"Violências" - pinturas de Menezes e Magalhães.

Sempre achei que quando um pintor pinta um quadro o faz por gosto, coloca nele a sua visão do mundo e a sua interpretação; mesmo o mais amador ou o mais ignorado dos pintores podem apresentar obras de grande valor só pelo facto de virem de dentro deles.

No entanto, outros pintores criam quadros unicamente para os tentarem vender e assim ganharem fama e tirarem proveito da situação.

Hoje veio, uma vez mais, ao de cima a violência, neste caso na zona do Porto, onde um segurança foi assassinado, assim elevando para números algo preocupantes as mortes na noite da Invicta.

Subitamente apareceu uma corrida de pintores, todos em grande velocidade carregando consigo as telas, pincéis e tintas, tentando conseguir o melhor lugar para pintar o quadro da situação.

Arranjando logo uma posição, avançou nas pinceladas o pintor Luís Filipe Menezes. Optando pelos tons escuros, entre o negro e o cinzento escuro colocou a violência em Portugal ao nível do Afeganistão: "os idosos têm medo de sair de casa", "os pais têm medo de deixar as crianças irem sozinhas para a escola", "a violência é cada vez maior"

Resumindo o artista tenta vender um quadro dramático.

Ao lado senta-se outro artista, este já com uma palete de cores mais leves.

Antes de começar a pintar o artista, de seu nome José Magalhães, começa primeiro por criticar o quadro do vizinho.

"Quando está em causa a vida das pessoas, os treinadores de bancada não revelam qualquer utilidade para o trabalho de investigação que a polícia especializada no crime altamente organizado está a desenvolver em profundidade há semanas", disparou, complementando eu que para critico de arte não está mal.

Centrado no seu quadro, eis que da paleta saem cores claras e brilhantes: "O Executivo está empenhado em criar condições para que as forças e serviços de segurança tenham êxito na sua missão de prevenir e reprimir actividades delituosas," e que esta violência são casos isolados, estando perfeitamente contida, finalizando que a PJ está em cima dos acontecimentos.

Outro artista menos dotado na arte da pintura e com a mania de cineasta, o social-democrata Marco António, apresentou a situação em forma de filme, falando numa "reedição de Chicago dos anos 30" e numa actuação governamental que "transmite uma imagem de impunidade para quem pratica" os crimes.

Mais uma vez fica provado que tudo serve como arma de arremesso político, tudo depende da perspectiva e da posição de cada um ao olhar para o quadro da situação.

O que é igual para todos é que estamos perante um fenómeno, a violência, que tem vindo a aumentar e tomando proporções preocupantes.

De certeza que não é algo de novo, antes o avanço para o degrau seguinte onde os criminosos deixam de ter medo de agir à vista de todos, onde o sentimento de impunidade aumenta e o crime violento aparece em cada esquina.

Tudo originado por uma nova forma de olhar para as polícias e o sistema de Justiça.

Uma força policial mal formada, mal preparada, com falta de meios, seja em números de efectivos, seja em equipamento, etc. Evidentemente que quem acaba por sofrer com este problema são os próprios membros das forças policiais e por consequência o cidadão.

Depois um sistema de justiça lento, obsoleto, muitas vezes ineficaz, onde julgamentos se arrastam no tempo, onde os arquivamentos fazem parte do dia-a-dia, onde os recursos escasseiam em variadíssimos aspectos, é evidentemente um sistema que não mete medo nem respeito a ninguém.

Claro que também não podemos entrar em pânicos desmedidos, vendo o mal em todo o lado. Apesar de o sistema não estar bem, ainda se sente algum sentimento de segurança; pelo menos eu ainda sinto, mas isso deve ser por viver na "aldeia".

O que seria de pedir era a união de esforços das diferentes forças políticas com o objectivo de criar mais segurança, mais confiança, por parte dos cidadãos, no sistema.

Pedir também que deixassem de aproveitar tudo o que aparece para o transformar em jogos políticos que só desprestigiam quem neles entra.

Resumidamente, ter capacidade para ver que existe algo mais do que partidos políticos.

Desta vez fui eu que pintei um quadro… e ainda por cima, no meu caso, pinto "utopias"!

21 comentarios:

quintarantino disse...

Num qualquer leilão, não dava um chavo furado por qualquer uma dessas pseudo-obras de arte!

Sofia disse...

Bela utopia a tua! Eu compro. :)

Joshua disse...

Quando estou em casa, num quarto bem quentinho, janelas calafetadas, consigo ter a frieza total para escrever distanciado sobre realidades pitorecas como a da recente onda de violência farwestica.

Quando vou trabalhar para a Noite portuense, compreendo que certas realidades mais tremendas e dramáticas precisam da palavra histriónica, aproveitadora, oportunística dos Políticos: fale Menezes, Marco António ou César.

E ainda é pouco, Tiago! Criar alarmismo é mau. Manter a dormência e o alheamento é ainda pior. Afinal, temos de nos pressionar uns aos outros muitas vezes para repararmos males e para repararmos uns nos outros.

Não há análise equidistante que ressuscite quem vai desta para desconhecida!

Daniel J Santos disse...

A mim o que deixa mais chateado é a troca de argumentos políticos, numa altura em que se devia discutir a segurança do cidadão.
Deveria-se por as politiquices para trás e trabalhar para a erradicação da violência.

Compadre Alentejano disse...

Tem piada ouvir o inspector-geral do IGAE falar contra as polícias, e não falar na violência "farwestica" dos bandos.
O rapaz, sendo uma autoridade, devia estar mais preocupado com as mafias que existem em Portugal, e ao seu novo "modus actuandis".
É bom que nos lembremos da campanha que o pres. do conselho fez contra as forças policiais, retirando-lhes muitas das regalias que tinham e que ajudam a compor o seu miserável ordenado.
Há muitos polícias, especialmente os mais novos, que para pagar a sua disponibilidade de morrer em qualquer momento, recebe cerca de setecentos euros.
O presidente do conselho já devia de saber que não é com vinagre que se apnham moscas.
Um bom dia
Compadre Alentejano

Shark disse...

Enquanto eles trocam galhardetes, nas ruas trocam-se tiros... e é com essa realidade que o dito povo vive!

DS disse...

Gostei do ponto de vista, os quadros que cada um pinta! Aqui vai o meu: a violência não é de todo um problema isolado do nosso modo de vida em sociedade, se ela existe é porque as condições para ela se desenvolver existem no seio do nosso paradigma cultural. Para erradicá-la não basta um reforço na política de segurança, isso pode apenas contê-la. Eliminá-la, seria rever os nossos fundamentos culturais de milhares de anos e empreender uma profunda mudança de mentalidades que levasse a uma verdadeira revolução cultural.

António de Almeida disse...

-Do lado do governo não existe a mínima ideia do que é segurança, reduzindo o número de agentes policiais for falta de formação, aos novos códigos penal e do processo penal, existe uma tendência de aligeirar as penas, sinal de tolerância, diria mesmo, uma certa bonomia para com criminosos. Pela oposição, com tudo a favor, para apresentar dados, e propostas concretas para inverter a situação, opta-se pela demagogia, agarrando-se a 2 ou 3 casos concretos, que nem são os mais representativos do tipo de insegurança que paira sobre a sociedade portuguesa. Uns e outros, a contribuirem por acção ou omissão, na crescente insegurança.

Márcio disse...

As pessoas não tem que ter medo disto... isto são cenas do Apito Dourado e dos cães grandes da noite!

Laurentina disse...

Amigo Quint,

Apesar de não me visitar à muito tempo tem direito a um humilde selo feito com todo o carinho do mundo para os amigos, está la em casa à sua espera se estiver na disposição de o aceitar...

Beijão grande

C Valente disse...

Boa, infelizmente pintores rascas é o que não falta , o meu amigo vá dando essas boas pinceladas, na "tromba" destes pintores vesgos e sem ponta de criatividade.
Saudações amigas
P.S. confesso tenho saudades do Natal de antigamente, principalmente dos ant-queridos

Guilherme Santos disse...

De facto cada um pinta o quadro conforme o quer vender, pena é que esses "artistas" se esqueçam do mais importante, o bem comum.

Peter disse...

Por acaso abordámos o mesmo tema.
Eu talvez tb influenciado pela experiência vivida às 15h num local central: a Av. dos EUA. Fui ameaçado de me cortarem o pescoço e o que valeu foi ter um carro rápido e potente.

É como dizes:
- Estamos perante um fenómeno de violência que tem vindo a aumentar, tomando proporções preocupantes.

- A nossa força policial não está à altura dos enfrentar. além de se sentir desprotegida, desmotivada e odiada pela população (talvez haja motivos ...).

- Uma Justiça "que não mete medo, nem respeito a ninguém".

E no fim disto tudo, estamos para aqui a perder tempo a escrever para uma plateia vazia, que a única coisa que lhes interessa é fazerem as suas compras de Natal.

-"Já compraste o teu plasma? O quê não tens dinheiro? Pagas para o ano, o "Invejoso" empresta."

Blondewithaphd disse...

Nice simile (comparison). It's like that philosophical question: "does reality exist?". Well, to me, reality is a very weak judicial system and an ineffective police force. That's the only reality that matters.

mac disse...

Luis Filipe Menezes sempre defendeu as polícias, mais polícias e mais condições para as polícias. Só está a aproveitar o momento para reforçar o que sempre defendeu. Quem muito me supreeendeu foi o Louçã. Há alguns anos atrás, proferiu um discurso anti-autoridade. Ontem era vê-lo a defender ocontrário. Supreeendeu-me verdadeiramente, mas porquê a mudança de opinião? Será que ele sabe de algo que nós não sabemos?

Zé Povinho disse...

O crime aumenta e torna-se mais violento, apesar das estatísticas fornecidas revelarem o inverso. Ficamos com a sensação de que antes talvez as notícias "se esquecessem de o colocar em destaque, e agora lhe pegarem mais. Será?
O que é verdade é que, especialmente nas cidades, muitos acham mais saudável não sair à rua em muitos bairros, o que demonstra que pelo menos há bastante receio. Mas o que me aflige na retórica política sobre este assunto, é que não se procure dissecar as causas deste problema. O amigo refere algumas do lado da justiça e das forças da ordem, e bem, mas do outro lado também existem causas próximas, e é dessa que eu falo, e que sei que são mais complexas e difíceis de abordar, especialmente por quem está na política.
Abraço do Zé

antonio disse...

Tiago, Tiago, estamos a melhorar a escrita. Não haja dúvida que estamos servidos de muitos e variados pintores. Se vissemos a realidade através dos seus quadros chegariamos à conclusão que a realidade é uma impossibilidade.

Francisco Castelo Branco disse...

Acho que estamos perante um grave problma.
Temos de parar de andar aos tiros na politica e cá fora.
Ha que começar a arranjar formas de alguém fazer o gatilho não disparar......

Pata Negra disse...

Ao fim e ao cabo estes pintores também matam embora com outras armas mais discretas e subtis! Estão é convencidos que não morrem. Mas morrem, para mim já estão mortos, são fantasmas na minha vida de cidadão!
Um abraço mais vivo que morto

Carol disse...

Tiago, meu amigo, os teus posts estão cada vez melhores!
Este tema é muito falado, agora, porque morreram várias pessoas. E no resto do ano, não morreu ninguém?!
É ridículo esperar que a criminalidade diminua quando as esquadras da polícia têm que ser arranjadas, pintadas com o dinheiro dos polícias. Nem as autarquias, nem os últimos governos o fizeram ( e não é só o do Sócrates!).
Não me parece que este quadro venha a ter cores pastel...

7 Pecados Mortais disse...

Tiago...queria acrescentar algo, mas este é daqueles posts em que disseste o que eu diria. Espectacular...Ah! Já sei, não comprava nenhum quadro dos pintores anunciados por ti, bastava-me o teu, com mais classe e menos político. Abraços.