Notas Emprestadas

Uma história de liceu

Já passou muito tempo, aconteceu no final de 1979, ou no início de 1980, não tenho certeza absoluta, era então um adolescente que frequentava o liceu, e como qualquer rapaz com 14 anos, olhava as raparigas do liceu em geral, e da minha turma mais atentamente, pois sempre dispunha do tempo das aulas para o fazer, e não apenas do intervalo, como para a generalidade das outras.

Recordo-me contudo daqueles tempos, como se tudo se tivesse passado há pouco tempo, Anita de seu nome, era, pelo menos para mim, a miúda mais gira da turma, sempre acompanhada pela Cristina, sua amiga inseparável. Tal como eu olhava para a Anita, o Zé Manel, não tirava os olhos da Cristina, como o Zé acompanhava sempre com o João, estabelecemos um trio num ápice, ainda que para o João fosse uma seca, andarmos sempre a olhar aquelas duas no intervalo das aulas.

Foi a observá-las, que descobrimos que ambas se escapavam sempre dos corredores no intervalo, tão pouco ficavam no pátio, e frequentemente chegavam atrasadas ao início da aula seguinte.

A cena repetiu-se durante 3 ou 4 dias, era hora de agir, decidimos segui-las pouco a pouco, sem dar nas vistas, não demorou muito, até percebermos que todos os intervalos, a Anita e a Cristina, iam para o fundo do liceu, depois do ginásio, onde ficava a sala de canto, onde tinham lugar as aulas de Religião e Moral, para a qual se acedia através dumas escadas sem saída, onde normalmente ninguém lá ia, nem tão pouco o pessoal auxiliar do liceu, excepto nos 2 dias por semana em que havia a disciplina.

Até que um desses dias, resolvemos surpreendê-las, decididos a apanhar, ainda hoje, não sei bem o quê, eis quando na escadaria, deparamos com a Anita e a Cristina, ambas sentadas nos degraus, cinzeiro feito em papel colocado entre as duas, e a Anita, com aquele jeito de gozo que só ela tinha, lançou, “vieram atrás de nós, para ver onde estávamos, ou para me pedirem um cigarro?" o João permaneceu mudo, o Zé como não foi a Cristina, idem, eu respondi, "para te pedir um cigarro".

Anita riu-se alto, e disse “essa quero ver, dou-te um cigarro, se te sentares e fumares aqui ao nosso lado”, virando-se para o João e o Zé perguntou se também queriam, responderam afirmativamente, não me iam deixar ali sozinho, os amigos afinal são para as ocasiões, e mais engasganço, menos engasganço, lá fumámos os cigarros.

A partir daí, passámos a ser 5 dirigindo-nos aos intervalos para aquela escadaria, começámos por comprar um maço de cigarros diariamente, 4 cigarros a cada um, e ninguém corria o risco de ser apanhado com um maço de tabaco em casa, e curiosamente, nem eu namorei a Anita, nem o Zé a Cristina.

No final do ano lectivo mudei de liceu, e desde então, nunca mais vi nenhum dos 4, no entanto, também não os esqueci.

Autor : António Almeida - direitodeopiniao.blogspot.com

28 comentarios:

quintarantino disse...

... pois é, caro António Almeida, a Anita foi um ar que se lhe deu, espero que, pelo menos, os cigarros lhe tenham sabido bem e, já agora, que entretanto tenha perdido o vício ... fala-lhe um não moralista que fumava um maço por dia ...

ana disse...

Pois é, fosse nos dias de hoje e não havia cigarros para ninguém. Pelo menos é o que diz a lei.

António de Almeida disse...

-A Anita não a vejo há uns 27 anos, coisa pouca, a Cristina há uns 20, o Zé Manel mais ou menos pela altura da Cristina, sobraram os cigarros, mas entretanto, até esses, perdi-lhes o rasto em 2004.

Tiago R Cardoso disse...

Gostei, temos sempre na nossa memoria pequenas historias que nos trazem um gosto de saudades, se calhar de um tempo onde tudo era menos complexo.

Sempre ficamos com a sensação de que poderia-mos ter feito as coisas de outra forma, mas nessa altura não sabíamos o que sabemos hoje.

Shark disse...

Apreciei a forma da escrita e o "flashback" que levará quase todos a recordar tempos... de interesses, de namoros que eram para ter sido, dos primeiros cigarros e das bravatas para impressionar as moças!
Apreciei ainda ver que andam por aqui dois ex-fumadores confessos!

Lampejo disse...

António de Almeida,


Então...a vida é assim cada um de nós conta suas histórias.

E o mais engraçado é que existem fatos/histórias que acontecem na nossa vida que apenas acontecem e vira um nada.
Um grande e imenso nada.

Mas ao mesmo tempo existem aquelas ou essa que (você escreveu), que marcam, que ficam e não sabe.

Gostei pela sensibilidade do conto.

(a)braços Bom-domingo!

antonio disse...

Os homens sempre correram atrás de ilusões, por mais decepcionantes que elas se venham a revelar, dizem que somos nós a crescer, eu digo que apenas ensaiamos a fuga…

Blondewithaphd disse...

1. Saudades de um tempo em que tudo era tão mais fácil. Aqui está uma leitura evocativa das nossas nostalgias pessoais. Sempre a saudade portuguesa que nos aquece mente e alma nos nossos refúgios privados.
2. Uma agradável descoberta, um registo melancólico, menos assertivo e informativo do que aquele a que nos habituámos num outro espaço. Gostei do doce da escrita.
3. E eis como o NOTAS se revela, novamente, e ao cair do ano, um espaço de inovação e abertura.

A very good "Nota" in a very good "Empréstimo"!

Compadre Alentejano disse...

São estas pequenas "estórias" que nos fazem saudades do tempo passado. Gostei, apesar da sua simplicidade.
Feliz Ano Novo
Um abraço
Compadre Alentejano

al cardoso disse...

Espero que nao tenham apanhado o vicio de fumar e se acaso o apanharam, que tenham coragem para o largar!

Um excelente 2008, com o menor fumo possivel!!!

Um abraco do d'Algodres.

Daniel J Santos disse...

Boas "Notas Emprestadas", sem qualquer duvida.
Uma historia em jeito de recordação com uma certa saudade de outros tempos.

missixty disse...

Feliz 2008 para todos!
beijinhos susana

NuNo_R disse...

Boas...


Bom e nostálgico este texto do António.

Deixa qualquer um a pensar no que fez no seu tempo liceal...
Pelo menos a mim me deixou.


abr...prof... Boas Entradas!!!

SILÊNCIO CULPADO disse...

Este texto é um texto muito interessante que revela histórias perdidas nos confins das nossas memórias mas, mesmo assim, ainda capazes de serem reavivadas. Não deixa de ser curioso como, decorridos anos e anos, ainda somos capazes de nos reportarmos ao tempo em que todas as coisas são possíveis porque ainda acreditávamos nelas. O tabaco, os amores platónicos e os jogos de sedução são simplesmente algo que faz parte de um mundo que já não está ao nosso alcance mas que nos deixa sempre recordações indeléveis.
Gostei da história e recordou-me outras, passadas comigo, e que talvez um dia venha a contar.
Bom Ano de 2008

Guilherme Santos disse...

Excelente, um prazer ver a diversidade de textos que correm por aqui. Este uma historia a fazer-nos lembrar as nossas próprias historias.

NINHO DE CUCO disse...

António Almeida
É interessante a capacidade que a mente humana tem de recordar umas histórias e de apagar outras.
Um texto curioso que nos incentiva a fazer uma viagem ao nosso passado mais distante pejado de recordações que foram tão importantes nessa época, com grandes acontecimentos nos tempos mais recentes.
Gostei a valer. E lembrei a pessoa que fui no liceu e que também fumava às escondidas.

Erotic Spirit disse...

Liked the simplicity of times gone by, very nice blog

:)

Francisco Castelo Branco disse...

É uma boa história.
É pena não ter um final feliz..........

NÓMADA disse...

Gostei da história que afinal tem um final feliz. Não houve o cansaço nem a desilusão. Houve saudade.
Gostei.

Carol disse...

Oh, agora dei comigo a lembrar-me das minhas aventuras de liceu com a minha melhor amiga - a Cristina (que ainda o é, passados 20 anos!)...
E é curioso perceber que uns dez anos depois, António, a malta ainda comprava o maço de tabaco a meias...
Eu, pela minha parte, também deixei o vício por volta de 2003. Apanhei um susto e decidi mudar de vida, mas às vezes até tenho saudades...
Gostei do texto, da escrita, da história... Fiquei nostálgica...

sol poente disse...

Bela história, António Almeida. Aprecio histórias que mostram vivências e revelam nostalgias. Espero que não tenha ficado o vício de fumar porque de resto tudo é bonito.
Bom Ano de 2008.

mac disse...

Pequenas memórias de tempos mais inocentes...

Um Momento disse...

Hoje passo para agradecer por todos os momentos partilhados ao longo destes meses e desejar um FELIZ 2008!!!!
Tudo de MUITO BOM DESEJO!
Beijo Sorrindo e agradecido

(*)

Fa menor disse...

Para quem não parou de fumar a tempo... está agora na altura certa de o fazer!

Vieira Calado disse...

Venho retribuir a gentileza dos seus votos.
Com muito gosto retribuo os desejos dum BOM ANO para você.
Um forte abraço

TIMOR disse...

Eis aqui uma história dos tempos do liceu, que podia muito bem uma história de qualquer um de nós, muito embora que os meus tempos idos do liceu se situem mesmo em tempos bem mais idos e ,talvez, mais proibitivos (eram tempos do velho Estado Novo)... Bela história, sem um final feliz (o não reencontro com os amigos de infância), mas nostálgica para muitos de nós
Um abraço e um óptimo 2008 para todos
Daniel Braga

Dalaila disse...

a história que traz saudades, mesmo a quem não esteve presente, mas todos temos essas histórias...

r disse...

Tiago R Cardoso disse...

Gostei, temos sempre na nossa memoria pequenas historias que nos trazem um gosto de saudades, se calhar de um tempo onde tudo era menos complexo.

Sempre ficamos com a sensação de que poderia-mos ter feito as coisas de outra forma, mas nessa altura não sabíamos o que sabemos hoje.


Espero que o Tiago R Cardoso não seja contra o acordo ortográfico...