Mãe Maria

Marquei sem folgo os números da casa de repouso, terceira e provável última morada da Mãe Maria. Acedeu ao telefone com voz decidida, meio saltitante entre risos e exclamações de alegria. Era notória a satisfação em me ouvir. Telefonar-lhe assim, de tão longe, e logo no dia da passagem de ano!
“Mas o que faz ela ali?”, fui-me silenciosamente perguntando, enquanto a Mãe Maria descrevia com voz embargada o programa destinado ao réveillon, bem diferente certamente da casa plena de família e amigos a que estava habituada.

Tudo se sucedera a uma velocidade de furacão que só quem está longe consegue sentir.

Desde a morte do marido, há alguns anos, um dos genros assumira o papel de líder espiritual da família. Pessoa imponente e agregadora, conseguira prolongar a harmonia do clã agora fragilizado pela inexorável inversão de papéis a que a idade avançada da sogra obrigara. Uma situação de dependência irreversível.
Mas a vida mais uma vez foi madrasta e um cancro fulminante atingiu o genro. O clã ficou desamparado, ficando a estontear num labirinto de comprometimentos e deveres familiares a cumprir para com a matriarca.

Lembro-me da Mãe Maria mesmo antes de ter consciência da minha existência. Mãe de família numerosa, apercebeu-se cedo da minha solidão, perdida entre irmãos rapazes e uma educação demasiado formal para um espírito que se adivinhava já sedento de outras estradas. Dos momentos de lazer aos dramas mais intensos foi ela a minha verdadeira Mãe, a Mãe de todos, a palavra segura e incitadora, a instrutora de difíceis lições de Amor e Perdão, quantas vezes tão difíceis de digerir.

Nas minhas deambulações pelos comportamentos sociais mais radicais e profanos, sempre encarei os espíritos mais difíceis e rancorosos como os mais facilmente condenados à solidão e afastamento da família. Jamais alguém que dedicasse a vida tão bondosamente e plena de humanidade ao bem-estar dos seus e dos outros, seria assim tão facilmente empacotado e entregue, sem hesitações, a um gulak envernizado e sem regresso.

Mas como é que é possível? Porquê? Egoísmo, ganância, comodismo, modernismo, ingratidão, insensibilidade?

O que é que nos move quando nos demitimos do nosso papel de filhos e conseguimos ser mais madrastos que a própria vida?

E nós, o que é que nos vai acontecer, agora que os nossos filhos, sobrinhos, aprenderam connosco a lição?

“Olha, não chores, eu estou bem... Mas não te esqueças de mim, telefona...” sussurrou-me a Mãe Maria.

Não sei se chorei por ela, se por mim...

35 comentarios:

quin[tarantino] disse...

Para já, permite que te diga que é uma honra.
Voltarei para te falar mais descansadamente sobre gente que não é gente!

António de Almeida disse...

-Não tenhamos dúvidas, que o futuro da Mãe Maria, será semelhante ao de muitos de nós, indepentemente de condições sócio-económicas, os que lá chegarmos, porque alguns, a vida deixa-os ficar pelo caminho. Naturalmente estou a incluir-me, sem apelo nem agravo, mas não vou alongar-me no comentário, por puro egoísmo, caso contrário ficaria um pouco deprimido. Este excelente post é duma realidade brutal.

Um Momento disse...

Simplesmente:
“Mas o que faz ela ali?”...

Parabéns pelo excelente post...
E sim... não ouso pensar sequer o que vai na cabeça... de tantas Mães Marias quando entram na sua "nova casa" e nos primeiros dias que por lá passam até se conseguirem adaptar a todas as "regras" impostas...

Beijo abraçado a todas as Mães Marias do Mundo

(*)

Zé Povinho disse...

Hoje o assunto é muito sério e à medidad que acumulamos os anos vamos ponderando no assunto. A velhice é cada vez mais triste e o egoísmo está bem à mostra.
Abraço do Zé

Manuel Rocha disse...

Parabéns, Blue !

É com este tipo de questões, directas ao centro de nós, sem desculpas nem bodes expiatórios, que nos cumpre reoordenar a vida todos os dias.

Namasté !

Tiago R. Cardoso disse...

Uma realidade dura e difícil de enfrentar.

Eu ando em fisioterapia, num centro onde a maioria das pessoas que lá estão são de idade muito avançada.
vejo todos os dias idosos que lá vão, praticamente sem se mexerem, quase em estado vegetativo.

Um dia uma fisioterapeuta disse-me com toda a sinceridade :

"Sabes, muitos do que vêem aqui, não vêem cá para melhorar, poucas possibilidades têm, apenas aqui vêem porque durante hora e meia por dia alguém lhes liga alguma coisa, em casa ou no lar estão passam o resto do dia inertes, a olhar para o vazio. Foram lá colocados por familiares que raramente os visitam e quando visitam é sempre a fugir."

Triste sociedade...

quin[tarantino] disse...

Pai Tomás ou Mãe Maria, hoje somos assim ... levamos os idosos aos lares, esquecemo-nos deles em casas deprimentes ... fazemos de conta ... são um estorvo, mas, afinal, não seremos também nós um estorvo ao sermos assim egoístas?

SILÊNCIO CULPADO disse...

O estádio de desenvolvimento das sociedades pode medir-se pela forma como tratam os idosos, as crianças, os animais, as pessoas com deficiência. Ou seja: os grupos mais fragilizados e que mais precisam de apoio.
As sociedades tornam-se egoístas quando as motivações se centram nos bens materiais e a falta de equipamentos sociais se faz sentir de forma acutilante.
Este mundo, que é descrito, é o resultado de nós mesmos, do nossos egoísmo e da nossa indiferença.
E enquanto nós não reconhecermos isso haverá muitas Mães Marias neste Portugal (e não só). A nossa generosidade não consistirá tanto no apoio caritativo mas na nossa capacidade de nos doarmos enquanto pessoas em prol do bem comum.

Manuel Rocha disse...

Tiago...

Esse seu comentário vai de encontro ao que aqui escrevi há tempos quando se levantou a questão do fecho de centros de saúde no interior...recorda-se ?

Compadre Alentejano disse...

Um excelente post e uma admirável lição de vida. Parabéns.
Oxalá que todos a compreendessem...
Um abraço
Compadre Alentejano

mac disse...

Este é um retrato bem actual e um retrato de um futuro que nos espera. Gostava de ter a minha mãe comigo quando ela fosse velhota, mas e se tiver adoentadaou com necessidades especiais? Estamos numa sociedade que nos obriga a trabalhar até aos 60 anos, em que o estilo de vida que cada um leva é cada vez menor, e poucos são os que se podem dar ao luxo de contratar uma enfermeira particular.
Qual a solução então? Deixá-los nestas casas. Não é a solução desejável, é a solução possível...

Luís Galego disse...

amargo,cruel, terrivel, infelizmente verdadeiro...

Peter disse...

Bluegift

Foi com chave de ouro que iniciaste a tua colaboração neste blog. Os meus parabéns. O assunto tratado interessa e afecta a todos, independentemente da idade. Eu já o vivi e abordei num artigo "Da família patriarcal ao indivíduo", publicado em 10 JAN 04, na série 3 do "conversas".

bluegift disse...

Quint,
A honra é toda minha. Considero este espaço um dos mais interessantes dos ultimamente criados na blogosfera. Tenho pena que se o pretenda mais de opinião que de discussão, mas é uma opção que compreendo.
Quanto ao tema. Esse egoísmo é seguramente o estorvo a uma sociedade mais rica e humana e, finalmente, ao nosso próprio destino.

bluegift disse...

antónio de almeida,
É aí que eu queria chegar, a esta realidade brutal que tentamos disfarçar a par do complexo de culpa que nos deprime, quer pela "impotência" de reagirmos ao remoinho de materialismo que nos embala, quer pelo futuro que nos está reservado.

bluegift disse...

um momento,
“Mas o que faz ela ali?”
É essa a violência da questão que nos abala a consciência. Tens a casa que construiste com sacrificio e, de um momento para o outro, aqueles a quem tudo deste privam-te do último sabor de vitória que te rodeia.

bluegift disse...

zé povinho,
É tanto mais sério quanto mais nos aproximamos na fila; Até lá, vamos colaborando silenciosamente...

bluegift disse...

manuel rocha,
Está nas nossas mãos, não tenhas dúvidas.
E um muito obrigada pelo encanto da saudação :)

bluegift disse...

Tiago,
Muito triste. Nas grandes zonas urbanas ainda consegue ser pior que no campo.

bluegift disse...

silêncio culpado,
Concordo plenamente. Também é verdade que antes o senso de família era muito mais rico. Os pais idosos ficavam em casa com um dos filhos ou transferiam-se para a casa do que tivesse mais condições. Hoje "ninguém tem condições" para receber os pais, estando a maioria da população muito melhor materialmente. Ninguém está para os aturar, mas quantos devaneios, birras e noites sem dormir os fizémos aturar... Mais grave ainda, a ganância gera guerras e invejas que acabam por se solucionar remetendo-os para um lar.

bluegift disse...

compadre alentejano,
Obrigada. Oxalá todos a compreendessem e deixassem de esconder a cabeça no buraco como as avestruzes.

antonio disse...

As mães são assim, do tamanho do mundo e o mundo do tamanho do seu perdão. E nós cuidamos mal o primeiro e desconhecemos o segundo. Somos como dizes os filhos madrastas…

Gostei muito do teu texto.

bluegift disse...

mac,
Isso é com a consciência de cada um. Toda a solução depende da maior ou menor presença do materialismo do nosso estilo de vida. O dinheiro pode ajudar, mas como explica que a maior parte dos lares está cheia de gente com dinheiro... não é por aí mac.

bluegift disse...

luís galego,
Em 5 palavras traduziste o espírito de texto. É tudo isso.

bluegift disse...

Peter,
Meu Bom Amigo e Companheiro de Blogue. Trataste sim e com muita sensibilidade. Não "traíste" a família (somos quase todos traidores hoje em dia), embora mesmo assim te restem remorsos. Quando realmente se ama, o que damos nunca basta.

bluegift disse...

antónio,
Sempre a palavra certa no momento certo.
Só corrijo uma coisa, eu disse: madrasto ;)

Blondewithaphd disse...

I had to come and tell you: WELCOME! I'm very glad you came.

Fa menor disse...

Esta é hoje uma triste realidade. O abandono dos pais nos lares... e dos filhos à escola!
Um dia colheremos o que plantamos!

Carol disse...

Blue, amiga, parabéns pelo teu texto e parabéns ao Notas por mais uma excelente "aquisição".
O tema que abordaste é duma actualidade e realidade assaz brutal. O abandono, a solidão e o egoísmo são palavras, cada vez mais caracterizadoras, da sociedade actual.
Os animais são abandonados nas ruas; os velhos são atirados para lares e hospitais; as crianças são depositadas nas escolas e atl's...
Triste mundo o nosso!

amigona avó e a neta princesa disse...

Bluegift, não posso deixar de te dizer que ao contrário de outras opiniões tuas noutros assuntos (educação/silencio culpado)gostei de te ler!
Este mundo eu conheço muito bem...e há muitas Marias por aí...mas também há Marias, muitas, sozinhas em casa, solitárias, vivendo mal, comendo mal...há muitas Marias e Manéis vivendo na miséria...e até há Marias e Manéis MUITO infelizes vivendo em casa dos filhos!!!

Concordo com a Lídia quando diz:

" A nossa generosidade não consistirá tanto no apoio caritativo mas na nossa capacidade de nos doarmos enquanto pessoas em prol do bem comum."

E essa capacidade de nos doarmos pode ser tendo a mãe/pai no - lar!

Falaremos mais sobre este assunto...

bluegift disse...

Blonde,
É um imenso prazer juntar-me a uma equipa tão simpática e dinâmica quanto o Notas. Não gosto muito de escrever artigos, mas isso é outra conversa.

bluegift disse...

fa menor,
É isso mesmo fa: um dia colheremos o que plantámos!

bluegift disse...

Carol,
Muito obrigada pelas palavras tão gentis. Também fiquei muito contente quando vi lá o teu nome ;)

bluegift disse...

amigona avó e neta princesa,
Obrigada pelo teu comentário.

C Valente disse...

Saudações amigas