Dias sobrantes

Dias sobrantes são estes dias em que se recolhem os restos das fitas e dos embrulhos, despojos da noite em que o Menino Jesus, ou o Pai Natal, jogaram ao faz de conta com os nossos sapatos. Há uma espécie de vazio que é como um hiato para o Ano Novo. Procura-se não fazer ainda contas à vida não vá o balanço revelar-nos que se gastou de mais e hipotecar a pseudo-alegria que se pretende mostrar à chegada do 2008.

Nesta quadra natalícia não deveriam existir pessoas acabrunhadas pela obrigação de cumprir todos os preceitos de festas recheadas de trabalho e rombos no orçamento.

Porque a quadra natalícia, segundo o que se ouve, é uma quadra de paz e amor e as manifestações de amor deveriam ser espontâneas e isentas de impostos. Quem, senão a sociedade de consumo para inventar, de forma perversa, estas dádivas/sacrifício?

E a génese destes Natais, esventrados dos valores mais nobres, começa a desenvolver-se muito antes do indivíduo se dar conta. Talvez nas escolas quando os professores do ensino distribuem a lista dos materiais “necessários” para o início do ano. Uma lista, quase atentatória da dignidade humana, se tiver em conta a capacidade económica da maioria das famílias. Um lista que marca aqueles cujas famílias não podem satisfazer tamanhas exigências. Uma mãe em dificuldades mostrou-me, aflita, o rol de materiais a comprar para o filho de 7 anos: lápis de cera, lápis de cor, guaches, aguarelas, godés, pincéis, plasticinas, etc. (tudo à grande e com marcas referenciadas). De que serve aproveitar os livros quando os restantes materiais assumem valores incomportáveis? E assim se começa a socializar o longo processo do consumo desenfreado assente nos critérios da diferenciação.

Um processo de desamor e de infelicidade. Um processo em que o aluno, e mais tarde o trabalhador, vê no colega um rival e não um companheiro. Um processo em que as pessoas odeiam quem pensam que tem algo que elas não possuem e gostariam de ter. Uma competitividade obsessiva, patológica que se faz sentir também na blogosfera que é um mundo virtual em que a concorrência é uma mera hipótese ao nível do ego e não da consistência.

Chegam a ser patéticas certas defesas de espaço e de opiniões num individualismo primário em toda a sua plenitude. Como se também aqui se estivesse em presença de um processo de estratificação virtual!.. Só uma pobreza de valores poderá conduzir à defesa dos espaços como feudos, como elites reservadas a opiniões abalizadas.

Malditos dias sobrantes que são cada vez mais. Porque serão dias sobrantes, todos aqueles em que o homem não é feliz por culpa de si próprio. Por não ser capaz de olhar à volta aceitando que o seu olhar é um olhar idêntico a tantos outros olhares. A diferença é apenas ser o seu olhar e nenhum outro.

Malditos dias sobrantes nestes modelos anti-sociais que negam o Homem. Não o homem-lobo que esse não pode ser negado. Mas o homem social e solidário capaz de partilhar e de amar como só ama quem partilha.

Mas partilhar não é fazer uma colecta para dar um cheque viagem de 4.000 euros ao nosso Primeiro-ministro. Partilhar é não ter muros nem fronteiras na gestão justa e racional dos recursos.

Partilhar é mostrar o que se pode e o que não se pode, o que se tem e o que não se tem, ao invés de mistificar os números para dar uma visão optimista dos resultados.

A mensagem de Natal de José Sócrates também veio embrulhada em papel de seda com fitas vistosas: segurança social recupera, criam-se novos empregos líquidos, há mais estudantes no secundário e no ensino superior, a economia também está recuperar com um deficit abaixo dos 3% e uma performance que permite enfrentar os desafios da globalização.

Também aqui o consumismo desenfreado da palavra fácil. Estes dias sobrantes levarão mais tempo a passar e as fitas a serem recolhidas.

A menos que a prenda que está para além dos laços e papéis de embrulho, fosse mesmo autêntica o que, com grande pena minha, não consigo acreditar. Hoje mesmo choveu e vi pessoas com fome.

FELIZ ANO DE 2008. SEM DIAS SOBRANTES.

29 comentarios:

quintarantino disse...

Tenho para mim que a culpa da existência dos ditos "dias sobrantes" é nossa.
Quando digo nossa, digo de cada um enquanto ser activo, supostamente pensante, e que comodamente se demitiu/demite da maioria das suas quase imposições sociais de cidadania!

SILÊNCIO CULPADO disse...

A culpa dos dias sobrantes deve-se a uma má consciência dos cidadãos. Essa má consciência é criada e alimentada pelo poder para servir interesses que sustentam esse mesmo poder. Por sua vez, os cidadãos conferem, através do voto, legitimidade ao poder para lhes criar a má consciência. Dito assim parece que não há solução. Mas há. O esclarecimento e a educação são a base de tudo. Sem eles o homem nunca será livre.

sol poente disse...

No seguimento do que disse a Silêncio Culpado, todas as opiniões e intervenções são úteis e importantes para o esclarecimento. A blogosfera pode desempenhar um papel fundamental na mudança das mentalidades. Assim os diferentes intervenientes possam estar à altura.

Manuel Rocha disse...

Gostei desta forma de questionar a equidade social, de confrontar a ética e de roçar ao de leva a sustentabilidade do modo de vida que promove tantos natais.

Apeteceu-me perguntar porque não se escreve mais assim antes destes eventos cuja deriva já é sobejamente conhecida. Mas seria batota porque sei que a resposta dá pelo nome de um salutar pudor e respeito pelas crenças ou simplesmente pelos sonhos alheios, pois ainda há quem os tenha genuinos.

O Eco falava há tempos do "carnaval perene" em que transformamos o quotidiano, com dias especiais para tudo e para o seu contrário, e eu gostaria de ver socialmente reflectida esta forma algo infantil como se comemora a suposta chegada à "terra da abundância".

O Guardião disse...

O individualismo fomentado por uma sociedade em que o egoísmo e a ambição cega predomina, leva à inevitável exclusão de quem, por um motivo ou outro, não consegue atingir determinados patamares de riqueza ou notoriedade. A fraternidade e a partilha são sentimentos que começam a rarear, ou pelo menos não se mostram nem se demonstram, sendo mesmo encarados como possíveis defeitos. Mesmo nesta quadra isso aparece em doses maciças, para que imediatamente caia no esquecimento. O Natal é sempre que o homem quiser, mas é preciso que o queira de verdade e deixe de ser apenas um fogacho que fica bem numa determinada quadra.
Cumps

antonio disse...

Malditos dias sobrantes que são cada vez mais.

Perfeito. E numa frase se resume o drama de muitas familias portuguesas...

conchita disse...

É o mundo em que vivemos, enfim...
Espero que tenha tido um Bom Natal!!

António de Almeida disse...

-Um texto para reflectir sobre os valores em que a nossa sociedade assenta. Apenas um pormenor, o individualismo acho-o salutar, por oposição a atitudes próprias dum rebanho, que alguns procuram impôr á totalidade da sociedade, já o egocentrismo será criticável. Para começar, que cada um um faça uma auto-avaliação, e veja onde se enquadra, já será positivo reflectir sobre nós próprios.

Joshua disse...

Em conversa de família, disse que o meu coração está além disto, de todas estas rotinas e coisas forçosas de Época. Que só no silêncio e na busca da essencialidade interior, é possível superar a futilidade e exterioridade civilizacional vigente e então ser Feliz, e então ser capaz do dom de si, ápice da Partilha.

Não é a primeira nem a última vez que, ao ver reportagens televisivas sobre os Conventos de Clausura, me sinto convicto de como será realizador e feliz terminar assim os meus dias, caso chegue, como desejo, a bem velho:

Sumerso no silêncio e na oração. Cheio de Canto Orante. Cheio de Amor e irradiando-O. Vigilante como as Virgens Prudentes do Evangelho.

A palavra ódio, em literatura, pode ser retórica provovadora suficiente para dar parcialmente origem a uma reflexão intensa e necessária, como esta tua, Lídia. Nem tudo o que se lê é biográfico e muito menos autobiográfico. É, decisivamente, provocacional, desinstalador, desassossegante.

Cada dia é tudo. Não pode haver dias menos, dias restantes, semidias.

Blondewithaphd disse...

Subscrevo. Concordo. And on top of it all it is superbly written, what for me is always the soul of a text!

Tita - Uma mulher, Um blog, algumas palavras disse...

Que o Novo Ano Vos traga...
Cor, calor, alegria, magia, energia, felicidade, simpatia, paz, saúde, amizade, amor, sentimentos, emoções, agitações, lágrimas e canções...tostões

Que cada dia de 2008 vos faça ...
Sentir, sorrir, sonhar, imaginar , acreditar e Viver com toda a intensidade que merecem.
Aprendam, sintam, reajam, lutem pelo melhor, acreditem!

Que seja um Ano de...
paz, tolerância, compreensão, conforto, justiça e Amor

Que estes números mágicos... 2008 nos unam cada vez mais e intensifiquem a amizade que nos une e a cumplicidade que nos caracteriza. Sejam felizes e façam feliz alguém... todos os dias e por favor, cheguem ao fim do ano e digam:
Caramba, Valeu a pena!!!!
Desejo-vos o melhor ano de sempre, durante o qual alcancem os vossos melhores e mais secretos sonhos e que realizem e concretizem os melhores objectivos.
Beijinhos

BOM ANO!!!!!!!

Que 2008 seja o melhor ano de sempre
The Best!!!!

Tiago R Cardoso disse...

Todos os dias são dias para serem vividos plenamente, aproveitados todos os segundos.

Eu cheguei a ponto em que aprendi, que tenho unicamente de fazer contas com o que tenho e não com o que vier a ter, ou seja nenhum dia para mim sobra, antes pelo contrário falta-me dias para fazer tudo aquilo que tenho de fazer.

SILÊNCIO CULPADO disse...

Um esclarecimento que se impõe ao reparo do António Almeida

Quando se combate o individualismo combate-se o egocentrismo. De forma alguma combater o egoísmo poderá significar a adopção de modelos colectivistas que negam as aptidões específicas de cada indivíduo.Sou uma defensora da diversidade e da contradição como formas de desenvolvimento. Só na diversidade há enriquecimento colectivo. Porém, essa diversidade de aptidões específicas só corresponderá a um modelo social justo se forem respeitadas as igualdades de oportunidades. E não estão a ser respeitadas. A escola continua a ser reprodutora dessas desigualdades. Mas isso daria tema para um novo post.

Sniqper ® disse...

Quando será que os homens deixam de estar divididos e começam o caminho para a construção de um Mundo sem dias sobrantes...???
Mais um ano vai começar, Portugal continua com as figurinhas de sempre no poleiro, com a mesma conversa, sem soluções e cheios de falsas promessas que só vão aumentar ainda mais o buraco em que já caminhamos...Até quando!!!

NINHO DE CUCO disse...

Os dias sobrantes são os dias em que homem tem hipotecados os seus valores sejam eles morais, sejam eles materiais por ter cedido à manipulação de uma sociedade doentiamente competitiva. Dias sobrantes são dias vazios que estão para além da vida. Para que esses dias não se reproduzam é imperioso o esclarecimento e a educação cívica em que a escola deverá ter um papel fundamental.
Os debates que este blogue tem proporcionado estão a contribuir para o combate dos dias sobrantes.

Carol disse...

Nada mais posso acrescentar a este texto... Parabéns pelo bom trabalho!

Compadre Alentejano disse...

Não gosto de dias sobrantes, de modo que tento organizar a minha vida para que tal não aconteça, mas às vezes...
Quando fui para a primária, na década de cinquenta, levei apenas uma prenda de ardósia, um giz e o livro, é pouco, mas ainda há dias vi um documentário na TV em que os alunos numa escola de África escreviam com os dedos no chão de terra da escola...
Para mim, se o prof. exige, a escola terá que ter o material para exclusivo uso dos alunos.
Parabéns pelo post.
Um abraço
Compadre Alentejano

Manuel Rocha disse...

À autora e agora com mais tempo.

Gostei da imagem do "homem-lobo"em oposição à do "homem-social".

E comento-a porque pareceu-me que a autora não usou a analogia em sentido literal.

Explico.

O lobo é um animal social, que se organiza em torno de critérios de hierarquia e ordem e de outros de distribuição pouco ou nada equitativos. Além disso o lobo é territorial, e a entrada de outros grupos nos seus dominios é principio certo de uma dinâmica conflitual.

Parto destas analogias para desmontar o que poderia passar por uma utopia ingénua: a expectativa de uma sociedade de humanos altruistas. A existir ela não encontraria paralelo nem na natureza nem na história. Daqui se poderia talvez inferir que não seja essa a nossa condição, e essa constactação conduziria a uma outra ilacção: à necessidade de regras de governança que atenuassem as dinâmicas naturais de dominância e territorialidade e as inevitáveis consequencias de marginalidade e exclusão.

No entanto, históricamente, os homens mostram-se mais sensiveis à liderança dos Alfas do que das razões.

Tal como entre os lobos, alfas fracos ou simplesmente permissivos, são entre os homens factor de deriva conflitual dentro do grupo, conduzem ao enfraquecimento do seu valor como corpo social coeso e consequente fragilidade face a ameaças externas.

A funcionar esta analogia, que caminho nos sobra ? Regressar ao paradigma do Déspota Iluminado ?

Zé Povinho disse...

Quando será que aprendemos a valorizar mais as relações humanas, a amizade, o amor, a fraternidade? Há coisas mais importantes que os simples objectos de consumo, quantas vezes em duplicado ou adquiridos para substituir outros que cumpriam perfeitamente a missão.
Será pela influência da publicidade, ou será também por vaidade?
Abraço do Zé

NÓMADA disse...

O homem pode ser vaidoso e certamente que o é. Mas é a sociedade em que está inserido que, através das representações dos media, o levam a desejar o que considera serem símbolos de status. Se aprendermos a não valorizar o superfluo e muito menos incluirmos na escala de valores quem tem, ou não tem, acesso a determinados bens de consumo, provavelmente esses bens deixariam de ser apetecidos. Há pois que reformar as mentalidades para que se possa usufruir de vivencias mais sadias.

MIMO-TE disse...

Como é possivel permitirmos a existencia desses dias sobrantes!?
A vida é uma constante aprendizagem, e há que a aproveitar verdadeiramente. Saber viver é estar atento ao outro, aprender com o outro, estar disponivel em todos os momentos. Não tenho dias sobrantes, não os quero. Pois é nas pequenas coisas, nos pequenos momentos e no lugares mais simples que surgem os melhores momentos de partilha e felicidade. É preciso tão pouco para ser-se feliz!!! É pena o homem ter tanta dificuldade em aprender o que afinal é tão natural e o pode tornar tão feliz...

Parabéns pelo texto! :)))

Mimos meus

Lampejo disse...

Como dizia o Drumond, lá do seu jeito, e digo aqui do meu:
o problema não é exatamente inventar é ter que nos
(re) inventar depois desses gastos desenfreados.

Uma lição seu texto.

Parabéns!

(a)braços...

Boris disse...

Os dias sobrantes são uma invenção capitalista para engordar bancos e grandes superfícies criando ilusões a quem é explorado.
A competitividade exacerbada é outra das figuras do capitalismo selvagem.
É rídicula essa competitividade entre blogues. Só demonstra que há ainda muito caminho a percorrer até nos considerarmos evoluídos.

Pata Negra disse...

Olhem, eu acho que as coisas estão a mudar, há males que vêm por bem.
A crise começa a fazer o pessoal olhar para o Natal com outros olhos!
Pelo que vi, acho que o Natal está a mudar e para melhor...
Tive duas prendas: duas meias!

Å®t Øf £övë disse...

O melhor mesmo é não fazer nenhum tipo de balanço, mas sim aproveitar estes dias para tomar balanço para o um ano cheio de dificuldades que aí vem... mais um...
Bjs.

Cati disse...

«Um processo de desamor e de infelicidade. Um processo em que o aluno, e mais tarde o trabalhador, vê no colega um rival e não um companheiro. Um processo em que as pessoas odeiam quem pensam que tem algo que elas não possuem e gostariam de ter. Uma competitividade obsessiva, patológica que se faz sentir também na blogosfera que é um mundo virtual em que a concorrência é uma mera hipótese ao nível do ego e não da consistência.»

Silêncio:
Tomei a liberdade de copiar estas palavras porque julgo que são as que melhor ilustram o porquê dos "dias sobrantes".

A falta de amor, de solidariedade verdadeira, de sentido de PARTILHA.

Que 2008 seja, para todos, um constante lembrar e viver das palavras AMOR; PARTILHA e SOLIDARIEDADE.

Somos humanos... somos capazes!

Um grande beijo e um excelente 2008!

Pata Negra disse...

Existe aquela máxima inquestionável:
vale mais sobrar que faltar!
E que tal se se arriscasse faltar um bocadinho para evitar desperdício?!

7 Pecados Mortais disse...

Enquanto existirem vários rebanhos comandados por um só pastor, muitas ovelhas se irão perder...

FERNANDA & POEMAS disse...

Olá minha querida Lídia, tenho uma prendinha para ti no FOTOS-FERNANDA.
Beijinhos,
Fernandinha