Foi você que pediu um Alegre divórcio no “socratistão”?

Maria Jesús Álava Reyes, psicóloga, dava ontem uma pequena entrevista no “Diário de Notícias” onde a dada altura era abordada a questão do divórcio.
Uma das suas afirmações apontava para o facto de existirem cada vez mais divórcios de pessoas na faixa etária entre os 50 e os 60 anos.
As pessoas, segundo ela, “deixam de trabalhar, têm que estar juntos 24 horas por dia e não se suportam”.

E eu, que lia isto enquanto estava à mesa ao almoço às voltas com uma malga de sopa de nabiças, lembrei-me que, às tantas, às tantas, o nosso Primeiro afinal é um homem informado, mundano e perspicaz.

Tão perspicaz que é nesta pequena afirmação que se encontra a explicação para as alterações na idade da reforma, nas penalizações para quem se reforma antes do tempo e por aí fora.
E nós, que só vemos o cifrão à frente, não vimos logo que, para além da sustentação da Segurança Social, Sócrates, afinal, também estava a apoiar a família.

Lá está.
É assim uma espécie de dois em um, a que ainda se pode juntar o argumento das políticas sociais para calar o Manuel Alegre, agora muito falado como putativo fundador de um novo partido político à Esquerda.

Esse novo partido, a surgir, juntaria a ala esquerda do Partido Socialista e a ala direita do Partido Comunista Português.
Sim, vejam bem.

Manuel Alegre reclama-se como um depositário dos valores da Esquerda e um representante dos valores de esquerda dentro do PS. Certo?
Ora, no PCP os renovadores são vistos como perigosos dissidentes. Manda a verdade que nunca ouvi publicamente falar-se deles como “social fascistas” mas se estão contra a ortodoxia só podem ser a ala direita. Ou não? E esta? Comunistas de direita?

O problema é que Manuel Alegre, embora já tenha há muito ultrapassado a faixa dos 50, ainda não está na fase da loucura extrema em que um dos membros do casal decide mandar tudo às malvas e sair por ali fora.
Dito por outras palavras, parece ainda não estar maduro para se divorciar do PS.
Eu não quero sequer enveredar pela hipótese que o que o impede é o receio de não conseguir regressar à Assembleia da República, antes que ele, Alegre, adivinha que 1.000.000 de votos é um milhão de votos e isso não se repete assim do pé para a mão.

Mais a mais, quando José Sócrates, dando claramente sinais que acha que tem os danos laterais à direita (leia-se PSD) controlados e que precisa de não descurar a ala esquerda, chama para uma pasta crucial uma pessoa próxima de Alegre.

Ana Jorge, de seu nome.
Notem, por favor, que ontem o Bastonário da Ordem dos Médicos, a propósito da colega que “ministeriou”, referia que os portugueses se podiam sentir orgulhosos e que teriam razões de satisfação.
Dêem-lhe um mês.
E mais não digo.

Mas, como hoje me deu para disparatar, e voltando ao início do tema (divórcio, lembram-se?) a dita psicóloga também asseverava que “sexo é importante” (e digo eu, olha a novidade!!!) e que apesar das diferenças, as pessoas podem viver juntas porque se complementam.

Eu aqui fico confuso e não vejo onde Sócrates e Alegre se complementam.
Será porque ainda coincidem no essencial, têm os mesmos valores?
Será que a base comum é gostarem muito da política politiqueira e das suas mordomias?

Hombre, Porqué No Hablas?

O novo bastonário da Ordem dos Advogados, Drº António Marinho Pinto, numa recente entrevista à Antena 1, denunciou alegados casos de corrupção e/ou má gestão.

A grande novidade é que disse que o “fenómeno de corrupção (...) da mais nociva criminalidade para o Estado, para a sociedade...” é cometida por “intocáveis no poder” que “andam aí impunemente...”.

Para além disso, acrescentou que “alguns deles andam por aí a exibir os benefícios e os lucros dessa criminalidade. Alguns, inclusive, ocupam cargos relevantes no Estado português”. Na sua opinião, estas são situações de tal forma gravosas que justificam “um grito de alerta”. Ainda assim, não adiantou nomes ou situações concretas...

As reacções não se fizeram esperar.
José Sócrates esclareceu prontamente que as afirmações não se referiam a nenhum membro do actual Governo.
Pinto Monteiro, Procurador- Geral da República, anunciou de imediato a instauração de um inquérito. Segundo ele, as denúncias serão investigadas, nomeadamente por Cândida Almeida, a procuradora que dirige o Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP).

Marinho Pinto reagiu com indiferença a esta medida do PGR e acrescentou mesmo que Pinto Monteiro devia estar mais preocupado em apresentar "os resultados da operação Furacão”. Acrescentou, ainda, que este assunto deveria ser investigado por uma comissão parlamentar de inquérito.

Como seria de esperar, as declarações do novo bastonário causaram polémica e foram muitos os que se insurgiram contra as mesmas, inclusive no seio de magistrados e advogados.

Entre a classe política o mal-estar também se fez notar.
Vera Jardim criticou o facto dessas declarações “criarem um clima de suspeição generalizada”, referindo que duvida da obtenção de resultados dessas investigações.
Por outro lado, a conselheira de Cavaco Silva, Manuela Ferreira Leite, acrescentou que Marinho Pinto “devia apresentar nomes” e nunca cair no erro de “lançar suspeições para o ar, recaindo sobre a classe política em geral, sabendo que esta já é malvista na sociedade”.

Eu, pela minha parte, não percebo o senhor Bastonário: por um lado, diz que a corrupção grassa em Portugal mas, por outro, considera que as suas denúncias devem ser investigadas por uma comissão parlamentar. Eu é que sou burra? Mas essas comissões parlamentares não são constituídas por políticos, esses supostos criminosos do pior ?!

Outra coisa que me baralha é o facto de haver quem pense e diga que esse senhor praticou, assim, um verdadeiro acto de cidadania ao denunciar os grandes e poderosos meliantes deste país. Mas, desculpem lá, denunciar não é fornecer dados concretos, como os nomes dos visados, os locais do crime, as armas utilizadas? Sei lá, algum elemento a que o CSI português se possa “agarrar” para investigar ?

Olhem, sinceramente já só me apetece telefonar ao Drº Marinho Pinto e dizer-lhe:

“Hombre, porqué no hablas?”.

Destruição, insultos e porrada em lutas tribais.

Existem ambientes onde o normal seria respirarem-se bons ares, saudáveis, onde todos pudessem respirar; no entanto, são cada vez mais raros.

De quinze em quinze dias ia ver a Oliveirense, clube de Oliveira de Azeméis, onde se via um clima de desporto e confraternização, sendo necessários pouco mais que meia dúzia de agentes da autoridade sem que se ousasse sonhar com barreiras de segurança a dividir adeptos.

Para mim era algo de fantástico, em que eu sentia a essência do Desporto, mesmo quando existiam discussões entre adeptos de clubes rivais tudo terminava com a barriga encostada ao balcão e de volta de um "copo de três".

Entretanto mudam-se os tempos, supostamente evoluiu-se e passou-se à fase seguinte na "evolução" do adepto de um desporto: formaram-se claques.

Evidentemente que, como em tudo, tomam-se caminhos diferentes.

Uns estão lá pelo apoio e amor ao clube, com poucos recursos seguem a sua equipe, cantam, choram, riem… enfim, apreciam o desporto.

Depois temos os outros, os que dão origem a coisas como "um homem de 30 anos, presumível adepto do Vitória de Guimarães, foi esfaqueado por um presumível apoiante do Benfica uma hora antes do jogo de Sábado, no estádio vimaranense (...) Um outro adepto do clube local foi também transportado ao Hospital, com o nariz partido, tendo sido transportado para o Hospital de São João no Porto, onde se encontra internado."

Atenção que este exemplo tem mais a ver com a actualidade noticiosa do que com qualquer ataque meu a uma determinada claque ou clube. Aliás, poderia avançar com mais exemplos, em outros jogos, com outros indivíduos e ainda mais graves.

A notícia afiança ainda que "antes do desafio, e apesar do reforço policial não foram evitadas as escaramuças entre os adeptos de ambos os clubes."

É aqui que eu coloco a diferença.

Para mim um bando de indivíduos crescidos, a cantar pelas ruas insultos a outras pessoas, a destruírem propriedade pública e privada, agredindo tudo o que não tiver as cores deles, organizados em "matilha", é tudo menos adepto, é tudo menos claque, é o regresso ao estado primitivo, é o regresso ao estado básico da evolução onde tudo se fazia por instinto e em grupo, onde o grupo atacava movido por um objectivo comum e o individuo não existia, é o regresso aos instintos básicos dos animais...

Ainda por cima, infiltrados nessas "tribos" temos todas as espécies de animais que enchem a fauna da nossa sociedade, muitos nem sabem o que lá fazem, acreditam que aquilo é um modo de vida, onde se luta (falo literalmente) contra um inimigo, que na realidade não passa de um espelho deles próprios.

Está mais que na altura da lei ser cumprida.

Claques organizadas, licenciadas, com estatutos e membros perfeitamente identificados; está mais que na altura dos clubes as colocarem na linha, quem prevaricar, rua!!! não entra; está mais que na altura de os clubes investirem naquilo que realmente traz de belo um acontecimento desportivo, o transmitir de emoções, o gosto pelo desporto, o sentir que se passou um bom bocado...

O futuro não está em "tribos", onde se vê um estádio de 30.000 pessoas vazio, com uma claque de 300 pessoas, mas sim em estádios cheios, onde famílias inteiras possam ir ver um evento desportivo sem medo de serem agredidas ou de ouvirem o dicionário inteiro do melhor vernáculo da língua portuguesa.

Espero que por cá se possa aprender sem termos de passar pelo que os ingleses passaram, onde a lição lhes foi dada forma mais dura, através da morte de adeptos dentro dos estádios...

Como seriam no mundo real os censores dos blogues?

Sem que ninguém se apercebesse, seres liliputianos instalaram-se dentro dos cabos de fibra óptica, nos “modems”, nos discos rígidos… dizem, e eu sonho-o nos meus piores pesadelos, que alguns, formas larvares mais avançadas, conseguem até instalar-se nas teclas dos teclados de onde transmitem pequenos impulsos eléctricos que inibem os utilizadores de escreverem a seu gosto.

Os tais liliputianos tomam as mais diversas formas.
Uns apresentam-se como velhas gordas, balofas, colossais como aquela que no filme “La città delle donne” do amigo Fellini ameaçava sufocar o inocente… outros ainda deambulam como sonâmbulos … fauna variada … ainda alguns como seráficos melros … um sufoco!

Consegui, por artes e manhas que só eu domino, saber que são a “GeheimeStaatspolizeiBlogKontrolundundSchreibenundSinnessteuerung”.
São a Gestapo da escrita e do pensamento no BlogWelt.
Não fora este blogue lido e frequentado por senhoras e eu ainda especificaria melhor, vernaculizando que são uns filhos da …!!!!

Esta polícia do BlogWelt funciona sem tribunal, decidindo ela mesma as sanções que devem ser aplicadas.
Como quase todos os seres menores, os seus membros têm a sua ortodoxia, constando até que alguns usam cilícios em torno de ambas as coxas.

Qual polícia dos costumes que vergastava mulheres nas ruas de Cabul, andam como ruminantes de canto em canto a meter o focinho em todo o lado.

Imaginam-se como Cristo, arautos da Verdade e da Transparência, e no fundo são como “a Besta”.
Uns, vendo-se a sua sombra, têm “dez chifres e sete cabeças. Em cima dos chifres havia dez coroas e nomes blasfemos sobre as cabeças”.

Estes “animais-pedófilos-da-palavra” são também peritos em simular supostas atitudes subversivas de outros, para depois atacarem violentamente quem com eles de alguma forma se liga.

No fundo, e tal como qualquer salafrário, proclamam uma coisa e são precisamente o oposto.
Trastes que convivem mal com a diferença, filhos da Suprema Meretriz babilónica que se julgam no dever supremo de julgar sem poderem ser julgados, invejosos dizen que “ninguém pode comprar, nem vender se não tiver a marca, o nome da Besta ou o número do seu nome” assim limitando o sucesso alheio à sua mediocridade.

Imaginem agora o que estes trastes que circulam no BlogWelt fariam se um dia detivessem mesmo o poder!
No fundo, fariam o mesmo que alguns criticam hoje a Sócrates, George Bush, Vladimir Putin, Bin Laden e muito outro estafermo da igualha deste último.

Sim, porque quem se comporta num mundo virtual como um Torquemada, indo ao ponto de classificar blogues, de catalogar os que devem ser blogues e os que não podem por lhes faltar qualquer coisa que só eles exigiram, imagine-se o que fariam no mundo real se lhes dessem poder?

Seriam uns tiranetes, uns trastes.
Mal por mal prefiro os que têm linhas de rumo definidas.
E certas.
Mesmo que não nos consigamos entender!

Notas Emprestadas - A aventura da fé

“Desconfio dos que professam a sua fé aos outros, sobretudo quando pretendem convertê-los. A fé não é para ser pregada, mas para ser vivida. Será assim que se propagará por si mesma.
O conhecimento das coisas de Deus não se encontra nos livros. Pertence ao terreno da experiência vivida pessoalmente. Os livros são uma ajuda, às vezes são um obstáculo.”
(Gandhi)


A forma de entender a fé é diferente de pessoa para pessoa, de um liberal para um ateu, de um teocrático para um cristão. Tem a ver com o relevo que é dado por cada um às suas vertentes familiar, afectiva, sociopolítica, cultural, económica, religiosa e moral.

Para um liberal, cada vertente é autónoma e independente, sem que nenhuma delas influencie qualquer outra. Como tal, a religião não influi nas opções de qualquer outra vertente. A fé é do domínio privado e pessoal.

Um ateu exclui radicalmente a vertente religiosa, aceitando todas as outras. Se alguma das vertentes predominar será para fazer sobressair o ateísmo. O fenómeno religioso é encarado como alienação, estruturas de poder ou superstições, que não humanizam e que, por isso, têm de se eliminar.

Para um teocrático, todas as vertentes são influenciadas pela religião. Esta envolve e prevalece sobre todas as outras. Cada vertente não tem sentido em si mesma, nem nenhuma tem poder sobre qualquer outra. Todas são dominadas pela vertente religiosa, dependem exclusivamente dela, podendo mesmo ser humilhadas e desprezadas por ela quando levada ao extremo, tendo como resultado o fundamentalismo.

Num cristão, cada vertente tem a sua autonomia e identidade próprias, mas inter-relacionando-se como partes de um todo – de um só corpo. No centro deste corpo encontramos o Amor. Amor de/a Cristo que dinamiza e dá força a todas as vertentes da vida humana, procurando o equilíbrio entre todas. Conforme a sua vida e circunstâncias pessoais, assim cada pessoa encarnará a fé, sempre com Cristo como referência para a sua vida, que lhe dá sentido, a partir do seu interior e não por qualquer imposição externa. Cristo é o centro, a “pedra angular”, o amor que está no centro de tudo. A fé precisa de todas as vertentes da vida humana para se corrigir e enriquecer, ao mesmo tempo que as influencia. Para um cristão, a fé abarca toda a vida, todas as vertentes. Deus está sempre presente.

Posto isto, podemos verificar que não será muito fácil entender o que seja a fé.

A minha visão pessoal é a de que, a fé ideal passa por uma tão completa adesão a Cristo e ao Deus por Ele apresentado, que nenhuma vertente da vida fique de fora.

Mas sabemos que muitas pessoas não conhecem a mensagem cristã, o que faz com que vivam à margem dela. Também o mundo de hoje não está muito para aí virado. O que faz com que isto da fé seja uma aventura.

Qual o trilho a seguir para embarcar nesta aventura?

Em primeiro lugar, quem se decidir a percorrer o caminho da fé, terá sempre de o fazer de livre vontade. Ninguém pode ser coagido a acreditar.

A fé é uma resposta de quem se deixa conquistar pelo amor de Deus. É adesão pessoal, da inteligência e da vontade, à Revelação de Deus, traduzida em acções e palavras. É também dom sobrenatural de Deus que conquista pelo Espírito Santo. A fé não pode ser ao sabor e maneira de cada um (“eu cá tenho a minha fé”), esta é integrada na fé da Igreja, que a precede, gera, apoia e nutre.

O caminho para ela consta de quatro etapas ordenadas e interligadas: acolher; responder; comunicar; viver e celebrar.

Quero dizer-vos que não é fácil percorrer este caminho. Muitos obstáculos se têm que enfrentar todos os dias – contradições que nos chegam através dos problemas da vida, invectivas de quem ataca, nega, discute a fé…

Mas eu aventuro-me a percorrê-lo! Com altos e baixos, é certo. Afinal, quem é perfeito?! Mas procuro que o AMOR esteja sempre no centro da minha vida, nas minhas atitudes e acções (“a fé sem obras é morta”), de modo a que seja uma fé plena, livre, forte, activa, aquela que me anima, me compromete e me faz seguir uma filosofia de vida.

Bibliografia consultada:
SECRETARIADO NACIONAL DA EDUCAÇÃO CRISTÃ, A alegria de Crer.

Autora : Fá Menor
http://partilhas-em-fa-m.blogspot.com/

Brincar aos Deuses

Esta semana já aqui se falou de eutanásia a pedido. Eu vou seguir na onda da Morte e deter-me noutro assunto: quando os homens imitam Fausto, o tal que vendeu a alma ao diabo em troca da sabedoria e do poder vivificante que só O Deus pode ter.

A medicina tem progredido imenso e eu só posso estar grata por tantas descobertas, tantas doenças erradicadas, tantas curas, tantas esperanças. E, ao fim e ao cabo, tantas vidas salvas, resgatadas a outras sortes divinas para permanecerem um pouco mais entre os vivos. Os homens têm em si qualquer coisa de demiurgos. Só, que, como Fausto, há sempre o querer mais, o transcender limites, o tentar superar a divindade. É a cegueira do poder sobre as coisas e do comandar pela vontade. Toca-se a divindade e quer-se a divindade. A medicina é também isto. Não por culpa da medicina, mas sim pelos desejos fausteanos do Homem.

As estatísticas em medicina contam muito, o orgulho médico comanda tudo. Tirar uns resquícios de sinais vitais a um corpo perecido é uma vitória. É o contradizer Deus. É a superiorização a Deus.

Hoje-em-dia acho que todos nós temos um grande medo: que nos deixem, a nós ou a algum ente querido, viver vegetativamente. No mundo natural não é possível a manutenção de vida artificialmente. Na Natureza vivemos e morremos e não há estados intermédios. Claro que há comas, mas não há comas mantidos eternamente: ou se acorda eventualmente ou se morre. Nas salas dos hospitais fazem-se hoje, e a meu ver, autênticas anomalias à condição vivente.

Mantêm-se estados terminais de cancro quase ad infinito. Protela-se a morte a quem sofre de doenças degenerativas crónicas e irreversíveis que acontecem cada vez mais, porque a nossa esperança média de vida se expandiu anomalamente. E, por conseguinte, aumentam exponencialmente os casos de sofrimento continuado porque não se morre e não se deixa morrer.

Como fazer ver que alguém com oitenta e tal anos e que tem um enfarte agudo do miocárdio não pode ser ressuscitado? Se a esperança média de sobrevida na Natureza a um caso desses é quatro minutos, porque se fazem manobras de recobro de vida, sabendo que o paciente não mais terá vida, isto já para não falar em vida digna?

Como explicar que um cancro metastizado nos ossos e no cérebro que entra em fase terminal não pode ser mantido sem ser num estado de coma induzido? E que isso também não é vida? Há poucas décadas atrás o cancro matava ainda mais do que hoje mas ninguém passava o horror que se atravessa hoje com prolongamentos absurdos da vida.

Para quê? Para estatísticas que provam que os médicos salvam, que a medicina está incrivelmente evoluída? Para brincarmos aos deuses como Fausto com o seu homúnculo? Para termos o destino nas nossas mãos e depois irmos fumar o charuto do contentamento? “Eh pá! Hoje salvei o Alzheimer com noventa anos que me entrou em colapso cárdio-respiratório!”. “Boa! Eu pensava que o cancro hepático com os pulmões desfeitos me morria na mesa, mas a tipa lá se aguentou! Eh pá, doze horas de bloco!”.

Acho que temos de repensar a Vida. Acho que temos de começar a levantar a consciência para a dignidade humana: a dos doentes, a das famílias. Acho que temos de começar a questionar a medicina omnipotente. Acho que temos de pensar seriamente que o salvamento de vidas é questionável. Acho que temos o direito de dizer que o sofrimento não deve ser mantido. Acho que não temos o direito de sermos deuses.

Fausto arrependeu-se…

Portugal bom aluno ambiental? Como somos bons alunos, podemos poluir mais.

Todos temos os nossos interesses, todos gostamos mais de uma matéria do que outra e ainda bem que assim é.

Isso permite trazer, por exemplo, aqui para o “Notas Soltas” diferentes perspectivas e diferentes matérias.

Considero que insistir numa matéria não deveria ser considerado chato, deveria sim ser considerado um batalhar para acordar consciências e o debate; por isso tomei a decisão de insistir num assunto que me interessa, que é o ambiente.

No meu último texto tentei trazer para a discussão o tema da contradição entre o que as pessoas dizem e aquilo que realmente fazem quando são colocadas perante o tomar uma atitude.

Como referi na altura "muito colocariam as mãos nos bolsos e assobiaram para o lado".

Sem ser exagerado, quando escrevi a palavra biodiversidade até cá de casa se conseguia ouvir gente assobiar ou a suspirar por se sentir enfadada.

Desconfio que se tivesse semeado José Sócrates, Cavaco Silva e Filipe Menezes no texto, às tantas tinha conseguido mais aplausos.

Mas como não andamos cá para recolher o aplauso pelo aplauso, bastou-me sentir que consegui respostas de alguns e até considerações sobre tópicos saídos de comentários.

À vaca fria…

Sabiam que o trabalho feito na área do clima, poluição do ar, água, recursos naturais e qualidade ambiental valeu a Portugal o 18º lugar no Índice de Desempenho Ambiental 2008, elaborado por uma equipa das universidades de Yale e Columbia, apresentado ontem no Fórum Económico Mundial em Davos, Suíça?

Muito bem, digo desde já. Parece que, de facto, estamos no bom caminho; aliás, segundo o mesmo estudo, os Estados Unidos surgem num modesto 39º lugar, influenciados pelo seu fraco desempenho em matéria de gases com efeito de estufa e no impacto da poluição do ar nos ecossistemas.

"O desempenho dos Estados Unidos mostra que a próxima Administração não deve ignorar os impactos ambientais nos ecossistemas, bem como na política agrícola, energética e gestão da água", comentou Gus Speth, da Universidade de Yale.

Eu gostava que assim fosse. Por acaso gostava …

Como não há bela sem senão, das seis categorias analisadas, Portugal tem o pior desempenho na área da biodiversidade e habitat ficando abaixo da média. Na verdade, os piores resultados surgem no indicador de áreas marinhas protegidas e conservação efectiva da natureza.

Apesar disso, quando achamos que estamos no bom caminho eis que nos surge uma "boa nova"

"Até 2020 Portugal pode aumentar 1% das emissões de dióxido de carbono (CO2) nos sectores não abrangidos no Comércio Europeu das Licenças de Emissão (CELE), como o dos transportes”, anunciou a Comissão Europeia.

Traduzindo, podemos poluir mais porque estamos dentro das cotas programadas para o conjunto da Europa. Quer dizer, podemos poluir mais um bocado… mas eu acho que está mal.

Assim como acho mal essa história de andar a comprar e vender cotas de poluição; quer dizer, então um Estado polui mais do que deve mas pode comprar a outro o que lhe sobra?

Não seria aceitável definir uma cota para cada país e fim de discussão?

Não seria mais lógico que quem não passasse a cota, muito bem; quem passasse pagava multas?

Alonguei-me e mesmo assim não escrevi tudo o que pretendia, mas deixo ainda mais esta: "A Câmara de Valongo aprovou uma proposta de alteração pontual do Plano Director Municipal (PDM), que permite a instalação de armazéns na Reserva Ecológica, apenas com os votos favoráveis de dois eleitos da maioria social-democrata e com a abstenção do PS e de três vereadores do PSD".

Ah, valentes!

Medicamentos unidose: PS primeiro quer, depois já não quer ...

Há um país em cujo parlamento têm assento vários partidos.
Há um assunto em que todos estão de acordo e, apesar disso, nesse mesmo parlamento uma proposta sobre o assunto foi chumbada pelo partido com maior número de votos.
Confusos?
Deslinde-se, pois.

Teresa Caeiro, do PP, partido que avançou com a proposta de prescrição de medicamentos em unidose, defendeu que “é inconcebível que, por falta de vontade política, uma medida justa que não penaliza ninguém e permite poupar dinheiro ao Estado e aos utentes” continue por concretizar.

“Se os médicos passassem a prescrever em unidose seria um sucesso a todos os níveis: os consumidores só comprariam os medicamentos de que precisam e o Estado só comparticiparia o estritamente necessário para a cura”, sustentou.

O PSD concorda mas realça que é necessário salvaguardar a segurança e informação dos doentes.
Já o dirigente comunista, Bernardino Soares, asseverou que a dispensa de fármacos em unidoses "é um compromisso antigo que está por concretizar" face à "subserviência aos interesses da venda de medicamentos em excesso", protagonizados pela indústria.

O Bloco de Esquerda só quer saber quais as razões políticas que impedem a aplicação efectiva de medidas já como esta.

O socialista Manuel Pizarro lá foi replicando com a questão da “pura demagogia” porque antes de tudo aquilo era necessário experimentar e avaliar os resultados.

O problema é que um estudo feito a meias pela Associação Nacional de Farmácias e Instituto da Qualidade em Saúde concluiu, por exemplo, que 21,7% dos comprimidos receitados não foram tomados e, em metade desses casos, por inadequação da dimensão das embalagens.

A VALORMED, por seu turno, revelou que em 2006, graças a tudo isto, foram recuperadas 576 toneladas de fármacos fora de prazo; 82.000 contentores.
São 5,83€ de desperdício em medicamentos por ano e por utente.

Curioso é que o Governo de José Sócrates e Correia de Campos, em 2006, no “Compromisso para a Saúde”, se comprometeu a avançar com a promessa da distribuição de medicamentos em unidose.
Governo esse nado e criado no seio de um PS que há um ano apresentou um projecto de resolução semelhante ao que ontem reprovou. Pondo-se aparentemente ao lado da APIFARMA.

Os amigos do NOTAS que me desculpem, mas a gente vê isto e não pode deixar de se perguntar:
- Anda tudo doido ou quê? Então em 2006 e 2007 o PS e o Governo comprometem-se com a distribuição de remédios em unidose e em 2008 votam contra? Porquê? Só por vir da oposição a proposta?

- E, de facto, quando uma caixa traz 100 comprimidos e o clínico estima que o paciente só vai precisar de 40, porque se há-de estar a pagar e comparticipar os restantes 60?

Já lá cantava o falecido António Variações, “ … toma o comprimido, toma o comprimido que isso passa …”.

O desejo de morte chamado eutanásia é um direito?

Imaginei-a no terraço, sentada na sua cadeira de baloiço, a olhar o mar. O seu fiel amigo ao colo, um xaile de cores vivas a cobrir-lhe os ombros criando um contraste com o seu cabelo branco- acinzentado...

Sorri. O cabelo da Avó Isaura era motivo de orgulho da mesma e de inveja das vizinhas. Mesmo de manhã, ainda de pijama e robe, o seu cabelo estava impecavelmente arranjado!

Apressei-me. A vontade de a rever era enorme. Depois de mais uma semana no I.P.O., ainda não tinha tido oportunidade de a visitar. Que saudades tinha...

Dei comigo a pensar em como era uma mulher batalhadora e corajosa.

A Avó Isaura casara cedo. Uma menina bonita, frágil e trabalhadora.
O marido, um bruto, obrigava-a a trabalhar no restaurante da família enquanto se divertia pelos cafés e cabarés da cidade.

“Outros tempos!” – dizia ela com o seu sorriso de mulher conformada.

Ganhou novo ânimo quando conseguiu, finalmente, engravidar. Era uma menina, mas a vida arrancou-lha dos braços e atirou-a para um buraco na terra. Teve ganas de morrer, mas agarrou-se a Deus e à fé e aprendeu a aceitar.

Depois, aquela doença maldita. Uma, duas, três vezes! Boca, mama, útero... Lutou sempre, lutou muito e venceu!
Agora, quinze anos mais tarde, a doença voltara.

- “Lamento, mas é cancro nos intestinos” - dissera o médico, de forma seca e taxativa.
A vontade de viver era, no entanto, enorme.
“São outros tempos... A medicina evoluiu muito e eu já venci três vezes!” foram as suas palavras quando me deu a notícia.
Acreditei.

Chegada a sua casa, decidi entrar pelo portão. Subi as escadas e abri a porta.
Dirigi-me para o terraço, mas ouvi a sua voz vinda da sala de estar. Ao entrar, não a consegui reconhecer. Sentei-me a seu lado e li-lhe o sofrimento no olhar, em cada linha do rosto...
O corpo, muito magro, perdido no robe azul- bebé. O cabelo grisalho, num total desalinho. Com as mãos trémulas, tapou o saco das fezes, repleto de sangue, que estava meio escondido como se me quisesse poupar ou se tentasse proteger.

Demos as mãos e ali ficámos, em silêncio, durante horas.
Quando me levantei e despedi, disse-me com os olhos inundados de água:

“Estou cansada de lutar e de sofrer. Tive uma vida de sofrimento, agora só queria que me deixassem morrer... ".

Não consegui responder.
Saí e não voltei a visitá-la.
Não tive coragem de a ver definhar, de a ver morrer a cada segundo que passava.
Quinze dias depois, a minha mãe ligou.

“A Isaura morreu...”- disse com a voz embargada.

Não consegui chorar naquele momento, nem nos dias seguintes.
O seu desejo de morte cumprira-se.

Há muitas Avós Isauras no nosso país, embora ninguém queira registar e tornar oficiais estes “desejos de morte”.

Mas a eutanásia é condenada pela Igreja e considerada “moralmente condenável” e “juridicamente inaceitável” pelo Comité de Bioética do Conselho da Europa.

Países como a Holanda, a Suíça e a Bélgica tornaram-na um desejo concretizável obedecendo, obviamente, a determinadas condições.
Os E.U.A. permitem, em determinados estados, a criação de um testamento biológico vivo (“Living Will”) em que o indivíduo expressa a negação de tratamento terapêutico e o desejo de morrer com dignidade.

40% do corpo médico oncológico português concorda com a eutanásia.
Eu também.
E pergunto:

- Seremos os únicos em Portugal a pensar desta forma?
- Terá alguém o direito de decidir que outro viva num sofrimento atroz, com perda significativa da sua dignidade e, muitas vezes, dependente de terceiros?

Digam de vossa justiça.

Proteger a Biodiversidade? Certamente, desde que não dê trabalho…

As sondagens valem o que valem, mas algumas são interessantes pelos aspectos que abordam e principalmente pelos resultados apresentados.

A Comissão Europeia apresentou um estudo realizado pela Organização Gallup, onde o tema central era a biodiversidade, de onde se extraíram alguns resultados a ver com atenção :

Portugal e Grécia são os que mais pensam que a perda da biodiversidade é um grave problema tanto nos seus países (67% e 70%, respectivamente) como a nível global (87% e 82%, respectivamente).

No conjunto europeu, 43% dizem que a perda da biodiversidade é um grave problema no seu próprio país.

Sete em cada dez cidadãos europeus pensam que o declínio e possível extinção de espécies, habitats naturais e ecossistemas são problemas globais muito graves.

61% dos europeus vê os esforços para deter a perda de biodiversidade como uma obrigação moral (68% em Portugal); 55% justifica a acção porque o bem-estar e a qualidade de vida dependem dos recursos naturais.

75% estima que a «sua diminuição pode ter consequências económicas negativas» para a Europa. Em Portugal, pensam assim mais de seis em cada dez pessoas, ou seja, 63 %."

Muitos dirão imediatamente, sim senhor, a Europa está consciente do problema e nós por cá estamos realmente bastante atentos.

Será?

Eu faço a interrogação porque segundo o mesmo estudo, "poucos são os portugueses que sabem o que é BIODIVERSIDADE(deixo um link) e os problemas do seu empobrecimento. Assim, 19,8% dos portugueses inquiridos dizem não estar informados sobre o que é a perda da biodiversidade; 46,6 dizem estar pouco informados e 25,7 dizem estar bem informados. Apenas 6,7 admitem estar muito bem informados."

Resumindo, por cá somos muito conscienciosos, estamos preocupados, mas não sabemos do que se trata, pelos vistos gostamos é de estar na "moda", falar de Ambiente, dar uma de modernos e depois ficamos sentados no sofá no quentinho de um aquecimento central a gasóleo, a pensar no assunto.

Avanço com mais um exemplo…

Asseveram que 60% dos cidadãos europeus aceitavam pagar a energia eléctrica mais cara, se ela fosse obtida de fontes limpas, ou seja, aproveitando as energias renováveis.

Este para mim é o exemplo do falar para parecer moderno e na "moda"; acham mesmo que o pessoal se fosse confrontado com aumentos de electricidade que a tornassem bastante mais cara, não ia barafustar?

Vejam que ainda há tempos o regulador português quis aumentar os preços de uma forma abrupta e que foi travado à ultima hora, com a intervenção do Primeiro-Ministro, José Sócrates, evidentemente depois de muito barulho, principalmente por parte dos consumidores.

Tendo-me na contingência de trocar de carro (o mesmo está a chegar ao ponto em que se chego a uma portagem e estico a mão para pagar, me arrisco a que o portageiro me dê uma esmola), penso num híbrido.

E isto mesmo sabendo que por aquele preço mandaria vir de fora um desses topos de gama muito em voga por cá e ainda me sobrava uns trocados.
Faria o mesmo?

Outras perguntas a que podemos procurar dar respostas sinceras…

Deixaria de andar confortavelmente no seu automóvel, para ir de transportes públicos?

Abdicaria das suas comodidades, aquecimentos centrais, ares condicionados, etc.?

Aceitaria pagar mais, sabendo que assim estaria a proteger o ambiente, na conta da luz, por exemplo?

Isto de ambiente é muito bonito, mas é só se não atingir o bolso de ninguém e não der muito trabalho, porque no dia em que realmente formos confrontados com a situação, muitos meterão as mãos nos bolsos e assobiarão para o lado.

Cartão azul na Europa e já!

Alguns dos nossos eurodeputados eleitos pelo PS, CDS/PP e CDU contestam o projecto de “cartão azul” que a União Europeia pretende implementar.

O "cartão azul" inspira-se no "cartão verde" estado-unidense, e conferirá em simultâneo um visto de residência e de trabalho tendo como principal objectivo permitir a contratação rápida de profissionais qualificados em países terceiros.

É sabido que a Europa atravessa uma crise demográfica.

A União Europeia (UE) tem uma população de 494 milhões de pessoas, mas o número continua a diminuir e, de acordo com as previsões, em 2050 um terço da população terá mais de 65 anos.
Aliás, de acordo com as previsões, em 2050 cada dois trabalhadores no activo terão de pagar a reforma de uma pessoa.

Ora, segundo dados oficiais, a União Europeia precisa de 20 milhões de trabalhadores qualificados para dar resposta à crise demográfica actual.

Sucede que, d acordo com os dados estatísticos disponíveis, 85% da mão-de-obra não qualificada emigra para a União Europeia e apenas 5% para os EUA.

Por outro lado, 55% da mão-de-obra qualificada emigra para os EUA e apenas 5% para a União Europeia.

Parece fácil e evidente concluir que, nesta corrida, à semelhança de muitas outras, o bloco europeu está claramente a perder para os EUA.

Ora, é contra esta tentativa de perder uma corrida que pode ser vital para o nosso futuro e desenvolvimento que nos surgem Ana Gomes, Ilda Figueiredo e Ribeiro e Castro.

Ana Gomes insurge-se contra o projecto porque o mesmo “não é compatível com um discurso de abertura e tolerância” que marca a Europa e irá permitir que se abram portas àqueles de que os países mais pobres precisam.

Ilda Figueiredo considera, também ela, que esta proposta faz os países pobres a continuarem “condenados ao atraso”. “Uma política de solidariedade não é esta”, referiu a eurodeputada do PCP.
Adiantou até “que a Europa dê o que de melhor tem para ajudar a África a desenvolver-se, sem o espírito neocolonial para lá ir buscar as suas riquezas”.

Por seu turno, Ribeiro e Castro considerou essa proposta uma “tentativa de desnatação da imigração”. “A Europa não pode ter uma política de sugar esses recursos humanos qualificados”, disse.

Falou ainda que avançar com esta medida é como apôr um selo que desqualifique a pessoa humana como para considerá-la superior em relação aos seus concidadãos.

Por mim, por muito louváveis que sejam os argumentos apresentados, penso que só com iniciativas como esta nos será possível conciliar respostas às nossas necessidades de mão-de-obra especializada, de técnicos credenciados no domínio da investigação (veja-se as universidades americanas quantos estudantes asiáticos e indianos lá têm, por exemplo, e onde muitos ficam a trabalhar) com a necessidade de conseguir regular o fluxo de migrantes que demandam estas paragens.

Bem sei que soa a politicamente incorrecto, mas se o modelo social tal como o conhecemos já ameaça soçobrar que condições teremos para oferecer a quem nos procura em condições pouco mais que miseráveis?

Por isso, sou a favor do "Cartão Azul". E vocês?

Mãe Maria

Marquei sem folgo os números da casa de repouso, terceira e provável última morada da Mãe Maria. Acedeu ao telefone com voz decidida, meio saltitante entre risos e exclamações de alegria. Era notória a satisfação em me ouvir. Telefonar-lhe assim, de tão longe, e logo no dia da passagem de ano!
“Mas o que faz ela ali?”, fui-me silenciosamente perguntando, enquanto a Mãe Maria descrevia com voz embargada o programa destinado ao réveillon, bem diferente certamente da casa plena de família e amigos a que estava habituada.

Tudo se sucedera a uma velocidade de furacão que só quem está longe consegue sentir.

Desde a morte do marido, há alguns anos, um dos genros assumira o papel de líder espiritual da família. Pessoa imponente e agregadora, conseguira prolongar a harmonia do clã agora fragilizado pela inexorável inversão de papéis a que a idade avançada da sogra obrigara. Uma situação de dependência irreversível.
Mas a vida mais uma vez foi madrasta e um cancro fulminante atingiu o genro. O clã ficou desamparado, ficando a estontear num labirinto de comprometimentos e deveres familiares a cumprir para com a matriarca.

Lembro-me da Mãe Maria mesmo antes de ter consciência da minha existência. Mãe de família numerosa, apercebeu-se cedo da minha solidão, perdida entre irmãos rapazes e uma educação demasiado formal para um espírito que se adivinhava já sedento de outras estradas. Dos momentos de lazer aos dramas mais intensos foi ela a minha verdadeira Mãe, a Mãe de todos, a palavra segura e incitadora, a instrutora de difíceis lições de Amor e Perdão, quantas vezes tão difíceis de digerir.

Nas minhas deambulações pelos comportamentos sociais mais radicais e profanos, sempre encarei os espíritos mais difíceis e rancorosos como os mais facilmente condenados à solidão e afastamento da família. Jamais alguém que dedicasse a vida tão bondosamente e plena de humanidade ao bem-estar dos seus e dos outros, seria assim tão facilmente empacotado e entregue, sem hesitações, a um gulak envernizado e sem regresso.

Mas como é que é possível? Porquê? Egoísmo, ganância, comodismo, modernismo, ingratidão, insensibilidade?

O que é que nos move quando nos demitimos do nosso papel de filhos e conseguimos ser mais madrastos que a própria vida?

E nós, o que é que nos vai acontecer, agora que os nossos filhos, sobrinhos, aprenderam connosco a lição?

“Olha, não chores, eu estou bem... Mas não te esqueças de mim, telefona...” sussurrou-me a Mãe Maria.

Não sei se chorei por ela, se por mim...

Eram quatro à mesa...

Quem se maça a ler-nos, apercebeu-se que me referi assim “en passant” a um jantar.
Não foi nem repasto bem regado, nem momento para “pensar e analisar o estado do país!"
Foi um jantar.
Quatro a uma mesa e sem pensar o estado do país não faz de nós nenhuns párias nem uns belzebus que lautamente se locupletam à custa alheia.

As aulas de escrita criativa do António, os momentos de solidão gélida do Joshua nas noites da Invicta, os tormentos “fisioterapêuticos” do Tiago e as deambulações “jurídico-jornalísticas-assessorísticas-professorísticas” do escriba deste modesto texto dominaram parte do repasto.

Já a noite ia longa e se ouviam pássaros em plena cidade, discorreu-se sobre blogues, tendo o Joshua (o S. João Baptista que um dia me apodou de Tarantino) feito a pergunta fatal: “Que caminho pretendes seguir no teu blogue?”

Conciliar a ficção, a audácia da mordacidade, a realidade e o dia-a-dia? Este espaço quase imenso mar encapelado onde confluem palavras, torrentes de pensamentos de pessoas dispersas pelos quatro cantos da Lusa pátria, e onde em vagas sucessivas arribam pessoas que nos lêem, contradizem, insultam, moralizam, catalogam… será o quê?

Batalhei para que alguém me visse… chegam o António e o Tiago… e depois outros … a todos considero por igual … por todos partilho e distribuo respeito … aos que não suporto, prometo ignorância … neste momento, estou-me capaz de tanto mergulhar mais fundo, como de repente arribar a uma praia …

O desprendimento das coisas nunca me foi estranho, serviu-me de carapaça quando muitos que me incensavam passaram a atravessar o passeio só porque ali vinha um dos novos proscritos aos olhos dos senhores deste quinhão de terra e de coisa nenhuma…

Estou-me, lusitanamente, borrifando… eis o que disse.
Lembras, Joshua?

Sei que àqueles a quem as minhas palavras dizem algo, sempre poderei contar com os seus sinais de estima. De consideração.

Não é sequer caso para pensar que com mais uma garrafinha da Fundação Eugénio de Almeida, clarificava o pensamento… não sou bipolar, nem preciso de opiáceos.

Sei … sou eu … escrevo com prazer … há quem leia com gosto … quem venha para odiar …, descobri-vos… ínfimos grãos de areia no universo … a todos brindei com um copo de “Foral de Évora” …

A todos, mas perdoem-me, especialmente…

Ao Tiago, ao António, ao Joshua
os três mosqueteiros que naquele dia me acompanharam, paladinos de coisa nenhuma que somos nós quatro …
À Vic … porque eu sei que posso contar contigo …
À Lieutenant
À Fada
À Lídia

E muito especialmente a essa amiga loira e fina como um coral com quem partilho gargalhadas infindáveis.

E se falamos de Luís Filipe Menezes, do Sócrates, de Moçambique, de África, de Espanha, da RTP e do José Rodrigues dos Santos foi porque também importa que a chama não se extinga.
E pasme-se até se lobrigaram virtudes onde normalmente se vêem defeitos…

E assim se passou um jantar que acabou eram três da madrugada!

Oh José, não vistes por ai 16 000 desempregados ?

Ontem tratou-se AQUI das previsões que todos os anos se fazem e que são a base para o cálculo dos valores dos aumentos salariais do ano seguinte.

O “cineasta da palavra” avançou, diga-se com algum sentido de provocação, que “desde 1998, o erro médio de previsão do valor inscrito no Orçamento do Estado é de 0,63 pontos percentuais. Quer dizer, António Guterres, Durão Barroso, Santana Lopes e José Sócrates não sabem fazer contas e também não arranjam quem as saiba fazer."

Entretanto, os órgãos de Comunicação Social avançaram que este "não sabem fazer contas", não se aplica ao Sr. José Sócrates, primeiro-ministro/"líder espiritual"deste país e adjuntos.

Veja-se:

"O número de desempregados inscritos nos Centros de Emprego em Portugal caiu 13,8 por cento em Dezembro, face a igual mês de 2006, mantendo a trajectória descendente pelo 22º mês consecutivo..."

"No final de Dezembro encontravam-se inscritos nos Centros de Emprego do Continente e Regiões Autónomas 390.280 desempregados, menos 62.371 que no mesmo período do ano passado e menos 6.912 desempregados que no mês de Novembro."

"...número de desempregados diminuiu 1,7 por cento..."

Ora aqui está a prova que sabem de facto fazer contas.

Lido assim sem contexto, muitos dirão que se trata de uma excelente notícia, mas o problema é que é preciso ver onde foram parar os que desapareceram dos centros de (des)emprego.

Íamos quase a sair, a ir para a rua em apurada investigação para responder aos anseios dos nossos mais exigentes comentadores, quando de repente tal se tornou inútil.

Mais uma vez, dando mostras que Sócrates e o seu Governo tudo ouvem, tudo sabem, tudo controlam, Fernando Medina, secretário de Estado do Emprego e Formação Profissional, veio lesto explicar “cerca de 16.000 desempregados estão fora do número de desempregados registados porque se encontram a receber formação profissional..."

Explicando, os desempregados que integram acções de formação, simplesmente não entram nas estatísticas do Instituto de Emprego e Formação Profissional; mais, os desempregados com acções de formação com mais de 200 horas, saem da categoria de desempregados, continuam a
receber subsídio de desemprego, mas este deixa de ser pago pela Segurança Social e passa a ser pago através de uma Bolsa de Formação pelo Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP).

Ou seja, quem participa em acções de formação é "limpo" temporariamente do sistema e deixa de contar para as estatísticas.

Perante esta "redução" do numero de desempregados inscritos nos Centros de Emprego em Portugal, logo a propaganda entra em acção e trata de gritar aos sete ventos mais estes grande triunfo governamental.

Mais que saber fazer contas, o que se vê é uma enorme capacidade de malabarismos matemáticos, onde a gerência, com um lápis atrás da orelha, vai acrescentando uns zeros e umas virgulas, conforme os números que é necessário apresentar.

Os números da nossa (des)ilusão

É oficial.
Finalmente, no bom caminho.
De nivelar tudo por baixo, deixando de fora uma pequena percentagem da população que ficará na margem dita dos privilegiados .

Digo isto sem qualquer ponta de ironia, pois essa esgotei-a ontem à noite num repasto conspirativo que envolveu um polvo assado (que me saiu fracote) e as presenças tonitruantes do António lá do Sem Penas, do Joshua do blogue mais Palavrossaurus Rex da blogosfera, aqui o escriba e o seu parceiro Tiago… o tema de conversa foi a constituição de uma Frente Unida Anti-Qualquer Coisa … ao fim de um par de "Foral de Évora" posso ter lapsos de memória, não?

De volta à vaca fria, como soi dizer-se… de acordo com o Instituto Nacional de Estatística o valor médio da inflação nos últimos cinco anos foi de 14,2%, mas as despesas dos consumidores com habitação e transportes, por exemplo, subiram mais de 20%.

Isto enquanto também se ficou a saber que no ano passado a inflação média anual foi de 2,5%.
Um pequeno lapso que certamente algum secretário de Estado há-de explicar com um passe de mágica.

O Governo previra 2,3%, excedendo em 0,3% o valor máximo recomendado pelo Banco Central Europeu, e mesmo assim o tiro foi ligeiramente ao lado.

O grave da questão é que, de acordo com o que foi ontem dado à estampa, esta é já a décima vez consecutiva que o Governo falha as previsões da inflação.

Desde 1998, o erro médio de previsão do valor inscrito no Orçamento do Estado é de 0,63 pontos percentuais.
Quer dizer, António Guterres, Durão Barroso, Santana Lopes e José Sócrates não sabem fazer contas e também não arranjam quem as saiba fazer.

Um dos problemas que este erro de cálculo levanta é que as previsões da inflação servem de base para o cálculo dos aumentos salariais na Função Pública e, por arrastamento, no sector privado.

Logo, a perda de poder de compra dos trabalhadores, desde o ano 2000, devido sobretudo ao esforço de consolidação orçamental, também deriva, numa pequena parte, de erros de estimativas.

Aliás, penso que se pode dizer sem margem de grande erro que a generalidade dos consumidores vê os salários a subir menos do que as despesas fixas.

Para se ver os malefícios destas previsões falhadas e erros subsequente, note-se que, de acordo com o INE, a classe de Habitação, Água, Electricidade e Gás regista um aumento de 20,3%.

Nos Transportes, a inflação em cinco anos foi de 22,3%.
Na Educação regista-se uma variação de 34,9%.

Assim sendo, mesmo os aumentos de 8,5% nos Produtos Alimentares e Bebidas Não Alcoólicas, de 1,8% no Vestuário e Calçado, 8,2% Acessórios e Equipamento Doméstico, e 14% na Saúde sabem sempre a enormes amargos de boca.

É por isso que, tal como ouvi um dia dizer a um brasileiro, também por cá existem muitos portugueses a quem cada vez mais “sobra mais mês no fim do ordenado”.

Verdade?

A morte do cavalinho e o modelo social dinamarquês

A morte do Cavalinho é um livro do Hervé Bazin que representa o fim de uma crença alimentada, e mantida, durante toda uma vida. Uma crença que, apesar de questionada, ingenuamente se pretende manter intocável.

Assim foi o nosso Estado-Providência. Acreditámos piamente que ele responderia às nossas necessidades e que seria sempre a solução, estável e verdadeira, mesmo quando o mundo se tornou instável e as relações laborais se tornaram precárias. Mesmo quando os sindicatos perderam a força. Mesmo quando, devido à inércia dos factores demográficos, a despesa continuou a crescer e as receitas a não acompanharem.

Num mundo cada vez mais contingente nas oportunidades, que exponencialmente se oferecem e se negam, assiste-se, como tragédia inevitável, a uma crescente degradação das condições de trabalho e dos direitos laborais que culminam, nalguns casos, numa hiperexploração e escravatura, transversais a todas as regiões e continentes.

Neste pequeno país periférico as pessoas assustam-se e os ventos vão varrendo o que sobrou duma democracia em que os direitos e as liberdades seriam respeitados. Como num sonho mau, os protagonistas vão-se revezando mas a paisagem vai-se degradando. Uma paisagem humana de conflitos e diversidades que, por enquanto, ainda coexistem de forma controlada.

Mas terá este País do fado um destino traçado a que não pode fugir? Noutros cantos, e noutros lugares, como vivem outros países a realidade presente?

Por exemplo a Dinamarca, com 5,4 milhões de habitantes e uma taxa de desemprego de + 4,4% , apresenta uma das mais elevadas protecções sociais do mundo. E isto apesar de ser o país-mãe da flexisegurança conceito associado a um estado liberal que procura ajustar-se à globalização dos mercados.

O denominado triângulo dourado da flexisegurança, na Dinamarca, passa pelos seguintes vectores fundamentais:
1 - Um mercado de trabalho flexível.
2 - Generosos sistemas de bem-estar social.
3 - Políticas dinâmicas de mercado de trabalho.

Tal como outros países, em que as condições sociais os impulsionam para um elevado estádio de desenvolvimento também, na Dinamarca, a carga fiscal se faz sentir de forma acutilante. Os dinamarqueses pagam, em média, 50% de impostos e o IVA anda pelos 25%. Porém, e mesmo com esta carga fiscal, a metade que lhes fica dos salários permite-lhe viver desafogadamente.

Interessante, também, perceber como o sistema dinamarquês combina a grande facilidade de despedimento, permitida às empresas, com garantias de indemnizações e rendimentos sociais para os desempregados. O Estado, inclusive, garante o acompanhamento dos desempregados, na procura de trabalho, e proporciona reformas antecipadas. Isto apesar do país ter uma das taxas de actividade mais elevadas na população com mais de 60 anos.

Outro aspecto interessante, a ressaltar, prende-se com o facto de ser fraco o intervencionismo do Estado na economia. Assim, não é o governo que determina o salário mínimo, o direito à greve, os direitos das empresas a despedirem sem pagarem indemnizações visto que o mercado de trabalho é regulado por acordos colectivos, ou de empresa, negociados entre os sindicatos e o patronato.

Quando um dinamarquês é despedido tem direito a 96% do seu salário durante 4 anos. As indemnizações e os subsídios de desemprego são pagos por caixas privadas, geridas pelos sindicatos e alimentadas por eles e pelo Estado. Nos 6 meses seguintes ao despedimento, a pessoa desempregada tem de fazer uma formação profissional obrigatória, paga pelo Estado, após o que deve procurar activamente emprego, sendo apoiado pela administração pública nesse esforço, mas, quem recusar uma oferta de emprego conveniente, perde o direito ao subsídio.

Na Dinamarca existe um sindicalismo poderoso, que conta com 80% da população activa. A adesão ao sindicato surge, naturalmente, sem se reger por factores de natureza política ou pressões de qualquer outro género. São os sindicatos que gerem as caixas de subsídios de desemprego, pagam as reformas antecipadas e negoceiam as condições laborais por sector.

Outro dado que importa relevar é o facto de que a diferença de rendimentos entre os mais elevados e os mais baixos é das menores da Europa. O sucesso deste modelo assenta numa cultura de compromisso e consenso entre os actores sociais, sem autoritarismos ou sentimentos de medo e de dependência.

Não quero sonhar, nem criticar, nem extrapolar. Todos dirão que cada caso é um caso mas sempre diferente. Em Portugal assiste-se à “morte do cavalinho”. Mas não é só o cavalinho que morre, são as portas que se fecham e as que não se abrem.

Ambiente é moda e faz "nascer" fauna variada.

Afinal respiram-se bons ares por cá, o ambiente é bom, o clima é ameno, as coisas não estão assim mal, aliás nem se nota assim tanto agravamento da situação.

"Não há uma tendência marcada de piorar o ambiente. Reconheço que estamos muito longe da sustentabilidade, apesar do progresso das políticas de ambiente ", afirmou o Sr. Secretario de Estado do Ambiente, Humberto Rosa, em relação ao relatório de 100 páginas sobre o ambiente em Portugal, relativo ao ano de 2006 (de acordo com a agência Lusa).

Segundo o relatório 73% dos 26 itens estudados, apresentam maus resultados, ou seja 19 itens mostram que as coisas não estiveram nada bem.

A Agência Portuguesa do Ambiente (APA), responsável pelo documento, e citada pelo semanário "Sol", considera como "tendência desfavorável" sete parâmetros classificados a vermelho, entre os quais a emissão de gases com efeito de estufa, a qualidade das massas de água de superfícies e subterrâneas, episódios de poluição por ozono troposférico e poluição por partículas inaláveis.

A amarelo, traduzindo o registo de desenvolvimentos positivos mas ainda insuficientes, a APA classifica a eco-eficiência dos sectores económicos, a despesa e rendimentos das famílias, a precipitação e temperatura do ar à superfície e a população servida por sistemas públicos de drenagem e tratamento de águas residuais.

Claro que em 26 acertarmos 7 é muito bom, segundo se percebe e embora estejamos um pouco longe do desejado, a politica ambiental de José Sócrates e do seu Governo, está bem e recomenda-se.

Não se pode negar o excelente investimento que tem sido efeito nas energias renováveis, o qual permitiu que elas representassem 40 por cento do consumo de electricidade nacional em 2007, evidentemente que o brotar de "ventoinhas" por tudo quanto é local, também já começa a ser irritante, um dia destes não vai existir monte ou serra que não tenha a sua. Assim como o estranho o plano Hidrológico Nacional, que pretende construir barragens por todo o lado.

Se a aposta é louvável, o que é demais também chateia.

Para quando politicas que nos tirem da posição de um dos países mais poluidores da Europa ?

Entretanto para provar que Portugal está bem, chega-nos uma série de informações sobre os terrenos de Alcochete, OTA e da Portela.

Segundo as notícias, discutem-se os impactos ambientais para os locais, a especulação imobiliária e destino dos terrenos.

No entanto o motivo de alegria é outro, pelo que se pôde apurar são zonas onde estão a surgir vários tipos de fauna, espécies que não estavam instaladas, ou que estavam instaladas mas escondidas à espera que o clima mudasse.

Assim "animadoras" notícias falam do surgimento à superfície de tubarões, a chegada de bandos de abutres e alguns patos bravos, todos à procura do melhor local para se instalarem.

Segundo entendidos na matéria, este tipo de fauna encontra-se em grande crescimento e prevê-se o aparecimento de mais e se calhar ainda piores espécies.

Patrão sem instrução, empresa sem futuro? Sim ou não?

O nosso amigo estava para ali sentado, ladeado por lídimos “self made men” lusitanos, entre gargalhadas estridentes, bater de talheres nos pratos, copos de tinto e verde, faceirice e candidatos às “novas oportunidades”.

Qualquer uma das carteiras pertença a um representante do capital sofria de falta de espaço. Todas recheadas, bem almofadadas. E em face do recheio ora se ouvia um sonoro “não tem nada mais caro?”, ou, a propósito de uns óculos de sol partidos, um irritadiço “meu amigo, eu tenho dinheiro para comprar esta merda toda!"

Agora que um contava a última peripécia corneante em que se envolvera, o que fazia, como bom alarde que é, enquanto mastigava e cuspia perdigotos, o nosso amigo lembrou-se de ter visto algures que quase 75% dos patrões portugueses não tinham atingido mais que o 9º ano no seu percurso escolar e que quase metade destes (36,1%) só tinham frequentado a escola primária.

Não entendia como era tal possível.
Como se podia ser simultaneamente rico e, na maior parte dos casos, praticamente ignorante. Pôs-se a pensar e começou a ver a que se dedicava cada um dos presentes e o grau de instrução.
Aqueles dois ali empreiteiros, ambos com a 4ª classe, este da confecção de meias o 2º ano do Ciclo Preparatório, ali o gordo rissóis e outros congelados chegara a andar na Escola Industrial, o dos chinelos metera-se agora a tirar o 9º ano lá as Novas Oportunidades e este, o mais emproado, cobertores e a 3ª classe.
Ah, e este aqui é o chefe das Finanças cá do sítio mas é de outro campeonato.

Nenhum diversificara produção, as fábricas são todas barracões à moda antiga, trabalha-se muito e paga-se pouco, minimiza-se todos os custos (nem que para isso se tenha de construir mais um aumento ilegal ou despejar efluentes sem ser no sistema de tratamento de águas residuais) e maximizam-se os resultados (com um contabilista a fazer uns malabarismos a coisa vai lá, e se vier uma Operação Furacão, que remédio paga-se… só aquele ali foram mais de 300 mil euros que teve de entregar. Mas não fora por mal que não o fizera antes, foi esquecimento!).

Era este o cenário que ali estava, espalhafatoso…
Um espirro ou um soluço dos clientes e era um ai Jesus na empresa… mas quem os visse e ouvisse havia de pensar que estavam ali empresários capazes de ombrear com o melhor dos melhores.

Claro está que nenhum destes queria lá saber que no Japão “os patrões só ganham vinte vezes mais que os operários”, como bem salientara Angela Merkel.
Na sua empresa mandavam eles e era para comprar um Mercedes, comprava-se um Mercedes. Se era para fazer uma plástica para tirar banha da pança, faça-se!
Obviamente que se definiam todos como homens de direita e, à conta disso, foi castiço de ouvir os mimos que dedicaram a Bagão Félix quando tomaram conhecimento que o mesmo dissera que “hoje, em vez de uma convergência, verifica-se uma divergência no valor dos salários, o que não é aceitável”.
Filho da mãe foi um dos mimos mais brandos que ali se escutaram.

Quer dizer, Bagão Félix dissera o óbvio e ele é que é o burro?
E que dizer quando se vem com o argumento que os nossos gestores são assim bem remunerados pois caso contrário seriam facilmente recrutáveis para trabalhar no estrangeiro?

Ora deixa cá ver, os gestores portugueses de topo ganham 32 vezes mais do que a média dos salários das bases porque são tão bons, tão bons que, a não ser assim, vinham por aí essas multinacionais todas e levavam-nos?

Sorte teve Hugh Massingberd, que se celebrizou pelos obituários que escreveu anos a fio no “Daily Telegraph”.
Fosse o homem português e o rebolo que não havia de ser com os obituários que por cá escreveria.
É que o homem pelava-se por retratar, entre outros, vigaristas e patuscos!

Notas Emprestadas

Mais uma vez, e dentro da nossa prática de aqui dar voz a autores de outros blogues, o NOTAS SOLTAS dá à estampa um texto de um convidado.
Que, ao caso, é o António e que já é repetente.
É um dos nossos primeiros companheiros de percurso e merece ser divulgado.

Era uma vez um homem que vivia numa cave, iluminada por uma luz muito ténue e difusa que entrava por um pequeno buraco no tecto, e lançava uma penumbra por todo aquele espaço, que era o seu mundo.

Este homem via tudo na penumbra, tudo eram formas e sombras. Não lhe faltava nada e vivia feliz.

Um dia a porta, no cimo das escadas, abriu-se e um outro homem entrou e ficou escandalizado com o que viu: como podia alguém viver sem a luz do sol? Sem dia, nem noite? Sem saber o que eram as cores?

O homem da cave sentiu-se insultado: quem era aquele recém chegado para ser tão indelicado? Quem lhe dava o direito de criticar o seu mundo? Noite, dia? É claro que ele sabia o que era a noite e o dia, no seu mundo também havia noite e dia. E depois se podia ele ver as formas, porque é que precisava das cores? Sim, cores para quê?

Mas um dia o homem decidiu a abandonar a sua cave: iria finalmente descobrir todas as maravilhas anunciadas, tudo aquilo que andara a perder.

Decidido, sobe as escadas, abre a porta e... não estava preparado para o que lhe ia acontecer, uma luz poderosa, como um raio fulminante, atirou-o escadas abaixo, uma dor fortíssima, os olhos a saltar das órbitas, e... estava cego! Durante horas permaneceu completamente cego, para onde quer que olhasse via tudo branco, tudo tão intensamente branco que mais parecia que aquele raio de luz ainda circulava na sua cabeça.

Quando aos poucos recuperou a visão e já refeito do susto, jurou nunca mais sair da sua cave, daquele mundo que lhe era tão querido e onde sempre fora feliz. E tomando nas mãos um objecto admirou-lhe as formas, questionando-se sobre o que poderia mudar se lhe pudesse ver a cor, e chegou à conclusão que continuaria a ser o mesmo objecto, o mesmo mundo e o mesmo destino.

O outro homem continuou a visitá-lo de tempos a tempos, mas agora batia à porta e esperava que ele cerrasse os olhos para que o raio de luz não o atingisse e assim, na penumbra, conversavam imersos no mesmo mundo.

Nós somos um destes homens.

Autor : António - sempenas-ant.blogspot.com

Porto de Migrantes

Quase sempre fomos uma nação de emigrantes. A pobreza rural, a falta de oportunidades, a fraca alfabetização, a fuga a cenários bélicos e a um regime autocrático levaram milhares de compatriotas lusos a saltar fronteiras, num gesto endémico de povo que percorre latitudes e mundos. Numa Mátria (pego na expressão de Natália Correia) madrasta o sustento foi muitas vezes vislumbrado nos prazos africanos, nos ouros dos Brasis e nos escombros europeus. Somos ainda uma nação de emigrantes.

A emigração económica continua a sangrar o país profundo e deprimido. O grande Lá Fora seduz e promete obstar à miséria. Porém, por essas Holandas e Inglaterras rutilantes (esta roubei ao Eça, como já lhe roubei tantas coisas), a neo-escravatura (esta acho que inventei eu!) é o que espera o emigrante parcamente alfabetizado que sai do país com uma mão à frente outra atrás, dívidas à banca, enrolado nas cantigas de pseudo-empresas de trabalho temporário. E há também a nova emigração. O escoamento das cabeças pensantes (chamam-lhe a fuga dos cérebros, mas eu não gosto da expressão) e dos profissionais altamente qualificados, altamente especializados que vêem toldadas as suas ambições pela falta gritante de investimentos numa coisa tão simples como o Pensamento. E uma nação que não pensa é uma nação definhante, mesquinha, atrofiada.

Contudo, neste país já não se fala da emigração, fala-se sim da imigração. E nós, que nos achávamos uma nação de emigrantes, passámos a nação de imigrantes, um pouco como a Irlanda, com cujas lições muito teríamos a aprender (o que só por si dá um outro texto). Vemo-los aí, distintos do nosso padrão rácico: compleições negróides e mestiças e cabelos encrespados e grossos a notar a ascendência africana e brasileira, olhos azul de gelo e cabelos finos, lisos e claros vindos de um Leste imenso e vago. Com eles vêm novos sons, novos paladares, novas sonoridades na nossa língua latina. Trazem a heterogeneidade, trazem a esperança reprodutiva, trazem o choque cultural tão necessário ao globalismo. E trazem também a ansiedade social.

É difícil falar disto. É difícil admitir crises xenófobas num país que se orgulha dos seus brandos costumes. É difícil ter posições politicamente incorrectas e dizer que com a imigração chegam as máfias, os surtos criminosos, os esquemas e ilícitos da economia paralela, as clandestinidades. E ainda é mais difícil afirmar que, quando dizíamos que outros países, a braços com vagas imensas de imigrantes, eram frios para os estrangeiros (corto-me às expressões polémicas), tal sucedia porque não era aqui intramuros que isso estava a acontecer. Pois bem, o fenómeno entrou-nos porta dentro.

Atenção que eu não tenho nada contra a imigração. E eu sei o que é ser “estrangeira” num país onde não nasci mas que escolhi e ser estrangeira (sem aspas) no país onde abri os olhos pela primeira vez mas que declinei. Por isso, nada tenho contra os estrangeiros. O que me incomoda, todavia, é a política inepta de sucessivos governos em tratar deste assunto. Com tantos exemplos de países aqui tão perto que tiveram de lidar com a imigração em larga escala antes de nós, como é que não tiramos daí ilações? A imigração é necessária, mas não nestes moldes selvagens. Tudo o que se tem feito é descomprimir um pouco a pressão e, quando há uns largos milhares a mais de imigrantes ilegais, lá se abre uma janela de legalizações extraordinárias e a coisa vai coxeando assim. E, para se dar mostras de tolerância, lá se procedeu à naturalização jus soli de quem agora nasce aqui. Isto é que é tratar da imigração?

As minhas questões:
. Será que temos de seguir políticas de portas abertas ou enveredar por políticas de selecção? Os EUA há muito impuseram um sistema de quotas (tudo bem que é falível e permeável, mas mostra a resolução do país em dizer que quer controlar as vagas imigratórias), a Alemanha impõe pré-requisitos e permanência a prazo aos engenheiros que vai buscar à Índia, por exemplo.
. Onde é que está uma política de auxílio à adaptação dos imigrantes à nossa cultura e ao nosso país? A Holanda e a Dinamarca instituíram cursos de língua, cultura e, pasme-se, de sistema social (como é a segurança social, o sistema educativo, etc. desses países) sem cuja frequência não há legalizações.
. Onde andam as fiscalizações efectivas em relação à economia paralela? Aqui é que reside o busílis da competição desleal salarial de que muitos autóctones se queixam, aqui é que está o medo de que os estrangeiros nos tirem postos de trabalho.
. Quando é que se vão pensar políticas consistentes e sérias em relação à imigração? Será que os casos ocorridos nas grandes conglomerações urbanas francesas não servem de alerta? Ah, pois é, esqueci-me que neste país, como não se investe no Pensamento, as vistas são muito curtas e o que pode esperar não se trata hoje, trata-se quando se tratar.

Um aeroporto a Sul... Oh Mário Lino desculpa, mas aquilo não era um deserto ?

Impressionante é o mínimo que se pode dizer sobre a questão do novo aeroporto de Lisboa. Como é que é possível a alguém compreender o que se passou com a discussão sobre a localização dele?

Foram horas e horas de debate por todo o lado, principalmente no Parlamento, onde constantemente um Governo teimava em não se mexer, onde um partido maioritário continuava a bater palmas e apoiar, onde um ministro entrava em delírios com miragens no deserto, onde até terroristas foram chamados ao barulho.

Pormenorizo alguns dos argumentos.

Dizia o Sr. José Sócrates do alto da tribuna:

"Estamos a avançar para a OTA dando continuidade a uma decisão que já bem dos anteriores governos."

"Mostrem-me estudos onde se prove que existem outras opções e melhores que a OTA !"

O senhor ministro Mário "Jamais" Lino, após um agradável jantar e respectivos digestivos, avançava com mais argumentos. Na visão dele, na margem sul não existia nada, nem pessoas, nem escolas, nem hospitais, nem qualquer tipo de infra-estruturas; era a visão do deserto, acompanhada pelo famoso "Na margem sul, jamais!"

Mas o argumento principal surgiu de Almeida Santos…

"Imaginem o que era uns terroristas dinamitarem as pontes, iriam cortar o acesso ao aeroporto!"

O Conselho de Ministros reuniu-se para analisar o relatório do LNEC (Laboratório Nacional de Engenharia Civil), a decisão foi tomada, o Sr. Mário Lino, sentado do lado esquerdo de José Sócrates (porque seria do lado esquerdo?), esteve presente no anúncio do PM: a localização será em Alcochete!

Mais, o mesmo homem que apelidou o sul como um deserto, tomou a palavra e avançou que esta solução é muito mais barata, rápida e vantajosa que a OTA.

Assim tivemos direito a uma volta de 180º, onde subitamente tudo muda, incluindo "dogmas" que até à pouco tempo eram inquestionáveis.

Seria a altura de se tentar entender a alteração de posição.

Agora já temos estudos;
Agora a Margem Sul já não é um deserto;
Agora, pelos vistos, os terroristas foram presos;
Agora, pelos vistos, os documentos são para ser lidos e analisados e não para serem lidos na diagonal.

Não teria sido muito mais interessante e saudável para a saúde mental dos cidadãos, defender alguma coisa baseado em estudos e argumentos reais?

Evidentemente que tudo não está resolvido, o barulho irá continuar.

De um lado, alguns cantaram vitoria; eles é que eram os senhores da razão, foi graças à luta deles que o governo mudou de posição.

Do outro lado vieram os defensores da Ota, que continuam a apresentar estudos e argumentos em seu favor e destruindo Alcochete.

Outros apareceram a defender ainda outras soluções, manter a Portela, Portela+1…
Sinceramente são tantas que já nem sei...

Todos estão de acordo numa coisa, querem a "cabeça" do Sr. Ministro das Obras Publicas, uns para festejar outros para zurzir a raiva.

Entretanto como disse ontem o meu colega e amigo Quintarantino, sobre o referendo europeu, e que se pode aplicar a esta polémica sobre o aeroporto, "o bom povo que encosta a barriga ao balcão das tascas encolheu os ombros, cuspiu as cascas dos tremoços e bebeu mais uma "bejeca". No fundo, serve isto para dizer que o povo se está nas tintas..." e acrescento eu "o pessoal quer é ver um jogo de futebol, o resto que se lixe!"

Alguém pediu um referendo ou o PSD e o PS é que o prometeram?

Viva, viva, três vezes viva. Sócrates, José Sócrates decidiu.
De imediato se plasmaram análises infindáveis pela blogosfera, jornais, rádios e mesas de café.
O bom povo que encosta a barriga ao balcão das tascas encolheu os ombros, cuspiu as cascas dos tremoços e bebeu mais uma “bejeca”.
No fundo, serve isto para dizer que o povo se está nas tintas sobre se há referendo ao Tratado de Lisboa ou não.
Aliás, o bom povo quer lá saber do conteúdo do Tratado de Lisboa.
O bom povo está-se marimbando para o tratado.
Ponto final parágrafo.

E devia existir referendo ao Tratado de Lisboa ou não?
Quem acha que os políticos ainda têm de cumprir as promessas eleitorais que fazem, está naturalmente furibundo e com direito a rasgar as vestes na praça pública.
Os cínicos têm direito a encolher os ombros, pensar que é mais do mesmo e continuar com a sua vida.
Outros empenhar-se-ão em apontar os riscos de um referendo. Corria-se o risco de sermos a “bête noire” do tratado. Uma vergonha. Chumbar o contrato de direito internacional público que viera a ser assinado em Lisboa seria uma desonra.
Alguns ainda levarão tudo isto à conta do habitual folclore que enxameia a nossa política.

A esta hora muitos devem ter ido buscar o famoso livro de Alberto Pimenta, “Discurso sobre o filho-da-puta”, Editorial Teorema, 2000, para ali alicerçarem parte dos seus pensamentos mais recônditos nesta matéria.

Mas foi “porreiro, pá”.
Foi especialmente glorificante ver o esloveno Janez Jansa puxar-nos as orelhas…
Foi especialmente glorificante ver o Manuel Alegre, ou O Alegrete, em mais uma das suas tropelias a dizer como quem não diz que o seu companheiro/camarada é um troca--tintas…
Foi especialmente glorificante ver a emérita Edite Estrela explicar que a promessa se referia ao defunto tratado constitucional…
Foi especialmente gratificante ver Alberto João Jardim tornar-se num “compagnon de route” do PCP e exigir um referendo…
Foi especialmente espectacular ver o PCP defender aqui o diametralmente oposto do que defendera para o aborto…
Foi hiper divertido ver o PSD dar uma volta de 180º e quase todos assobiarem para o lado... coisas!

Mas, afinal, e assim em jeito de remate final
Se PS, PSD e até o PP são e estão a favor do SIM, íamos fazer um referendo para quê?
Para esclarecer o tal do bom povo que se está marimbando no Tratado de Lisboa sobre quê?
Íamos gastar tempo e mais dinheiro numa coisa da qual se adivinhava o resultado?
E se o resultado não fosse vinculativo por não reunir as condições previstas na Constituição da República Portuguesa, no seu artigo 115º número 11 (“O referendo só tem efeito vinculativo quando o número de votantes for superior a metade dos eleitores inscritos no recenseamento”)?

Foi você que pediu um referendo?

Evasão

Não, não quero falar deste País de pessoas cinzentas e quezilentas. É à beira-mar plantado mas não encontro as flores nem os amores de Trindade Coelho. Só encontro rostos esvaziados, sedentos, descaracterizados mesmo quando virtualmente procuro. Claro que há excepções mas…. Valha-nos as confusões. Política e mais política aos supetões. Não, não quero continuar aqui dentro a sufocar.

Vou viajar.

Vou até à Noruega. Sempre ouvi dizer que ali sim vale a pena viver. Além dos fiordes, lindos de morrer, e da riqueza e do gás natural, ainda há muito de bom e real. E social também. Imaginem só que a Noruega é um Estado-Providência aquilo que, no nosso País, se está a tornar em indecência.

Os Serviços públicos de saúde são financiados pelos impostos e estão concebidos de modo a darem acesso igualitário a todos os residentes, independentemente do seu estatuto social. Com os seus 220000 empregados, o sector público de saúde é um dos maiores sectores na sociedade norueguesa.

Não dá para crer. Mas isto não é atraso? Não tem que se inverter? Como é que a Noruega, logo a Noruega, consegue ser, entre 177, o primeiro mais desenvolvido (PNUD)? E por três anos consecutivos? Só neste último ano é que ficou em segundo e a Islândia em primeiro?

A alfabetização ronda os 100% e quase todos os membros da população concluíram o ensino secundário. Não existe pobreza extrema na Noruega e o nível de pobreza relativa é baixo em comparação com o de outros países da OCDE. E tudo isto sem matar o Estado Social? Pum, pum como uma animal? Como se faz em Portugal?

A minha alma está em grande confusão! Vejam só:

Todos os cidadãos noruegueses e os indivíduos que trabalham na Noruega são automaticamente abrangidos pelo Regime Nacional de Segurança Social norueguês, um regime governamental de segurança social que garante aos seus aderentes o usufruto de pensões (como velhice, sobrevivência, invalidez), assim como subsídios relacionados com acidentes de trabalho, outros acidentes e doenças, maternidade, nascimento, famílias monoparentais e funerais. Em conjunto com os regimes de segurança social para abonos de família e as prestações em dinheiro destinadas a pais de crianças de tenra idade, o Regime Nacional de Segurança Social é o regime geral de segurança social de maior importância na Noruega.

No final de 1999, cerca de 1,1 milhões de pessoas tinham os pagamentos do regime de segurança social nacional como a sua principal fonte de rendimento, incluindo aproximadamente 900000 pensionistas e idosos. Em 1999, a despesa total do regime de segurança social alcançou os 162 biliões de coroas norueguesas, o que correspondeu a 13,6% do PIB e a aproximadamente 34,3% do orçamento nacional. O Regime Nacional de Segurança Social é financiado pelas contribuições dos trabalhadores por conta de outrem, dos trabalhadores por conta própria e por outros contribuintes, pelas contribuições patronais e por subsídios governamentais.

Mas a minha confusão não acaba aqui. Imaginem só que:

O PIB per capita é elevado e a riqueza encontra-se distribuída de modo relativamente igualitário entre a população. Existe um nível bastante amplo de igualdade entre sexos em todos os escalões sociais. Ao manter a sua orientação de previdência, a Noruega implementou um serviço público de saúde universal financiado pelos impostos e um regime de segurança social, aplicável a todos os cidadãos e residentes, que fornece inúmeros benefícios sociais.

Isto não é demais? E então e a liberalização e privatização dos serviços sociais para a modernização?

E imaginem mais:

O consumo público e privado aumentou enormemente desde 1900 e a riqueza das últimas décadas deve-se principalmente à descoberta e à exploração dos depósitos de petróleo no fundo do mar e de gás natural no Mar do Norte. Sob a pressão acumulada da modernização e da urbanização, os padrões de colonização tradicionais e estáveis do passado foram substituídos por uma tendência para uma maior mobilidade, observando-se que as pessoas mudam de residência e trocam de emprego com maior frequência.

E é aqui que entra a flexibilidade ou flexibilização!....

Ah eu entendo e não me importo. Aqui na Noruega não me importo mas no meu País…. NÃO!!!!

As aventuras de Joe, o justiceiro de negro.

Ninguém sabia bem de onde tinha vindo, sabiam apenas que tinha atravessado desertos, lutado contra tempestades, que tinha chegado no meio do nevoeiro; muitos acreditaram que seria o regresso do D. Sebastião, mas não, ele afirmava-se um homem como todos os outros.

Muitos, antes da sua chegada, já o tinham anunciado como o Profeta, o herói, o libertador, aquele que iria fazer regressar a justiça.

Chegou e logo mostrou que trazia consigo todos os seus tesouros, quadros de enorme valor, jóias, tapeçarias e muito, mas mesmo muito, dinheiro.

Num acto de "boa vontade" tratou de negociar com as autoridades locais um lugar para expor as suas riquezas e claro o "povo" também teria direito a ver semelhantes maravilhas. "Humildemente" mostrá-las-ia a todos, já que por aqueles lados só se poderia sonhar em ter algo assim, claro que tudo feito segundo as suas condições, senão levaria os seus pertences para outras paragens.

Com os enormes recursos que tinha, aos poucos foi entrando em tudo, adquiriu negócios, empresas, investiu em bancos, na Bolsa, fez-se ainda mais famoso do que era.

Sempre vestido de preto, começou a aparecer em todos os meios de comunicação Social, tentando dar opinião sobre tudo e sobre todos, como se fosse o detentor da verdade, o justiceiro, o opinador mor.

De um jeito um pouco turbulento, metia sempre a "colherada" em tudo, mesmo que muitas vezes tivesse de engolir em forma de "golos" alguns disparates que dizia, mas desculpava-se sempre com o facto de as pessoas o interpretarem mal.

Viu a corrupção, o compadrio, o roubo e não se deteve, avançou, denunciou, gritou aos sete ventos as misérias dos banqueiros, esses mesmos de quem era tão amigo. Em triunfo saiu em ombros levado pelos "pequenos" amigos, de polegares levantados, sentiu-se nas nuvens, era o maior...

Mas como sempre, tinha detractores, pessoas que o olhavam com desconfiança, afirmavam que aquilo era tudo negócio, que no fundo tentara comprar a águia da cidade, não por amor, nem por amizade, mas sim com vista a mais um negócio.

Que correra com o presidente amigo fundador banqueiro, não para salvar estabelecimento mas sim para tentar ficar com ele.

Quando olhava para algo pensava logo em dinheiro, por mais insignificante que a coisa fosse.

Em momentos de desespero pensou em voltar para o deserto, mas sabia que o Lino andava por lá e que num futuro próximo outros colegas dele iriam pelo mesmo caminho, possivelmente ficaria demasiado apertado para seu gosto.

Nessas alturas era bom ouvir o que gritavam na praça, onde se destacava o Filipe, empresário de créditos firmados:

"O sistema financeiro português está em dívida com ele e devia agradecer-lhe."

E subindo ao palanque da Comunicação Social, gritou, sem medo das consequências, "Joe Berardo, foi o único homem em Portugal que teve a persistência, além da coragem, para denunciar, com conteúdo, insistir e exigir que se investigue a fundo."

Mas desta vez no meio da multidão, alguém retorquiu "Obrigadinho, eu também se tivesse o dinheiro que ele tem, coragem era coisa que não me faltaria !!!"

Menezes em seis meses põe isto direito... à "gente do costume" tanto se dá, como se deu

Luís Filipe Menezes, a quem alguns já andam a tentar tirar o tapete (lançando, por exemplo, o nome de Rui Rio como o providencial D. Sebastião do PSD e, uma vez isso feito, de Portugal), aposta num radicalismo reformista a que nem Sarkozy aspira.

O outrora médico, hoje cada vez menos presidente do Município de Gaia, aposta que “pode-se mudar Portugal em seis meses” (“Público”, edição 05.01.2008). Nem mais. Assim. Num ápice.

A sua receita passaria por construir um Estado moderno e descentralizado, “reduzindo o seu peso não só na economia mas também no quotidiano dos cidadãos. (…) Não defendo a privatização de tudo, defendo é que haja um equilíbrio entre o sector público e o privado nas áreas sociais”. Dixit.

Ou seja, na Educação e na Saúde, por exemplo, teria de haver o tal equilíbrio. Vá-se é lá saber como se determinaria isso. Noutros sectores, tábua rasa.

Por exemplo, com Menezes os sectores das águas e dos resíduos eram para privatizar. Mas já não disse se as tarifas iam poder ser em roda livre. E isto porque ele sabe o resultado. Devemos ser o único País em que a concorrência resulta sempre em preços mais altos ao consumidor.

Quem estará certamente deliciada com este panorama é, como dizia Vasco Pulido Valente na sua crónica de ontem (“Público”), “a gente do costume”.

“São do PSD, mas muito amigos do PS; ou do PS, mas muito amigos do PSD. O que não quer dizer que sejam o «centrão». O «centrão» é a cozinha dos partidos para a gente pequena: para o funcionalismo, para as câmaras, para os subsídios. Com outra envergadura, este «clube» vive de amizades particulares, de confiança mútua, de exclusividade. Rodam e voltam a rodar. Cá fora tudo muda, eles nunca mudam. Basta ver os nomes de que se fala para o BCP e a Caixa. Não os conhecem?”, escrevia o articulista.

São aqueles a que ainda ontem me referia como os que vivem deliberadamente “para a gestão de interesses mesquinhos e silêncios cúmplices. Optam por não tomar partido, ficando ali na zona cinzenta em que tanto se lhes dá que lá estejam os laranjas ou os rosas, desde que o marfim corra!”

E, ideia tonta do dia, será que não é esta “gente do costume” quem está a construir a nova moral pública, sabendo-se que o Estado, embora tenha técnicos qualificados ao serviço, vai quase sempre aos mesmos gabinetes (e a que o novo Bastonário da Ordem dos Advogados aludiu na sua campanha) buscar as propostas base dos diplomas legais que emana?

Diariamente o jornal oficial publica coisas verdadeiramente indecifráveis com que, segundo Manuel Carvalho (no mesmo jornal), “o Governo quer transformar à força de Lei uma comunidade com manifesto défice de civismo numa turma de escola limpinha e bem comportada. (…) haveremos um dia de andar direitos como um fuso (…)”.

E os cidadãos?

O Nunes da ASAE acha que quem não estiver bem nesta sociedade, pode sempre emigrar.
Eu acho que podemos revolucionar, lutar…

(…) cause the circle of hatred continues unless we react, We gotta take the power back”, diziam os Rage Against the Machine em “Take the power back”.

É o que devemos fazer!

Um quarto da geração de Abril não vota!

Gustav Radbruch, na sua obra “Rechtsphilosophie”, também aborda a questão da teoria filosófico-jurídica dos partidos políticos, afirmando a dado passo que (…) poderá dizer-se que na vida deles só o interesse partidário é uma realidade e que as suas ideologias não passam dum simples pretexto ou fachada, embora por vezes bela, para encobrir esse interesse.”

No nosso actual quadro partidário existem dois grandes partidos, o PSD e o PS, que têm como asas o PP, pela Direita, e o PCP e o BE pela Esquerda. Recorro ainda à arcaica dicotomia Direita/Esquerda para facilitar as coisas. Nada mais.

Aqueles dois partidos ditos de referência têm-se revezado nos vários patamares de governo; nacional, regional e local. Mas sempre, ou quase, sem que existam, mais que decisores, verdadeiras autoridades morais, com visão de estadista, que consigam implementar uma estratégia consequente. A seu modo, e nos seus tempos, penso que Sá Carneiro, Mário Soares e o primeiro Cavaco Silva aproximaram-se muito desse desiderato faltando, contudo, a qualquer um deles aquele golpe de asa…

As gerações, desprovidas dessas referências e incrédulas ante guerras de campanário, desinteressam-se pela política feita nos e pelos partidos sem, contudo, descurarem a Política.

Uma sondagem ontem tornada publicada dava conta que, entre a faixa etária dos 30/39 anos, 50,6% dos inquiridos não se interessavam por política, 19,2% nunca pôs os pés numa secção de voto, 52,7% nunca assistiu a uma iniciativa política e 77,8% não é, nem nunca foi filiado em qualquer partido político. Sintomático!

Carlos Jalali, docente de Ciência Política na Universidade de Aveiro, aponta a socialização que não foi feita para a participação política, níveis educacionais persistentemente baixos, processos políticos opacos e “complexificados” como algumas das causas para este distanciamento e baixa participação. Este investigador não releva, ao que parece, o egocentrismo de uma geração mas também o podia fazer.

É habitual escutar-se alguém dizer “eu de política não percebo nada…” (embora também se deva assinalar que, logo de seguida, e porque nos está na massa do sangue debitar sobre tudo, dissertar sobre a vida política!), assim como também se vem crescentemente assistindo a um alijar de responsabilidades.

Tudo o que seja maçada, exija trabalho ou reflexão são minudências quando comparadas com a discussão sobre a jornada futebolística do fim-de-semana ou as extensões que o Salão de Beleza Paula & Teresa agora aplica…

Há ainda quem, deliberadamente, viva para a gestão de interesses mesquinhos e silêncios cúmplices. Optam por não tomar partido, ficando ali na zona cinzenta em que tanto se lhes dá que lá estejam os laranjas ou os rosas, desde que o marfim corra!

“Über Parteien in der Luft steht niemand. Zwischen den Kämpfern, Lauft ihr Narren umher, sichere Opfer der Schlact”, escreveu Adolf Glasbrenner.

Que é como quem diz: “Por cima dos partidos, pairando sobre eles no ar, não há ninguém. Apenas entre os contendores circulam os seus bobos que são as grandes vítimas certas da peleja.”

Por mim, não há revolução nem guerra que possa ser vencida sem que a batalha seja levada para dentro dos partidos!

A sondagem citada é da “Eurosondagem” e foi publicada no “Expresso” de ontem.