas deixam, alimentam situações, que em nada são enriquecedoras para a comunidade da blogosfera, só isso, mais nada.

Cumps.

indomável disse...

Carol,

Li o texto com emoção e depois todos os comentários com atenção.
É uma coisa estranha a emoção. Primeiro leva-nos por um caminho que nos parece o mais correcto. Depois ouvimos as vozes da razão e parece-nos que a emoção é apenas isso, emoção, não a podemos levar a sério...
Mas eu sou mulher, racional mas emotiva e como na maior parte das coisas que faço na vida, a emoção acaba sempre por levar a melhor... O mais engraçado nisso tudo, é que a razão acaba por... me dar razão...
A eutanásia não é um tema actual. É até bem antigo. Os cuidados paliativos só parecem ser novidade, assim como a eutanásia pelos nomes, pela discussão renovada e aparentemente recente.
Na antiguidade a morte era celebrada com festa. O culto dos mortos não era de tristeza. O morto não era alguém que se limitava a partir para não voltar.
Descendemos dos povos indo-europeus. As teorias da reencarnação fazem parte da nossa consciência colectiva. Só recentemente se acredita que a alma não regressa.
Na antiguidade um corpo em sofrimento era uma prisão para a alma. O Nirvana, o além, o degrau superior só poderia ser atingido por uma alma livre. Por isso se celebrava a morte, era a libertação deste mundo dos sentidos.
Para quê querer ficar preso aqui em baixo, quando se pode ascender a um plano superior?
Esta discussão actual tem por base a religião católica e o juramento de hipócrates, pelo qual um médico se obriga moralmente a defender a vida acima de tudo.
Porém, o que nos esquecemos é que a vida pode ter uma multitude de formas e nós apenas acreditamos naquilo que vemos, não é assim?
E ainda não vimos ninguém regressar para contar como foi... ou já?

Eu tenho opinião, não sou só teoria.
A minha opinião diz respeito À minha própria vida. Gosto de viver, amo a vida mais que qualquer coisa. Adoro poder olhar os meus filhos, vê-los crescer. Adoro beijar o meu marido e sentir o seu abraço. Adoro gargalhadas e boa disposição. Sorvo um belo sumo de laranja e degusto gulosamente um belo pastel de belém... mas sem a dignidade de que já falaram aqui, sem poder rir, brincar, correr, viver às gargalhadas... isso para mim não seria viver e não sou mulher para esperar pelos avanços aos solavancos da ciência...
Eutanásia ou o que quiserem chamar-lhe - eu chamo-lhe respeito por aquele que deseja viver a sua vida em pleno.

SILÊNCIO CULPADO disse...

Notas Soltas
Gostava de perceber a mensagem. Li os comentários todos e fiquei na mesma. Será que não se pode desejar as boas vindas à Carol?

antonio disse...

Um texto forte. Forte pela sua coragem e pela sua escrita. Emocionou-me, mas não consigo responder. Não hoje.

Carol disse...

Indomável: Eu acredito que a morte será, apenas, uma passagem. Poderemos não voltar a este mundo, mas não creio que a morte física seja um fim. Talvez por isso não tenho pejo em dizer que sou a favor da eutanásia, do suicídio assistido, enfim, do direito a um fim com dignidade.

Um dia, se for o caso, espero poder decidir sobre a minha vida e a forma como quero terminá-la.

Até porque, para mim, amar alguém não é prendê-la a mim. É deixá-la viver, voar, ser feliz da forma que deseja.

António, que pena tenho de não ter aqui o seu comentário. Fica para outro dia.

NuNo_R disse...

Cada um tem o direito de decidir quando morrer e como morrer...

abr...prof...

alf disse...

pois... já passei por isso.. arranjei logo um saco de plástico: ou a coisa se resolvia ou enfiava o saco na cabeça... resolveu-se.

Moral: estarmos sempre preparados para o suicidio.

São disse...

Parabéns pela estreia.
Se quiser ler o meu post "Matilde" , então lerá meu comentário sobre este seu texto.
Fique bem!