Brincar aos Deuses

Esta semana já aqui se falou de eutanásia a pedido. Eu vou seguir na onda da Morte e deter-me noutro assunto: quando os homens imitam Fausto, o tal que vendeu a alma ao diabo em troca da sabedoria e do poder vivificante que só O Deus pode ter.

A medicina tem progredido imenso e eu só posso estar grata por tantas descobertas, tantas doenças erradicadas, tantas curas, tantas esperanças. E, ao fim e ao cabo, tantas vidas salvas, resgatadas a outras sortes divinas para permanecerem um pouco mais entre os vivos. Os homens têm em si qualquer coisa de demiurgos. Só, que, como Fausto, há sempre o querer mais, o transcender limites, o tentar superar a divindade. É a cegueira do poder sobre as coisas e do comandar pela vontade. Toca-se a divindade e quer-se a divindade. A medicina é também isto. Não por culpa da medicina, mas sim pelos desejos fausteanos do Homem.

As estatísticas em medicina contam muito, o orgulho médico comanda tudo. Tirar uns resquícios de sinais vitais a um corpo perecido é uma vitória. É o contradizer Deus. É a superiorização a Deus.

Hoje-em-dia acho que todos nós temos um grande medo: que nos deixem, a nós ou a algum ente querido, viver vegetativamente. No mundo natural não é possível a manutenção de vida artificialmente. Na Natureza vivemos e morremos e não há estados intermédios. Claro que há comas, mas não há comas mantidos eternamente: ou se acorda eventualmente ou se morre. Nas salas dos hospitais fazem-se hoje, e a meu ver, autênticas anomalias à condição vivente.

Mantêm-se estados terminais de cancro quase ad infinito. Protela-se a morte a quem sofre de doenças degenerativas crónicas e irreversíveis que acontecem cada vez mais, porque a nossa esperança média de vida se expandiu anomalamente. E, por conseguinte, aumentam exponencialmente os casos de sofrimento continuado porque não se morre e não se deixa morrer.

Como fazer ver que alguém com oitenta e tal anos e que tem um enfarte agudo do miocárdio não pode ser ressuscitado? Se a esperança média de sobrevida na Natureza a um caso desses é quatro minutos, porque se fazem manobras de recobro de vida, sabendo que o paciente não mais terá vida, isto já para não falar em vida digna?

Como explicar que um cancro metastizado nos ossos e no cérebro que entra em fase terminal não pode ser mantido sem ser num estado de coma induzido? E que isso também não é vida? Há poucas décadas atrás o cancro matava ainda mais do que hoje mas ninguém passava o horror que se atravessa hoje com prolongamentos absurdos da vida.

Para quê? Para estatísticas que provam que os médicos salvam, que a medicina está incrivelmente evoluída? Para brincarmos aos deuses como Fausto com o seu homúnculo? Para termos o destino nas nossas mãos e depois irmos fumar o charuto do contentamento? “Eh pá! Hoje salvei o Alzheimer com noventa anos que me entrou em colapso cárdio-respiratório!”. “Boa! Eu pensava que o cancro hepático com os pulmões desfeitos me morria na mesa, mas a tipa lá se aguentou! Eh pá, doze horas de bloco!”.

Acho que temos de repensar a Vida. Acho que temos de começar a levantar a consciência para a dignidade humana: a dos doentes, a das famílias. Acho que temos de começar a questionar a medicina omnipotente. Acho que temos de pensar seriamente que o salvamento de vidas é questionável. Acho que temos o direito de dizer que o sofrimento não deve ser mantido. Acho que não temos o direito de sermos deuses.

Fausto arrependeu-se…

28 comentarios:

Manuel Rocha disse...

E temos, além disso tudo, de re aprender a lidar culturalmente com a morte. Ela faz parte da nossa condição.

A medicina pisa carreiros na beira dos abismos da ciência. Na morte como na vida. Fabrica a "não morte" como fabrica a vida clonada.

Num momento qualquer deste processo teremos todos de parar um pouco e repensar socialmente as fronteiras da ética da vida.

Obrigado por esta magnifica "paragem".

Dupla vénia !

SILÊNCIO CULPADO disse...

Blondewithaphd
Concordo com tudo o que é dito no texto. E muito bem dito. Acho que é desumano que se prolongue a não-vida e por vezes mesmo o sofrimento. Se, em relação à eutanásia, tenho ressalvas, relativamente ao prolongamento do estertor, não tenho nenhuma. Podemos não ser deuses para tirar a vida mas também não o somos para impedir a morte.
Gostei muito desta abordagem.

quintarantino disse...

Contudo, e quem tem a tesoura na mão que permite cortar o fio?

Quem tem a moeda para pagar ao barqueiro que há-de levar a alma, admitindo-se que esta possa existir, ao outro lado?

Se quisermos ver as coisas por este prisma, voltamos à discussão de quarta-feira ... aos pedidos quase sumidos de ó senhor doutor, e não se pode fazer nada?, ainda tenho tanto para lhe dizer... e há sempre aquele caso da minha tia, coitadita, veja lá, um colega do senhor doutor dava-lhe meses de vida e ainda cá anda sã e rija como um pêro... não, não podem ser só os aprendizes, os manuseadores de bisturí a serem os detentores desse limite, dessa linha, do fio da vida. Nem os culpados pelos estertores... há ali como que uma santa aliança entre o juramento feito no início de carreira, a vontade em usar aquela técnica nova que aquele congresso a que fui nas Filipinas me apresentou na piscina junto com aquele colega israelita, e a vontade lacrimejante da família que, sendo cristã, e ouvindo toda a sua santa vida que a morte é apenas uma passagem para o paraíso, sempre desconfio que o seu ente possa ir dar com as costelas ao inferno...

amigona avó e a neta princesa disse...

Excelente abordagem: os meus parabéns! A dignidade humana centra-se mais nos dieitos dos doentes que têm direito a partir...o das famílias é mais complicado...o problema é que SEMPRE algumas questões se levantam já abordadas pelo quintarantino...mas era possível arranjar uma solução...assim os homens do mundo quisessem...

Joshua disse...

Não concordo nada contigo. Pode não ser por orgulho mefistofelicamente-induzido-em-Fausto que se prolongam artificialmente vidas claudicantes ou em falência, mas por um imperativo que nos é congénito: viver mais, aprender a viver mais, melhorar o viver mais, compreender melhor o por que se morre.

Se toda a técnica de ressuscitação e conservação de toda a vida precária, continuamente aperfeiçoada, é uma tendência exercida de forma sádica para com alguns, há-de ser também justamente exercida de forma vital para com outros e o critério geral norteador deverá ser o Vital e não o Mórbido por negligência eticamente fundamentada, que é um perfeito absurdo pelo descontrolo e arbitrariedade que faz pressupor.

Agora, o que me parece grave é a Morte-em-Vida dos Orgulhosos e dos que têm Pose de Mais e Posição Social e Status Social de Mais na Vida: Advogados, Certos Professores Com Pés de Barro Incrustado na Carreira, Docentes Universitários, afinal Mortais, como todos os outros, mas que se habituam a uma forma de infravida: sonegam-se as emoções, odeiam as lamechices, mas no fundo traem a dimensão autêntica de si mesmos como Seres Humanos que se desfazem em Merda em certas alturas intestinalmente desfavoráveis. Não choram em público. Não peidam distraidamente em público sem enrubescer de pudor pela buzina do peido e pelo respectivo fedor, não beijam em público: são um esfíncter esfíngico de hiperCONTROLO de si-mesmos. Vão para o caralho! Se os pusermos a cagar Leis e a cagar Avaliações de Desempenho, em pouco tempo transformam-se nos Drs. Mengele das sociedades modernas, experimentalistas geradores de triagens e torturas, despoletando a revolta geral, a inveja geral, a insatisfação geral e geradores precisamente do próprio pesadelo de violência que a todos há-de ou pode tragar, como já aconteceu.

Até o seu Catolicismo é uma marca, um ferrete Social, de Bem e sem mais fundura que a crosta Social que a enquadra.

Passa bem!

PALAVROSSAVRVS REX

sniqper ® disse...

Excelente abordagem do ser humano e da vida. Um texto que merece simplesmente que se comente dizendo, excelente.
Outro tipo de comentários, são o espelho de mentes distorcidas, de seres invadidos no seu interior pelo pior sentimento que nos pode dominar, a soberba.
Carpe Diem...

Joshua disse...

Miss Sniqper, não fales das mentes subjacentes aos comentários. Fala das ideias e contesta-as, se souberes, sobretudo agora que preguiçosamente te quedaste apenas pela bajulação telegramática, convencional e habitual.

Beijos, Fofa!

PALAVROSSAVRVS REX

Alma Nova disse...

Belíssimo texto sobre "Vida e Morte".
Na incontrolável ânsia de combater o que o Homem não entende nem aceita, a "morte", pelo facto de ela lhe ser superior em poder, ele esquece as raizes fundamentais da vida e pretende somente conseguir ultrapassá-la. Esquece que Vida não é existir mais um mês ou um segundo, seja a que custo for, mas apreciar com dignidade e qualidade os minutos a que a ela temos direito.

bluegift disse...

A vivência de um drama é sempre complicada, leva tempo a recuperar.
Quanto mais não seja leva-nos, de novo, ao problema da legalização da eutanásia. Só que desta vez centrado no poder dos médicos.
Na cabeça de qualquer um de nós esses seres oscilam entre Deus e o Diabo. Não só por juramento como por lei, um médico deve recorrer a todos os meios para salvar uma vida. Por um lado arrisca-se a levar com um processo (e a família)em cima e, por outro, trata-se de um reflexo natural da sua profissão: salvar vidas. Frequentemente, quando livres de represálias e com tempo suficiente de reflexão, interrompem os esforços, creio que todos sabemos que sim.
Mas, independentemente da religião, qual é a família ou amigo que perante uma situação de perda iminente de um ente querido não suplica por uma tentativa de reanimação, até porque nem sequer ainda estão preparados para o verem morrer? Tudo isto pode ser brutal e irracional, mas é assim que se passa na realidade.
A reanimação é não só uma "arte" que se pretende aperfeiçoar do ponto de vista profissional, o que é legítimo e ainda bem, como um "instinto" que, na variação do seu grau de complexidade, faz parte de algumas espécies animais. São imensos os casos de animais, de golfinhos a pássaros, que permanecem junto do companheiro, agitando ou picando, na tentativa de o "reanimarem" para que se junte ao bando.
Tudo isto para dizer que, embora concordando com a eutanásia, compreendo que em certas ocasiões se torna difícil decidir quando é que é o momento de desistir, mesmo quando a pessoa já tem uma idade avançada ou não apresenta sinais vitais. De Anjo e Demónio temos todos um pouco e os médicos ainda mais.

Apetecia-me falar de casos de pessoas com doenças degenerativas que, apesar de conscientes do que lhes ía acontecer, casaram, tiveram filhos, foram felizes à sua maneira. De uma forma bem diferente, seguramente, daquela que mais valorizamos, mas realizaram o seu sonho antes da "data marcada". Isso levar-nos-ia para outros campos mais complexos de aceitação do "não normalizado", que não se enquadram aqui.

bluegift disse...

Ó joshua, hoje não é o teu dia ;)

António de Almeida disse...

-Excelente texto, mas permita-me citar um velho ditado português, "enquanto há vida, há esperança". Este ditado é na prática seguido pela quase totalidade da população, muitos doentes, mesmo em fase terminal, agarram-se á hipotética evolução da medicina, aceitam ser cobaias de medicamentos em teste, por vontade própria, por vontade de viver. Quando assim é, nada a opôr, por muito doloroso que seja o sofrimento, prolongar coma sabendo que não existe qualquer possibilidade de recuperação, claro que aí sou contra, somos todos naturalmente. Mas o fundamental para mim, é o médico informar o doente, cabendo a este o direito de escolher sujeitar-se ou não a melindrosas intervenções cirurgicas, ou dolorosas terapias. O médico informa, o doente decide, o problema só se coloca quando alguém quer protagonizar outro papel.

Carol disse...

My dearest Blondie, I couldn't agree more with you.
Acho ridículo, sobretudo nos católicos, que se prenda alguém à vida, sobretudo se esta for uma vida vegetativa e/ou de infindável sofrimento.
Para mim, a vida não acaba com a morte física, daí defender a eutanásia, o suicídio assistido, tudo o que cada um considere melhor para si. Que raio, deixem-nos fazer o "Living will"! Permitam-nos isso!

Zé Povinho disse...

Tema delicado onde a fé na medicina e a esperança têm de ser respeitados. Há situações onde não há nem hipóteses nem esperança e aí coloca-se verdadeiramente a questão, que implica a tal decisão consciente.
Um pormenor talvez um pouco lateral sobre a esperança de vida, que não aumentou tanto como se diz, e a tendência é para diminuir dentro de poucos anos.
Abraço do Zé

Fa menor disse...

Por tudo isso e muito mais, sou pela vida, sempre.
Não a vida ridiculamente artificializada, mas a vida com tudo o que tem de belo, mas também com os seus sofrimentos naturais.
Cada vez mais me convenço de que não somos donos da nossa vida nem "protagonistas da nossa própria história da Salvação" como diria um amigo querido.

Quem dera (e isto só fará sentido para um crente, e vem na sequência do post sobre a eutanásia)pudessemos, através dos nossos sofrimentos, expiar todo o mal que fazemos. Sofrer tudo aqui neste mundo, para não ter que sofrer numa outra vida, onde esse sofrimento poderá não ter comparação, e esse sim, eterno. Mas como digo, isso só poderá fazer sentido para um crente.

E agora caiam-me em cima!

antonio disse...

A suprema ilusão dos homens: a de poder controlar o seu destino, de adiar o inevitável. São os homens a ensaiar a sua imortalidade!

Deus, esse eterno desmancha prazeres…

antonio disse...

O Josh no seu melhor, que é como quem diz também no seu pior.

Tu não arrancas as máscaras que presumes ver nos outros, tu esfolas o outro vivo.

Tens arte e talento para o fazer, mas isso dói. A verdade, mesmo que nossa, assim de contaminada, não deixa de ser a nossa verdade. E mesmo essa verdade magoa e por vezes sem necessidade.

Venha de lá essa fúria...!

Fa menor disse...

Peço desculpa pelo meu atrevimento, mas depois de uma notícia que acabo de ver na televisão que, a par de outras que todos os dias me chegam, me revoltou profundamente, concluo que em Portugal se está a assistir a uma CULTURA DA MORTE, o que para mim é uma nova forma de terrorismo!

Muita gente vai embarcando nisso!

Haja discernimento!

Compadre Alentejano disse...

Sou partidário de se manter, in-extremis, a vida mas desde que haja dignidade. Para a pessoa ficar num estado vegetativo, então não vale a pena.O melhor é morrer..
Creio, e não devo andar muito longe, que os médicos chegam a fazer experiências com a recuperação dos doentes terminais, será?
Um abraço
Compadre Alentejano

KimdaMagna disse...

Eu fico "demente" !
Morais? A pilula que evita o aparecimento da vida, é uma eutanásia préconfigurada? neo modernista? Brincadeiras de Deusas?
Que raio, eu conheço aquela Mãe que já foi Deusa ( não sei quantas vezes).
Cultura da morte?
Desculpem lá a minha ignorância oh eruditos seres...
O Fausto arrependeu se...
E tu Mãe e tu Pai arrependes-te da negação da vida? Seja em pilula ou em aborto?
Então ?
Não consigo perceber estes desvios.
Os Deuses estão mesmo loucos de soberba.

quintarantino disse...

Nós nunca prometemos o paraíso, nem dissemos que ia ser fácil. Somos polémicos, sim senhor. Coisa diversa de soberba

antonio disse...

Oh Quint, quem é este Fausto? Deviamos convidá-lo para o próximo jantar.

Rui Caetano disse...

O destino pertence à nossa vontade, o nosso desígnio é escolher as opções que a vida nos oferece.
Enquanto a morte entra-nos pelo olhar adentro sem conseguirmos destinar a hora nem o sítio.

sniqper ® disse...

Muita gosta o ser humano de provocar "guerrinhas", mesmo depois de grandes discernimentos sobre conduta e moral, enfim.
Isto é um exemplo de quem tem responsabilidade acrescida, a de fundador:

quintarantino disse...
Nós nunca prometemos o paraíso, nem dissemos que ia ser fácil. Somos polémicos, sim senhor. Coisa diversa de soberba


Eu comentei o texto e os comentários que na altura estavam on-line. Em relação ao meu comentário, onde falo em soberba, é fácil de ver para quem falo, mas como por vezes é conveniente não perceber, eu ajudo, é dirigido ao Sr. Joshua, simples. O resto se querem mais, visitem o blogue dele ou então basta ler o que por aqui vai escrevendo, acho suficiente para traçar um profile da personagem.
Mais alguma coisinha, façam o favor de colocar a questão que eu respondo via e-mail, não ocupo mais nenhuma vez espaço na área dos comentários com polémicas destas, simplesmente porque entendo que é uma perda de megas, mas claro que cada um faz no seu espaço aquilo que entende.
Cumps.

quintarantino disse...

SNIQPER A ver se nos entendemos.
Escrevi "Nós" e assim sendo referia-me a mim, ao Tiago, à Blonde, à Blue e à Carol que são os que neste momento estão activos no blogue. Obviamente que a Lídia também estava no meu pensamento.

Pretendi, simplesmente, tentar fazer ver que não podemos ser responsabilizados pelo que aqui nos vêm escrever ou pelo que por aí escrevem e dizem sobre nós.

Assim como não sou/somos responsáveis pelos comentários que a Sniqper produz, também não sou/somos responsáveis pelos excessos do Joshua.

Contudo, e se tiver a fineza e maçada, solicitava-lhe que visse nos comentários ao texto do Joshua que comentou no blogue dele o que eu lá deixei.

Penso que compreenderá. Tenho-a por pessoa inteligente e de boa fé.

Tiago R. Cardoso disse...

Desde já peço desculpa pela minha ausência ontem e não ter participado no debate, consegui levantar-me para comentar e vou voltar para a cama, demasiadas dores...

Não temos o direito de sermos deuses, mas temos o direito e o dever de lutar pela vida, eu acredito que de tão preciosa que é deve ser preservada, não a qualquer custo e sim sempre com a esperança que até ao fim se possa fazer alguma coisa.

Fazer de tudo para salvar um vida, lutar até ao fim para combater a doença e a morte é e deve, a meu ver, ser considerado louvável.

indomável disse...

Não consegui evitar de participar no debate.
Então vá lá ver... fala-se aqui da manutenção da vida ad eternum, em condições de não vida... Como perguntaria um comentador de um outro blog - afinal o que é vida?
Aqui entrariamos me discussões biológicas, anatómicas e filosóficas, tudo ao mesmo tempo! E depois temos as guerrilhas internas que servem apenas para dispersar a atenção da verdadeira questão e lá se perde o fio à meada...
Temos duas versões de um mesmo problema.
Blonde... sente-se em ti uma grande fé, uma filosofia de vida que implica o respeito supremo pela vida.
Joshua... perdoa se presumo ver aquilo que relmente não existe, mas reconheço em ti algo que me é comum - o respeito pelo ser humano em todas as suas vertentes. Todas as variáveis são possiveis, todas as opiniões são louváveis e verdadeiras. A forma como as expomos é que determina a sua validade.
Quero eu dizer o seguinte, Dali via o mesmo que Einstein, sem com isso falar sobre uma teoria da relatividade. Quem não conhece o célebre quadro dos relógios em que o tempo se escorre por entre as montras? E não dizia Einstein que o tempo é uma ilusão?
Perdoem-me desconversar, mas parece-me que falamos todos do mesmo, mas de formas diferentes... A fé e a esperança podem até ser vistas de formas diferentes, o respeito pela vida também, mas isso não torna uma visão melhor do que a outra.
Desculpem-me aqueles que acreditam que a fé passa pela igreja e desculpem-me todos aqueles que pensam que o respeito pela vida implica levá-la ao extremo... Como sempre acredito que no meio está a virtude, no equilíbrio se rege a verdade... seja ela qual for.
Gosto deste blog, do que escrevem os seus participantes. Participo com gosto destes debates porque reconheço em muitos comentadores um espirito verdadeiramente aberto e inteligente... Emociono-me muitas vezes e revolto-me algumas outras.
Para terminar e não me alongar neste assunto, tenho a contar-te apenas esta pequena história, minha querida blondie:
Uma prima descobriu aos 30 anos de idade que tinha um tumor no peito. Guardou segredo até poder e numa noite que estávamos juntas perguntou-me se podia confiar em mim. Respondi-lhe que obviamente que sim, esperando ouvir algum segredo terrivel... Perguntou-me então se podia tomar conta do filho dela, com dois anos na altura, se podia ser a mãe dele... Não havia possibilidade de sobreviver, não conseguiriam tirar todas as metástases que minavam o corpo...
Ao meu filho juntou-se o primo, que eu e o meu marido nos dispusemos as criar junto com o pai dele, nos longos meses que ela passou no hospital, amámos aquele menino o melhor que tinhamos nos corações. As idas ao hospital era repletas de choro e tristeza, parecia que a esperança não conhecia o caminho por entre aqueles corredores...
Depois, cansada e sem cor, a prima parou de vomitar e olhou o filho no meu colo. O sorrisinho triste dele pareceu acordar qualquer coisa nela. Uma semana depois estava sentada em frente a outro médico, um homeopata. Durante a semana que se seguiu consultou muitos outros. Fez várias vezes radioterapia, quimioterapia, tirou o peito, deixou que a retalhassem e voltassem a coser. Deixou por completo de comer carne, peixe, açucar. Tomou tudo o que se conhece e mais algumas coisas desconhecidas. Rezou e deixou que lhe fizessem tudo o que amigos, familiares e conhecidos se lembravam... Mas um dia, olhando o seu rosto enchi-me de coragem e perguntei - não estás cansada? Não preferias que acabasse tudo de uma vez?
Ela olhou para mim com um enorme sorriso estampado no rosto e respondeu-me - podem fazer-me o que quiserem, se me quiserem fazer testes experimentais de qualquer novo tratamento, vou ser a primeira a dar um passo à frente... desde que possa ver o meu menino crescer.

Não quero emocionar-vos com a história... a prima está viva e bem, o filhote já tem oito anos e feliz de brincar e rir com a mãe.
O que eu queria mesmo era acrescentar isto à disscussão - estamos vivos enquanto queremos. Enquanto a vida para nós for mais do que passar o tempo, do que obedecer a horários e a prioridades, enquanto olhar o céu e admirar o voo de uma borboleta... isso é viver e aqui concordo com o Joshua, mas também contigo Blondie. Porque ninguém que viva em coma, pode realmente apreciar estas coisas, ou pode?

Carol disse...

Pois eu, depois disto tudo, continuo com a minha ideia. No dia que eu quiser ir embora, espero que ninguém, que me diz amar, me faça ficar...

7 Pecados Mortais disse...

De maneira geral concordo com o que disseste neste teu texto. Muito bem escrito. Em relação à eutanásia, tenho as minhas dúvidas e não tenho uma opinião muito vincada. Contudo acho que estas devia de ser aceite a pedido do doente. Sei que existe vários entraves (comas, etc). Contudo são assuntos caricatos e no último ano passei por uma situação de sofrimento (cancro do pulmão terminal do meu avô que piorou gravemente em três dias e morreu. Contudo já tinha tido graves crises antes de partir, mas consegui-se que ele aguentasse mais tempo, isto também porque ele era um lutador) em que os sentimentos são sempre confusos e na hora da verdade é difícil ter-se uma opinião concreta. São assuntos delicados, tal como o aborto. Para terminar cito uma frase tua: "Para termos o destino nas nossas mãos e depois irmos fumar o charuto do contentamento? “Eh pá! Hoje salvei o Alzheimer com noventa anos que me entrou em colapso cárdio-respiratório!”. “Boa! Eu pensava que o cancro hepático com os pulmões desfeitos me morria na mesa, mas a tipa lá se aguentou! Eh pá, doze horas de bloco!”." - Custa-me a crer que o verdadeiro médico cite estas palavras, se o fizer, não é médico...Acredito que nos princípios que eles juraram defender perante as vidas que lhes surgem. Enquanto houver vida tentam...É assim que eu penso, mas acredito que há excepções...e aí não sei...já não sei nada...