Notas Emprestadas

Mais uma vez, e dentro da nossa prática de aqui dar voz a autores de outros blogues, o NOTAS SOLTAS dá à estampa um texto de um convidado.
Que, ao caso, é o António e que já é repetente.
É um dos nossos primeiros companheiros de percurso e merece ser divulgado.

Era uma vez um homem que vivia numa cave, iluminada por uma luz muito ténue e difusa que entrava por um pequeno buraco no tecto, e lançava uma penumbra por todo aquele espaço, que era o seu mundo.

Este homem via tudo na penumbra, tudo eram formas e sombras. Não lhe faltava nada e vivia feliz.

Um dia a porta, no cimo das escadas, abriu-se e um outro homem entrou e ficou escandalizado com o que viu: como podia alguém viver sem a luz do sol? Sem dia, nem noite? Sem saber o que eram as cores?

O homem da cave sentiu-se insultado: quem era aquele recém chegado para ser tão indelicado? Quem lhe dava o direito de criticar o seu mundo? Noite, dia? É claro que ele sabia o que era a noite e o dia, no seu mundo também havia noite e dia. E depois se podia ele ver as formas, porque é que precisava das cores? Sim, cores para quê?

Mas um dia o homem decidiu a abandonar a sua cave: iria finalmente descobrir todas as maravilhas anunciadas, tudo aquilo que andara a perder.

Decidido, sobe as escadas, abre a porta e... não estava preparado para o que lhe ia acontecer, uma luz poderosa, como um raio fulminante, atirou-o escadas abaixo, uma dor fortíssima, os olhos a saltar das órbitas, e... estava cego! Durante horas permaneceu completamente cego, para onde quer que olhasse via tudo branco, tudo tão intensamente branco que mais parecia que aquele raio de luz ainda circulava na sua cabeça.

Quando aos poucos recuperou a visão e já refeito do susto, jurou nunca mais sair da sua cave, daquele mundo que lhe era tão querido e onde sempre fora feliz. E tomando nas mãos um objecto admirou-lhe as formas, questionando-se sobre o que poderia mudar se lhe pudesse ver a cor, e chegou à conclusão que continuaria a ser o mesmo objecto, o mesmo mundo e o mesmo destino.

O outro homem continuou a visitá-lo de tempos a tempos, mas agora batia à porta e esperava que ele cerrasse os olhos para que o raio de luz não o atingisse e assim, na penumbra, conversavam imersos no mesmo mundo.

Nós somos um destes homens.

Autor : António - sempenas-ant.blogspot.com

34 comentarios:

Espectadora Atenta disse...

Excelente!

bluegift disse...

Esta "tirada" foi muito profunda, António, nem parece teu. Isto é mais Aston Martin que SLK ;)
Agora a sério. Gostei. Eu sei que tem pouco a ver, mas lembraste-me o meu gato. Também prefiro pensar que ele é mais feliz aqui fechado entre o terraço e o apartamento, apenas com as pessoas que o habitam e orbitam. Sujeitá-lo à "luz" seria um risco demasiado elevado e perderiamos sem dúvida muito da relação privilegiada que tem connosco e da energia que tanto nos diverte.

ANTONIO DELGADO disse...

...a luz cega! Goya dedicou uma série a este tema...e parece demonstrar a ideia expressa nesta história.

bom fim de semana.
António Delgado.

quin[tarantino] disse...

E o amigo, porventura, inspirou-se em Platão?
Estou como diz ali a Blue, adivinha-se no escritor um porte quase aristocrático.

António de Almeida disse...

-Tudo na vida, sejamos nós, os animais ou objectos, são únicos, e mesmo cada um diferente dependendo do ângulo e momento a partir do ponto de observação. Bom texto, António!

Lampejo disse...

.........

Nem todos querem ser surpreendidos por luzes mais ousadas.

Se para eles o céu está azul.

Belo texto....!

(a)braços bom-domingo!

tagarelas-miamendes disse...

Ja Platao, na sua teoria da caverna, tentava explicar que a nossa realidade, e' o que os nossos sentidos nos permitem alcancar. Por isso nos e' tao dificil, aceitar o que nao "percebemos". Vivemos com as sombras. E nao queremos que a "luz" entre e nos perturbe na nossa tranquilidade.

sniqper ® disse...

Uma amostragem de uma sociedade real, a nossa onde continuamos a seguir estradas erradas, essas que nos conduzem a uma vida manipulada por alguns iluminados. Podemos encontrar no livro 'O Mundo Infestado de Demónios' de Carl Sagan uma boa explicação comportamental para complementar este texto. Deixo para vossa leitura umas linhas:

Mesmo um exame superficial da história revela que nós, seres humanos, temos uma triste tendência para cometer os mesmos erros repetidas vezes. Temos medo dos desconhecidos ou de qualquer pessoa que seja um pouco diferente de nós. Quando ficamos assustados, começamos a ser agressivos para as pessoas que nos rodeiam. Temos botões de fácil acesso que, quando carregamos neles, libertam emoções poderosas. Podemos ser manipulados até extremos de insensatez por políticos espertos. Dêem-nos o tipo de chefe certo e, tal como o mais sugestionável paciente do terapeuta pela hipnose, faremos de bom grado quase tudo o que ele quer - mesmo coisas que sabemos serem erradas...

Eu não sou um desses Seres, não quero muito obrigado.
Carpe Diem...

antonio disse...

Não existe nada mais perfeito que um céu azul, nem a ideia de o pintar de azul. E os homens contentam-se com pouco.

Blue, não tem ido ao meu blog... digo isto por causa da sua opnião em relação ao SLK.

Obrigado pela vossa leiura e pelos vossos comentários.

Tiago R. Cardoso disse...

Hoje é o reafirmar que a minha ideia e do meu amigo Quintarantino, foi de facto uma excelente ideia.
A isto chama-se sem duvida interacção dentro da blogosfera, onde o Notas abre as portas a outras sensibilidades e a outras escritas.

De facto depende do sitio de onde estamos a observar, o que seria de pedir é que tivéssemos a capacidade de ver as coisas de diferentes posições, só assim iríamos compreender melhor os outros.

O Guardião disse...

Muitas vezes criamos um mundo muito pessoal, a que nos habituamos e onde nos sentimos relativamente bem. O relativo, é que independentemente do que nós queremos, o mundo move-se e as coisas alteram-se. Ou nós fazemos parte das mudanças e influenciamos as mesmas, um pouco que seja, ou elas acontecem sem que nós tenhamos essa possibilidade ou sequer estejamos preparados para nos adaptarmos à mudança.
Hoje o registo deste artigo caminhou por uma área nova, o que é sempre interessante.
Cumps

jo ra tone disse...

Este texto faz-me lembrar o que aprendi em filosofia.
"A alegoria da caverna".
O homem vivia o "seu mundo" e olhando pelo tal buraco,apenas via as sombras que se movimentavam no exterior.idealizando-o à sua maneira...

Cumprimentos

Bom Domingo

osbandalhos disse...

'Nós somos um destes homens'
Mas qual? Conhece-te a ti mesmo. Conheces mesmo?

a tagarelas-miamendes:
A Teoria da Caverna, de Platão, é muito interessante. Ele achava que as cavernas, com chão de terra, deveriam ser alcatifadas, e com chão de pedra, não.
A teoria da caverna, de Platão, foi quem fez com que a industria de alcatifas se desenvolvesse de forma tão abrupta. Devemos-lhe isso.

Paula disse...

A "Alegoria da caverna" de Platão ?!...

Mas... não podemos ficar sistematicamente no nosso mundo de ilusões!
Há que enfrentar outras perspectivas, outros sentires, outros mundos! Sem medos!

Abraço de luz

Fa menor disse...

Ele até era um homem como todos os outros. Um dia ataram-lhe as mãos, fazendo-o acreditar que era melhor assim. Com as mãos atadas não podia fazer mal nenhum. O que não lhe disseram é que assim tb não podia fazer nada de bom.
Apesar da revolta que sentiu tentando desmarrar-se sem o conseguir, foi começando a adaptar-se e assim conseguiu viver com as mãos atadas.
E começou a esquecer-se que antes tivera as mãos livres.
Passaram anos, só ouvindo falar do mal que era feito por quem tinha as mãos livres.
ninguém lhe contava era o bem que também era feito pelos homens de mãos livres.
E ele sentia-se imensamente feliz porque assim não fazia mal aninguém.

Um dia desamarraram-no.
És livre, disseram-lhe.

Mas era demasiado tarde.
As mãos deste homem estavam totalmente atrofiadas!

al cardoso disse...

Um excelente texto que nos faz reflectir e muito sobre a forma de como vemos a vida!
Dizia um amigo meu nao sei se o teria lido nalgum sitio: "as coisas nunca sao pretas em brancas, sao sempre da cor das lentes atravez de qual se vem"!

Um abraco d'algodrense

alf disse...

António, se fosse a si cortava relações com a Fa menor que veio aqui pôr um texto a fingir de comentário só para tirar brilho ao seu!!! mas que mázinha...

E têm ambos razão: as pessoas têm mãos e pensamento atados e já estão atrofiados. Geneticamente atrofiados, tornamo-nos crentes - na religião, na ciência, num lider, seja no que for - assim como o lobo se tornou cão.

A Luz, ou o quebrar dos atilhos, já só causa pânico. E quem se atrever a fazê-lo, à fogueira será condenado.

O seu texto não tem nada a ver com a caverna de Platão, parece-me claro que são duas escuridões diferentes - Platão tenta explicar as limitações dos nossos sentidos, o seu conto trata das limitações que nos impuzemos ou que aceitamos.

NuNo_R disse...

Boas...

Este texto foi uma boa aplicação da "Alegoria da Caverna" de Platão.

Mas deixo a questão:

Costuma-se dizer "que cego é aquele que não quer ver", correcto?

Mas não será antes "aquele que depois de ver a luz, prefere continuar sem a ver"...?

abr...prof...

Daniel J Santos disse...

Um Bom texto que mostra as diversas vertentes do Notas Soltas, ao autor endereço os parabéns pelo texto e principalmente por ter conseguido criar diversas analises.
É necessário que as pessoas compreendam que não são donas da verdade, que os outro têm visões diferentes dos mesmos objectos.

Shark disse...

Nós somos um destes homens?
Quem?
Todos nós?

Les Gens disse...

“Estafermos, diziam os violoncelos. Não pode um homem ter um minuto de sossego sem vir um cretino estragar tudo. (Sem vir um cretino estragar tudo, repetia, mais alto, o primeiro violino, numa voz aguda). Vão para o inferno, vão para o inferno, ameaçavam, em coro os contrabaixos.”


Este texto fez me recordar uma viagem musical com a Teolinda Gersão pel'Os Teclados. Obrigada, António. Escolhi o parágrafo acima que me parece o mais indicado como teaser de acordo com o seu texto. Não há equivalente musical para o discurso verbal e que pena tenho eu de não saber ler uma nota do tamanho dum comboio. Mas sei ouvir e de ouvido também se toca.
Vou fazer como a Júlia, imaginarei um piano à minha frente e vou tocar baixinho para não incomodar ninguém...

Carol disse...

Ah, mas depois de se ver a luz como se pode voltar a viver na escuridão?! Não posso acreditar que o mundo é assim!
Na verdade, acho que muitos nunca chegam a ver a luz... Esse, sim, é o problema.

Zé Povinho disse...

Como vemos a vida e como a queremos viver? Cada um terá uma opinião e vale tanto como as dos outros.
O valor que damos à vida e o dela podemos obter é que não parece compadecer-se com o imobilismo, ou a caverna.
Abraço do Zé

Raiz de Carla disse...

Muito bom António!
Gostei imenso =)

DS disse...

Gostei muito! É o que acontece quando realidades sobrepostas se encontram,
de facto muita gente não está pronta para ver a luz.
Beijinhos!

Compadre Alentejano disse...

Não podemos nos imobilizar tanto. Temos que ser mais activos, mais participativos, largar a nossa toca e vir para o céu azul gritar o nosso estado de alma...
Bom texto, os meus parabéns.
Compadre Alentejano

Blondewithaphd disse...

A Alegoria da Caverna é, de facto, um dos textos totémicos do Pensamento Ocidental, o que explica a sua perenidade. No entanto, como Platão explicava a Gláucon, emergir da caverna significa aceder a uma revelação. O problema é que nem todos querem a revelação.

antonio disse...

O texto mais do que convidar à luz, diz-nos que devemos sempre ser capazes de falar com o homem retido na sua penumbra.

O Alf tem razão, a escuridão que me interessa é outra, diferente da que se refere o texto de Platão. O que eu digo é que se construam pontes que nos levem a todos os homens...

Obrigado a todos pelos vossos comentários e ao Notas por me publicar.

tagarelas-miamendes disse...

Mil perdoes. Nao e' a teoria da caverna, mas "alegoria" da caverna.
Grande lapso! Aceitem a correpcao.

Maf_ram disse...

Quando se vive mergulhado na escuridão só se vê o que esta permite.
Quem obtém a luz passa a ver de outro modo e tem o dever moral de fazer chegar a luz aos que ainda a não possuem.
Todos devemos fazer uma caminhada em direcção à luz, ao conhecimento, e não nos acomodarmos à escuridão e à ignorância que nos rodeia.
A busca da luz deve pautar a nossa existência, ainda que algumas vezes hajam resistências e acomodamentos.
Se a luz é um bem precioso e o conhecimento dá satisfação, na busca da luz e na obtenção do conhecimento estará a felicidade.
Também, a transmissão do conhecimento, por parte de quem o já possui, a quem ainda o não obteve, realizará o primeiro e levará a felicidade ao outro.

Joshua disse...

Sinto-me os dois.

migvic disse...

Acho que temos um primeiro ministro que vive numa cave.

antonio disse...

migvic, espero que não o soltem, nunca se sabe o que poderá fazer (mais)...

Josh, eu também.

anonimodenome disse...

antonio, fa menor e alf na mouche. Para mim também não tem a ver com a "Alegoria da Caverna" de Platão. Tem a ver com culturas, saberes e felicidades diferentes, níveis diferentes do que é "o nosso mundo", de como o percepcionamos e como nos sentimos seguros e felizes.
A esperança reside no final, em que uma ponte foi lançada. Amanhã talvez que ambos fiquem mais ricos. Não condeno, quero compreender. Procuro a sabedoria, outros têm legitimamente outros valores.