Habituem-se... vem aí um ano novo!!!!

“Eu ficara um ror de tempo à espera em frente do portão. Um portão que vos não digo nada, destes bronzes gigantescos que eu sei cá, terrível trama de lanças espetadas ali assim, na escuridão de breu.
Trazia na mão a guia de marcha… Com a hora em cima escarrapachada.
(…) – Meu cabo! É o voluntário!
- Diz-me à bestunça que entre!”

E assim se me apresentou, cabo que naquele momento, por força de umas divisas rotas, era como um marechal de campo, o neófito… mais a sua guia de marcha e o raio que o parta…

- Mostre-me lá isso, sua cavalgadura!

Tremente, lá me entregou a dita cuja…

- Então é você a nova besta?
- Sou sim, meu cabo.

Muito bem, pensei eu, e que rica bosta nos mandam.
Pus-me a olhar para aquele varapau e vislumbrei nele, escarrado e cuspido o estupor do ano que dava os últimos estertores.

Adivinhei nele um pai biscateiro nas horas vagas e profissional do desemprego nas restantes; um topa a tudo capaz de alegadamente resolver qualquer problema insolúvel em casa, na fábrica, na rua, no carro… é só dizer!
Uma mãe lançada para o desemprego ou, como algumas que conhecia de ginjeira, que costuravam de dia e à noite, a pretexto de umas horas extraordinárias, alternavam num bar abjecto com o silêncio cúmplice dos respectivos…

Este gajo devia andar num curso profissional qualquer, o estupor.
Ou lá nas Novas Oportunidades.
Isso, isso, que esta besta pelos erros de português que aqui me apresenta cedo deve ter-se escapulido à escola.

Deve ter mais três ou quatro irmãos, ranhosos e sebentos lá por casa a levantarem-se às seis da manhã para irem para a escola que agora não é na aldeia mas na cidade e a chegarem às oito da noite, lindo futuro hão-de ter os fedelhos…

E se dá o fanico o qualquer um deles devem estar mais perto do Demo que do hospital mais próximo.
Sorte meretriz terem nascido de pais que nasceram de pais que haviam nascido de pais que nunca souberam que havia mundo para além daquele mar de bosta de vaca, porco e gente…

Bem sabia o que isso era. Meu pai, que Deus o proteja lá no lar clandestino onde o enterrei, havia tido a esperteza suficiente para dar de “frosques” e se apresentar na grande cidade.
Fora o que me valera. Não fosse isso e hoje seria um sebento como o merdoso que aqui está à minha frente… sem capacidade de pagar as prestações da casa, do carro (importado da Alemanha um “mercedão” cinzento para fazer ver aquela gente), as férias no Algarve, as roupas para a catraia e ainda se afiambrar uma vez ou outra com uma brasileira ou ucraniana lá no prostíbulo onde regularmente me apresento.

Assim sou um senhor.
Escarro para o chão, as beatas têm o mesmo destino e nunca levo o lixo à rua, a mulher que o faça que eu sou homem e homem que é homem está no café a ver a bola, no sofá a ver a bola e a coçar o par que tem, a dar uma lambada no mais novo ou a benzer-se, qual fariseu, na Casa do Senhor, agora levar o lixo é que não…

Por fim, num repente, volto a mim…

“E então surgiu a toda a nossa volta qualquer coisa como olhos… coisas em plena névoa… milhares de janelas a olharem para nós… reflexos, penso eu… reflexos… Já era quase dia… a clarear lá por cima… telhados… e todo o quartel… paredes…cal…”.

- Eh lá, por sua causa, sua cavalgadura, seu pedaço de bosta, já saio tarde.
- Sim senhor, meu cabo!
- Sim senhor, o raio que o parta… vá para o… olhe, desapareça-me da frente. E prepare-se. Não pense que o novo ano vai ser melhor. Vai ser uma trampa, ouviu?
- Sim senhor, meu cabo!

“O Karvic tocava com toda a força a reunir, sacudia a sua música a escorrer, toda ela baba, às gotas”.

Fechei o livro, com estrondo pousei-o na mesa virado para a besta.
Queria que o gajo visse... o seu cabo lia.
“De três em pipa”, de Louis-Ferdinand Céline.

Mas não lhe disse nada, pois o gajo de certeza que me daria por resposta:

- Sim senhor, meu cabo!

Notas Emprestadas

Uma história de liceu

Já passou muito tempo, aconteceu no final de 1979, ou no início de 1980, não tenho certeza absoluta, era então um adolescente que frequentava o liceu, e como qualquer rapaz com 14 anos, olhava as raparigas do liceu em geral, e da minha turma mais atentamente, pois sempre dispunha do tempo das aulas para o fazer, e não apenas do intervalo, como para a generalidade das outras.

Recordo-me contudo daqueles tempos, como se tudo se tivesse passado há pouco tempo, Anita de seu nome, era, pelo menos para mim, a miúda mais gira da turma, sempre acompanhada pela Cristina, sua amiga inseparável. Tal como eu olhava para a Anita, o Zé Manel, não tirava os olhos da Cristina, como o Zé acompanhava sempre com o João, estabelecemos um trio num ápice, ainda que para o João fosse uma seca, andarmos sempre a olhar aquelas duas no intervalo das aulas.

Foi a observá-las, que descobrimos que ambas se escapavam sempre dos corredores no intervalo, tão pouco ficavam no pátio, e frequentemente chegavam atrasadas ao início da aula seguinte.

A cena repetiu-se durante 3 ou 4 dias, era hora de agir, decidimos segui-las pouco a pouco, sem dar nas vistas, não demorou muito, até percebermos que todos os intervalos, a Anita e a Cristina, iam para o fundo do liceu, depois do ginásio, onde ficava a sala de canto, onde tinham lugar as aulas de Religião e Moral, para a qual se acedia através dumas escadas sem saída, onde normalmente ninguém lá ia, nem tão pouco o pessoal auxiliar do liceu, excepto nos 2 dias por semana em que havia a disciplina.

Até que um desses dias, resolvemos surpreendê-las, decididos a apanhar, ainda hoje, não sei bem o quê, eis quando na escadaria, deparamos com a Anita e a Cristina, ambas sentadas nos degraus, cinzeiro feito em papel colocado entre as duas, e a Anita, com aquele jeito de gozo que só ela tinha, lançou, “vieram atrás de nós, para ver onde estávamos, ou para me pedirem um cigarro?" o João permaneceu mudo, o Zé como não foi a Cristina, idem, eu respondi, "para te pedir um cigarro".

Anita riu-se alto, e disse “essa quero ver, dou-te um cigarro, se te sentares e fumares aqui ao nosso lado”, virando-se para o João e o Zé perguntou se também queriam, responderam afirmativamente, não me iam deixar ali sozinho, os amigos afinal são para as ocasiões, e mais engasganço, menos engasganço, lá fumámos os cigarros.

A partir daí, passámos a ser 5 dirigindo-nos aos intervalos para aquela escadaria, começámos por comprar um maço de cigarros diariamente, 4 cigarros a cada um, e ninguém corria o risco de ser apanhado com um maço de tabaco em casa, e curiosamente, nem eu namorei a Anita, nem o Zé a Cristina.

No final do ano lectivo mudei de liceu, e desde então, nunca mais vi nenhum dos 4, no entanto, também não os esqueci.

Autor : António Almeida - direitodeopiniao.blogspot.com

Expectativas (Versão 2008)

Por vezes pensamos que o Tempo é linear: nascemos, crescemos, morremos, temos problemas, vivemos felicidades e a vida flui continuamente. Porém, o Tempo é circular. É uma sucessão esquemática de ritos e cerimoniais que usamos ab initio, desde que nos entendemos como criaturas pensantes que precisavam criar uma certa ordem cósmica que explicasse esta coisa fenomenal chamada Vida.

Ora, cá estamos, outra vez, num momento de impasse em que fechamos o ciclo do ano velho e começamos o ciclo do ano novo. É, como sempre, altura de balanços e de naturais desejos. Estamos expectantes. Ingenuamente, ou humanamente, cremos na mudança, no recomeço e assim vamos vivendo cada ano na expectativa do seguinte. Na esperança de que pode até ser que desta vez… Desta vez até pode bem ser que haja a diferença que tanto queremos (ainda que, na maioria das vezes, nem saibamos bem o que é que queremos ou esperamos afinal).

Assim, prometemo-nos mudanças a nós próprios, por entre passas e goles de champanhe, e esperamos que o que nos exterioriza, o que não controlamos, seja bom (o tal adjectivo que não significa nada, mas que condensa tudo).

Ora, aqui neste cantinho ibérico, não obstante o que de bom desejamos, anuncia-se um novo ano sem grandes expectativas. Esperam-nos mais uns quantos capítulos folhetinescos da novela Ota/Alcochete/Portela+Um; aguardam-se mexidas inócuas no governo (nada que se vá notar, diga-se em abono do rigor noticioso); já se sabe que a dita da inflação nos irá irremediavelmente aos bolsos; os juros vão escalar mais umas casas percentuais, lá teremos mais fogos no Verão (é que esta de um 2007 anormalmente pouco dado a braseiros não figurava no script anterior e, por isso, acabou a excepção); claro que chegará um novo caso sensação que acorde novamente a Nação do seu habitual marasmo (veremos se envolve crianças, estrangeiros, celebridades ou políticos, ou se seremos apanhados desprevenidos com um caso fantástico vindo de um qualquer quadrante insuspeito da nossa galáxia, oh que excitação!) e o Benfica lá terá a consolação de ser uma nação (desculpem, mas não resisti, há que sofrer com dignidade e sentido de humor). Enfim, a Ocidente nada de novo!

No mundo que nos interessa (o que está para além das nossas fronteiras e não se chama Mogadíscio ou Vanuatu), aguentaremos o continuado aumento petrolífero (a menos que finalmente se descubra o ouro negro nas Berlengas e nos tornemos uma pátria movida a petrodólares); já sabemos que o infame George (Dubbya) Bush tem os dias contados em Novembro (ainda dizem que os anos bissextos são aziagos!); também sabemos que não será fácil “calar” o Chávez; mais umas quantas espécies desaparecerão para todo o sempre sem que ninguém se dê conta; a poluição continuará a ser um assunto nefasto (ora há buraco de ozono, ora afinal já não há); o Darfur não vai sair do mapa; o cancro vai continuar sem cura, enquanto que, sem dúvida, se vão inventar novas armas de destruição (massiva ou não, não é a questão); a Europa persistirá em dizer “nim” à Turquia; a China vai continuar a ser uma pedra no sapato, o Médio Oriente será o eterno vespeiro (a ver se, agora, o Musharraf não atomiza o que resta da área). E desta feita, não havendo percalços gravitacionais, o Planeta sobreviverá incólume a mais um ano.

Mas eu, que, como sempre, continuo a acreditar (não só nos Homens de Boa Vontade, mas também nos melhores dias que virão), espero que 2008 seja um ano de lucidez. Já não falo de lucidez política, porque essa, temo, é uma utopia (quando me dizem que o meu país é um Jardim do Éden, imagino que o pobre do Thomas More dê voltas na tumba por não ter assistido à materialização da Utopia), mas lucidez humana e humanizada. Que sejamos lúcidos o suficiente para nos olharmos como Homens e nos respeitarmos e à nossa própria espécie.

E, num desejo mais humilde, que a blogosfera se assuma, cada vez mais, como um espaço de liberdade, de libertação e de pensamento.

A todos vós Homens e Mulheres de Boa Vontade, um excelente 2008!

Mal agradecidos e ingratos, nem um SAP merecemos...

Esta é a altura do ano em que se muitos fazem balanços e se preparam para encerrar o ano, outros aproveitam para se dedicarem a outro tipo de encerramentos.

Para uns, uma enorme irresponsabilidade; para um responsável do Ministério da Saúde uma enorme "descentralização"… mas tenho para mim que a afirmação resulta ou de indigestão de restos do jantar de Natal ou de vapores…

Isto porque o Ministério da Saúde avançou com o encerramento de vários Serviços de Atendimento Permanente (SAP) que funcionam 24 horas por dia.

Segundo o Ministério, esta sua nova política visa centralizar serviços de forma a torná-los mais eficientes, permitindo melhores meios e melhor assistência.

Para outros, contudo, significa ficarem a uma hora do serviço de urgência do hospital mais próximo.

Há uns meses atrás, o Ministério tinha decidido avançar para o encerramento mas suspendera a decisão até instalar nos locais meios de transporte modernos e eficazes para tratar das emergências, transportando os doentes até ao hospital mais perto.

Feita a devida colocação desses meios (e com festa a acompanhar), avançou-se com a data do encerramento, afixou-se e ponto final, assunto encerrado, ou se preferirem, serviço encerrado!

Não percebo é porque é que as populações estão em protesto, porque é que os presidentes de Câmara estão a protestar, porque é que todos os partidos locais reclamam?

Deviam era estar satisfeitos, os ingratos.

Então agora com ambulâncias novas não ficou tudo muito melhor?

Querem melhor do que ter um problema de saúde ou um acidente e terem de ir deitados numa moderna ambulância durante uma hora a caminho do hospital?

Querem melhor do que terem o filho num confortável veículo de socorro?
(Neste caso e menos mal, várias corporações de bombeiros viram o problema e começaram a formar os tripulantes das ambulâncias na assistência a partos…)

Em alternativa, querem melhor do que morrer numa ambulância nova e quentinha?

Tem gente que reclama por tudo e por nada…

É preciso agradecer esta iniciativa de centralizar meios.

Aliás, não é sabido de todos que um hospital que foi desenhado para um certo número de utentes tem sempre capacidade para levar com o dobro?

Estranha forma de gerir a Saúde esta; acredito que seria melhor atacar o desperdício aplicado noutros lados e investir forte na Saúde nem que fosse só para atender três doentes por noite, passando a mensagem de que ali não é um deserto antes um sítio onde as pessoas podem viver.

Mas isso digo eu, o não especialista, o tipo do senso comum.

Que País este onde se incentiva o encerramento e a desertificação, não apostando no País como um todo, achando que fazer uma descentralização centralizada é a melhor solução, onde basta sair de uma capital para se ver diferenças abismais, onde a politica é mudar tudo, tentando dar um toque pessoal nem que isso signifique tornar pior o que está mal.

Mesmo assim José Sócrates consegue-nos "deslumbrar" com uma descrição de um país evoluído onde só acontecem coisas boas, tentando mostrar que se espreitarmos para 2008 e 2009, veremos o paraíso…

Lá está, nós, povo, a escumalha da terra é que temos vistas curtas, não atingimos o pensamento do nosso "líder espiritual"…

Reflexões iletradas do Zé... sobre o Primeiro e o BCP...

Levantara-se, como habitualmente, pelas sete da manhã.
Era, embora poucos o soubessem, um homem de rotinas.
Tivesse ele sido bafejado pela fortuna de ser filósofo e haveria de ser um Kant, homem, também ele, dado a incríveis rotinas.
Suspirava, de vez em quando, por soltar amarras é certo, mas para isso precisaria de um novo par de asas…

Andara por ali meio ensonado ainda, tomara o pequeno-almoço… aliás, enquanto esperava paciente que o café fumegante amainasse um pouco a sua temperatura, perpassou-lhe um daqueles pensamentos inúteis que, estava convencido, a maior parte das pessoas também tinham… aqueles que o são fruto das conversas com os botões…

“Onde raio é que esta gente vive?” – perguntara-se.

Esta interrogação surgiu-lhe enquanto rememorava os principais tópicos da alocução televisiva do ainda Primeiro-Ministro deste nosso Portugal.

A economia está "mais bem preparada para enfrentar os desafios e as incertezas da economia global"; primeira certeza lá do homem.
O crescimento económico "já próximo dos 2%, é o maior dos últimos seis anos"; segunda certeza.
A reforma da Segurança Social permitiu a Portugal sair "da lista dos países de alto risco"; terceira certeza.
Desde 2005 já foram criados, e "em termos líquidos, 106 mil novos empregos"; quarta certeza.
"O maior aumento do salário mínimo da década"; quinta certeza.
O complemento para "os idosos mais pobres que desta forma contarão com o apoio do Estado"; sexta certeza.
"Há quem diga que tudo isto é pouco ou que conta pouco. Será sempre pouco, é verdade, para quem não precisa ou para aqueles que apenas insistem em desmantelar a protecção social que o Estado tem a obrigação de garantir na nossa sociedade"; sétima certeza.

“Se o homem assegura que tudo isto é verdade, ou a parvónia onde moro deixou de ser Portugal ou qualquer coisa não bate certo”, discorreu o nosso homem, certamente iletrado aos olhos de muitos.
Mas, lá de dentro, do mais abissal das suas entranhas, uma voz murmurava-lhe: "Que queres? Se o homem viesse lamuriar-se, tu e os que são como tu era um berreio do carago. Fala em coisas positivas e lá estás tu com trampices... safa!"

Já com meia chávena de café no bucho, saltou-lhe outra da tampa…

O Vara, essa instituição nacional, corria o sério risco de ter de ir para o BCP.
Ele nunca fora muito de amores pelo Vara, embora tivesse de lhe reconhecer a argúcia suficiente para ser um quase Lacão do PS, mas daí até andarem a falar em OPA’s e pressões políticas na lavandaria em que o BCP se transformou?

Então, pensou o nosso homem, o BCP não é maioritariamente de capital privado?
A Caixa Geral de Depósitos e a EDP (se é que a este monstro ainda se pode chamar público) têm quanto na estrutura accionista do BCP?
Se não têm 50% mais 1 como diabo vão conseguir impor o nome do Vara?
Ou será que os privados, agora, andam todos ao mando do PS?

"Pronto, lá me está esta besta outra vez. Se o Vara vai, aqui d' el rei que os catraios do PS estão a apoderar-se do BCP. Olha o Ulrich... quem manda, escolhe a equipa, mas disto não falas tu. Nem tu, nem os profissionais do bitaite", ouviu outra vez vindo lá do fundo.

Assim entretido nestes pensamentos nem se apercebeu que a mulher procurava desesperada, as chaves duma coisa qualquer…
Quer dizer, devia ser isso porque aquilo já ia pela casa um mar de carteiras donde saíam, em sucessivas vagas, chaveiros, chaves… aos molhos ou sozinhas…

O melhor é levantar-me muito calmamente e ir-me escanhoar, pensou.
Não vá o diabo tecê-las e ainda me vir perguntar, naquele jeito capcioso de interrogação que é meia acusação, se não vi as chaves…

E lá foi, pensando que ainda anteontem o Menino Jesus passara em sua casa. Devia ter sido de raspão. Com tão rápido regresso ao escárnio e maldizer...

Dias sobrantes

Dias sobrantes são estes dias em que se recolhem os restos das fitas e dos embrulhos, despojos da noite em que o Menino Jesus, ou o Pai Natal, jogaram ao faz de conta com os nossos sapatos. Há uma espécie de vazio que é como um hiato para o Ano Novo. Procura-se não fazer ainda contas à vida não vá o balanço revelar-nos que se gastou de mais e hipotecar a pseudo-alegria que se pretende mostrar à chegada do 2008.

Nesta quadra natalícia não deveriam existir pessoas acabrunhadas pela obrigação de cumprir todos os preceitos de festas recheadas de trabalho e rombos no orçamento.

Porque a quadra natalícia, segundo o que se ouve, é uma quadra de paz e amor e as manifestações de amor deveriam ser espontâneas e isentas de impostos. Quem, senão a sociedade de consumo para inventar, de forma perversa, estas dádivas/sacrifício?

E a génese destes Natais, esventrados dos valores mais nobres, começa a desenvolver-se muito antes do indivíduo se dar conta. Talvez nas escolas quando os professores do ensino distribuem a lista dos materiais “necessários” para o início do ano. Uma lista, quase atentatória da dignidade humana, se tiver em conta a capacidade económica da maioria das famílias. Um lista que marca aqueles cujas famílias não podem satisfazer tamanhas exigências. Uma mãe em dificuldades mostrou-me, aflita, o rol de materiais a comprar para o filho de 7 anos: lápis de cera, lápis de cor, guaches, aguarelas, godés, pincéis, plasticinas, etc. (tudo à grande e com marcas referenciadas). De que serve aproveitar os livros quando os restantes materiais assumem valores incomportáveis? E assim se começa a socializar o longo processo do consumo desenfreado assente nos critérios da diferenciação.

Um processo de desamor e de infelicidade. Um processo em que o aluno, e mais tarde o trabalhador, vê no colega um rival e não um companheiro. Um processo em que as pessoas odeiam quem pensam que tem algo que elas não possuem e gostariam de ter. Uma competitividade obsessiva, patológica que se faz sentir também na blogosfera que é um mundo virtual em que a concorrência é uma mera hipótese ao nível do ego e não da consistência.

Chegam a ser patéticas certas defesas de espaço e de opiniões num individualismo primário em toda a sua plenitude. Como se também aqui se estivesse em presença de um processo de estratificação virtual!.. Só uma pobreza de valores poderá conduzir à defesa dos espaços como feudos, como elites reservadas a opiniões abalizadas.

Malditos dias sobrantes que são cada vez mais. Porque serão dias sobrantes, todos aqueles em que o homem não é feliz por culpa de si próprio. Por não ser capaz de olhar à volta aceitando que o seu olhar é um olhar idêntico a tantos outros olhares. A diferença é apenas ser o seu olhar e nenhum outro.

Malditos dias sobrantes nestes modelos anti-sociais que negam o Homem. Não o homem-lobo que esse não pode ser negado. Mas o homem social e solidário capaz de partilhar e de amar como só ama quem partilha.

Mas partilhar não é fazer uma colecta para dar um cheque viagem de 4.000 euros ao nosso Primeiro-ministro. Partilhar é não ter muros nem fronteiras na gestão justa e racional dos recursos.

Partilhar é mostrar o que se pode e o que não se pode, o que se tem e o que não se tem, ao invés de mistificar os números para dar uma visão optimista dos resultados.

A mensagem de Natal de José Sócrates também veio embrulhada em papel de seda com fitas vistosas: segurança social recupera, criam-se novos empregos líquidos, há mais estudantes no secundário e no ensino superior, a economia também está recuperar com um deficit abaixo dos 3% e uma performance que permite enfrentar os desafios da globalização.

Também aqui o consumismo desenfreado da palavra fácil. Estes dias sobrantes levarão mais tempo a passar e as fitas a serem recolhidas.

A menos que a prenda que está para além dos laços e papéis de embrulho, fosse mesmo autêntica o que, com grande pena minha, não consigo acreditar. Hoje mesmo choveu e vi pessoas com fome.

FELIZ ANO DE 2008. SEM DIAS SOBRANTES.

... um Natal a oito mãos...

“No Natal abrimos sempre o coração à sentimentalidade que o quotidiano nos rouba o resto do ano. Há palavras e desejos feitos e prontos a consumir. Mas…, sempre lá no fundo, na melhor parte de nós, lá estão os votos sinceros, os tais feitos à medida e por encomenda… ("Tailor made" como dizem tão bem os ingleses! - pensou em voz baixa).

Na minha sala de costura privada, estes são os desejos que cosi, em ponto apertado e num tecido colorido nos tons fortes da estação, para todos os que nos visitam e nos estimam e nos comentam e nos lêem e nos alentam e nos despertam, para os anónimos, para os de sempre, para os ocasionais: Que a vida vos sorria na sua plenitude em todos os dias; Que não se esgote a vossa fé nos Homens; Que a esperança vos anime a cada passo e vos alente em cada percalço; Que uma Luz maior vos alumie e aos vossos. Bom Natal, Boas Festas, Paz”.

Ámen!

E a congregação, escutadas estas palavras quase balsâmicas, que se entranharam em cada poro daqueles ossos pecaminosos, levantou-se em uníssono e cantou como nunca antes o fizera.

Seria por ser a primeira vez que a oblação era assegurada por uma mulher?

Os vitrais da Igreja tinham mostrado a sua fibra quando se tinham feito escutar os acordes de "Vinte olhares sobre o Menino Jesus", obra nada menor de Messiaen, organista na Église de la Trinité , em Paris, durante mais de quarenta anos, e nome sonante da dita Escola de Darmstadt.

Sabia que ela não percebera bem a razão da escolha de tal música, mas atendendo à época condescendera. Sabia ainda que a única exigência que fizera passara pela "Oratória do Natal", de Johann Sebastian Bach. Constava que ela fizera de forma peremptória. Na tasca assegurava-se mesmo que tinha rematado com um sonoro "mai' nada" rústico…

E enquanto o coro fluía, olhou para ela e viu que sorria… soube que, naquele momento, ela desejava que, ao menos uma vez na vida, aquele seu rebanho se tocasse mais pelo lado frugal do Natal…

Lá mais ao fundo, contudo, alguém se destaca.

Não se levantou, não cantou, apenas se ajoelhou e interiormente agradeceu; não um agradecimento ao Divino que tinha pela frente e que lhe tinha sido dado desde sempre, mas um agradecidamente ao Divino em que ele acreditava, liberto de todas as definições dos homens, de todas as leis que lhe atribuíam.

Ungido apenas com uma essência, a do amor universal, ali ficou durante muito tempo, mesmo após o coro se calar, sorrindo ante aquela conversa que mantinha consigo próprio, momento de paz...
Nessa noite sentara-se à mesa e vira outras pessoas, não reconhecera ninguém, apenas conseguira ver um momento de união com aqueles estranhos.
Eram rostos que sendo-lhe familiares, lhe surgiram com um brilho que nunca vira.

Só agora, ali sentado, percebeu que eram os que amava, e agora conseguia vê-los como eram...
Nessa altura desejou que o resto da Humanidade saísse da escuridão e que começasse a ver o próximo como ele o conseguia ver naquele momento…

Um ser igual a ele…

E eis quando senão os seus pensamentos são interrompidos.
Uma voz que lá no adro ia desfiando...

“Porém e apesar das representações míticas sobre o Natal, não vamos desejar-vos bens universais porque os bens universais não se desejam apenas no Natal. Podem interromper as guerras, inundar as ruas de luzes e dar de comer aos que nada têm, que estes dramas continuam por vezes alimentados por alguns daqueles que mais insistem no espírito de Natal.

Falamos do Natal como festa da família, de encontros com parentes e familiares distantes e dos amigos que só se encontram por essas ocasiões. E entre os pratos e uns copitos diz-se como já não se dizia e sente-se como já não se sentia.
Desse Natal nós gostamos e torcemos para que todos o tenham”.


Especialmente vocês que têm a “pachorra” de ler os nossos textos!

Blondewithaphd, Quintarantino, Tiago R. Cardoso & Silêncio Culpado.
E assim se assinala mais uma estreia: o primeiro texto assinado pelo colectivo!

Porque é Natal...

Porque é Natal, queremos todos ter palavras oportunas e gordas de significado. Queremos evitar os chavões em que sempre, e invariavelmente, caímos, mas que pronunciamos num fluxo inovador, convencendo-nos da nossa originalidade. Queremos evitar as redundâncias e as repetições. Queremos o contágio do espírito da época numa forma nunca antes tão sincera e sentida. Enfim, queremos. Porém, já tudo foi gasto.

Porque é Natal, compramos a caridade dos postais da Unicef. Enchemos o coração de dó e comiseração pelos pobres e andrajosos, pelos párias, pelos “agarrados” a alternativas de vida que nos chocam. Pensamos nos meninos sem presentes e enfastiamos Pais Natal de mentira com a obrigatoriedade de alegrar os coitadinhos dos orfãozinhos. Contudo, nenhum alívio advém da nossa munificência natalícia aos desgraçados desta Terra.

Porque é Natal, esgotam-se em discursos os chefes laicos e as eminências eclesiásticas. Elegem-se as personalidades do ano, os altruístas exemplares que devemos admirar e imitar (excepção feita a 2007, porque esta do Putin ser o homem do ano engasga até o Inominável ele próprio). Batem-se palmas aos planos para o futuro e às conquistas do ano que finda. No entanto, é tudo vão, vazio de intenção.

Porque é Natal, partimos desgarrados em frémitos consumistas. Sucumbimos aos enganos publicitários. Atravessamos estoicamente as multidões que fazem o mesmíssimo que nós. Tornamos exangues a casa carregados de inutilidades, quinquilharias, bugigangas massificadas e informes. Todavia, não é aqui que encontramos o valor das coisas.

Mas porque é Natal, o mundo não deixa de girar e lembrar-nos da nossa mortalidade e da nossa insignificância cósmica. A própria Natureza não se apieda: Bam, tsunamis… As guerras olvidam-se da quadra e a mortandade prossegue ao seu ritmo diário. A mentira continua. A falsidade não abranda (ironicamente até se compraz da época que tudo lhe permite e a promove).

Mas porque é Natal, lembramo-nos que há cerimónias de vago fundo religioso. Afinal, o pinheiro (importação do paganismo teutónico que nos legou D. Fernando de Saxe-Coburg) não deixa de ser um símbolo apenso à religiosidade. E, bem vistas as coisas, o Presépio até conquistou o obrigatório laicismo chinês que agora produz figurinhas incaracterísticas a rodos.

Mas porque é Natal, e eu ainda creio, com uma confiança obstinada e profunda, nos Homens de Boa-Vontade, aquecemos o coração com a presença anímica dos que já partiram. Reunimo-nos na energia emanada dos que nos rodeiam e preenchem os afectos. Iluminamos a alma numa aura de alegria por mais um ano que nos foi dado, mais um momento precioso e recatado nos nossos espaços da privacidade.

Mas porque é Natal não reverberamos na nossa Humanidade? Não nos tornamos humildes ante o fascínio místico desta celebração imortal, cíclica, ritual? Não nos agigantamos na força telúrica dos nossos sentimentos? Não nos magnificamos no dar e no receber? Não nos recatamos das crueldades mundanas?

Sim, porque é Natal, o Homem ainda se humaniza. Num resquício primevo que nos vai restando celebramos o maravilhoso, a família, a infância, o amor, o sagrado e o profano (como Mircea Eliade juntou irremediavelmente). Exaltamos a paz e a concórdia entre os povos. Somos Homens, imperfeitos, é certo, mas ainda Homens.

E porque é Natal: a todos Boas Festas (no sentido mais ecuménico da expressão).

"Como te chamas ?" - Um conto do meu Natal.

Era um dia como todos os dias. A rotina continuava, martelando-lhe o espírito. Dia após dia, era tudo sempre igual…

Pega na peça, corta, anota, coloca no sítio, e aquele ruído de fundo, bum, cadum, bum cadum… pega noutra e noutra, bum, cadum… bum, cadum …

Sempre o mesmo.

Era como se lhe tivessem posto ali os “Einstürzende Neubauten” a tocar…

A estupidez laboral continuava…

Não a estupidez de um patrão, mas a de um encarregado que, todos os dias, lhe chateava a cabeça, fizesse ele o que fizesse nunca estava bem.

Era-lhe sempre exigido mais.

Dependendo da disposição com que viesse o encarregado de casa, podiam variar os modos mas sempre entre o brutamontes e a besta-quadrada.

Ele já se habituara, já tinha assimilado o sistema. Valia-lhe isso.

Entretanto, continuava no seu dia a dia de "plástico", achando que vivia, achando que a vida era aquilo, trabalhar desgraçadamente para conseguir o seu no final do mês para depois ter algum para gastar no fim-de-semana.

Olhava para a vida como quem olha para um manto de nevoeiro a esconder uma paisagem, não sabendo que para lá desse nevoeiro estava uma paisagem maravilhosa para descobrir.

Acabou o jogo de cartas, que tradicionalmente completava o almoço e avançou por aquele corredor frio, sempre pensado na hora de regressar a casa e abraçar o filho, a razão porque teria até aquela altura engolido tantas angústias e obstáculos, a razão que o levava a caminhar todos dias.

Teve azar, tinha de estar lá naquele sítio, naquela altura, naquele segundo… Tinha de estar lá no momento em que aquela montanha lhe caiu em cima, no momento em que o aço frio se abateu sobre ele.

Gritou, gritou com toda a força que tinha; esmagado por aquela força, foi derrubado…

Durante o tempo que esperou para ser operado esqueceu-se de tudo, mas de repente naquele corredor frio, não se lembrava do passado, apenas do filho e finalmente adormeceu agarrado à imagem da criança...

Os dias passavam devagar, as paredes do quarto continuavam imóveis, aprendeu os pormenores de cada uma, onde estava cada alteração de cor, aprendeu-lhes os mínimos detalhes, viu com eram largas e altas, mas sentia que a cada dia que passava eram cada vez mais apertadas e baixas, como iam ficando mais escuras e sombrias.

Pensou, passou dias a pensar, a tentar agarrar-se a todas as bóias que não o deixassem afundar naquela cama, que já tratava por tu, companheira de todas as hora, minutos e segundos, agarrou-se como pode para não desaparecer.

Lutou, lutou muito e ergueu-se daquele lugar, começou a subir os degraus, começou a vislumbrar a paisagem por de trás do nevoeiro, com dificuldade caminhou por caminhos estreitos e difíceis que aos poucos se transformaram em estradas largas e lisas, sorriu…

Sim, após quatro meses sorriu, sentiu-se feliz, apesar de ainda ferido já não sentia dores.

Só uma enorme alegria.

Passaram-se nove meses e continua no seu caminho, a sua luta diária pela recuperação.

Apesar dos altos e baixos do dia a dia, sente-se cada vez com mais força.

Não liga ao "plástico", procura o verdadeiro…

Lê livros desenfreadamente numa fome de conhecimento…

Prefere apreciar a vida do que desperdiçá-la em superficialidades…

Aprendeu que é demasiado preciosa…

Quer chegar um dia e dizer "realmente vivi".

Perdeu amigos, ganhou outros.

Um dia encontrou um que lhe fez uma pergunta importante:
- Como é que te chamas?

Surpreendentemente não respondeu logo, teve de pensar, acabando por responder:
- Tiago. Nasci à nove meses!

Um (anti)conto de Natal para bestas ditatoriais!

Um dia aquele ser abjecto acordou transpirado.
Tinha um esgar de besta nos olhos.
Lembrara-se repentinamente que havia um Evangelho dito Apócrifo denominado de Apocalipse. Não o de João, antes o de Pedro.

Lembrava-se que algures havia uma parte em que pelo Redentor era dito "mas tu, Pedro, sê perfeito segundo o nome que eu te coloquei, pois eu te escolhi, e fiz de ti um princípio para o resto, a quem eu chamei para o conhecimento. Sê forte até que venha o imitador da justiça, o imitador daquele que foi o primeiro a chamar-te".

Tresloucado como era, perdido num labirinto mil vezes pior que o Minotauro, imaginara-se, depois de uma ida à Ladeira para o confirmar, o que abjectamente foi alcançado a troco de uma nota das gordas, como um querubim reluzente.
Ele seria o Vigilante.
O Rasputin dos tempos hodiernos.

Arranjou um bastão e vagueava pelas ruelas imundas, local onde viria a apanhar a holopatia que o consumia.
Num desses passeios, ousou sair do negrume e atravessar para o outro lado da rua onde brilhavam os candeeiros alimentados a petróleo.
Numa janela, entreaberta, encostou o ouvido…

– E então, o cavalheiro apareceu hoje?

- Apareceu. Atrasado e a resmungar. Como sempre, uma besta. Não sei como é possível. Uma estrela e sempre assim, nunca nada está bem.

- Há que zurzir. Se não for a varapau, pega no chicote da autoridade. Mas zurze. Forte. Ouviste? – ripostou a primeira voz.

E na besta "se produziu medo e alegria ao mesmo tempo, pois vi uma luz nova, maior que a luz do dia".
Seria possível que em plena luz existisse torcionário maior do que aqueles que ouvira falar e lera nestes anos de bestialidade?
Escuta, escuta, disse-lhe aquela voz que dentro de si substituía o coração…

- Olha lá, conferiste os papéis? Não queremos cá na listagem nomes que não se adeqúem aos objectivos a que nos propusemos – interrogou, mais uma vez, a primeira voz.

- Conferi, sim. Tirei de lá um ou outro nome. Achas que se importam? Também… não se podem tirar. Em nossa casa não temos essa autoridade? Que dizes?

- Quero lá saber – vociferou a primeira voz.

Esfregando novamente as mãos, preparava-se já para bater à porta quando veio novamente ao de cima, dentro de si como se um vulcão fosse, a sua sanha manhosa, pérfida como a serpente…

Ele que nunca tivera nome certo, que calcorreava havia doze anos este mundo, erguido sobre os quadris traseiros lá do alto do seu metro e noventa e tais, um ser alvo como leite, quase albino, podia lá agora ter a dignidade de lhes bater à porta e, abrindo-se esta, se apresentar de seu verdadeiro nome e na sua imensa fealdade abjecta….

Perscrutou a rua, não se via vivalma e no entanto escutou mais uma vez a voz. Era como um martelo: "Coragem! Na verdade, tu és aquele a quem foi dado conhecer estes mistérios, a saber, que aquele a quem crucificaram é o primogénito, e a casa dos demónios e o recipiente de pedra, onde habitam os demónios, o homem de Elohim, o homem da cruz, aquele que está sob a Lei".

Era ele, era consigo. Ele era o denunciante mor…

Faria melhor, iria qual Torquemada andar a afixar nos candeeiros avisos contra aqueles seres abjectos que ele, tresloucado como era, antecipara em fuzilamentos, eliminações em massa, ele que até os conhecia pois, ao contrário deles, eles vira o rosto de, pelo menos, dois deles.
E que vira? Que vira?

Um Pol Pot, a Madame Elisabeth de Bhatory, a vampira eslovaca, e aos outros dois, sem grandes certezas, quase que apostava que seriam Adolf, "den Herr" e a fútil Marie Antoinette.
Ele tinha de os denunciar.
Tinha de avisar a humanidade que aqueles ímpios não eram tão clementes, tão imparciais, tão civilizados quanto gostavam de parecer nos salões da realeza.

Louco, convencido da sua genialidade, começou a vociferar que iria fazer incidir sobre aqueles as luzes do Bem.
Eram elas as que iriam erradicar este Mal. Insidioso que se instalava qual bolor nas mentes. Até na sua que já quase não se conseguia afastar da janela.

Sê corajoso, cidadão, "porque eu estarei contigo para que nenhum de teus inimigos tenha poder sobre ti. A paz esteja contigo. Seja forte!".

Ignaro, e toldado pela sua embriaguez, nem teve tempo de escutar a primeira voz dizer novamente:

- Vá, diz lá aos outros dois que temos a equipa pronta. Que quando quiserem podemos começar a testar o raio do jogo…

E enquanto uns jogavam o novo "FIFA 2008", a pobre Besta espumava ódio…

Dedico este conto infernal e sem nexo a todos os ditadores, Pinochet's e Estaline's castrados e desconfiados, que vivem para infernizar. Que sodomizam e "gamorreiam"..
Que sobre eles se abata a inclemência dos homens, pois é da sua Justiça que se vêem os resultados.

As transcrições são do "Apocalipse de Pedro", Evangelho Apócrifo.

Mensagem de Natal em tempo de crise.

É época natalícia e eu quero escrever uma mensagem de Natal que dê prazer ler. Uma mensagem de Natal que não fale em desgraças, que fale em progressos e no que de bom está a acontecer. Penso no meu País, de lés a lés, este país que eu amo e que percorro insistentemente.

Penso no interior de populações envelhecidas e terras abandonadas. De infra-estruturas levantadas e unidades encerradas. Não, não quero ir por aí, é Natal, vamos pensar feliz. Nada melhor que as crianças para se pensar. Mas são cada vez menos, as escolas a fecharem e os pais a não ganharem para as sustentar? Bolas, é Natal e eu a dar-lhe com as coisas negativas.
E se eu falar dos professores? Não, isso é só horrores, estas reformas do ensino. Ensino para quê? Para quem é pequenino e depois há-de ser doutor? Doutor para quê, se já nem é senhor? Para emigrar porque cá, em Portugal, não tem valor? Cá doutor, só médico porque as pessoas ainda não desistiram de adoecer e morrer. Até para as certidões de óbito é preciso doutor. Bolas, lá estou eu com o negativismo!...

Mas estava eu a falar em professores e logo me ocorreu que os funcionários públicos, em autênticos clamores, falam que são os bodes expiatórios. Oh não, lá estou eu outra vez a fazer críticas de todo o jaez.
Talvez o melhor seja mesmo não fazer nada. Ah mas não fazer nada lembra-me o desemprego sempre a subir e o governo a mentir. As mentiras do governo lembram-me as manifestações porque há muito baixas pensões e um milhão a recibos verdes. Baixas pensões lembram-me reformados e reformados lembram os velhos tristes e abandonados.

Decididamente não consigo escrever coisas boas e positivas e é Natal. Vamos lá ver se é desta que vai acontecer.
Natal prendas, ai meu Deus que já me lembrei dos endividados e das Associações que deixam depenados os que já nada têm. Mudemos o disco. Os vencimentos mínimos foram aumentados. Será que 426 euros dão para trazer alimentados esses que trabalham e têm que pagar água, luz, casa, transportes, gás e telefone? Mas foi uma grande vitória, mesmo que morram à fome. Então não foi? Temos que ser positivos.

Os portugueses estavam era mal habituados. Estas desgraças são necessárias, sempre eu oiço dizer, para o País se desenvolver. Porque sem estas desgraças sabem o que nos iria acontecer? Íamos ser menos desgraçados!... Ora isso não podia ser. Viva, por isso, o poder de quem nos mete na linha para enfrentarmos a crise, ainda maior, que, por este andar, se adivinha.
E eu a dar com a negatividade. Também que solução haverá para tanta conflitualidade? Vejam só: se eu sou senhorio quero um governo que me encha o pavio ou seja: rendas aumentadas. Mas se sou inquilino quero um governo que não me toque nas rendas. E se for inquilino e senhorio ao mesmo tempo? Ah, tal vez uma lei versátil que possa ser aplicada de duas maneiras diferentes.
Se não sou funcionário público quero ir votar em quem põe um travão nesses malandros que não param de privilegiar e andam a protestar. Mas se eu sou funcionário público eu logo me vingo quando for votar. Então andei eu a politizar para depois me virem lixar? Eu sou contra o betão porque não tenho terrenos porque se tiver viva a construção. Ah não, mil vezes não! Lá estou eu outra vez a divagar.

Tenho que escrever uma mensagem de Natal positiva que realce as coisas boas, se não fico doente. Doente? Meu Deus com mais de 400 mil à espera duma cirurgia ou uma consulta da especialidade?!... Que fatalidade se ficar doente!... E lá estou eu novamente!... É Natal tenho que estar contente!... E há motivos para isso. Vai haver o jantar de Natal para os sem abrigo, brinquedos e roupas usadas para os pobrezinhos e até vai haver missa do galo. Um autêntico regalo. E eu aqui a barafustar. Não mereço perdão, mas vou continuar. Para a próxima.
Para já deixo-vos um abraço não negativo, com muito afecto e desejos de coisas boas.

FELIZ NATAL A TODOS

Todos querem um lugar ao sol...

Este país é de modas, durante alguns dias fala-se de um assunto que rapidamente é esquecido a favor de outro assuntos mais mediático, sendo que este mediatismo não é pela importância do assunto mas sim pelo "que está a dar".

Subitamente todos se lembraram que existe crime, quer dizer, foram lembrados pela onda de crimes que ocorreu no Porto.

Já escrevi AQUI sobre a forma como cada um pinta a situação dependendo da posição em que está, mas interessante é ver até que ponto se estica a cabeça para aparecer nas notícias.

O que seria de esperar era que todos convergissem numa união em torno da justiça, mas ao invés todos a criticam e quando se faz alguma coisa logo aparecem para tirar algo dessa situação.

Depois das detenções feitas anteontem, muitos apareceram para a fotografia, para darem a sua opinião e mostrarem como estão sempre do lado da razão, evidentemente nunca com segundas intenções.

Como sempre e chegando a reboque do momento, o PSD (que na imagem do seu líder Luís Filipe Menezes, avançou há dias que a culpa da situação era toda do governo e do Sr. José Sócrates, que não se faz nada, que o crime anda à solta), após as detenções avança que o mérito é todo da Polícia Judiciaria, mesmo assim avançando com algumas ideias, diga-se um pouco para o gasto… "Manifestamente estamos com problemas graves ao nível da coordenação da investigação criminal no que respeita à articulação das diversas forças que têm responsabilidades".

Ou seja, se nada é feito a culpa é toda do Governo, se é feito algo, é claro que o mérito não é do Governo.

Parece é que o Sr. Menezes esquece-se que a única a actuação da parte do Governo é a obrigação de colocar à disposição da investigação, meios suficientes para que ela seja feita da melhor forma possível.

Criticar falta de meios ainda se admite, agora criticar por não se verem acções dum órgão independente do Governo é que me parece um pouco demais.

No entanto alguns põem-se a jeito, como é o caso do Sr. Ministro da Justiça, Alberto Costa, que tratou logo de aparecer na Comunicação Social a dar um abraço ao director da PJ, Alípio Ribeiro, mostrando uma enorme satisfação, dando a entender que o Governo é que agiu e conseguiu estes resultados, depois quando houve umas criticas avança que as policias são órgãos independentes.

Não entrando pelo tema da violência no Porto, mas sim pela forma de actuar, tanto das autoridades como dos políticos, e após estes dois casos específicos que falei, gostaria de avançar com algumas questões:

Porque razão teve o director geral da Polícia Judiciária ir ao Porto assumir a direcção de uma operação que já vinha sendo planeada à semanas?

Não seria a PJ do Porto competente o suficiente para conduzir a operação?

Porque razão o Procurador-Geral da República, Pinto Monteiro, mandou uma equipa especial de procuradores de Lisboa para o Porto, para tomarem conta da situação?

Falta de confiança nos procuradores ou simplesmente passagem de um atestado de incompetência a procuradoria do Porto?

Porque razão o Sr. Rui Rio veio dar uma entrevista, onde dá a entender, que só se fez algo tão depressa porque ele falou com o Procurador?

Já agora que estou numa de perguntas, alguém é capaz de explicar como é que um julgamento pode demorar vinte anos e no final serem todos inocentes e onde o único que poderia ter cometido algum ilícito é mandado embora porque o crime prescreveu?

Como se matam as escolas profissionais!

Uma das afirmações recorrentes da opinião pública é que o Estado delapida, e bem, recursos financeiros. O bombo da festa costuma ser a função pública.
Já se fala menos do desperdício de recursos humanos.
E muito menos quando o deitar pelo cano abaixo é de infindáveis recursos financeiros e de experiências de anos.

É o que está a acontecer com o ensino profissional em Portugal.
Não com o que agora os luminosos da Educação descobriram que poderiam canalizar para a dita “escola inclusiva”, antes aquele que durante anos respondeu de forma excelente às necessidades formativas nesse sector.

O Estado, que peca muito mais por omissão que por acção, incentivou a sociedade civil a que, por si ou conjuntamente com agentes públicos regionais e locais, avançasse para a implementação de escolas ligadas ao ensino profissional nas quais aparecia como promotor.

A determinada altura da caminhada, entendeu que estes estabelecimentos de ensino podiam e deviam caminhar por si e obrigou (é este o termo) a que todas as escolas profissionais se assumissem como pessoas colectivas nas quais o Estado já não teria o papel de promotor. Assim sucedeu. Umas assumiram-se como associações, outras como fundações, outras como cooperativas.

À boa maneira lusitana, o Estado continuou a reservar para si o papel de financiador das escolas (sendo, por exemplo, quase crime de lesa pátria uma escola profissional procurar maximizar os mesmos espaços com cursos não apoiados pelo Estado), de tutela inspectiva e fiscalizadora (aqui nada a opor) e obrigando sempre as mesmas escolas a funcionarem segundo a vontade imperial do Estado sem contudo as reconhecer a si, ou aos seus docentes, como actores principais do processo educativo.

Com Maria de Lurdes Rodrigues (que teve entradas de leão a prometer muito e rapidamente mostrou que não quis ou não soube levar a bom porto ideias quiçá excelentes), entrou-se num processo de asfixiamento das escolas profissionais.

Numa política de terra queimada verdadeiramente incompreensível, a aposta agora é nas escolas públicas que, às tantas, já nem se sabe se têm vocação para o secundário se para o profissional (já para não falar lá naquela coisa incompreensível de um tipo em 3 ou 4 meses aprender tudo o que era suposto demorar 3 anos. A mim dizem-me que é a escola da vida, eu contraponho que é o brilhar para a estatística).

Quanto às outras, a maior parte entra em processo de falência técnica pois o Estado desenvolveu nova política: desinveste num processo que desde 1989 tem tutelado, conduzido e financiado com reconhecidos frutos!

Lentamente tem vindo a dar passos seguros para matar o ensino profissional tal como o conhecemos.
Não se antecipa nada de bom quando um Ministério decide que a experiência que vários actores adquiriram ao longo de quase 20 anos não vale nada. É para matar!

Uma das formas de “assassinar” o ensino profissional consiste na não transferência atempada dos fundos atribuídos a cada escola. Existem casos em que as dívidas do Estado ascendem já às largas centenas de milhar de euros.
Não sei se destas operações de cosmética e mera habilidade orçamental resulta algum benefício para a sacrossanta política de combate ao défice, mas às tantas…

Sem ser coincidência, ou mostrando como se anda a gerir, em 2008 parte das subvenções públicas deixarão de vir do mesmo programa. Há um novo. O problema é que não há regulamentação. Ou seja, sem regulamentação, não há orçamento, sem orçamento não existem verbas…
É simples, não?

Ainda mais estranho, é o facto de o ensino profissional em Portugal ter uma associação que, aparentemente, não serve para coisa nenhuma.

Daí que, hoje como em 2001, as palavras dadas à estampa no “Público” por Joaquim Azevedo - http://www.joaquimazevedo.com/ - se mantenham actuais: “A única coisa que parece estar errada é mesmo haver ensino profissional em Portugal. Há muitos aspectos a melhorar, como é evidente. Mas esta situação tem de ser desempatada. Entretanto, a Comissão Europeia louva, a OCDE admira, outros países visitam-nos e tentam retirar lições. A tratar assim algum sucesso que alcançamos, só nos restará chorar e praguejar sobre os sucessivos insucessos”.

Pequeno partido, espécie em vias de extinção ?

Parece que em Portugal abriu a época da caça.

À medida da nossa grandeza, não à caça dita grossa, antes à caça miúda e ainda por cima a espécies em vias de extinção.

Li nos jornais que o Tribunal Constitucional, sendo tal possível na sua pessoa, levantou-se com vontade de ir à caça, colocou a caçadeira ao ombro e avançou.

Chegado à reserva associativa, e ao contrário dos caçadores de menos peso, resolveu disparar logo ali uns tiros para o ar; assim como quem avisa…

“Muito bom dia, quem tiver um partido com menos de 5000 militantes, fica já avisado que leva um tiro, sendo assim toca lá a provarem que não estão em extinção”, foi o que troou por toda a reserva.

Engraçado, é que o nosso caçador está agora ali sentado à espera dos efeitos que isso fez na zona de caça.

Preocupada, a caça fez logo uma reunião para decidir que estratégia adoptar. Não a caça toda, apenas sete peças, perdão, leia-se partidos políticos. E, como sempre, resolveram pedir ajuda ao chefe da reserva, perdão, leia-se ao Presidente da República.

Gonçalo Ribeiro da Costa, conselheiro do Partido da Nova Democracia (PND), disse que "houve consenso em considerar que esta notificação é atentatório a um elemento base da democracia que são os partidos políticos".

Para quem não sabe, segundo o artigo da Lei nº2/2003 de 22 de Agosto, também conhecida por Lei dos Partidos Políticos, caso os mesmos não façam prova de terem pelo menos 5000 militantes são extintos automaticamente.

Pelos vistos estamos perante uma simples aplicação da lei.

Em vez de se andar a discutir sobre a sua interpretação, não seria de discutir a própria lei, avançando-se assim com algumas questões?

Será justo que um partido político com menos de 5000 militantes seja extinto?

Serão de facto esta Lei e a sua aplicação atentatórios a um elemento base da democracia que são os partidos políticos?

Será que estes pequenos partidos representam alguma coisa ou não passam de movimentos vazios que pouco contribuem para a democracia?

Serão eles locais de poiso para políticos, sem lugar noutros maiores e os criaram para serem a sua imagem e repouso enquanto aguardam melhores dias?

Depois das negociações sobre a nova lei eleitoral para as autarquias já AQUI desmanchada e que atacava a representação a nível autárquico dos pequenos partidos, agora avança-se na aplicação de uma lei esquecida e que estava, pelos vistos, arrumada nalguma gaveta.

Sou contra uma democracia bipartidária, onde só se escolhe entre dois partidos opostos. Quer dizer, no caso português seria muito pior pois as diferenças entre os dois maiores partidos são difíceis de encontrar, falo do PS de José Sócrates e do PSD de Luís Filipe Menezes.

Pessoalmente acredito no pluripartidarismo, onde se possam encontrar inúmeros partidos que representem diferentes sensibilidades.

Pugno pela erradicação deste tipo de leis, já que a selecção é feita naturalmente; ou mostram junto do cidadão que têm bases para andar ou acabam por desaparecer.

Sabemos que existem alguns partidos pequenos e mesmo grandes que vivem unicamente da imagem do líder, mas acredito que um partido activo, por muito pequeno que seja, onde se discutam ideias, que faça uma participação activa na sociedade, em resumo que participe na ajuda de um Portugal melhor é sempre bem vindo.

Acho eu. Mas agora me lembro que não sou caçador.

Mas qual Segurança Social, qual quê?

Atendendo à quadra, eu bem queria escrever aqui qualquer matéria mais ligeira e esperançosa, mas a verdade é que as coisas geralmente não são tão venturosas como queremos e, que raio, há tanta calamidade à volta que nem vale a pena semicerrarmos os olhos e vermos as coisas a fingir que não vemos.

E o que eu vejo, e que toda a gente vê, é que, nós, as actuais gerações contributivas, somos o futuro que as gerações do pós-guerra penhoraram. Pois bem, o futuro longínquo chegou, mas chegou para as gerações que não o inventaram. Confuso, não?

Eis o que eu acho injusto.
Primeiro, vou ter uma carreira profissional mais longa do que a das gerações que agora se vão aposentando.
Segundo, desconto para acudir aos gastos imanentes à protecção na doença e na idade das pensões, sabendo que tal não sucederá quando for a minha vez de beneficiar ou necessitar dessa protecção.
Terceiro, imaginando que o meu salário até era principesco, quando chegar a minha altura de pôr ponto final na carreira, o máximo que posso esperar é um tecto a partir do qual nenhuma reforma é paga.
Desculpem, mas isto é de uma injustiça geracional atroz!

Os baby boomers do pós-guerra chegaram agora aos sessentas e vão auferir do Estado de Previdência que foi criado para si, o então futuro europeu, e pelos seus pais, a geração calcada pela guerra.
Atenção que eu acho isso bem.
Concordo que tenham as suas reformas douradas (bem sei que há pensões miseráveis e infra-humanas e contra isso nenhumas palavras cruéis que eu possa dizer conseguem minimamente verbalizar o quanto isso é uma vergonha social), concordo que tenham cuidados de saúde que lhes permitam a esperança média de vida que, na Europa oscila entre os 75 e os 80.

Contudo, o mais injusto, é que, pela primeira vez em décadas, essa longa esperança média de vida vai começar a decrescer graças aos cortes que se vão impor ao Estado de Previdência, insustentável no panorama e nos moldes actuais.

Grosso modo, em termos de anos vamos trabalhar mais e viver menos, pelo que gozaremos as nossas magras reformas menos tempo (se calhar ainda bem, é que viver muito tempo com reformas baixas…).

Por conseguinte, aqui estamos, a geração sanduíche (para aqueles que vão tendo filhos e contribuindo como podem para a manutenção populacional e sustento da Segurança Social), aprisionada entre os filhos e os pais, sabendo que temos de provir a uns e a outros e sabendo, também, que uns e outros crescerão e morrerão em desigualdade de circunstâncias. E aqui estamos, herdeiros, por inerência e azar histórico, de políticas que não acautelaram a nossa própria previdência.

Pior, o Estado de Segurança Social, que tanto foi pensado para os critérios igualitários de uma Europa que nivelava as assimetrias sociais, será o fulcro impulsionador dos maiores hiatos e distinções de classe.
Se as coisas não estão perfeitas agora, mais imperfeitas estarão no momento em que quem puder sustentar sub-sistemas privados terá Saúde e reformas.

Os outros… enfim, como o Estado de Previdência também estará moribundo já bem se adivinha onde irão parar…

Em ambientes americanos... "não obrigado"!

O ambiente continua na ordem do dia. E a conferência de Bali também. Para os distraídos, quem não sabe esta conferência reúne cerca de 190 países na paradisíaca Bali, sendo uma discussão pós Quioto num local onde os aromas tropicais se devem fazer sentir em pleno.

Ao logo destes dias tem-se discutido o futuro ambiental do planeta, que é o mesmo que dizer que estão ali a discutir colectivo da Humanidade e individual de cada um de nós.

Na cimeira têm sido dados à estampa diversos relatórios e estudos; diga-se que todos os que saíram são preocupantes e a pedirem reflexão séria.

O último, da autoria da Organização Mundial de Metrologia, afirma preto no branco que a década de 1998-2007 foi "a mais quente de que há registo", seguido de que se atingiu o "nível mais baixo de sempre de extensão de gelo no Árctico".

Continuando a ler, a plataforma de gelo diminuiu de tal forma "que levou à primeira abertura de que há registo da Passagem do Noroeste do Canadá".

Considerando que alterações climáticas estão bem a vista no buraco de ozono da Antártida e com o desenvolvimento do «La Niña» no Pacífico Equatorial central/oriental e cheias devastadoras, seca e tempestades de areia em muitos lugares em todo o mundo.

E não faz o remate final sem aduzir mais algumas afirmações preocupantes: "o nível do mar continuou a subir a ritmos substancialmente superiores aos da média do século XX de 1,7 milímetros por ano"; "Os dados disponíveis indicam que o nível do mar é cerca de 20 centímetros mais alto do que a estimativa para 1870"; e ainda que "medições por satélite nos últimos anos indicam uma subida do nível do mar de 0,3 milímetros por ano".

Mais preocupante não poderia ser. Penso eu.

Este é mais um a juntar a dezenas de relatórios que constantemente são apresentados, a mostrar que as coisas estão más.

Mesmo assim existem muitos que continuam a enterrar a cabeça na areia ou ignorando estes resultados em função de factores económicos.

Na conferência de Bali, por exemplo, e como sempre, temos um país a emperrar a coisa. Depois da Austrália ter rectificado Quioto, os Estados Unidos continuam na sua saga de criar factos artificiais para não se comprometerem com nada.

Continuam fora de Quioto, argumentando que só serviria para atrasar a industria americana, e em Bali discutem todas as matérias, estando sempre em oposição ás propostas europeias.

A Europa pretende números, sejam anos para aplicação das resoluções, sejam metas de diminuição da emissão de gases poluentes, seja números com dados sobre a actual situação e os americanos continuam a recusar tudo. A tudo dizem que não.

Curiosamente, a própria China, que não é nenhum modelo de desenvolvimento sustentado, adoptou Quioto, pelo que ainda mais incompreensível se torna a relutância americana em relação a estas questões.

Entretanto o Sr. George W. Bush, querendo chamar para si o protagonismo, atitude perfeitamente normal vinda de quem vem, avança com a proposta de uma reunião em Janeiro para discutir o aquecimento global, evidentemente com organização americana.

Ou seja, esvazia-se o conteúdo de Bali, organizado pela ONU, e assume-se a liderança do mundo em questões ambientais, convidando-se as maiores economias do mundo para discutir algo que já está a ser discutido.

Desta vez, diga-se que muito bem, levou a resposta adequada.

Para a União Europeia, a iniciativa de Bush só pode servir, se for para alimentar um processo negocial no âmbito das Nações Unidas.

Por isso, terá de levar em conta o roteiro que for acordado agora na conferência de Bali.

"Se falharmos em Bali, deixará de fazer sentido uma reunião das maiores economias", disse o secretário de Estado do Ambiente, Humberto Rosa, numa conferência de Imprensa, falando em nome da presidência da UE.

Dando assim a entender que a União Europeia vai boicotar a reunião dos líderes espirituais do mundo.

Esperamos é que tal posição se mantenha firme, pois está na altura de a Europa mostrar que é uma potência e não anda a reboque americano ou sempre sob a sua protecção.

Não é só assinar tratados a dizer que somos uma gigantesca união. É preciso demonstrá-lo. Com actos!

Divagando pelas "bestanças" lusas!

Permito-me, à moda dos músicos dos tempos modernos, abrir com um “sample”, pelo que assim será.

E foi em Carlos e João da Ega uma esperança, outro esforço:
- Ainda o apanhamos!
- Ainda o apanhamos!
De novo a lanterna deslizou e fugiu. Então para apanhar o americano, os dois amigos romperam a correr desesperadamente pela Rampa de Santos e pelo Aterro, sob a primeira claridade do luar que subia”
… e viram-no a deslizar pela noite fora.

- Que ferro!– exclamou, Carlos.

E por lá se quedaram, pensativos. Pegando na cigarreira, João bateu pausadamente o cigarro e, confiando-o aos lábios, acendeu um fósforo e inquiriu: “E agora?”
Puseram-se a caminhar resolutamente em direcção à taberna lá da esquina.
Ao entrarem, surpresa. Estupefacção. Quiseram regressar à rua, mas não havia forma de encontrarem a porta. Aquilo taberna podia ser, mas mais parecia lupanar!

Seja, pensaram. Encostaram-se ao balcão e uma jovem senhora aproximou-se.
Boa noite, boa noite.
Minha senhora, são dois copinhos… se faz favor.

Em cima do balcão, um jornal.
Ó Carlos, sentemo-nos ali… sempre se aproveita para ler o jornal.

Na primeira página falava-se de um areópago chamado Parlamento Europeu e de uma berraria que por lá houvera. Parece que o Primeiro-Ministro fora alvo de uma manifestação promovida por uns parlamentares ditos da Esquerda Unitária.

Isto que te parece? Esquerda Unitária? E agora há uma Assembleia europeia? E o Primeiro-Ministro apupado? – perguntou João.
- Que ferro! – exclamou Carlos.

- Realmente, que ferro… esta gente não há meio de se entender – rematou João – Olha lá, vira aí a página.
E lá estava que Jerónimo de Sousa se demarcara da tal manifestação da página anterior.
"Não posso falar em nome de ninguém. Apenas posso falar em nome do meu partido e dos meus deputados. O PCP prefere o debate e o combate político, o esclarecimento consciente, sério e fundamentado, acompanhado naturalmente de uma intervenção de cidadãos", sublinhou.
- E este quem é? Visconde da Atalaia? – perguntou-se João… mas não obteve resposta.

É que, entretanto, Carlos havia engraçado com uma notícia de quase rodapé que dava conta que um dito Tribunal Constitucional havia notificado os partidos a provarem no prazo de 90 dias que tinham pelo menos 5000 militantes, sob pena de serem extintos por incumprimento da lei.

-Então agora os partidos têm militantes? E, no mínimo, 5000? – comentou.
- Safa, o morgado de Fafe está tramado. Ele terá lá nas terras 5000 lavradores e filhos ranhosos para apresentar como potenciais militantes ou lá que é isso do seu partido? – perguntou, em jeito de resposta, João.
No fundo, falavam do caciquismo em que se arregimentam gentes para serem militantes do partido A ou B, coisas que nitidamente hoje não acontecem no nosso Portugal.

Prosseguindo com a leitura, toparam com estas letras: “Tendo em conta os compromissos assumidos no acordo tripartido, o valor do SMN (salário mínimo nacional) para o próximo ano deverá rondar os 426,50 euros, um valor que se situa entre os actuais 403 euros e o valor definido para 2009, de 450 euros”.

- Diacho, salário mínimo? – disse Carlos – Olha lá, isto é um jornal ou lá um desses livros desses escritores modernaços?
- Carlos, eu acho que é um jornal mas deve ser um jornal do incrível. Coisas destas não acontecem cá no nosso reino. Nem hoje, nem daqui a 200 anos! Um homem há-de lá viver com 403 euros... – sentenciou João.

E pagando a despesa saíram para a rua…
E novamente o ruído…

“E foi em Carlos e João da Ega uma esperança, outro esforço:
- Ainda o apanhamos!
- Ainda o apanhamos!
De novo a lanterna deslizou e fugiu”
.

Que ferro!

Post Scriptum – o “sample” foi pilhado dessa notável obra de Eça de Queirós que não sei se ainda faz, incompreensivelmente, diga-se, o fastio e azia de muito estudante: “Os Maias”.

F.C Porto vs fulano de óculos escuros.

Uma noite em grande.

Num canal televisivo tínhamos um jogo de futebol o que, diga-se, era uma grande oportunidade para ir fazer umas compras e dar uma volta pois não se via ninguém nas ruas.

Num outro canal, a TVI para o caso, tivemos uma entrevista com um fulano, de óculos escuros e sentado numa esplanada, com a garantia de ser um exclusivo nacional.

Quanto ao futebol, esperava, à altura em que escrevia, que os portugueses ganhassem; embora não sendo adepto de nenhum, sou português e só depois clubista. Soube depois, até porque há aqui quem seja aficionado, que o Porto ganhara….

Como disse no meu texto de ontem, a violência na noite tem vindo a aumentar e agora é o assunto da moda.

Sempre atenta, a TVI tratou de arranjar uma entrevista com um indivíduo que está acusado de vários crimes, sendo apontado como o líder de um grupo que domina a noite e de forma nada pacífica.

Evidentemente que todos têm direito à presunção de inocência até à decisão final dos tribunais (parece que há por aí uma figura jurídica que fala do trânsito em julgado), mas entre o presumir-se a inocência e o ter direito a aparecer na televisão, em horário "nobre", apresentando um enredo de uma conspiração, capaz de colocar a historia do assassinato de JFK como um conto para crianças, vai uma grande diferença.

Eu queria ver se fosse um de nós, ver se tínhamos direito a tal tempo de antena. Assim, e mais uma vez, a concorrência televisiva entrou por caminhos estreitos e degradantes para a própria imagem.

Entretanto para completar a história da violência, tivemos direito a alguns desenvolvimentos, sendo que pessoalmente agradeço os esclarecimentos.

O criminalista Barra da Costa apresentou-se a defender que os homicídios registados no Porto e Lisboa são uma luta entre uma rede de "donos" pelo domínio dos negócios de mercadorias ilegais cujos lucros são branqueados em actividades legais.

Ficamos assim a saber que o Sr. Barra da Costa, no mínimo, descobriu a pólvora!

O Primeiro-Ministro, José Sócrates, por seu turno, garantia que temos actualmente 21.320 polícias no activo, "o maior número da década"; os meus parabéns, não sabia que estávamos tão bem, é que por acaso hoje tive de tentar encontrar um. Não vi nenhum na rua e lá tive eu de me dirigir ao posto para os encontrar.

Muitos achariam que agora eu iria falar sobre o debate mensal no Parlamento, mas não vou. Quem viu os anteriores fica já a saber que este foi igual.

Olhem, desculpem mas eu na verdade fui fazer como o resto da blogosfera: fui às compras!

"Violências" - pinturas de Menezes e Magalhães.

Sempre achei que quando um pintor pinta um quadro o faz por gosto, coloca nele a sua visão do mundo e a sua interpretação; mesmo o mais amador ou o mais ignorado dos pintores podem apresentar obras de grande valor só pelo facto de virem de dentro deles.

No entanto, outros pintores criam quadros unicamente para os tentarem vender e assim ganharem fama e tirarem proveito da situação.

Hoje veio, uma vez mais, ao de cima a violência, neste caso na zona do Porto, onde um segurança foi assassinado, assim elevando para números algo preocupantes as mortes na noite da Invicta.

Subitamente apareceu uma corrida de pintores, todos em grande velocidade carregando consigo as telas, pincéis e tintas, tentando conseguir o melhor lugar para pintar o quadro da situação.

Arranjando logo uma posição, avançou nas pinceladas o pintor Luís Filipe Menezes. Optando pelos tons escuros, entre o negro e o cinzento escuro colocou a violência em Portugal ao nível do Afeganistão: "os idosos têm medo de sair de casa", "os pais têm medo de deixar as crianças irem sozinhas para a escola", "a violência é cada vez maior"

Resumindo o artista tenta vender um quadro dramático.

Ao lado senta-se outro artista, este já com uma palete de cores mais leves.

Antes de começar a pintar o artista, de seu nome José Magalhães, começa primeiro por criticar o quadro do vizinho.

"Quando está em causa a vida das pessoas, os treinadores de bancada não revelam qualquer utilidade para o trabalho de investigação que a polícia especializada no crime altamente organizado está a desenvolver em profundidade há semanas", disparou, complementando eu que para critico de arte não está mal.

Centrado no seu quadro, eis que da paleta saem cores claras e brilhantes: "O Executivo está empenhado em criar condições para que as forças e serviços de segurança tenham êxito na sua missão de prevenir e reprimir actividades delituosas," e que esta violência são casos isolados, estando perfeitamente contida, finalizando que a PJ está em cima dos acontecimentos.

Outro artista menos dotado na arte da pintura e com a mania de cineasta, o social-democrata Marco António, apresentou a situação em forma de filme, falando numa "reedição de Chicago dos anos 30" e numa actuação governamental que "transmite uma imagem de impunidade para quem pratica" os crimes.

Mais uma vez fica provado que tudo serve como arma de arremesso político, tudo depende da perspectiva e da posição de cada um ao olhar para o quadro da situação.

O que é igual para todos é que estamos perante um fenómeno, a violência, que tem vindo a aumentar e tomando proporções preocupantes.

De certeza que não é algo de novo, antes o avanço para o degrau seguinte onde os criminosos deixam de ter medo de agir à vista de todos, onde o sentimento de impunidade aumenta e o crime violento aparece em cada esquina.

Tudo originado por uma nova forma de olhar para as polícias e o sistema de Justiça.

Uma força policial mal formada, mal preparada, com falta de meios, seja em números de efectivos, seja em equipamento, etc. Evidentemente que quem acaba por sofrer com este problema são os próprios membros das forças policiais e por consequência o cidadão.

Depois um sistema de justiça lento, obsoleto, muitas vezes ineficaz, onde julgamentos se arrastam no tempo, onde os arquivamentos fazem parte do dia-a-dia, onde os recursos escasseiam em variadíssimos aspectos, é evidentemente um sistema que não mete medo nem respeito a ninguém.

Claro que também não podemos entrar em pânicos desmedidos, vendo o mal em todo o lado. Apesar de o sistema não estar bem, ainda se sente algum sentimento de segurança; pelo menos eu ainda sinto, mas isso deve ser por viver na "aldeia".

O que seria de pedir era a união de esforços das diferentes forças políticas com o objectivo de criar mais segurança, mais confiança, por parte dos cidadãos, no sistema.

Pedir também que deixassem de aproveitar tudo o que aparece para o transformar em jogos políticos que só desprestigiam quem neles entra.

Resumidamente, ter capacidade para ver que existe algo mais do que partidos políticos.

Desta vez fui eu que pintei um quadro… e ainda por cima, no meu caso, pinto "utopias"!

"Herr Topsius" Sócrates e as cimeiras... Lisboa para aqui, para ali...

A presidência portuguesa da União Europeia é um sucesso.
Um hiper sucesso. Ponto final parágrafo.

Depois de uma cimeira selada com um sonoro “foi porreiro, pá”, tivemos outra onde El Ghathafi mostrou uns trapinhos jeitosos para se apresentar em cerimónias oficiais (a cara é que não está a ajudar) e Mugabe, para mostrar "who's the boss", chegou com mais de meia hora atrasado ao repasto oficial.

E está já aí à porta a assinatura do Tratado.
Sócrates, esse anda refastelado. Ele é o homem das cimeiras.
Na sua boca, cimeira que se faça é um sucesso!
Embora não lhe conheça, por exemplo, que ideias concretas e propostas tem para o vespeiro que, desconfio, se prepara para entrar novamente em ebulição no Kosovo.

E vendo-o ontem, todo garboso a debitar sobre mais um sucesso “cimeiral”, logo me deu para ir à procura duma parte do diálogo entre o erudito Topsius e o mulherengo Raposo (“A Relíquia”, Eça de Queirós).

Dizia lá o douto Topsius que “o brilho que sai do capacete alemão, D. Raposo, é a luz que guia a humanidade”, ao que respondia o nosso lusitano: “Sebo para o capacete! A mim ninguém me guia! (…).

Façam o favor de ler, mas agora do seguinte modo: “o brilho que sai da cimeira é a luz que guia a Europa”.
O resto pode ficar.
O único problema é que nem Sócrates é germânico no rigor e na organização, nem muitos de nós se querem dar ao trabalho...

A malta, em boa verdade, está-se borrifando conforme se comprovou por umas breves entrevistas de rua.
O vendedor de castanhas, também conhecido por Batata, sabia que eram uns presidentes, mas nem de onde nem para quê.
Perguntado sobre Mugabe, por exemplo, disse que não fazia ideia de quem fosse.
Vá lá, sabia ao menos quem era Cavaco.

Já a dona do quiosque o que sabia é que todo aquele chinfrim rua abaixo, rua acima era por causa de uns maduros que andavam a passear!
Nem mais. No passeio.

Com ruas condicionadas e avenidas fechadas, viaturas policiais com as sirenes a desrespeitar certamente todo e qualquer descanso, quem padeceu foram os autóctones que, por estes dias, se viram quase como índios confinados à reserva.

Nos Jerónimos, a turistada dava com o nariz nuns papeluchos que diziam "dar meia volta" porque os claustros estavam fechados para a cimeira que se segue.
Os mais ladinos deviam rumar direitinhos ali aos pastelinhos de Belém que, polvilhados de canela, fazem as delícias dos pantagruélicos clientes.

Por falar em turistas, eu não sei se é má pontaria minha mas ainda não consegui ver uma única campanha de promoção do País como destino turístico em canais como a CNN, BBC World, Sky News, Euronews, Al Jazeera (que recomendo vivamente na sua versão inglesa), entre outros.
Já por lá tenho visto a Malásia, os estados árabes do Golfo, a Arménia, a Eslovénia, o Montenegro, Chipre, Bulgária e até o Azerbeijão.
Portugal, nunca.

Mas, aqui entre nós, se for para aparecer com uma inenarrável campanha de promoção como a que agora por aí anda sobre o Algarve, mais vale estar quieto!

"Preconceitos" blogosféricos.

Na passada segunda-feira estive presente num debate, organizado pelo "Clube dos Pensadores", onde se falou sobre o jornalismo e do seu futuro, com a presença dos directores de dois dos mais importantes diários do país. Passe a publicidade, o "Público" e o "Jornal de Notícias".

Após as intervenções dos oradores convidados, e já no período da participação do público, alguém colocou em cima da mesa a questão da blogosfera tendo logo um dos presentes avançado com a questão de se saber se a blogosfera é uma espécie de quinto poder?

Dando uma série de voltas, José Leite Pereira, director do "Jornal de Notícias", avançou que não se devia confundir os blogues com jornalismo e rematou com um "a blogosfera é uma outra coisa qualquer...".

Pediu a palavra uma outra senhora, estudante de jornalismo, que avançou pelo mesmo caminho: "outra coisa qualquer..."

Entretanto, na quarta-feira, enquanto aguardava pela participação do Quintarantino no programa radiofónico do "Clube de Pensadores" (e que quem perdeu pode sempre ouvir procurando na barra lateral direita deste blogue), um ouvinte, que se disse jornalista de um jornal regional, embora estranhamente não tenha dito qual era o título, caminhou pelos mesmo caminhos de "outra coisa qualquer...".

Aliás, este último andou perto, se não mesmo em cima, do "preconceito" contra a blogosfera!

É evidentemente que os blogues não são jornalismo.

Acho que a maioria não quer sequer desempenhar esse papel, querendo antes ser a chancela da opinião de quem os escreve.

Dai já a diferença; enquanto o jornalismo se rege por normas próprias e tem/deve procurar ser necessariamente independente, os blogues são preferencialmente opinativos.

Tenho, contudo, de admitir que existem casos de blogues que descobriram e chegaram mais longe que os jornalistas, em matéria de temas de actualidade e acuidade até. O caso da licenciatura/ou não licenciatura de José Sócrates começou por ressoar na blogosfera, só depois passando para a Imprensa. Mas o que ressoava na blogosfera era, basicamente, o que a Imprensa depois deu!

De qualquer modo, faz-me uma certa confusão, este "olhar de lado" para a blogosfera… porque será?

Medo de concorrência?
Medo da "resposta na hora"?
Medo de sentirem ultrapassados pelos acontecimentos?

Não me parece que se devam sentir ameaçados. Até porque na maioria dos casos são eles que acabam por fornecer a noticia que depois é comentada na blogosfera.

Eu disse comentada? É como quem diz…

Tenho feito umas viagens pela blogosfera, e sendo curioso, ando numa de ver os chamados "blogues de top" ou os ditos de referência.

Aliás, acho que a maioria não quer sequer desempenhar esse papel, querendo antes ser a chancela da opinião de quem os escreve.

Para quem não sabe o que é, "blog de topo" é geralmente de um blogue com centenas de visitas por dia e milhares de páginas vistas. A diferença radica no facto de uma pessoa, quando faz a primeira entrada do dia naquela página, isso é contado como visita, a partir daí, e sempre que voltar conta como ver

Pois durante as minhas visitas deparo que esses blogues têm números enormes e, no entanto, os comentários são poucos.

Falo de números tipo 600 visitas e 1200 paginas vistas para uma ordem de 5 a 6 comentários!

Muitos passam por um blogue… vêem o tamanho do escrito e assustam-se… lêem o titulo… se faltar uma palavra mágica (hoje a mais usada é Sócrates), vão-se logo embora…

Outros fazem a chamada leitura na "diagonal" e também saem sem comentar.

A questão nem é bem o comentar, pois debitar por debitar qualquer um… O interessante é saber se as pessoas realmente lêem o que lá está escrito, se o texto os deixou a pensar e se têm opinião.

Quando decidi reunir-me ao Quintarantino aqui neste espaço foi porque percebi que era isso que ele queria e era o que também eu desejava.

Compreendo que nem todos tenham o tempo que eu tenho para ler as coisas com atenção e, mesmo lendo. tenham possibilidades de comentar, mas muitas vezes tenho a certeza que existe muitos bons textos que me escaparam e que só mais tarde os vejo, como tenho a certeza que existem blogues, que estando longe do mediatismo são de grande qualidade.

Pessoalmente tenho a certeza que tudo pode e deve ser comentado, nem que seja para discordar, mas fico com a sensação que muitos se desinteressaram do comentário e se calhar de pensar.

Provavelmente acham que chegamos a um ponto em que comentar esta nossa sociedade significa uma dor de cabeça!

(África) No Coração das Trevas

“Heart of Darkness” (1899) ou "Coração de Trevas”, na tradução portuguesa, de Joseph Conrad é um dos livros mais fascinantes e perturbadores que alguma vez li.
Não é daqueles livros fáceis de digerir, bem sei, e só se entende mediante uma contextualização histórica bem fundamentada (por isso é que a versão em filme, mesmo com um arrepiante John Malkovich, não resulta).
Nestes dias tenho-me lembrado de Conrad, e deste livro em particular, devido à Cimeira Europa/África.

Mais de uma centúria volvida sobre a primeira edição desta obra, África continua o mesmo “coração de trevas”.
Numa época em que os impérios coloniais estavam no seu zénite, Conrad, um polaco ao serviço do Império Britânico, foi um dos primeiros detractores dos imperialismos europeus.
As trevas africanas representavam simultaneamente um continente mal conhecido e insalubre e toda a corrupção que os europeus levavam sob a forma velada de propagação do facho civilizacional àquelas paragens ímpias. O imperialismo destruiu muito de África, é certo, mas o continente continua um coração de trevas. Ainda, sempre e irremediavelmente!

Discute-se o perdão das dívidas a África.
Eu, que me permito opinar neste espaço, sou liminarmente contra.
África é rica o suficiente para pagar quaisquer dívidas, e que ninguém escamoteie este facto (tomara a Europa ter os recursos africanos).
Ademais, o perdão dessas dívidas faraónicas significa que os Mugabes e os Santos todos se ficam a rir de nós, pobres humanitários altruístas armados em bons samaritanos, porque as dívidas foram contraídas para propósitos pessoais e para financiar projectos em tudo contrários aos direitos humanos.
África tem de ser ajudada, naturalmente, mas, sobretudo, tem de aprender a ser ajudada.

O continente está também mergulhado nas trevas do VIH/SIDA.
Não se trata já somente de uma epidemia.
A SIDA é um problema económico e um impasse demográfico sem alicerces coloniais. E não é um problema económico porque os medicamentos e técnicos de saúde são caros em sociedade depauperadas financeiramente.


A SIDA é a doença das classes jovens em idade produtiva e reprodutiva.
80% dos órfãos desta pandemia moderna estão em África.
Em 2010 serão 53 milhões, 30% dos quais doentes eles próprios.
Em África chamam-se “AIDS grannies” às avós que viram os filhos morrer e agora cuidam dos netos (umas e outros com os destinos abreviados).
Só na Suazilândia 40% dos adultos estão infectados e 31.1% das crianças são órfãs da SIDA. É incalculável o prejuízo que semelhante quadro marca numa sociedade. A reposição geracional não se consubstancia e a economia não progride porque os adultos estão doentes.

As trevas estão igualmente no tribalismo africano endémico.
Cada vez mais se revelam virulentamente os ódios étnicos intra e inter-africanos.
Não são só os casos mediatizados da rivalidade Hutu/Tutsi ou a crise humanitária no Sudão.
Existem 800 fronteiras tribais em África que, tendo sido homogeneizadas pelas potências europeias, não foram repostas pelos novos líderes africanos por considerarem que a sua reimplantação traria mais vícios que virtudes. E aqui temos o fulcro para as guerras civis, o genocídio, a limpeza étnica e as migrações em massa.

“Coração de Trevas”, bem o disse Conrad.
Cem anos depois aqui está um continente sufocado pelos seus próprios desígnios. Doente, corrupto, insanável.
Não, não basta atirar tudo para o passado.
E não, não basta enfatizar que o problema desta Cimeira é a presença de um tirano.

Até quando baterá um coração nas trevas?

Governo paga 200.000€ para saber as leis da Educação, mas aperta calos aos Municípios...

O défice público tem sido a menina dos olhos da governação da Nação.
Em nome deste têm sido atacados violentamente sectores profissionais, aumentadas taxas e impostos, publicadas listas negras de caloteiros, congeladas progressões na carreira, mandados para o quarto escuro os ditos excedentários e até uma nova Lei das Finanças Locais foi publicada.
E deu brado a dita cuja. Bem, na verdade deu berros!!!

E ainda dá.
Tudo despoletado pela mais recente rábula lisboeta.
Um pedia 500.
Outros diziam que 300 chegavam muito bem para saldar dívidas e assim admitindo, dado que Paula Teixeira da Cruz, por exemplo, falava em dívidas ocultas e outras engenharias dos tempos socialistas, que pelo menos os tais 300 eram responsabilidade da dupla Santana/Carmona.
No fim, um do partido dos 300 propôs 400, o que queria 500 proclamou “adjudicado” e, na hora do levanta, senta o partido dos 300 absteve-se na proposta que mandara fazer!

Tivesse eu os dotes de um Jorge Amado ou de um Lobo Antunes e tinha aqui o enredo para o livro que já alguns me incentivaram a escrever.

De volta à vaca fria, dizia eu que, a pretexto do empréstimo olissiponense, autarcas de alguns dos municípios mais endividados do País rumaram por aí abaixo e toca a reunir em Lisboa para analisar o problema.

O problema deles, não o de Lisboa. E o problema deles é como ir buscar mais “daquilo com que se compra os melões” a pretexto de pagar dívidas.
À mesa estiveram Gaia, Santarém, Castelo de Paiva, Mondim de Basto, São Pedro do Sul, Fornos de Algodres e Vouzela.
Deve-se dizer que, ao abrigo da Lei das Finanças Locais, estes municípios sofrem um corte mensal de 10 por cento nas verbas transferidas pelo Orçamento de Estado através do Fundo de Equilíbrio Financeiro até a situação estar regularizada.

Consta que alguns autarcas dispõem de pareceres jurídicos (e deviam ser muitos pois sempre ouvi dizer que juntando dois juristas para analisar um certo assunto se obtêm três pareceres e todos eles certos) sobre esta matéria e a reunião terá servido sobretudo para partilha de informações.
"Cada um traz as suas posições. Há municípios que têm pareceres jurídicos, é natural que se esclareçam mutuamente", disse Fernando Ruas, edil viseense e presidente da Associação Nacional de Municípios Portugueses (ANMP).

Adivinho que a reunião tenha sido mais ou menos pacífica e que, mais que os pareceres jurídicos, os autarcas procuraram um móbil para exercer pressão.
Apercebendo-se certamente da extemporaneidade de qualquer tomada de posição, Fernando Ruas sempre foi avisando que a Câmara de Lisboa usou os mecanismos previstos na lei para elaborar um plano de saneamento financeiro e juntou-lhe um dado que tem sido escamoteado.

"Quem vai dizer se o procedimento é correcto é o Tribunal de Contas", afirmou Fernando Ruas, manifestando confiança na independência desta instituição para apreciar todas as situações idênticas que lhe forem remetidas pelas autarquias.

É que basta o Tribunal de Contas decidir não conceder o “Visto” e lá se vai o empréstimo pelo cano abaixo.

Estranhamente, e se ainda tiverem presente que esta lengalenga começou por causa do défice, tem passado relativamente despercebido o facto de ter sido contratado pelo Ministério da Educação em regime de prestação de serviços um jurista de seu nome João Pedroso.

O trabalho de levantamento e compilação da legislação produzida pelo Ministério da Educação, requisitada ao irmão do ex-ministro socialista Paulo Pedroso, poderia ser realizado num curto espaço de tempo por qualquer jurista da Administração Pública, com acesso às bases de dados existentes, garantem fontes conhecedoras do processo.

Na Assembleia da República, durante uma interpelação ao Governo sobre Educação, o deputado do PSD, Emídio Guerreiro, considerou "verdadeiramente escandaloso" que o ministério "tenha contratado por duas vezes um conhecido advogado ligado ao PS", para fazer uma obra de compilação de leis e um manual de direito da educação.

O deputado asseverou ainda que João Pedroso foi contratado em 2006 para desempenhar aquela tarefa, com um vencimento mensal de 1.500 euros, tendo este ano assinado um novo contrato, desta vez por cerca de 20 mil euros mensais, para realizar a obra que não chegou a ser feita da primeira vez.

O Ministério da Educação veio entretanto esclarecer que se lobrigaram mais de 4.000 diplomas em vigor pelo que foi necessário um segundo contrato

"O valor deste contrato é de 220.000Euro, a que acresce o IVA, montante que inclui todas as despesas que o adjudicatário tenha de realizar para a prestação dos serviços contratados", valor a que se chegou pela consideração de "diferentes factores, nomeadamente a exigência técnica dos trabalhos, a complexidade das tarefas, a qualidade estipulada, os recursos humanos e materiais a alocar às diferentes actividades, bem como, obviamente, o volume da documentação a trabalhar e analisar", lê-se no comunicado.

Eu garanto que ou sou burro ou não entendo nada disto.

O Ministério da Educação deixou de ter juristas nos seus quadros?
E tendo-os, mesmo que tivesse três ou quatro a trabalhar dois anos consecutivos no mesmo, não poupava dinheiro?

Sempre ouvi dizer que se poupa na farinha para se desperdiçar no farelo. É o que é.

E do nosso desleixo (urbanístico) nasceram cidades...

O país rural desapareceu.
Comprou automóvel a prestações, fez-se urbano, mesmo sem entrar nos perímetros das cidades tradicionais.

Porque a cidade "já não é um ponto no mapa, transforma-se numa superfície", estende-se por novas geografias, onde o terreno para construção é acessível, junta-se a outros aglomerados urbanos. "Perde-se a ideia de centro, mas, graças à mobilidade cada vez mais fácil, tudo fica próximo: a distância mede-se pelo tempo”, afirma Álvaro Domingues, geógrafo e docente na Faculdade de Arquitectura do Porto (e que coordenou o livro "Cidade e Democracia - 30 Anos de Transformação Urbana em Portugal", editado pela Argumentum).

Nas cidades portuguesas, que ocupam 2 % do território nacional, em 2001, concentravam-se 4 milhões de pessoas, cerca de 40 % da população.
E metade dos ditos citadinos concentrava-se em 14 cidades.
Estes números são do Instituto Nacional de Estatística.

Mas de acordo com aquele investigador, estes números mudam se a análise for feita a partir do princípio de que a nova "forma física de territorialização da sociedade" é uma continuação da cidade.

Só nas "duas conurbações de origem metropolitana" - a de Lisboa e a do Porto - residem aproximadamente 6 milhões de portugueses.
O que corresponde, segundo o estudo coordenado por Álvaro Domingues, a uma "concentração de 53% do total da população portuguesa".

À medida que a mobilidade é mais fácil e "mais democraticamente distribuída" - mobilidade de gente, de mercadorias, de informação, etc. - o território "deixa de ter aquele fixismo representável no mapa e passa a ser uma espécie de campo magnético: tudo se mexe, tudo vai não sei para onde", diz.

Em Portugal, o fenómeno é recente porque entrámos tarde na revolução do automóvel, só que agora o quotidiano não se mede por quilómetros mas em tempo, conforto.
Com a nova "cartografia dos movimentos quotidianos" das pessoas, as cidades deixam de ser ponto no mapa - "são superfícies instáveis, sempre a mexer, onde a lógica relacional é mais importante".

Neste quadro de extrema mobilidade surge-nos o flagelo do deficiente planeamento a nível urbanístico.

Fiadas inteiras de prédios, todos muito cinzentos, sucedem-se em ruas onde árvores raquíticas tentam enganar a existência.
Nalguns locais essas fiadas inteiras de prédios têm (quando têm) infra-estruturas de natureza ambiental insuficientes.
Ora é a pressão da água na rede que não permite que ela chegue a todas as torneiras, ora é o saneamento que entope.
Aqui e ali é o ecoponto que transborda, mas mesmo assim os impacientes e os selvagens persistem em deixar o lixo. Se não cabe, fica no chão…

Ruas estreitas, autênticas veredas, servem agora os tais automóveis do milagre do desaparecimento dum Portugal rural cuja existência também não deixa saudade.

Ele é o PNOT, PROT, PMOT, PP, PU e muito mais. O RGEU, RJIGT e RJUE. Depois ainda há o RMUE.
Trocando por miúdos… Plano Nacional de Ordenamento do Território, Plano Regional de Ordenamento do Território, Plano Municipal de Ordenamento do Território, Plano de Pormenor, Plano de Urbanização, Regime Geral das Edificações Urbanas, Regime Jurídico dos Instrumentos de Gestão Territorial, Regime Jurídico de Urbanização e Edificação e Regulamento Municipal de Urbanização e Edificação.
Falta, claro está, o Plano Director Municipal que, nalguns casos, é como uma meretriz da Babilónia…

Talvez fruto desta carga excessiva de diplomas, e eu nomeei apenas os de referência, a carga burocrática, os pareceres, os actos preparatórios que antecipam o verdadeiro acto administrativo, a discricionariedade técnica e mais alguns fenómenos, o português médio, dentro desta mobilidade acelerada, costuma resolver uma das suas necessidades básicas (habitação condigna) de duas formas:

- Compra “à ceguinho seja eu” ao pato bravo que no momento está na mó de cima ou que promete o jardim perfumado na Urbanização do Rato (juro que conheço uma urbanização com este nome) ou,

- Em alternativa, constrói ele próprio e o resto… logo se vê.

Não fazem, possivelmente, ideia do que, de Norte a Sul, existe de construção ilegal.
Tenho topado com casos em que já não é só o galinheiro ou o muro, antes a casa inteira. Algumas de rés-do-chão e andar, mais piscina e o que mais o dinheiro fácil permite.

A acrescer a estes fenómenos e contributos espontâneos ao embelezamento da paisagem, temos ainda o gosto requintado e refinado de muitos técnicos.
Só muito recentemente se começou a ir ao arquitecto (pudera, alguns é cada conta que quase sai mais barata a casa que o projecto!), sendo inúmeros os casos de desenhadores ou os ditos agentes técnicos que assinavam projectos. E são todos muito imaginativos como já devem ter reparado.

Durante anos era o azulejo ou o ladrilho.
Depois veio uma nova era de prédios com pedra colada e casas que nem eram pedra ou tinta.
Bem, algumas eram num amarelo a lembrar manteiga rançosa!
Seguiu-se o glorioso apogeu do granito.
Casa que se prezasse era tudo em granito amarelo, com uma pinceladas de tinta e umas colunas de pedra também.

E assim, num enorme somatório de equívocos, fomos construindo as urbes de hoje onde quase já não há pássaros a chilrear, nem se ouvem outros sons que não os do vizinho de cima, ou a vizinha de baixo, o comboio que apita ou o carro que chia no viaduto que entretanto nos construíram quase em cima da varanda!