E do nosso desleixo (urbanístico) nasceram cidades...

O país rural desapareceu.
Comprou automóvel a prestações, fez-se urbano, mesmo sem entrar nos perímetros das cidades tradicionais.

Porque a cidade "já não é um ponto no mapa, transforma-se numa superfície", estende-se por novas geografias, onde o terreno para construção é acessível, junta-se a outros aglomerados urbanos. "Perde-se a ideia de centro, mas, graças à mobilidade cada vez mais fácil, tudo fica próximo: a distância mede-se pelo tempo”, afirma Álvaro Domingues, geógrafo e docente na Faculdade de Arquitectura do Porto (e que coordenou o livro "Cidade e Democracia - 30 Anos de Transformação Urbana em Portugal", editado pela Argumentum).

Nas cidades portuguesas, que ocupam 2 % do território nacional, em 2001, concentravam-se 4 milhões de pessoas, cerca de 40 % da população.
E metade dos ditos citadinos concentrava-se em 14 cidades.
Estes números são do Instituto Nacional de Estatística.

Mas de acordo com aquele investigador, estes números mudam se a análise for feita a partir do princípio de que a nova "forma física de territorialização da sociedade" é uma continuação da cidade.

Só nas "duas conurbações de origem metropolitana" - a de Lisboa e a do Porto - residem aproximadamente 6 milhões de portugueses.
O que corresponde, segundo o estudo coordenado por Álvaro Domingues, a uma "concentração de 53% do total da população portuguesa".

À medida que a mobilidade é mais fácil e "mais democraticamente distribuída" - mobilidade de gente, de mercadorias, de informação, etc. - o território "deixa de ter aquele fixismo representável no mapa e passa a ser uma espécie de campo magnético: tudo se mexe, tudo vai não sei para onde", diz.

Em Portugal, o fenómeno é recente porque entrámos tarde na revolução do automóvel, só que agora o quotidiano não se mede por quilómetros mas em tempo, conforto.
Com a nova "cartografia dos movimentos quotidianos" das pessoas, as cidades deixam de ser ponto no mapa - "são superfícies instáveis, sempre a mexer, onde a lógica relacional é mais importante".

Neste quadro de extrema mobilidade surge-nos o flagelo do deficiente planeamento a nível urbanístico.

Fiadas inteiras de prédios, todos muito cinzentos, sucedem-se em ruas onde árvores raquíticas tentam enganar a existência.
Nalguns locais essas fiadas inteiras de prédios têm (quando têm) infra-estruturas de natureza ambiental insuficientes.
Ora é a pressão da água na rede que não permite que ela chegue a todas as torneiras, ora é o saneamento que entope.
Aqui e ali é o ecoponto que transborda, mas mesmo assim os impacientes e os selvagens persistem em deixar o lixo. Se não cabe, fica no chão…

Ruas estreitas, autênticas veredas, servem agora os tais automóveis do milagre do desaparecimento dum Portugal rural cuja existência também não deixa saudade.

Ele é o PNOT, PROT, PMOT, PP, PU e muito mais. O RGEU, RJIGT e RJUE. Depois ainda há o RMUE.
Trocando por miúdos… Plano Nacional de Ordenamento do Território, Plano Regional de Ordenamento do Território, Plano Municipal de Ordenamento do Território, Plano de Pormenor, Plano de Urbanização, Regime Geral das Edificações Urbanas, Regime Jurídico dos Instrumentos de Gestão Territorial, Regime Jurídico de Urbanização e Edificação e Regulamento Municipal de Urbanização e Edificação.
Falta, claro está, o Plano Director Municipal que, nalguns casos, é como uma meretriz da Babilónia…

Talvez fruto desta carga excessiva de diplomas, e eu nomeei apenas os de referência, a carga burocrática, os pareceres, os actos preparatórios que antecipam o verdadeiro acto administrativo, a discricionariedade técnica e mais alguns fenómenos, o português médio, dentro desta mobilidade acelerada, costuma resolver uma das suas necessidades básicas (habitação condigna) de duas formas:

- Compra “à ceguinho seja eu” ao pato bravo que no momento está na mó de cima ou que promete o jardim perfumado na Urbanização do Rato (juro que conheço uma urbanização com este nome) ou,

- Em alternativa, constrói ele próprio e o resto… logo se vê.

Não fazem, possivelmente, ideia do que, de Norte a Sul, existe de construção ilegal.
Tenho topado com casos em que já não é só o galinheiro ou o muro, antes a casa inteira. Algumas de rés-do-chão e andar, mais piscina e o que mais o dinheiro fácil permite.

A acrescer a estes fenómenos e contributos espontâneos ao embelezamento da paisagem, temos ainda o gosto requintado e refinado de muitos técnicos.
Só muito recentemente se começou a ir ao arquitecto (pudera, alguns é cada conta que quase sai mais barata a casa que o projecto!), sendo inúmeros os casos de desenhadores ou os ditos agentes técnicos que assinavam projectos. E são todos muito imaginativos como já devem ter reparado.

Durante anos era o azulejo ou o ladrilho.
Depois veio uma nova era de prédios com pedra colada e casas que nem eram pedra ou tinta.
Bem, algumas eram num amarelo a lembrar manteiga rançosa!
Seguiu-se o glorioso apogeu do granito.
Casa que se prezasse era tudo em granito amarelo, com uma pinceladas de tinta e umas colunas de pedra também.

E assim, num enorme somatório de equívocos, fomos construindo as urbes de hoje onde quase já não há pássaros a chilrear, nem se ouvem outros sons que não os do vizinho de cima, ou a vizinha de baixo, o comboio que apita ou o carro que chia no viaduto que entretanto nos construíram quase em cima da varanda!

27 comentarios:

antonio disse...

Meu caro Quint, bom exame, mas permita-me afinar-lhe o diagnóstico: nóa não temos em Portugal um problema de ordenamento urbanistico.

Nós temos sim um problema de financiamento das autarquias...

bluegift disse...

Um problema grave de ordenamento do território e de preservação da arquitectura tradicional. As autarquias têm dinheiro mais que suficiente, basta-lhes cortarem nas despesas do presidente e respectivos protegidos, mais as palhaçadas que antecedem as eleições ;)

Há excepções, mas devem ser MUITO raras...

Shark disse...

O problema de financiamento das autarquias passa em parte pelo urbanismo?
Pode passar, mas será que isso justifica as opções estéticas, por exemplo, que são tomadas e permitidas?

Notas Soltas, Ideias Tontas disse...

Os interessados em poder ouvir a breve participação do blogue NOTASSOLTASIDEIASTONTAS no programa radiofónico CLUBE DOS PENSADORES, da autoria do Joaquim Jorge, poderão fazê-lo através do link inserido na barra lateral direita.

Tiago R Cardoso disse...

Para o caso em concreto eu posso avançar com a comparação de duas cidades que eu conheço.

Temos uma São João da Madeira, sem freguesias, ou seja é só ela, que foi construida de forma estruturada, com zonas pedonais, grandes espaços verdes, ruas largas em bem construidas, evidente mente prédios mas de forma controlada.

Em oposto temos Oliveira de Azeméis, onde se vive o caos, uma manta de retalhos, construida à "bruta" e desordenadamente, onde quem manda são as "amizades", onde vale tudo, constrói-se autenticas estupidezes em qualquer lado.

Chega-se ao ponto de se poluir a cidade com edifícios que acabam por não ser terminados, ficando ao abandono.

Não sendo especialista, assumo que ali muita da coisa que é feita é um atropelo a todas as directrizes que existem.

Infelizmente, para mim que só de lá, um exemplo do mal que se faz neste país em termos urbanísticos e
de qualidade de vida.

Daniel J Santos disse...

Um excelente texto de alguém que sabe do que fala.
Hoje constrói-se sempre a "direito", não interessa aonde nem como, faz-se as coisas e depois ve-se.
Mais uma vez o Notas Soltas, mostra que aqui não é só "bater" no governo ou ir na "onda" do mediatismo, levanta questões, problemas e chama ao debate, estão de parabéns.

JOY disse...

Amigo Quint.

Por algum motivo as autarquias são o maior foco de corrupção,desordenamento terretorial é uma chaga que urge combater e só possivel por incompetência dessa mesmas autarquias ,deixa-se construir com o único objectivo de cobrar depois impostos municipais que vão sustentar as despesas Justificadas e injustificadas das autarquias sem haver uma preocupação com a qualidade de vida das populações ,entretanto vemos o in terior cada vez mais deserteficado e abandonado.Excelente este post como alerta.

JOY

Blondewithaphd disse...

This was one of those punch-in-the-stomach texts for me! As it happens I am a commuter (don't know the translation in Portuguese, but is someone that works and lives in far apart places) so I perfectly understand the new meaning of space in this early 21st century.
And second, I am a victim of bloody PDMs and the fact that people in Portugal don't know how to plan ahead. Besides, and I'm really sorry for saying this, it is impressive how local government in this country is only done for a few, not for the whole of the population. It's like an oligarchy! And the rule of easy profit and construction contractors! God damm it!

António de Almeida disse...

-Como alguém afirmou antes de mim, muitos destes problemas enunciados no post, têm que ver com o financiamento autárquico. Não existe ordenamento do território, não chega afirmar que está mal planeado, pura e simplesmente não existe. Como explicar que as zonas metropolitanas tenham expandido territorialmente, sem expandir rede ferroviária e metropolitano? Estariam á espera que o transporte colectivo rodoviário fosse alternativa? Não o é, em quase nenhuma grande cidade! Como explicar os atentados urbanisticos que se sucedem? No dia em que este país sofrer uma catastrofe de grandes proporções, tem tocado a outros, mas zona ribeirinha do Tejo, Douro, nomeadamente Porto, e outras cidades do litoral, estão a colocar-se a jeito, depois veremos, ou não veremos nada, culparemos o tempo, o W.Bush pelas alterações climáticas, porque aqui, nunca ninguém é culpado!

M.M.MENDONÇA disse...

As autarquias são focos de corrupção e ninguém responde pelos crimes que se cometem. O ordenamento do território não pode ser feito na base dos interesses pessoais.

Zé Povinho disse...

Já alguém aqui disse, e com imensa razão, que os problemas estão a montante, precisamente nas autarquias e no seu financiamento, nos planos directores e na restante legislação que é apenas para portuga ver. Ao nível da arquitectura de cada edifício, não se deve atirar apenas as culpas para o facto de terem sido desenhadas por quem não é arquitecto, porque o crivo das câmaras, onde há arquitectos, também falha clamorosamente, e também há arquitectos com muito mau gosto e que cobram os olhos da cara, e olhe que eu sei do que falo.
Se se cumprisse a legislação, se os compromissos fossem para tomar a sério, se não se abrissem excepções à conveniência dos grandes, se quem aprova os projectos fosse devidamente responsabilizado, talvez as nossas cidades e vilas não estivessem tão mal como estão, quase todas.
Abraço do Zé

Sei que existes disse...

Infelizmente, neste país, assim como em muitos outros sitios, primeiros contrói-se a pensar nos lucros monetários e só depois se pensa nas con sequências ambientais!...
Beijo grande

carlos alberto martins disse...

Nada como um texto a exigir para se separar o trigo do joio. Até nalguns profissionais do comentário...
Estás de parabéns, meu caro amigo. Tens poucos comentários, mas um excelente texto. A verdade tem destas coisas. Dói.

Maria P. disse...

Mais uma vez nota máxima pelo tema abordado.
De facto o sede de lucro ganha aos pontos ao bom senso e contra isso a luta será sempre enorme desigual.

Parabéns pela participação no programa Clube dos Pensadores.
Gostei!

Um abraço*

Pata Negra disse...

Eu aldeão resistente, em verdade, em verdade vos digo: Portugal é Lisboa e o resto é paisagem, a sede de concelho é jardim e o resto é mato!
Estamos abandonados ao fogo dos incêndios, aos políticos da primeira à terceira distrital, à ASAE e ao turismo rural! Somos uma engraçada espécie em extinção!
Podereis tentar-me iludir com a vossa cultura, os vossos políticos, as vossas regras de higiene e bom gosto, o vosso falso conforto mas eu não vou sair daqui nem do meio das cinzas!
Um abraço de punk rural

Compadre Alentejano disse...

O certo é que não tem havido e nem sequer ainda há um verdadeiro ordenamento do território em Portugal.
Os patos bravos têm imperado e fazem o que querem...
Saudações
Compadre Alentejano

luís fernandes disse...

Isto hoje está difícil. Alguns, às tantas, leram isto e foram a correr ao técnico para ver se têm legal lá em casa!

Mia disse...

Belo post
parabéns

Cati disse...

É muito triste, na verdade... e como eu gosto de um cantinho verde em que os ditos passarinhos ainda se oiçam!
Na minha cidade ainda temos espaços verdes e ainda estamos rodeados do chamado CAMPO.
Mas a verdade é que a tendência é o CAMPO sucumbir ao reino do BETÃO. E quem vai pagar a factura são as gerações vindouras, que não saberão a delícia que é beber água da fonte, rebolar na erva e comer fruta acabada de apanhar directamente da árvore...

Muito bem observado!
Beijinhos!

Guilherme Santos disse...

Mais uma vez um excelente texto, esperava-se era mais reacções.

Parabéns ao blogue pela qualidade que tem vindo a mostrar.

bluegift disse...

Gostei de te ouvir na entrevista. Este blogue tem substância, tem sim senhor. E a propósito, que é isto de andar a confundir bloguistas com jornalistas? Ai o caraças...

Lampejo disse...

Quin,


Hoje posso dizer-te que só passei para te ler....?

Sim! Claro que sim!


Aplausos pelo texto!

(a)braços :)

LUIZ SANTILLI JR. disse...

Muito oportuno seu artigo, Quintarantino!
Moro em São Paulo.
Sei exatamente o que é isso.
Vale qualquer esforço para que uma cidade não tenha mais de três milhões de habitantes, nem que seja por decreto.
Nenhum grupamento urbano subsiste, como São Paulo, a dez milhões de habitantes na região central e quase quinze milhões na região metropolitana, com mais de dez municípios que se interligaram à cidade!
Não há dinheiro público suficiente para se dar condições civilizadas de convivência!
Para diminuir nosso drama de circulação, existe um rodízio de uso dos veículos (mais de quinze milhões), infame mas absolutamente necessário, e que deverá ser estendido a dois dias por semana, numa cidade de tranportes públicos insuficientes.
Não permitam que isso aconteça, pois não há como reverter o caos!
Vira uma coisa entrópica!

Dalaila disse...

Esta reflexão está bem feita, é verdade que há alguns anos atrás, nos anos 70, o boom urbanístico, sem regras e sem leis, destrui as cidades. Construi-se junto às estradas nacionais, não há aglomerados urbanos, porque tudo era território para consrtução.
Qualqeur proprietário com um terreno, fosse onde fosse tinha que construir, maus projectos, más localizações, dispersão total, e agora estamos também a pagar isso, o preço da dispersão.
Agora há maior cuidado no licenciamento os PDMS vieram ajudar e foram um ferramente importante na construção do território, mas o que acontece agora é a destruilção das cidades como nos lembravamos delas.
São todas iguais - as praças lajeadas, sem árvores, sem vida, locais de passagem, a correr, onde o convivio despareceu, os bancos passaram a betão... isso sim descarcateriza, desvirtualiza

Carol disse...

E pronto... Depois de um post destes, que posso eu dizer? Nada, pois estaria a repetir tudo o que tu (Quin) já disseste.
Mais uma vez, parabéns!

C Valente disse...

Tanta coisa boa que desapareceu
bem haja por continuar com magnificos textos contundentes
Bom fim de semana
Saudações amigas

Paula Raposo disse...

Verdade!!