Como se matam as escolas profissionais!

Uma das afirmações recorrentes da opinião pública é que o Estado delapida, e bem, recursos financeiros. O bombo da festa costuma ser a função pública.
Já se fala menos do desperdício de recursos humanos.
E muito menos quando o deitar pelo cano abaixo é de infindáveis recursos financeiros e de experiências de anos.

É o que está a acontecer com o ensino profissional em Portugal.
Não com o que agora os luminosos da Educação descobriram que poderiam canalizar para a dita “escola inclusiva”, antes aquele que durante anos respondeu de forma excelente às necessidades formativas nesse sector.

O Estado, que peca muito mais por omissão que por acção, incentivou a sociedade civil a que, por si ou conjuntamente com agentes públicos regionais e locais, avançasse para a implementação de escolas ligadas ao ensino profissional nas quais aparecia como promotor.

A determinada altura da caminhada, entendeu que estes estabelecimentos de ensino podiam e deviam caminhar por si e obrigou (é este o termo) a que todas as escolas profissionais se assumissem como pessoas colectivas nas quais o Estado já não teria o papel de promotor. Assim sucedeu. Umas assumiram-se como associações, outras como fundações, outras como cooperativas.

À boa maneira lusitana, o Estado continuou a reservar para si o papel de financiador das escolas (sendo, por exemplo, quase crime de lesa pátria uma escola profissional procurar maximizar os mesmos espaços com cursos não apoiados pelo Estado), de tutela inspectiva e fiscalizadora (aqui nada a opor) e obrigando sempre as mesmas escolas a funcionarem segundo a vontade imperial do Estado sem contudo as reconhecer a si, ou aos seus docentes, como actores principais do processo educativo.

Com Maria de Lurdes Rodrigues (que teve entradas de leão a prometer muito e rapidamente mostrou que não quis ou não soube levar a bom porto ideias quiçá excelentes), entrou-se num processo de asfixiamento das escolas profissionais.

Numa política de terra queimada verdadeiramente incompreensível, a aposta agora é nas escolas públicas que, às tantas, já nem se sabe se têm vocação para o secundário se para o profissional (já para não falar lá naquela coisa incompreensível de um tipo em 3 ou 4 meses aprender tudo o que era suposto demorar 3 anos. A mim dizem-me que é a escola da vida, eu contraponho que é o brilhar para a estatística).

Quanto às outras, a maior parte entra em processo de falência técnica pois o Estado desenvolveu nova política: desinveste num processo que desde 1989 tem tutelado, conduzido e financiado com reconhecidos frutos!

Lentamente tem vindo a dar passos seguros para matar o ensino profissional tal como o conhecemos.
Não se antecipa nada de bom quando um Ministério decide que a experiência que vários actores adquiriram ao longo de quase 20 anos não vale nada. É para matar!

Uma das formas de “assassinar” o ensino profissional consiste na não transferência atempada dos fundos atribuídos a cada escola. Existem casos em que as dívidas do Estado ascendem já às largas centenas de milhar de euros.
Não sei se destas operações de cosmética e mera habilidade orçamental resulta algum benefício para a sacrossanta política de combate ao défice, mas às tantas…

Sem ser coincidência, ou mostrando como se anda a gerir, em 2008 parte das subvenções públicas deixarão de vir do mesmo programa. Há um novo. O problema é que não há regulamentação. Ou seja, sem regulamentação, não há orçamento, sem orçamento não existem verbas…
É simples, não?

Ainda mais estranho, é o facto de o ensino profissional em Portugal ter uma associação que, aparentemente, não serve para coisa nenhuma.

Daí que, hoje como em 2001, as palavras dadas à estampa no “Público” por Joaquim Azevedo - http://www.joaquimazevedo.com/ - se mantenham actuais: “A única coisa que parece estar errada é mesmo haver ensino profissional em Portugal. Há muitos aspectos a melhorar, como é evidente. Mas esta situação tem de ser desempatada. Entretanto, a Comissão Europeia louva, a OCDE admira, outros países visitam-nos e tentam retirar lições. A tratar assim algum sucesso que alcançamos, só nos restará chorar e praguejar sobre os sucessivos insucessos”.

23 comentarios:

ANTONIO DELGADO disse...

É tudo meuito bem observado mas o pior de tudo e que me afecta é a formação tipo documento Zip. (tres meses quando levaria tres anos)...voltarei a passar nesta postagem.

Um abraço forte e fraterno
António.

ana disse...

Sempre ouvi dizer que aquilo de que Portugal necessitava era de técnicos e quadros intermédios, capazes de desenvolverem um conjunto de habilidades e capacidades profissionais mal saíssem da escola.

Este sub-sector de ensino tem conseguido isso com amplos resultados. Aliás, as escolas que não conseguiram responder às solicitações do mercado laboral em que se inseriam acabaram por fechar.

Agora, o Estado parece ter descoberto a fórmula mágica. Canaliza para as escolas secundárias este tipo de cursos, coloca lá os alunos com menos apetência para o estudo meramente académico e, de uma cajadada só, mata vários coelhos: vai baixar o número de reprovações (desculpem, eles agora gostam que se diga retenções, mas eu ainda sou do tempo em que se chumbava) de forma artificial, vai arranjar/inventar uma alegada escola nova (mas vai
escamotear que na maior parte dos casos a mesma não está equipada para responder aos novos desafios) e vai conseguir ainda a proeza de colocar professores para os quais aparentava não saber o que lhes fazer.

Querem melhor?

Os outros, esses que se amanhem. Fecham-se umas escolas, deita-se fora a sua experiência e manda-se mais gente para o desemprego?
Azar!

Shark disse...

E admiram-se porquê?
Nós somos assim.
Costumamos desperdiçar e desdenhar do que temos de bom.
Aquilo que temos de mau tmabém não procuramos melhorar, já que nos contentamos em falar sobre o assunto desdenhando e criticando. Sem quase nunca apontar soluções, apresentar alternativas.
Mas também não é de admirar.
Apresentam-se assuntos mais sérios e a maior parte passa, encolhe os ombros e sai de mansinho.
Ou, em alternativa, como algumas "marias" camufladas que por aí andam, apresentam-se como faróis da humanidade!

SILÊNCIO CULPADO disse...

Tudo o que aqui dizes é verdade, Quint, mas os nossos governantes vivem para as estatísticas e para dar trabalho a certas empresas de estudos, formação, universidades privadas e consultorias. Os valores reais não interessam para nada.Há quadros excelentes, investigadores excelentes, operários excelentes. Incentivos para eles? Zero. Nós não temos interesse em formação profissional de qualidade uma vez que o mercado de trabalho interno continua a não absorver as capacidades existentes.
Vivemos para poisar para a fotografia enquanto o país real estiola, sofre e desaparece.

António de Almeida disse...

-As escolas profissionais, têm na maior parte das áreas de formação, obtido bons resultados, conseguindo colocar profissionais no mercado de trabalho, os quais pasme-se! não têm engrossado as fileiras do desemprego, antes pelo contrário, alguns deles, não só têm tido facilidade em obter colocação, como passado pouco tempo, em algumas áreas, revelam iniciativa empresarial, criando pequenas empresas, graças a uma boa formação de base, obtida nas escolas profissionais. Voltar ao modelo da escola secundária? aprender em 3 meses o que demora 3 anos? não me parece! A educação já foi paixão, esta ministra quer ter razão, acho que tudo não passa duma desilusão!!!

Manuel Rocha disse...

Uma questão que me parece que seria interessante discutir em complemento desta, é a obsessão moderna por reduzir a aprendizagem a um ambiente e formato escolar.

Não haveria outras alternativas ?

Acaso não existem profissionais competentissimos que aprenderam os seus metiers em contexto não escolar ?

Seria assim tão má ideia "repescar" a velha ligação mestre/ aprendiz para aliviar um bocado a pressão que se colocoa sobre a instituição "ensino" ?

Valerá a pena pensar nisto ?

quintarantino disse...

Caro Manuel Rocha:

Permita,desde já, que felicite vivamente a sua participação neste espaço. Era isto que procurava quando decidi iniciar o projecto do NOTASSOLTAS.
A sua participação vem juntar-se a muitas outras que, lendo, interrogam, debatem e surgem como antítese da tese.

Sobre a sua interrogação, é óbvio e evidente que existem pessoas que aprenderam inúmeras competências em ambiente não escolar e que têm/devem ser reconhecidas por isso.

Não se pode é querer circunscrever esse percurso a um curso acelerado de três meses findo o qual se sai de lá com um diploma que garante que aquela pessoa tem o 9º ano.

Para mim, isso é uma fraude.
Sem tirar nem por.

Manuel Rocha disse...

Quin :

Óbviamente, concordo !

A minha sugestão ia para lá desse aspecto, como percebeu.

Exemplifico: eu não consigo formar um podador sem uma tesoura de poda numa mão e um serrote na outra. Enquanto podamos, posso explicar-lhe o que houver a saber sobre fisiologia vegetal, podemos falar da origem do Universo, da questão da fé. No fim do dia, os pessegueiros estão podados, o tipo sabe mais umas coisas e além disso ganhou a jorna e eu complementei a reforma...

Aquilo de que estou a falar é de levar a escola para a rua, para a familia, para a sociedade...

Já reparou que hoje é possivel parir a criança e "institucionalizá-la" no més seguinte ? Já reparou que há "crianças" institucionalizadas" até aos vintes e tais ?

Disse quem que tudo depende da escola ?

Não será essa insistência peça importante na explicação do seu insucesso ?

Tiago R Cardoso disse...

O que estamos a assistir em Portugal é uma correria ás estatísticas, mais do que formar pessoas este governo avançou pelos números.
Eu tentei o antigo curso técnico-profissional de Informática, ou seja no final de três anos de estudo seria técnico de informática, infelizmente e por estupidez minha não consegui lá chegar, embora acredite que nessa altura o sistema dava relevância a disciplinas, embora importantes, a sua aprendizagem ou não, não considero que seriam importante para o meu futuro profissional, sendo assim cheguei ao 12º ano como um excelente aluno a informática mas sem possibilidades de ter o diploma de técnico.
Dai eu considerar que seria mais interessante apostar na formação mesmo, com o objectivo da colocação no mercado de trabalho pessoas que realmente soubessem o que estão a fazer do que, conforme se tem vindo a notar, formar pessoas num ano ao contrário dos três anos normais.
A aposta no ensino profissional deveria ser evidente, mas consistente, ou então se acham que para as estatísticas devemos ter muitos licenciados, façam o favor de dar condições para que trabalha das 8 as 19, poder estudar, mas estudos a sério, não diplomas a torto e a direito.

antonio disse...

Meu caro, com uma politica de baixos salários as escolas profissionais são um desperdício de recursos. ;)

Blondewithaphd disse...

Education is a topic that always interests me deeply. As I see it, education in Portugal, instead of being something for the better of the population, is a national problem. Governments come and go and the problem stays. I defend "ensino profissionalizante". Not everybody has to go to university. We can't just have "doutores e engenheiros". I look at other countries that invest massively in professional teaching and look at where they are. Germany, for example, started professional schools in the 19th century! Need I say anything else?

Daniel J Santos disse...

Seja qual for o tipo de ensino o importante é que seja um que realmente ensine, não seja para aumentar números e estatísticas.
Acho "interessante2 que se aprenda num ano o que se devia aprender em três.
Parece-me que a aposta devia ser na formação, criando-se profissionais dirigidos para sectores em falta no nosso país.

NINHO DE CUCO disse...

Como se matam as escolas profissionais... Pois Quintarantino elas morrem mas também não são precisas num país que está a morrer e que as novas oportunidades são o desemprego. Desde que dê para fazer uns gráficos a mostrar evolução nas tais apresentações, bem estudadas, de José Sócrates, o resto não tem importância nenhuma.

JOY disse...

Acho o comentário do Manuel Rocha muito interessante e concordo inteiramente com ele ,deveria-se tentar arranjar maneira de criar sinergias entre a área Escolar e a técnica de modo a formar ao mesmo tempo profissionais competentes e com formação Escolar ao nivel de pelo menos 12º ano isto não pode obviamente ser conseguido em "três meses "e feito por atacado.

JOY

NÓMADA disse...

Este país está entregue à bicharada. E quando digo isto não quero que, alternando o Sócrates com o Menezes, as coisas fiquem melhor. O que eu quero mesmo dizer é que está entregue à bicharada.O Estado delapida recursos, trabalha para as estatísticas e formação profissional é tudo menos com ele. Ou melhor dito: faz umas encenações para mostrar que há que profissionalizar administrando competências específicas aos alunos que não querem seguir a carreira académica, mas é tudo para inglês ver. Os que tiram cursos superiores são humilhados porque dizem que os cursos não prestam. No entanto, com esses cursos tirados cá e que não prestam, fora de Portugal há valores brilhantes em todas as áreas como se pode verificar se visitarem o meu blogue de Valores Portugueses. Os que não tiram cursos superiores agora têm essa entretenha dos curriculos alternativos mas as PME´s estão a fechar por não aguentarem a concorrência chinesa, a concorrência das grandes superfícies e grupos económicos e ainda as dificuldades inerentes à perda de poder de compra dos portugueses. Associados a estes constrangimentos vêm ainda as políticas financeiras, altamente gravosas para os nossos produtos, e as regras da ASAE a lixarem todo o pequeno negócio e capacidade de sobrevivência. Face a tudo isto pergunta-se: vale a pena preocuparmo-nos com as escolas profissionais?

Manuel Rocha disse...

Olá Nómada :

O tipo de discurso que assina é de fácil adesão.

Mas quando o leio fica-me uma pergunta terrivel : quem é que vive neste país ? O governo e mais ninguém?!

Esta manhã cheguei às 10.35 a uma direcção regional onde trabalham 203 funcionários para tratar de um assunto. Encontrei quatro pessoas na cafetaria e uma na casa de banho ! E tive de esperar pela bica porque a máquina ainda estava a aquecer.


Quem é "o Estado" ?

Cati disse...

É verdadeiramente uma vergonha o que está a acontecer.

Concordo com o Joy e com o Manuel Rocha e ainda acrescento:

Os RVCCs e as Novas Oportunidades são exemplos paradigmáticos das medidas que este governo aprecia: fogo de artifício para o povão ver e aplaudir. Depois, vai-se a ver, e as pessoas passam três meses na escola, fazem um trabalho e aí está o 9º ano fresquinho!!!

Acho óptimo requalificarem a mão de obra trabalhadora do nosso país... mas vamos fazê-lo com pés e cabeça! Senão, daqui a uns tempos, é só ir pedir o diploma à secretaria...

Carol disse...

Concordo com muito do que foi dito anteriormente, nomeadamente com o Joy e o Manuel Rocha.
Já agora, deixem-me acrescentar que os famosos três meses também dão para obter o certificado do 12ª ano...
O cão é o melhor amigo do Homem, a estatística é a melhor amiga do Sócrates! Porreiro, pá...

Compadre Alentejano disse...

Eu andei numa Escola Comercial e Industrial e tive muito pena quando acabaram com elas. Agora querem acabar com as Escolas Profissionais, mas que raio de governo este?!...
Talvez as Novas Oportunidades fiquem mais baratas e dão uma produção maior e mais rápida...
Um abraço
Compadre Alentejano

7 Pecados Mortais disse...

Lendo o post que está muito bem, como sempre e lendo os comentários de Manuel da Rocha, Tiago, Silêncio C., Joy e Nómada, nada posso acrescentar, todos falam de aspectos importantes e a ser inseridos num post já muito bem fundamentado. Abraços.

O Guardião disse...

Os nossos governantes são exímios em encher a boca com boas intenções e na prática o que fazem é asfixiar tudo em que metem a mão. Quadros intermédios é o que quase não há, profissionais como os que saíam no passado das escolas comerciais e industriais rareiam, ao contrário de doutores disto e daquilo, ou advogados, engenheiros e arquitectos, muitos deles sem vocação para tais cursos, mas para eles empurrados, mesmo que se saiba que o mercado de trabalho os não pode absorver nem aproveitar, devidamente.
Hoje o assunto é a Educação, e foi bem abordado, mas se virar-mos para a Cultura, para a Justiça ou para a Saúde, também podemos constatar o falhanço no planeamento para o futuro e os constantes remendos que só levantam a confusão, tentando distrair as atenções e as críticas.
Cumps

adrianeites disse...

bela e pertinente reflexão.. já tinha lido algo semelhante á sua explicação!

boa semana!

Joshua disse...

Nunca vi um governo que tanto se dedicasse à manipulação das estatísticas, o que, por outras palavras, representa a arte de trabalhar os números até que digam o que se quer que digam.

Quem assim governa para números, caga literalmente para as pessoas.