Um (anti)conto de Natal para bestas ditatoriais!

Um dia aquele ser abjecto acordou transpirado.
Tinha um esgar de besta nos olhos.
Lembrara-se repentinamente que havia um Evangelho dito Apócrifo denominado de Apocalipse. Não o de João, antes o de Pedro.

Lembrava-se que algures havia uma parte em que pelo Redentor era dito "mas tu, Pedro, sê perfeito segundo o nome que eu te coloquei, pois eu te escolhi, e fiz de ti um princípio para o resto, a quem eu chamei para o conhecimento. Sê forte até que venha o imitador da justiça, o imitador daquele que foi o primeiro a chamar-te".

Tresloucado como era, perdido num labirinto mil vezes pior que o Minotauro, imaginara-se, depois de uma ida à Ladeira para o confirmar, o que abjectamente foi alcançado a troco de uma nota das gordas, como um querubim reluzente.
Ele seria o Vigilante.
O Rasputin dos tempos hodiernos.

Arranjou um bastão e vagueava pelas ruelas imundas, local onde viria a apanhar a holopatia que o consumia.
Num desses passeios, ousou sair do negrume e atravessar para o outro lado da rua onde brilhavam os candeeiros alimentados a petróleo.
Numa janela, entreaberta, encostou o ouvido…

– E então, o cavalheiro apareceu hoje?

- Apareceu. Atrasado e a resmungar. Como sempre, uma besta. Não sei como é possível. Uma estrela e sempre assim, nunca nada está bem.

- Há que zurzir. Se não for a varapau, pega no chicote da autoridade. Mas zurze. Forte. Ouviste? – ripostou a primeira voz.

E na besta "se produziu medo e alegria ao mesmo tempo, pois vi uma luz nova, maior que a luz do dia".
Seria possível que em plena luz existisse torcionário maior do que aqueles que ouvira falar e lera nestes anos de bestialidade?
Escuta, escuta, disse-lhe aquela voz que dentro de si substituía o coração…

- Olha lá, conferiste os papéis? Não queremos cá na listagem nomes que não se adeqúem aos objectivos a que nos propusemos – interrogou, mais uma vez, a primeira voz.

- Conferi, sim. Tirei de lá um ou outro nome. Achas que se importam? Também… não se podem tirar. Em nossa casa não temos essa autoridade? Que dizes?

- Quero lá saber – vociferou a primeira voz.

Esfregando novamente as mãos, preparava-se já para bater à porta quando veio novamente ao de cima, dentro de si como se um vulcão fosse, a sua sanha manhosa, pérfida como a serpente…

Ele que nunca tivera nome certo, que calcorreava havia doze anos este mundo, erguido sobre os quadris traseiros lá do alto do seu metro e noventa e tais, um ser alvo como leite, quase albino, podia lá agora ter a dignidade de lhes bater à porta e, abrindo-se esta, se apresentar de seu verdadeiro nome e na sua imensa fealdade abjecta….

Perscrutou a rua, não se via vivalma e no entanto escutou mais uma vez a voz. Era como um martelo: "Coragem! Na verdade, tu és aquele a quem foi dado conhecer estes mistérios, a saber, que aquele a quem crucificaram é o primogénito, e a casa dos demónios e o recipiente de pedra, onde habitam os demónios, o homem de Elohim, o homem da cruz, aquele que está sob a Lei".

Era ele, era consigo. Ele era o denunciante mor…

Faria melhor, iria qual Torquemada andar a afixar nos candeeiros avisos contra aqueles seres abjectos que ele, tresloucado como era, antecipara em fuzilamentos, eliminações em massa, ele que até os conhecia pois, ao contrário deles, eles vira o rosto de, pelo menos, dois deles.
E que vira? Que vira?

Um Pol Pot, a Madame Elisabeth de Bhatory, a vampira eslovaca, e aos outros dois, sem grandes certezas, quase que apostava que seriam Adolf, "den Herr" e a fútil Marie Antoinette.
Ele tinha de os denunciar.
Tinha de avisar a humanidade que aqueles ímpios não eram tão clementes, tão imparciais, tão civilizados quanto gostavam de parecer nos salões da realeza.

Louco, convencido da sua genialidade, começou a vociferar que iria fazer incidir sobre aqueles as luzes do Bem.
Eram elas as que iriam erradicar este Mal. Insidioso que se instalava qual bolor nas mentes. Até na sua que já quase não se conseguia afastar da janela.

Sê corajoso, cidadão, "porque eu estarei contigo para que nenhum de teus inimigos tenha poder sobre ti. A paz esteja contigo. Seja forte!".

Ignaro, e toldado pela sua embriaguez, nem teve tempo de escutar a primeira voz dizer novamente:

- Vá, diz lá aos outros dois que temos a equipa pronta. Que quando quiserem podemos começar a testar o raio do jogo…

E enquanto uns jogavam o novo "FIFA 2008", a pobre Besta espumava ódio…

Dedico este conto infernal e sem nexo a todos os ditadores, Pinochet's e Estaline's castrados e desconfiados, que vivem para infernizar. Que sodomizam e "gamorreiam"..
Que sobre eles se abata a inclemência dos homens, pois é da sua Justiça que se vêem os resultados.

As transcrições são do "Apocalipse de Pedro", Evangelho Apócrifo.

37 comentarios:

Daniel J Santos disse...

Dado o avançado da hora e perante tão brilhante obra literária, volto amanhã para melhor analise e comentário.

Shark disse...

Amigo e camarada, ficção densa e em escrita quase escatológica... adivinharia reacções intempestivas se fosse lido nas Nações Unidas ante os Mugabes deste mundo.
Por aqui, não sei se terá audiência...

ana disse...

Antecipo que este breve conto, injustamente denominado de "anticonto", terá vários destinatários que ao receberem a respectiva edição haviam de querer conhecer táo ilustre escritor.

Certamente para o levar a dar uma volta. Civilizada, que esta gente não suja as mãos. Para isso conta sempre com esbirros que, paradoxalmente, dormem tranquilos e quando enclausurados debitam que se limitaram a cumprir o seu dever.

Um enorme PARABÉNS pela escrita que, aliás, já venho observando de há muito.

7 Pecados Mortais disse...

Amigo Quin...e que grande dedicatória. Merecida, dirão eles ao ler...Provavelmente em suas bocas escorrerão baba por serem lembrados nesta altura. Abraços.

Fragmentos Culturais disse...

Graves momentos vivemos...

Aqui venho com simplicidade agradecer, mais uma vez, o olhar atento e afectuoso em 'fragmentos', 'Quint'!

Não esqueças, por favor, e sei que o fará... de acender uma vela pela Paz, na noite de 24.
A Luz desça sobre o nosso planeta para que todos os Homens deixem de sofrer... não é possível tanta miséria no meio de tanta luz artificial!

Até breve!
Um beijo

Tiago R Cardoso disse...

Um conto feito à medida de todos os ditadores deste mundo, que tentam levar esta sociedade para o abismo, para todos aqueles que se esquecem de viver, que procuram o superficial e a destruição, esquecendo-se dos valores fundamentais do ser humano.

Este conto é um conto denso, mas que nos faz pensar, que temos de lutar contra as amarras da vida de "plástico", contra os sorrisos falsos, contra a hipocrisia e censuras, onde deixamos de ser humanos e passamos a ser autómatos programados para dia após dia executarmos as mesmas tarefas, muitas vezes programados para as executarmos por cima dos outros.

Parabéns Quintarantino, num grande momento gritastes muitos males deste mundo.

António de Almeida disse...

-Não há comentário possível, dizer que o texto está muito bem conseguido, divertido até, gostei, ás dedicatórias poderiamos acrescentar mais uns nomes, mas a lista seria infindável, e ficaria em actualização permanente!

carlos alberto martins disse...

Quintino, desta vez quase a roçar a perfeição. Notável. A fazer-me recordar textos que escreveste noutros tempos. Notável. Outra vez.

JOY disse...

Boas Quint:

Se por algum milagre conseguises que este texto fosse lido durante por exemplo a cimeira de lisboa , era ver as cameras a captar uma quantidade de gajos a enfiar a carapuça. Mas por aqui também os há.

JOY

Fa menor disse...

E dizes tu que não és mauzinho!...

Parabéns...

Carol disse...

Que dizer de um escrito perfeito? Nada, simplesmente nada...
Que privilégio e orgulho é poder conhecer-te...

Maria P. disse...

Bravo!
Muito bem.

Um bom dia*

Miss Vader disse...

O meu pai é que escreve mas vou ter de lhe perguntar umas coisas!

FERNANDA & SONETOS disse...

Olá amigo QUINTARANTINO, Li e gosteiiiiiiiiiiii
Deixo-te um abraço de enorme carinho e amizade.
Fernandinha

SILÊNCIO CULPADO disse...

As bestas ditatoriais são o que de mais anti-humano existe sobre a face da terra. Porém, há outras formas de ditaduras mais softs, embrulhadas em papel democrático, e que têm que ser desmistificadas.

Blondewithaphd disse...

A true Dante of modern times! Of all the Circles of Hell you chose the one where tyrants are. How appropriate for our era.
A very Faustean tale. Watch out and don't sell your soul. Those who watch the depths of Hell and live to tell get burnt.

I stand in awe of your literary skills.

Manuel Rocha disse...

Belo Hino à Mediocridade.

Um ditador é sempre um mediocre com poder. Há de vários tipos, consoante os poderes que lhes atribuimos. A maioria deles passa despercebida porque exercem pequenos poderes. Mas..quem é que instala ou consente no poder os mediocres ?

NINHO DE CUCO disse...

Os diatdores instalam-se pela força ou subindo lentamente os degraus do poder, do totalitarismo e da corrupção.Nenhum ditador é legítimo.
Nós pactuamos no nosso dia a dia com as forças que deixam eles instalarem-se.
É disso que temos que tomar consciência.

Sei que existes disse...

Achei este conto deveras interessante, mas o que realmente me deliciou, foi mesmo a dedicatória...
Desejo-te um Feliz Natal!
Beijo grande

Joshua disse...

Só nós dois é que sabemos, Tarantino! Só nós dois!...

sol poente disse...

Eu não diria que caia a "inclemência dos homens" porque seria algo parecido com uma vingança.
Prefiro admitir que se caminha para um maior esclarecimento que permitirá que certas pessoas nunca cheguem a ditadores.

Daniel J Santos disse...

Um grande momento com uma dedicatória óbvia, cabe na cabeça de muito ditador e de muitos que andam nesta sociedade unicamente para atacarem outros, achando que são detentores do poder, infelizmente um poder que somos nós que lhes damos.

Dalaila disse...

é sempre bom dedicar nesta época, estes textos a estes homens...... será que são homens.....

NÓMADA disse...

Não são homens mas não são apenas eles que não o são. Tão bom é o ladrão como o que fica de vigia. Quem os apoia e quem contribui para que lá estejam é igualmente monstruoso.

Guilherme Santos disse...

Brilhante momento de inspiração, pouco para dizer, unicamente o espelho de muita gente deste mundo.

Sofia disse...

Quintarantino, subscrevo o teu brilhante texto e assino por baixo!

Um Momento disse...

Bem...
SOBERBO!!
Simplesmente GIGANTE este texto
Parabéns!
(*)

antonio disse...

As bestas são assim, de diálogos impenetráveis e de sabedoria difusa, move-lhes o engenho e a inveja. A Palavra será sempre acessória.

Não te inspirastes em ninguém em particular, pois não?

Ah! Já me esquecia, bom texto.

Sombra do Sol disse...

Olá boa noite, passando para desejar um Feliz Natal!! Pena que hoje em dia perdeu um pouco o significado do Natal, eu vejo o Natal como um momento cada vez menos dedicado ao (re)nascimento, e cada vez mais puramente competitivo, no sentido comercial. O Natal é hoje, em muitas ocasiões, apenas um festival de trocas materiais e, por isso, cada vez mais uma cerimônia de continuidade, e não de pausa. Poucos são os que realmente renascem no Natal: o ritmo robótico a que nós próprios reduzimos a nossa existência, não bonifica a imaginação, mas valoriza quem contribui para o ciclo. Mas ainda a tempo de ver um raio de luz nascendo no horizonte de nossas vidas, um fio de esperança apontando o futuro. Ainda há um resto de fé e este é o tempo para multiplicá-lo. Porque o Natal é renascimento, é o encontro da paz, é busca do amor: é a comunhão com Deus. É a ternura de um menino nascendo, é um sentimento maior que ainda podemos exercitar. Tenha um Natal repleto de muita paz, saúde e luz, e que em 2008 possamos realizar todos nossos sonhos. Abraços fraternos do amigo.
http://sombradosol.zip.net/

Carol disse...

Ó António, até pode ser que não, mas também me parece que sim... Eh, eh, eh...

quintarantino disse...

... meninos, as minhas Tágides são quimeras ...

Zé Povinho disse...

Escrever recorrendo a textos menos conhecidos e sobre indivíduos deploráveis, é difícil, mas saiu um óptimo artigo. Teve muito nexo e a dedicatória está no ponto.
Abraço do Zé

C Valente disse...

Prosa que dá de pensar muito boa
Saudações amigas e um Santo Natal

Ana disse...

Adorei!

O mais dizer é bobagem.

FERNANDA & POEMAS disse...

Olá amigo QUINTARANTINO, grata pela sua passagem pelo meu cantinho das fotos.
Obrigada, pelo carinho que ao longo deste Ano sempre manifestou.
Foi sempre um amigo presente.
Deixo-lhe um grande abraço de carinho e amizade.
Fernandinha

Pata Negra disse...

Os ditadores não merecem que se escreva tão bem sobre eles.
Um abraço também

Metamorfose disse...

Querido amigo, consegues como ninguém escrever de forma gritante, erguendo a tua voz contra a hipocrisia e o abuso de poder, este texto demonstra-o excelentemente e infelizmente cada vez mais precisamos que mais vozes se ergam nesse sentido.
Vim desejar-te um Feliz Natal para ti e para todos os teus, com muita saúde e amor. Beijos