(África) No Coração das Trevas

“Heart of Darkness” (1899) ou "Coração de Trevas”, na tradução portuguesa, de Joseph Conrad é um dos livros mais fascinantes e perturbadores que alguma vez li.
Não é daqueles livros fáceis de digerir, bem sei, e só se entende mediante uma contextualização histórica bem fundamentada (por isso é que a versão em filme, mesmo com um arrepiante John Malkovich, não resulta).
Nestes dias tenho-me lembrado de Conrad, e deste livro em particular, devido à Cimeira Europa/África.

Mais de uma centúria volvida sobre a primeira edição desta obra, África continua o mesmo “coração de trevas”.
Numa época em que os impérios coloniais estavam no seu zénite, Conrad, um polaco ao serviço do Império Britânico, foi um dos primeiros detractores dos imperialismos europeus.
As trevas africanas representavam simultaneamente um continente mal conhecido e insalubre e toda a corrupção que os europeus levavam sob a forma velada de propagação do facho civilizacional àquelas paragens ímpias. O imperialismo destruiu muito de África, é certo, mas o continente continua um coração de trevas. Ainda, sempre e irremediavelmente!

Discute-se o perdão das dívidas a África.
Eu, que me permito opinar neste espaço, sou liminarmente contra.
África é rica o suficiente para pagar quaisquer dívidas, e que ninguém escamoteie este facto (tomara a Europa ter os recursos africanos).
Ademais, o perdão dessas dívidas faraónicas significa que os Mugabes e os Santos todos se ficam a rir de nós, pobres humanitários altruístas armados em bons samaritanos, porque as dívidas foram contraídas para propósitos pessoais e para financiar projectos em tudo contrários aos direitos humanos.
África tem de ser ajudada, naturalmente, mas, sobretudo, tem de aprender a ser ajudada.

O continente está também mergulhado nas trevas do VIH/SIDA.
Não se trata já somente de uma epidemia.
A SIDA é um problema económico e um impasse demográfico sem alicerces coloniais. E não é um problema económico porque os medicamentos e técnicos de saúde são caros em sociedade depauperadas financeiramente.


A SIDA é a doença das classes jovens em idade produtiva e reprodutiva.
80% dos órfãos desta pandemia moderna estão em África.
Em 2010 serão 53 milhões, 30% dos quais doentes eles próprios.
Em África chamam-se “AIDS grannies” às avós que viram os filhos morrer e agora cuidam dos netos (umas e outros com os destinos abreviados).
Só na Suazilândia 40% dos adultos estão infectados e 31.1% das crianças são órfãs da SIDA. É incalculável o prejuízo que semelhante quadro marca numa sociedade. A reposição geracional não se consubstancia e a economia não progride porque os adultos estão doentes.

As trevas estão igualmente no tribalismo africano endémico.
Cada vez mais se revelam virulentamente os ódios étnicos intra e inter-africanos.
Não são só os casos mediatizados da rivalidade Hutu/Tutsi ou a crise humanitária no Sudão.
Existem 800 fronteiras tribais em África que, tendo sido homogeneizadas pelas potências europeias, não foram repostas pelos novos líderes africanos por considerarem que a sua reimplantação traria mais vícios que virtudes. E aqui temos o fulcro para as guerras civis, o genocídio, a limpeza étnica e as migrações em massa.

“Coração de Trevas”, bem o disse Conrad.
Cem anos depois aqui está um continente sufocado pelos seus próprios desígnios. Doente, corrupto, insanável.
Não, não basta atirar tudo para o passado.
E não, não basta enfatizar que o problema desta Cimeira é a presença de um tirano.

Até quando baterá um coração nas trevas?

19 comentarios:

antonio disse...

Uhm! Então juntaste-te a eles?
Olha lá no teu lado dou-te uma séria tareia!

Este texto está melhor.

Peter disse...

É um assunto que me é caro. Conheço África, Cabo Verde e S.Tomé, de passagem, Moçambique onde permaneci mais de 2 anos, quando a guerra já lavrava e "a menina dos meus olhos": Angola onde permaneci mais de 6 anos.
Adoro Angola, é um território fabuloso, em que sempre acreditei. Apanhado pela guerra, a minha mulher, grávida dos meus dois filhos, veio mais a filha para Portugal. Depois regressou para os gémeos nascerem lá, queria que fossem angolanos, que, para mim, iria ser o "novo Brasil".

Aí está ele ...

Conferênca para quê? Os grandes negócios selam-se no secretismo dos gabinetes e a Sida e o tribalismo larvar, não dão rendimento, é só despesa.

quintarantino disse...

Concordo plenamente com as afirmações aqui vertidas.
Não será através do complexo ou da exploração do complexo de culpa do colonialismo que as antigas potências ocupantes e usurpadoras irão ajudar seja no que for.

Paralelamente, o perdão de dívida só contibui para o avolumar do problema pois, normalmente, a dívida existe muito por culpa de fenómenos como a corrupção e desvio de dinheiros públicos.

Também não é com a hipocrisia larvar de condenar um Mugabe (um facínora) mas fechar os olhos a um Dos Santos (quiçá, um envernizado e abrilhantinado, mas nada mais que isso) que se irá ganhar qualquer espécie de autoridade moral.

Nãos erá fácil, mas só através da exigência rigorosa sobre os povos africanos para que, alavancados nas suas possibibilidades e potencialidades, façam algo por si, será possível fazer qualquer coisa por África.

FERNANDA & SONETOS disse...

Olá, um belo texto e sobretudo muito actual,
parabéns.
Beijinhos e bom fim de semana.
Fernandinha

Shark disse...

Eu diria que as trevas estão instaladas náo no continente, mas no coração dos que nele habitam!

São disse...

Sobre o excepcional livro de Conrad escrevi em Ourocru há tempos atrás.
Quanto ao perdão das dívidas, não concordo.
Quanto ao resto, penso que a responsabilidade maior é herança da colonização.
Mas imperdoável é a traição feita aos seus povos pela esmagadora maioria dos governantes africanos!
Mugabe? Sim! Mas...e os outros?!
Ah! É bom não esquecer o comportamento da China, que é neo-colonial!!
Bom sábado.

7 Pecados Mortais disse...

Não basta atirar as desculpas para o passado, assim como é referido aqui, para serem ajudados, têm que o deixar ser. Com "Mugabes" no poder vai ser difícil, pois eles alimentam o ódio e a miséria para serem ajudados num fim propositado para seu enriquecimento pessoal. haja paciência para isto tudo, assim como os 1o milhões de Euros gastos na cimeira, com grandes luxos à mistura, para um país e para o mundo que vive em muitos casos na plena miséria. Fecham-se lojas aos comerciantes, colocam-se forças policiais sem condições de trabalho e sem descanso, sorrimos e no fim dirão que foi um passo muito importante. Realmente devia de haver mais "Live Aids" concertos, pelos menos angariava-se dinheiro honesto, com um fim real e os protagonistas não cobravam. Haja paciência para os governantes que não se unem por valores humanitários, mas por valores monetários, cada um no seu lugar e com o seu propósito.

avelaneiraflorida disse...

Sempre me interessei por África, embora não tenha nunca lá estado...
Mas, este texto, deixa-me algumas pistas para a ela voltar!!!!

"Brigados" pela pista...Vou segui-la!!!!
Continuação de bons textos!!!!

Tiago R Cardoso disse...

Para começar, brilhante texto.

Perfeitamente de acordo com tudo o que aqui foi escrito.

Todos os aspectos estão interligados, o facto de não se conseguir pacificar muitos países, provocando o desaproveitamento de recursos, por sua vez pobreza, fome, falta de condições de higiene, etc.

Para quem não sabe o Zimbábue antes destes senhores era o celeiro de África, produzia o suficiente para si e ainda exportava, para alem disso tinha ainda uma razoável industria mineira.

Isto serve para provar que a riqueza em África esta extremamente mal aproveitada.

Em vez de se perdoar dividas o normal seria tentar levar certos países africanos a perceberem que com aqueles dirigentes e politicas já mais terão o apoio europeu.

Cadinho RoCo disse...

A pressão do poder econômico é terrível.
Cadinho RoCo

Daniel J Santos disse...

Estou perante um texto que não se debruça sobre a cimeira, essa não passa de sorrisos e fotografias, mas sim sobre um problema real, África.
Para muitos completamente esquecido pela distancia, onde o atropelo a tudo aquilo que nós consideramos humano é constante.

Mais uma vez este blogue avança com uma questão importante, não entrando em questões mediáticas , como é o caso da cimeira ou da questão quem está presente.

António de Almeida disse...

-Excelente análise, tenho pouco a acrescentar, dizer que o perdão da dívida a ser concedido, nunca chegaria aos destinatários, como não chegaram as toneladas de alimentos e medicamentos noutras ocasiões, os laboratórios europeus e americanos cederem as patentes dos retrovirais para combate ao HIV, vai dar ao mesmo, forma-se um poder económico africano a comercializar os medicamentos, vai-se a ver, controlado pelos mesmos. Áfriaca precisa de democracia, os estados que iniciaram esse caminho, ainda que com defeitos, estão mais avançados, como o Quénia, a melhor ajuda, será contudo permitir a concorrência dos produtos agrícolas africanos, retirando barreiras alfandegárias.

Carol disse...

Blondie, adorei o teu texto. Ultimamente fala-se muito na cimeira, mas esquece-se a realidade vivida nesses países.
Não me lembro de África, mas nasci lá e toda a vida ouvi falar de África em casa. Um continente riquíssimo, que desbarata os seus recursos e a quem o mundo tudo perdoa graças a um enorme sentimento de culpa.
O colonialismo teve muito de negro, mas também trouxe benefícios àqueles povos e é mais do que tempo de esquecer as agruras e pensar no presente e, sobretudo, no futuro.
O Sida tem ganho terreno nesta região, a fome, a guerra, os tribalismos crescem a olhos vistos e isso porquê? Não é por falta de auxílio, mas porque, na sua grande maioria, os líderes africanos assim o querem. A mentalidade e cultura africanas são muito complexas e não seremos nós, países desenvolvidos, que conseguiremos alterar determinadas situações.Eles sim, poderiam fazê-lo, mas estão muito ocupados a eliminar a concorrência e a decorar os seus palácios (já alguém viu as casas de Mugabe e de dos Santos? Eu já e, acreditem, a rainha da Inglaterra não está tão comodamente instalada...).
Receio que o coração africano se vá manter nas trevas por muito tempo.

Francisco Castelo Branco disse...

Baterá um coração nas trevas até ao dia em que "alguém" decida pôr fim a esta vergonha.
Regimes ditatoriais sanguinários, riquezas para esses ditadores, pobreza para as populações. Conflitos armados sem fim à vista.
Flagelos da SIDA e fome.
Até quando estes problemas irão continuar?

Boris disse...

Foram os países colonizadores que criaram as desiguldades e o empobrecimento. Devem pagar por isso.

Guilherme Santos disse...

Um excelente texto, pelo que me pude aperceber, de quem sabe.
Muito bem escrito apresentando aspectos de grande interesse.

O Guardião disse...

Sobre África gosto pouco de falar, por respeito às suas gentes. Sobre os seu dirigentes, não creio que os adjectivos, na maioria dos casos, fosse aceitável neste blog que respeito.
Tenho pena que o meu país se tenha metido nesta aventura triste e patética que serve apenas para dar a força e legitimidade que alguns não têm, nem merecem.
Cumps

Compadre Alentejano disse...

A África foi mais prejudicada pelos ditadores do que pela colonização. Ex. Mugabe, Mobutu,Dos Santosm,e muitos dos actuais...
Saudações
Compadre Alentejano

Maresi@ disse...

Belo texto.... frontalidade e sinceridade q.b.

Beijo suave___maresia