Mas qual Segurança Social, qual quê?

Atendendo à quadra, eu bem queria escrever aqui qualquer matéria mais ligeira e esperançosa, mas a verdade é que as coisas geralmente não são tão venturosas como queremos e, que raio, há tanta calamidade à volta que nem vale a pena semicerrarmos os olhos e vermos as coisas a fingir que não vemos.

E o que eu vejo, e que toda a gente vê, é que, nós, as actuais gerações contributivas, somos o futuro que as gerações do pós-guerra penhoraram. Pois bem, o futuro longínquo chegou, mas chegou para as gerações que não o inventaram. Confuso, não?

Eis o que eu acho injusto.
Primeiro, vou ter uma carreira profissional mais longa do que a das gerações que agora se vão aposentando.
Segundo, desconto para acudir aos gastos imanentes à protecção na doença e na idade das pensões, sabendo que tal não sucederá quando for a minha vez de beneficiar ou necessitar dessa protecção.
Terceiro, imaginando que o meu salário até era principesco, quando chegar a minha altura de pôr ponto final na carreira, o máximo que posso esperar é um tecto a partir do qual nenhuma reforma é paga.
Desculpem, mas isto é de uma injustiça geracional atroz!

Os baby boomers do pós-guerra chegaram agora aos sessentas e vão auferir do Estado de Previdência que foi criado para si, o então futuro europeu, e pelos seus pais, a geração calcada pela guerra.
Atenção que eu acho isso bem.
Concordo que tenham as suas reformas douradas (bem sei que há pensões miseráveis e infra-humanas e contra isso nenhumas palavras cruéis que eu possa dizer conseguem minimamente verbalizar o quanto isso é uma vergonha social), concordo que tenham cuidados de saúde que lhes permitam a esperança média de vida que, na Europa oscila entre os 75 e os 80.

Contudo, o mais injusto, é que, pela primeira vez em décadas, essa longa esperança média de vida vai começar a decrescer graças aos cortes que se vão impor ao Estado de Previdência, insustentável no panorama e nos moldes actuais.

Grosso modo, em termos de anos vamos trabalhar mais e viver menos, pelo que gozaremos as nossas magras reformas menos tempo (se calhar ainda bem, é que viver muito tempo com reformas baixas…).

Por conseguinte, aqui estamos, a geração sanduíche (para aqueles que vão tendo filhos e contribuindo como podem para a manutenção populacional e sustento da Segurança Social), aprisionada entre os filhos e os pais, sabendo que temos de provir a uns e a outros e sabendo, também, que uns e outros crescerão e morrerão em desigualdade de circunstâncias. E aqui estamos, herdeiros, por inerência e azar histórico, de políticas que não acautelaram a nossa própria previdência.

Pior, o Estado de Segurança Social, que tanto foi pensado para os critérios igualitários de uma Europa que nivelava as assimetrias sociais, será o fulcro impulsionador dos maiores hiatos e distinções de classe.
Se as coisas não estão perfeitas agora, mais imperfeitas estarão no momento em que quem puder sustentar sub-sistemas privados terá Saúde e reformas.

Os outros… enfim, como o Estado de Previdência também estará moribundo já bem se adivinha onde irão parar…

22 comentarios:

quintarantino disse...

Uma análise sucinta e, no entanto, lúcida.
Consegue apresentar, de forma sintéctica, um histórico daquilo que foi a génese da protecção dispensada pelo Estado como garante de correcção de desequilíbros sociais e protecção a grupos de risco ou em situação de carência.
Um conjunto de fenómenos mais ou menos conhecidos levou a que hoje se assista á falência do modelo.
Nalguns casos, por culpa dos próprios beneficiários do presente que levaram até ao limite do impossível a demanda de protecção. Na aposentação, na doença...

Hoje debate-se o futuro do modelo com premissas de antanho e do presente.
Possivelmente sacrificando ainda mais as gerações presentes, sem lhes conseguir mais que nada, uma mão cheia de nada...

Anda por aí um anúncio a dizer que é meia casa, meio sol, meia árvore... desconfio que nem isso será!

Tiago R Cardoso disse...

É evidente que o estado social tem de se manter, um estado social que seja realmente direccionado para quem precisa, para isso acredito que seria necessário a reconstrução de todo o sistema.

Este sistema está "podre", permite o continuar de situações de aproveitamento e desperdício.

Será necessário pensar que este sistema de pirâmide, em que os debaixo pagam os de cima funcionaria de a pirâmide não começa-se a ficar invertida, podendo-se chegar a uma situação que não haja "activos" suficientes para pagar as reformas e outras despesas, obrigatórias de um estado que em de ser social.

Quais os caminhos ?
Difícil, talvez seguros privados, sistemas alternativos de reforma,etc.

Talvez, como disse repensar o sistema.

ana disse...

O Estado delapidou alegremente, sem olhar a como e a quem, dinheiro alheio para satisfazer as necessidades que tinha com vários mecanismos de protecção social.

E como o dinheiro era alheio, mais cuidado devia ter existido na sua aplicação e na fiscalização de como o mesmo era gasto.
Era uma obrigação do Estado, enquanto fiel depositário dos dinheiros alheios.

Em vez disso permitiu a profissionalização de uma certa camada de desempregados; a vegetação no Rendimento Mínimo social a alguns que, nitidamente, nada faziam para o merecerem enquanto outros que dele careciam eram afastados; permitiu baixas fraudulentas anos a fio; esquemas mais ou menos maquiavélicos de receber mais comparticipações sociais...

E nisto todos foram culpados.
Não foi apenas o Estado, foram todos aqueles que sabiam e encolhiam os ombros a dizer que "não é meu o dinheiro".
Azar, até era.
Hoje são alguns desses que andam por aí de megafone em punho a reclamar que assim não pode ser.

Pois não pode, não; arranjem-se é soluções.

Guilherme Santos disse...

Miss Blonde, parabéns.
Não eu não vou ficar por aqui, como alguns, que só batem palmas é preciso discutir o assunto.
No seu excelente texto levantou e desmontou alguns problemas do estado social, eu defendo que esse sistema deve ser mantido, talvez um pouco reformulado, no entanto defendo que se devia permitir quem tivesse possibilidades se afastar do sistema e avançar para o privado, deixando o publico para quem realmente precisa.
Par isso seria necessário uma eficaz fiscalização e o acabar com o desperdício.

Shark disse...

Apreciei particularmente o remate final do seu escrito.
Aponta e deixa bem expresso que estamos quase, quase na beira do precipício. E, aparentemente, pouco há a fazer.

Laurentina disse...

E o que � certo � que n�s os tais que qualquer dia nos vamos aposentando n�o podemos abrir a bocarra para reclamar o que os mais novos nos dizem na cara ...porque � a realidade dura e crua, apesar de estarmos mal, ainda vamos ter qualquer coisinha para nos sentarmos no banco do jardim a partilhar com as pombas um trigo duro e bolorento...

Triste, triste � ter de ouvir isso todos os dias da boca dos filhos e com toda a angustia do mundo chorar num canto sem eles verem, e partir para a luta na mesma.


Bom fim de semana
Beij�o grande

deixo de oferta...
..... um bal�o que � i�ado todos os dias com palavras ao vento!

Blondewithaphd disse...

Eu, na verdade, defendo um Estado de Previdência que acuda a todos igualmente. Acontece que tal cenário já há muito se desmantelou por inépcia política e por fraude e por despesismo sem tino. Assim sendo, e não defendendo o modelo americano, também acho que se deveria repensar todo o sistema de raiz e até, porque não, criar duas carreiras contributivas distintas: uma no sistema público e outra num qualquer formato privado. Cada um escolhia. Agora, o que andamos a ver é que não pode ser. Descontamos para o sector público e depois, aqueles que assim o podem e entendem, ainda descontam para subsistemas privados. Ninguém aguenta um esquema destes!

Carol disse...

Blonde, tocaste num ponto sensível, que a todos diz respeito e a ninguém pode deixar indiferente.
A minha situação é a de alguém que trabalha por conta própria, porque o meu ex-patrão (o Ministério da Educação) já não precisava de mim e eu tinha que fazer pela vida. Estive mais de um ano desempregada, antes de tomar a decisão de criar o meu próprio emprego. O subsídio de desemprego chegou sete meses depois de eu ficar sem trabalho! E nunca ninguém se preocupou em saber se eu tinha como me alimentar e pagar as minhas despesas...
Abri um centro de explicações sem qualquer tipo de apoio. Vivo disso e, apesar de ser uma actividade que me deixa sem rendimentos entre dois a três meses, nunca tive qualquer apoio, nem nunca falhei com as minhas obrigações sociais.
Hoje sou mais um dos famosos recibos verdes, não porque quisesse mas porque, como empresa, nunca poderia pagar os valores absurdos do PEC e outros que tal.
Eu ando literalmente a pagar para os outros, porque não tenho os mesmos direitos que teria como trabalhador por conta de outrém.
Não acredito num sistema que apoia pessoas que vivem bem melhor do que eu e que recebem o rendimento mínimo... Não acredito num sistema que diz apostar na formação profissional e que, enquanto estive desempregada, não me colocou numa única formação...
Sou a favor de uma reformulação total em que se pudesse descontar para a Segurança Social ou apostar em iniciativas privadas.

P.S.: E antes que surjam as provocações: Não, eu não fujo aos impostos nem cobro balúrdios aos meus alunos!

ANTONIO DELGADO disse...

SOBRE ESTE ESTE ASSUNTO TOMO COMO MINHAS, OU MELHOR FAÇO MINHAS, AS PALAVRAS DO ANTIGO MINISTRO DA DA SAÚDE(????) ANTÓNIO ARNAUT, AO DIZER QUE O ESTADO PORTUGUÊS ESTA A MATAR, DE FORMA SUSTENTADA, AQUILO QUE DE MELHOR DEVIA DE EXISTIR NELE.
FORTE E FRATERNO ABRAÇO
ANTÓNIO

António de Almeida disse...

-Penso que todos estaremos de acordo se afirmarmos defender a segurança social! Segurança, justiça, são conceitos, começamos a divergir, quando perguntarmos, ok, que modelo de segurança social defendemos! Para mim, o actual modelo, faliu, o ideal, será uma taxa social mínima, que serviria apenas para os casos que a sociedade no seu todo tem de atender, como deficiência ou invalidez por ex., quando á maioria da população, os trabalhadores, o estado deveria a meu ver de ter apenas um papel regulador no mercado, passando a assistência a ser assegurada através de seguros de saúde e fundos de pensões. Para os que me vão criticar a seguir, alertando para quem possa ficar desempregado, posso antecipar já a resposta, que tecnicamente seria possível existir um fundo de garantia, para o qual todos poderiamos descontar uma taxa residual, o qual poderia ser gerido pelo estado em conjunto com os operadores do mercado, para atender á excepcionalidade, e a excepção não é a regra. Claro que se o mercado for muito regulado, acabarão as seguradoras muito perto da actual segurança social, mas têm uma enorme vantagem, não são as empresas privadas, lugares parasitados pela colocação de boys, ou permeáveis a interesses obscuros, que provoquem um despesismo monstruoso, como o que existe no estado. Não defendo a privatização sem regras, mas uma prestação eficaz de serviços á população, bem como assegurar uma aposentação condigna, se o estado não é capaz de o fazer, saia da frente, e dê lugar a outros.

Compadre Alentejano disse...

Bom post, parabéns.
Um dos grandes males da sociedade portuguesa é ter de aguentar os filhos até mais tarde, dado os condicionalismos actuais.
O jovem como não tem saídas profissionais, licenciados incluídos, tem que ficar em casa dos pais mais tempo.
Resultado, este país com a gerência que tem, não funciona.
Saudações
Compadre Alentejano

adrianeites disse...

costumo dizer que para quem não é bom de contas de cabeça deve usar pelo menos uma boa calculadora..

os sucessivos governos foram dando cobertura a erros sucessivos como pensões milionárias por exemplo..

bom fim de semana!

NÓMADA disse...

Parabéns pelo texto bem estruturado e, invulgarmente para quem não tem no português a sua primeira lingua.
Emocionou-me esta constatação. Sobre o conteúdo da mesagem reforço o que foi dito pelo Tiago Cardoso e pelo o António Delgado. O modelo de estado social tem que ser reformulado mas não podemos abrir mão dele. Não há alternativa a este modelo. É uma questão de direitos humanos.

O Guardião disse...

Fiquei algo surpreendido por ninguém ainda ter trazido ao campo da discussão um dos problemas que mais tem contribuido para o enfraquecimento da Segurança Social, que tem sido precisamente o trabalho a prazo, com incentivos que passam exactamente pela dispensa da entidade patronal descontar durante algum tempo para a o sistema. O mesmo para alguns recibos verdes, falsos evidentemente, porque são também exigidos por algumas entidades patronais, ainda que haja subordinação hierarquica e horários definidos. Também podia falar de muitos profissionais liberais que apesar de ostentarem sinais evidentes de riqueza, recebem tanto ou menos que as mulheres a dias que têm a trabalhar em suas casas.
Não são apenas os governos os culpados, embora os governantes se safem muito bem com as reformas que acumulam e que são bem chorudas, mas também muito cidadão guloso que defrauda conscientemente a segurança social condenando-a a um sistema meramente assistencial.
Cumps

SILÊNCIO CULPADO disse...

A falência do modelo social é a falência da dignidade humana e das condições de equidade que devem estar presentes no apoio a todo o ser humano. É verdade o que diz o Guardião. Presentemente muitas empresas optam por artifícios que vão dos recibos verdes, para trabalho a tempo inteiro e sujeito a horário, fazem contratos pelo ordenado mínimo pagando o remanescente por baixo da mesa e, frequentemente, recorrem também a contratos de prestação de serviços para situações de trabalho permanente e continuado na sede da empresa. E o Estado não actua sobre isso como não actua sobre muitas outras situações de fuga às contribuições sociais. E tem que actuar. O Estado Social não pode morrer porque não há alternativa. Um indivíduo que desconte para um privado vê-se na contingência, como acontece nos Estados Unidos, de ficar sem nada no fim da vida se a empresa privada para a qual descontou a vida inteira for, por exemplo, à falência. O mesmo serve em relação ao SNS.

Manuel Rocha disse...

Pois...

Mas quem foi que "construiu" o quadro de segurança social em questão ? Marcianos ?!

Não me parece que enquanto todos não nos consciencializarmos que também somos governo, enquanto não começarmos a participar mais activamente nas assembleias de pais, de condominio, de juntas, de camara, etc, enquanto guardarmos o nosso contributo civico apenas para as grandes manifestações de descontentamento com qualquer governo, enquanto...não me parece que se melhore significativamente a sociedade que somos mas que esquecemos que somos.

david santos disse...

Passei para desejar-lhe um bom final de 2007 e um bom ano de 2008.

NINHO DE CUCO disse...

O modelo social falhou porque o neo-liberalismo o matou. E matou como? Criando desemprego, recibos verdes e outras situações que impedem a entrada de recursos na segurança social. Mas dentro da segurança social para uns não há nada e para outros há tudo. Mas não me venham com as histórias dos descontos mínimos para uma segurança social de infelizes. O que redundaria daí é que os muito ricos não tinham qualquer problema porque descontam pouco mas não precisam das pensões para nada. Por outro lado, quem pagaria a factura desse modelo, seria a tão versgatada classe média. Não teria uma situação nem outra e teria sempre o espectro de um futuro ainda mais incerto no final de vida. Se o privado fechar as portas, mudar de nome e for para outro país, como é que quem descontou para lá retoma o seu dinheiro? Estamos a brincar com coisas sérias.

Daniel J Santos disse...

O estado social não falhou, o que falhou foi a forma como foi aplicado, o conceito em si é perfeitamente correcto.
Nunca o sistema social pode deixar de existir, não nos imagino num sistema americanizado, acredito como outros já disseram na necessidade de reconstrui-lo, não umas obras de ointura mas sim umas fundações novas.

antonio disse...

Blonde, temos que fazer o nosso 25 de Abril. É a única forma de mudarmos a nossa sorte...

NuNo_R disse...

Olá "loirinha"...

Bom post e em tuguês... :)


bjS

Joshua disse...

A grande solução é a constituição de grupos alargados com chaves manhosas do Euromilhões. E convém sublinhar que se toda a gente desse ao trabalho de verificar a geografia dos sorteios no boletim concreto verificariam a prevalência dos números exteriores ou periféricos em detrimento dos interiores. Quando um computador, por mega que seja, pensa, tudo se reduz ao posicional, minha gente. A sua sorte é o cada qual por si.

Ninguém repara nisto.

Vou apresentar uma Imagem, um conjunto de metáforas desenvolvidas. É assim: imaginem que o quadro dos números sorteados no boletim do Euromilhões era o território de Portugal, certo?

Nesse caso, o 1, seria, por exemplo, Viana do Castelo, o 6 Bragança, o 49 Sagres, o 50 Albufeira, o 48 Vila Real de Santo António.

Se assim pensarem verão que é ao longo da costa Portuguesa e ao Longo da Raia Portuguesa que os números são sorteados. Sai Porto, sai Aveiro, sai Lisboa, sai Castelo Branco, sai Portalegre, sai Mértola.

Ora o busílis é que a maioria do senso-comum aposta em Coimbra, em Évora, em Beja, em Viseu, etc.

Por isso não acertam todo o tempo e muito menos em cheio. O meu olhar de artista não pensa nem vê segundo o senso-comum. É da minha natureza ver segundo a loucura.

Vá lá, não custa nada: é pegar nas chaves das duas últimas semanas e colocar no boletim os numerosinhos periféricos, exteriores, todos, menos uma para enganar.

Toda a ironia é pequena e pouca, BlastingLightningBolt-Blondie para adressar as facas políticas que hoje se nos cravam fundo na carne.