Divagando pelas "bestanças" lusas!

Permito-me, à moda dos músicos dos tempos modernos, abrir com um “sample”, pelo que assim será.

E foi em Carlos e João da Ega uma esperança, outro esforço:
- Ainda o apanhamos!
- Ainda o apanhamos!
De novo a lanterna deslizou e fugiu. Então para apanhar o americano, os dois amigos romperam a correr desesperadamente pela Rampa de Santos e pelo Aterro, sob a primeira claridade do luar que subia”
… e viram-no a deslizar pela noite fora.

- Que ferro!– exclamou, Carlos.

E por lá se quedaram, pensativos. Pegando na cigarreira, João bateu pausadamente o cigarro e, confiando-o aos lábios, acendeu um fósforo e inquiriu: “E agora?”
Puseram-se a caminhar resolutamente em direcção à taberna lá da esquina.
Ao entrarem, surpresa. Estupefacção. Quiseram regressar à rua, mas não havia forma de encontrarem a porta. Aquilo taberna podia ser, mas mais parecia lupanar!

Seja, pensaram. Encostaram-se ao balcão e uma jovem senhora aproximou-se.
Boa noite, boa noite.
Minha senhora, são dois copinhos… se faz favor.

Em cima do balcão, um jornal.
Ó Carlos, sentemo-nos ali… sempre se aproveita para ler o jornal.

Na primeira página falava-se de um areópago chamado Parlamento Europeu e de uma berraria que por lá houvera. Parece que o Primeiro-Ministro fora alvo de uma manifestação promovida por uns parlamentares ditos da Esquerda Unitária.

Isto que te parece? Esquerda Unitária? E agora há uma Assembleia europeia? E o Primeiro-Ministro apupado? – perguntou João.
- Que ferro! – exclamou Carlos.

- Realmente, que ferro… esta gente não há meio de se entender – rematou João – Olha lá, vira aí a página.
E lá estava que Jerónimo de Sousa se demarcara da tal manifestação da página anterior.
"Não posso falar em nome de ninguém. Apenas posso falar em nome do meu partido e dos meus deputados. O PCP prefere o debate e o combate político, o esclarecimento consciente, sério e fundamentado, acompanhado naturalmente de uma intervenção de cidadãos", sublinhou.
- E este quem é? Visconde da Atalaia? – perguntou-se João… mas não obteve resposta.

É que, entretanto, Carlos havia engraçado com uma notícia de quase rodapé que dava conta que um dito Tribunal Constitucional havia notificado os partidos a provarem no prazo de 90 dias que tinham pelo menos 5000 militantes, sob pena de serem extintos por incumprimento da lei.

-Então agora os partidos têm militantes? E, no mínimo, 5000? – comentou.
- Safa, o morgado de Fafe está tramado. Ele terá lá nas terras 5000 lavradores e filhos ranhosos para apresentar como potenciais militantes ou lá que é isso do seu partido? – perguntou, em jeito de resposta, João.
No fundo, falavam do caciquismo em que se arregimentam gentes para serem militantes do partido A ou B, coisas que nitidamente hoje não acontecem no nosso Portugal.

Prosseguindo com a leitura, toparam com estas letras: “Tendo em conta os compromissos assumidos no acordo tripartido, o valor do SMN (salário mínimo nacional) para o próximo ano deverá rondar os 426,50 euros, um valor que se situa entre os actuais 403 euros e o valor definido para 2009, de 450 euros”.

- Diacho, salário mínimo? – disse Carlos – Olha lá, isto é um jornal ou lá um desses livros desses escritores modernaços?
- Carlos, eu acho que é um jornal mas deve ser um jornal do incrível. Coisas destas não acontecem cá no nosso reino. Nem hoje, nem daqui a 200 anos! Um homem há-de lá viver com 403 euros... – sentenciou João.

E pagando a despesa saíram para a rua…
E novamente o ruído…

“E foi em Carlos e João da Ega uma esperança, outro esforço:
- Ainda o apanhamos!
- Ainda o apanhamos!
De novo a lanterna deslizou e fugiu”
.

Que ferro!

Post Scriptum – o “sample” foi pilhado dessa notável obra de Eça de Queirós que não sei se ainda faz, incompreensivelmente, diga-se, o fastio e azia de muito estudante: “Os Maias”.

29 comentarios:

Shark disse...

Presumo que terei a oportunidade de abrir caminho a uns parcos comentários que este escrito há-de merecer.
As gentes hoje não só desdenham de Eça, como de muitas mais coisas que deviam merecer respeito.

Por exemplo, isso lá dos apupos em Estrasburgo ou onde foi.
Os cavalheiros se estão contra a Europa estão lá a fazer o quê?
Quem está contra, nem sequer se devia apresentar a sufrágio...
Antecipo que venha mais cedo ou mais tarde aqui o Torquemada dos comentadores e dos blogues insultar-me, mas estou-me borrifando.
Aqueles senhores são certamente o produto da tal escola inclusiva que por aí se apregoa. Nem civilidade aprenderam.

E quanto ao ordenado mínimo tivessem aquelas cavalgaduras e outras (algumas governam-nos) que se cofiar com aquela quantia e eu queria se continuavam a sorrir...

Sei que existes disse...

Deliciei-me a ler esta bem interessante história!
Beijocas grandes

António de Almeida disse...

Ainda o apanhamos!
- Ainda o apanhamos!

-O Carlos e o João, bem tentaram apanhar o futuro, eles que tanto criticaram o presente, acabando por se emaranharem nesse mesmo presente. Adoro "os Maias" em particular, "Eça de Queiroz" em geral, se vivesse no presente, as Farpas seria um Nobel garantido, já que matéria hoje por cá, existe em abundância! Quanto aos temas do post, salário mínimo? Sei que existe, pessoalmente não tenho conhecimento de quem o pratica, desconheço até, como pode alguém viver com verbas dessas, e que produtividade esperam os patrões obter dos seus funcionários. Digo patrões, porque sei que existem empresas que não andam aí a fazer nada, para as quais, mais cedo ou mais tarde, o mercado por si mesmo, se encarregará de lhes proporcionar o destino merecido, porque um empresário, tem outra visão dos seus trabalhadores, sabe que a produtividade anda a par da motivação, e certamente que não utilizará estes valores como referência. Quanto ao fait divers verificado no parlamento europeu, também estou a favor da realização do referendo, não quero contudo ser confundido com a extrema esquerda, nem com a direita do sr Le Pen, que surjem á boleia, sempre que a oportunidade se lhes depara!

Joshua disse...

Tarantino, OS MAIAS são a mais perfeita delícia da literatura portuguesa: deveriam ser lidos todos os dias, em voz alta, que é como leio todos os textos, bem expressivamente como uma Música Natural da Língua, como um Breviário de Família e em Família.

Tudo, n'Os Maias, é inigualável e deveria ser conhecido a sério pelo pescador e pelo agricultor, pelo mecânico e pelo vendedor de escapes, pelo homem do talho e pela menina da Confeitaria.

Agora, relativamente ao teu 'sample', deixa-me reforçar que o célebre «Ainda o Apanhamos» é das frases mais importantes da Literatura e da História Portuguesas porque resume tudo.

Olha o TGV: «Ainda o Apanhamos».
Olha o ordenado médio europeu dos países mais ricos: «Ainda o Apanhamos».
Olha o Mapa Cor de Rosa: «Ainda o Apanhamos».
Olha o diploma fictício e orquestrado do PM: «Ainda o Apanhamos»
Olha o vaivém espacial e a ida à Lua: «Ainda os Apanhamos».
Olha o gangsterismo da noite a metralhar justiceirescamente: «Ainda o Apanhamos».
Olha os pedófilos a arrastarem-se impunes e já tesos pelos tribunais nacionais: «Ainda os Apanhamos».

Olha o vírus da Gripe: «Foda-se, que ainda o Apanhamos».

ETC.

quintarantino disse...

Boa, Joshua... agora, sim, o "sample" está perfeito!

Daniel J Santos disse...

Brilhante obra "Quintarantiana", escrita na ironia, onde o escritor transpôs para o papel, a sua visão de alguma da nobre arte da comedia nacional.

Os meus parabéns pela obra literária.

Fa menor disse...

Brilhante!!!

"- Ainda o apanhamos!"
- Não sei é quando!...

"- Que ferro!"

Laurentina disse...

Ai Quint, brilhante, brilhante.
Esse Eça sempre tão actual e a quem la ninguém lhe liga...

Pois é mesmo essa questão da escola inclusiva que deu em merda...agora aguenta-te à "jarda"...com a má criação, com a bestialidade, com o comodismo, com a arrogância, a prepotência, com a violência, etc, etc, etc...

..."Ainda o agarramos"?...ai eu não estou tão certa disso.
Com um salario minimo de 403 euros, quando raio é que apanhamos o comboio dos 950 da Espanha?!Jamé!!... como dizia o outro (que agora diz que não disse)
Ahhh, isto causa um desanimo que até doi, e ninguém faz nada,
...Hoje a manada esta a assinar uma porra de uma sentença nos Jerónimos com canetas de PRATA gravadas individualmente para cada delegação, será que saiu do salario do Shocas?
É o saiu...tb eu queria, saiu é dos teus, dos meus, dos nossos impostos, do nosso suor.

Mais depois assiste-se no sofá aos folclores que alguns deputados fazem no parlamento...mas quando se vai ouvir os dirigentes partidários todos se demarcam.É triste, muito triste, já não ha firmesa nos principios.

Acredito mesmo que isto ja so vai à cacgaporrada grossa e dura.


Beijão grande

Laurentina disse...

adenda...

cachaporrada
em vêz de lá , deveria lêr-se já
eurodeputados
e em várias palávras falta-lhes o acento...eheheheheheh, o que fáz isto é não reler o que se escreve!!

beijinhos

Carol disse...

Como me deliciei com este teu post... Fenomenal! Tu já o apanhaste (ao Eça, claro!). E, para que saibas, esta obra ainda é estudada nas escolas portuguesas e, pasme-se, há alunos que gostam de a ler! Como vês, nem tudo está perdido...
Quanto ao que aconteceu ontem, não há mais nada a dizer. Quem não concorda, não é com este tipo de atitude que vai mudar alguma coisa!
Salário mínimo nacional? Que vergonha, senhores, que vergonha! Repararam na tentativa de chantagem que os patrões puseram em prática para que não aumentasse tanto?! E, mais vergonho ainda,é saber que muitos ainda praticam salários abaixo disso. E não são tão poucos quanto isso!
Viver com esse tipo de salário, acreditem, é um grande ferro!

P.S.: Joshua, adorei o teu comentário!

São disse...

Portugal necessita de outro Eça e de muito juízo, que é algo que nunca teve...
Bom dia!

carlos alberto martins disse...

Ó Quintas, estavas inspirado desta vez. Fizeste-me recordar os tempos em que te inspiravas nos clássicos para escrever os discursos de qum tu sabes.

ana disse...

Impecável é a palavra.

Zé Povinho disse...

Que ferro! Então faz-se lá uma coisa daquelas, vaiar o senhor Sócrates? Não, o dito até disse «gosto destes momentos parlamentares e sei bem o que os motiva: verdadeiramente aqueles deputados todos são contra a Europa». E eu que julguei que estavam apenas a exigir o referendo ao tratado! Ou será que para Sócrates o facto de eu exigir também o referendo, que aliás ele prometeu, também quer dizer que sou contra a Europa? Há uma diferença substancialmente no meu caso, eu grito uma vaias ao senhor, mas faço-o do recesso do meu lar, conforme o sugerido por uma senhora simpática do governo deste rectângulo à beira mar plantado. E acrescento ainda, chamar-lhe-ei mentirosos se não cumprir a promessa, mesmo tendo votado em branco!
Abraço do Zé

miguel disse...

Muito bem. Sim senhor.

Compadre Alentejano disse...

Gostei muito, parabéns.
"Os Maias" é uma obra fantástica, pena é que os jovens não gostem lá muito, e a ficção do Quintarantino está muito actual.
Um abraço
Compadre Alentejano

Blondewithaphd disse...

Quinn at his very best!

(nothing else to say)

Tiago R Cardoso disse...

este é sem duvida um grande momento de inspiração tua, amigo Quint, daqueles que quando o Notas editar um livro de textos (modesto, não ?), este será um deles.

De facto o que seria de perguntar é se aqueles senhores deputados que estão lá na Europa a detestam tanto, porque é que continuam lá.

Para defenderem a sua desintegração?

Quanto ao salário mínimo, 403 euros, isso dá para quê, nos dias de hoje ?

Já agora, amigo Jashua , bem completado sem duvida.

al cardoso disse...

Os "Maias" e uma excelente obra do querido Eca ( com cedilha)!
Ja se ve que o seculo XIX, por vezes volta no seculo XXI, pricipalmente promovido pela "socratissima persona"!

Como deve ter reparado tenho andado um pouco alheio da blogosfera, mas ca venho de quando em vez.

Parabens pelo novo visual e, um abraco do d'Algodres.

C Valente disse...

Gostei da narrativa�
sauda�es amigas

Vieira Calado disse...

Senti um baque no coração, quando pensei que, na taberna ou lá que era, iam pedir dois copos de coca-cola...
Um abraço

Tchivinguiro: onde nasci. disse...

No NATAL não peço, mas dou quanto posso.

Terno e muito Feliz Natal para ti. Abençoado e pacífico 2008.

Beijinho.

O Guardião disse...

Ainda o apanhamos.
Só se for o electrico que até anda devagar, porque o combóio do desenvolvimento e do bem estar social, esse vai muito depressa para nós!
Cumps

NuNo_R disse...

Boas...

o Eça é intemporal...

e grande parte dos seus "escritos" cada vez têm maior aplicabilidade...


abr...prof...

Pata Negra disse...

Nem percebo com é notícia o Sócrates ser vaiado. Boa adaptação. Continuamos na mesma, vale mais uma vaia no estrangeiro do que 200 000 manifestantes em Lisboa! Embora, como sabemos, sejam sempre os mesmos 60 comunistas!
Um abraço UH!UH!UH!

antonio disse...

Belo texto de ficção! o nosso primeiro apupado pela esquerda? Que imaginação!

Pois parece que não evoluimos muito deste o tempo das ficções do Eça, ainda corremos e talvez com um bocadinho de sorte, ainda o apanhamos... é a nossa alma lusa.

Lampejo disse...

Qun,

Lendo-te.

No final...zinho, mas sempre te lendo com ternura!


(a)braços ;)

FERNANDA & SONETOS disse...

Olá amigo Qintarantino, deixo-lhe um abraço de muito carinho.
Fernandinha

Peter disse...

Ainda bem que isso acontecia no tempo de Eça de Queirós.
Hoje seria impossível!