Notas Emprestadas

Iniciamos hoje o NOTAS EMPRESTADAS, espaço onde todos os que quiseren poderão expor as suas ideias. É uma rúbrica de divulgação doutras escritas, mas poderá ser o início de uma caminhada colectiva.

O NOTASSOLTASIDEIASTONTAS agradece àqueles que já se associaram e mantém o desafio aos restantes. Enviem-nos textos para futuras publicações.

Fica ainda aqui expressa a ideia que os textos publicados são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Não representam, nem vinculam este blogue.


O quarto escuro

Estando eu a almoçar numa cidade do interior, vejo chegar um grupinho, saído directamente de um filme do Harry Potter, assim, todos enfiados em ridículas fatiotas negras, ostentando um ar de rancho folclórico, preparado para uma qualquer cerimónia fúnebre (ou de mau gosto).

Ruidosos e alegres, ocuparam a esplanada em frente.

Os empregados torceram o nariz àquela avalanche que significava mais trabalho sem gorjeta. Universitários, deixou escapar um dos empregados sem disfarçar o desagrado que isso lhe provocava.

Reparei nos trajes e perguntei-me o que levaria uma universidade recente, a adoptar um traje medieval. Já sabemos que somos um país onde se cultiva o estatuto social. Onde todos nós espelhamos, à porta de casa, porque o espaço de garagem era muito caro, um Audi A4 símbolo do nosso triunfo e posição social.

Estes pelintras vestem um traje adquirido por 90€, mas que representa a entrada no universo dos doutores e engenheiros, o fim de anos de militância plebe: o triunfo sobre as massas.

As praxes marcam a entrada nesse universo, onde um novo mundo se abre e novos privilégios são adquiridos, convém pois deixar o estatuto anterior, de anónimo cidadão, com os requintes de humilhação e de atropelo aos mais básicos direitos de cidadania, que é isso que significa em Portugal ter um canudo. Como doutor engenheiro, vão passar a sua vida profissional a obrigar os outros a rastejar na lama, é pois natural que assim se despeçam da sua condição de indigente.

Quando era miúdo brincava ao quarto escuro, aí, no escuro se exploravam novos horizontes… mas isso, éramos nós a crescer.

Quem brinca com fatos negros, acaba a brincar com espadas e lençóis brancos, convencido de que a sua superioridade lhe confere direitos e privilégios à custa dos outros (mesmo dos que reconhece como seus pares).

Sim, quando se quer ser adulto não se deve brincar no quarto escuro.

Autor : António - sempenas-ant.blogspot.com

39 comentarios:

quintarantino disse...

Caros leitores e comentadores,
sem a vossa presença assídua e participação activa este projecto far-se-ia à mesma, mas não seria tão preenchido.

São vocês que têm contribuído e exigido que dia após dia procuremos elevar o requinte da escrita.

Apesar de, aqui e ali, surgirem por aqui picardias assentes certamente em mal compreendidos, vemo-nos como autores e pensadores de um projecto sério.

Despretensioso no sentido que nenhum dos autores quer partir daqui para carreiras ou voos alargados, mas audacioso porque aqui se procuram abordar temas que permitam análise e discussão.

Nem sempre o objectivo é alcançado, o que se lamenta, mas lutamos para que assim seja.

Daí que ouse dizer que este projecto que iniciei sózinho e hoje se encontra enriquecido com o contributo de mais dois audaciosos pensadores (e posso garantir que não ficaremos por aqui) é um blogue sério.

Hoje inicia-se o NOTASEMPRESTADAS onde quem quiser escreve.
Calhou ser o SEMPENAS o primeiro a mandar um texto.
Coube-lhe a honra de inaugurar o espaço.

Quanto ao texto, é mais um retrato do Portugal que somos.

Tiago R Cardoso disse...

Estou bastante satisfeito, o Notas Soltas, Ideias Tontas é aquilo que eu imaginava que podia ser a blogosfera, um espaço de ideias, de debate e de convívio.
Com este espaço a que demos o nome de Notas Emprestadas , o blogue deu mais um passo no sentido correcto, em direcção ao que pretendemos para ele, crescer, diversificar e debater.

Daniel J Santos disse...

Gostava de endereçar os parabéns aos autores, deste blogue, pelo excelente trabalho que têm vindo a desenvolver, criando um espaço salutar de debate e troca de ideias.
Parabéns também pela excelente ideia de "abrirem" ainda mais este espaço ao mundo.

Shark disse...

Fico satisfeito por poder ver um blogue a abrir espaço a que outras pessoas possam deixar as suas ideias em espaço alheio.
Não como comentário, mas como texto a ser sujeito ao rigoroso escrutínio dos comentadores.

O António (que não faço a menor das ideias quem seja) fala-nos de Audis A4 na rua porque não há garagem (mas deve ser engano porque a legislação de urbanismo, desde os tempos de 1956, que não permite que se edifique sem prever lugares de estacionamento ou aparcamento próprios) e de jovens estudantes a caminho do sucesso.
Muito bem. É um ponto de vista.

Sniqper ® disse...

REALMENTE...

Realmente o Tempo é sempre o melhor caminho para descobrir a VERDADE, sempre o afirmei e nunca fiquei desiludido com os resultados.
Mais uma vez, saber esperar e acreditar no Tempo funcionou.

SEM PENAS, no que vou escrever, reafirmo de facto que os meus comentários neste blogue terminaram.

Não tenho sequer de tentar perceber o porquê de tal ESCOLHA PARA INICIAR ESTA NOVA FASE DO NOTAS SOLTAS, isso só diz respeito aos fundadores do blogue, nada mais.

Mas precisamente por isso, digo simplesmente QUE ENORME FALTA DE RESPEITO POR QUEM VOS VISITA, E COMENTA E, QUE FIQUE BEM CLARO NÃO ESTOU A FALAR DE MIM, SIM DOS OUTROS COMENTADORES QUE ANALISAM OS VOSSOS TEXTOS E OS COMENTAM a vossa escolha para primeiro texto ter sido por MERA COINCIDÊNCIA, CLARO o ANTÓNIO, o tal da POMBINHA AZUL, que nada mais faz por aqui que destabilizar.

Deixo como sugestão uma visita ao blogue desse Senhor, vale a pena apreciar tanto os textos como o resto, mas com olhos de ver, com isenção.

Quanto ao Notas Soltas, que desilusão enorme, podem crer. Não considero inútil o meu tempo nem de leitura nem de comentários no Notas, fico até feliz porque mais uma vez a minha a Vida reforçou o que me ensina todos os dias...Esperar para ver.

Bom trabalho, mas primem pelo respeito que devem a quem vos visita e comenta, são esses a vossa razão de existir.

bluegift disse...

Excelente ideia Quint! Um espaço democrático é um espaço de TODOS, sem lugar para imposições individuais.
O Sempenas foi o primeiro a enviar o texto e está de parabéns por assim ganhar a honra de iniciar este ciclo, trabalhou para isso.

Passando ao texto do António-sempenas. Percebo o teu ponto de vista e é verdade que é essa a ilusão de muitos que começam esse ciclo, revestido de bastante pedantismo para alguns. Mas a vida reserva-nos grandes lições e não é um canudo nem uma fatiota harry potter que irão decidir o sucesso. Matematicamente falando, acredito que o sucesso, não importa em que sector, com ou sem canudo, reside em aproximadamente 50% de trabalho e 50% de sorte, o resto, sim, é folclore.

bluegift disse...

sniqper, não te fica bem o que escreveste. Acho que o facto de não gostares do Sempenas te ofuscou a visão do todo. Na nossa vida temos frequentemente que aprender a tolerar pessoas de quem não gostamos, não é por isso que vamos condenar todos os outros que têm uma visão diferente do problema. O antónio terá a sua amargura e tu terás a tua, cada um vive-a da forma que sabe e consegue.
Seria uma boa ideia se tentassem os dois resolver os vossos desamores fora da praça pública, em privado, por email, ou num combate de espadas, porque não? ;)
Espero que reconsideres, a tua presença TAMBÉM é importante.

Tiago R Cardoso disse...

Eu não respondo, nem vou responder directamente a provocações ou a qualquer tipo de tentativa de condicionamento deste blogue.

Antonio,
Eu sou a favor das tradições, mas contra a sua desvirtuação.

Considero que a vida académica tem as suas tradições e os seus encantos, embora nunca tenha chegado a essas andanças.

Acredito que alguma tradições, detesto a palavra praxe, permitem num espírito de alegria e convivência, a criação de melhor integração.

No entanto, isto que assistimos hoje em dia, falo de praxes estúpidas, só servem para denegrir a imagem dos estudantes.

Por isso e por mais algumas atitudes que temos assistido, eu dou pouco credito a quem dá semelhantes exemplos e depois aprece a reivindicar a favor dos estudantes.

Márcio disse...

Eu iria começar pelo texto e só depois dar os parabéns pelo verdadeiro início desta iniciativa, mas como todos fizeram o contrário não serei eu que irei fazer de forma diferente.

Este é um blog de pluralismos, diversificação temática, e mais do isso, aberto a todos. As “Notas Emprestadas” são mais uma prova de como essa abertura está a ser cumprida. Parabéns a vós, que com o trabalho efectuado até agora já fazia estar à frente da concorrência, com isto arrebentaram com tudo!

Agora quanto ao primeiro tema, sou da franca opinião – e apesar de não ter universitário, tenho vários amigos que o são – de que a as praxes (ou tradições) são parte da vida académica. Lá eles conseguem conhecer melhor os colegas de curso, e outros colegas… conseguem integrar-se melhor com os futuros colegas. E quer queiramos, quer não, eles serão um apoio muito forte na caminhada que lhes avizinha.
Contudo e segundo sei, ninguém está obrigado a participar e entrar desse tipo de tradições.

antonio disse...

Notas Soltas, realmente a honra que me coube resultou do facto de ter sido o primeiro a enviar um texto, pois li o vosso convite logo após ter escutado na Antena 1 que iria finalmente a julgamento o resultado de mais uma “praxe”. E saiu o texto que com muito orgulho vejo aqui neste vosso espaço.

Blue e Tiago, eu como vocês também defendo as tradições e quando elas são genuínas e não inventadas à força, quando correspondem a um processo de integração do caloiro numa vida académica, tudo bem, mas aqui este texto denuncia o que se estava a tornar em algo inadmissível, que visava apenas a humilhação dos caloiros, que no ano seguinte se “vingavam” aumentando por vezes a parada.

Shark, alguém se esqueceu de avisar a Câmara do Barreiro… quanto ao sucesso, também tenho as minhas dúvidas, mas pela aparência que os portugueses têm pelo canudo, não deve ser mau de todo.

antonio disse...

Márcio, siga o link para perceber ao que me refiro. Eu como universitário fui praxado e praxei dando uma aula aos caloiros em que alunos do primeiro ano, disfarçados de caloiros, respondiam prontamente às perguntas mais estúpidas que faziam parte da “revisão do propedêutico” (espécie de 12º ano), para desespero dos caloiros que pensavam ter-se enganado na universidade.
No fim, fomos todos beber uns copos e ninguém saiu magoado ou humilhado.

Acrescento esta frase que retirei de um dos textos que linkei:

"A Praxe Académica e o uso da Capa e Batina representam humildade e o respeito pelos outros."

Blondewithaphd disse...

My, oh my what goes on in here! Great stuff even if that implies remarks made in the heat of the moment that I am sure will be reconsidered.

To Notas, the recognition that this is a plural and open space!

To Antonio, a superbly well-written text!
I agree that "praxes" should be forbidden (even if for that we needed the undemocratic imposition of legislating against them and legislating against tradition). To be honest, I still am surprised that in a country without a long tradition in having many people go to university, there's such love of tradition. Guess we still have a long way to go in terms of mentality. You see, in most families it's only in this generation that someone goes to university. For them that's a symbol of status not possible a few decades ago. People are still learning what this whole new world of education is. One, day when the norm will be higher education, we won't be confronted with Harry Potter costumes making a fuss in some God-forsaken restaurant.

avelaneiraflorida disse...

Desculpem a minha intromissão!!!!
Mas depois de ler tudo quanto antes está escrito, sinto-me impelida a dizer:

Liberdade de opinião, Sempre!
Posssibilidade de participar num acto disponibilizado por outrém, para enriquecimento colectivo, Sempre!
Discussões individualistas, Por Favor, façam-nas olhos nos olhos!!!!
Voltarei!!!!
BOM DOMINGO!

Bruno Pinto disse...

Uma coisa � condenar e muito bem os excessos cometidos durante as praxes. Outra � estar a generalizar as cr�ticas a todo o mundo estudantil, e a subida a pulso de muita gente que fez por o merecer e trabalhou arduamente para isso. Estar a falar do 'triunfo sobre as massas', dos A4 ou dos rastejos na lama, generalizando, parace-me completamente descabido. Ainda bem que h� estudantes e oxal� aumentem cada vez mais os licenciados e doutorados neste pa�s, porque quanto menos analfabetismo mais este Pa�s andar� para a frente. Menos lamechice e mais respeito por quem procura ser algu�m na vida!!

C Valente disse...

Boa crónica, Estas situações das praxes são ridiculas e estupidas, depois em novas universidades vestirem trajos moda anos não sem quantos outra ridicularia, pois com isso não escrevem passado nem valores só estupidez.
saudações amigas

Francisco Castelo Branco disse...

Parabens por mais esta iniciativa. Espero que o blogue continue com a sua projecçao

NuNo_R disse...

Parabéns!!!

Quando me for possivel participarei.

E em comentário ao texto do António, só vou afirmar algo que costumo dizer aos meus amigos quando vejo alguém a praxar e a ser praxado: "Será esta a gente que vai "mandar" em nós daqui a uns anos, que tristeza e que mal entregues iremos ficar..."

Sendo assim, fica a nota que abumino as praxes na sua essência, pois levam a que a Humilhação impera sobre o praxado.
Pois uma coisa é "baptizar" alguém e festejar a sua chegada ou entrada num grupo, outra coisa é humilhar e torturar, e isso para mi é intolerável, pois há que respeitar a integridade fisica e psicológica do ser humano.
Mas tb digo, que não tenho pena nenhuma dos patetas que gostam de ser praxados e andar a fazr figuras tristes pela cidade fora...


abr...prof...

Alma Nova disse...

Estava esperançada nesta nova rubrica que nascia aqui no "Notas". Sinceramente pensei que pudesse vir a ser aquilo que o Quin afirma. Mas as esperanças são sempre confirmadas ou destronadas pelo tempo e pelas realidades.
Assim aconteceu mais uma vez...
O respeito, para ser real, deve ser recíproco e apenas lamento que, em prol do pluralismo, se esqueça esta norma e se aceite quem apenas se limita a perturbar, como aqui assisti. Nada tenho a ver com as escolhas feitas pelos "donos" deste espaço e eles devem saber porque foi o texto deste autor o primeiro a ser publicado, mas para se preservar a Liberdade, é bom que se analise e avalie com isenção, só assim ela funciona ou corremos o risco de a vermos transformada num caos.
E neste espaço mais uma vez a vida me deu uma lição...e o tempo me trouxe a resposta que não desejava.
Desejo-vos a continuação de bom trabalho, mas nunca se esqueçam do respeito que devem a quem vos lê e comenta.

(P.S. - O comentário anterior foi apagado porque tinha erros, pelo que peço desculpa).

Fa menor disse...

Amigos,

O "Notas" está de parabéns por mais esta iniciativa que designou de "Notas Emprestadas".

Relativamente ao "Quarto Escuro",
o estatuto social, muitas vezes, quer-se conquistar à força e então resulta nos atropelos à dignidade daqueles supostamente inferiores.
Isto não acontece só nas praxes, mas em qualquer sector da vida. Temos isso hoje bem debaixo dos nossos olhos.

Mas penso não ser isso, de maneira nenhuma, o que leverá a certas animosidades por aqui...
Continuo sem as perceber.

Continuem sem medos e sem penas.

Fa-

quintarantino disse...

PEDIRAM-ME PARA NÃO DAR IMPORTÂNCIA, NEM REPLICAR.

Mas aqui, como fundador e mentor do projecto, ainda detenho direitos. Acho eu.

Assim, aqui vai:

1 - Registo a coincidência de argumentos e até de escrita entre dois comentadores.
Não é sequer preciso dizer os nomes, tal é a evidência.
Fica-lhes bem a independência!

2 - O Sniqper parece estar muito ofendido mas podia ter a ombridade de admitir publicamente que também ele foi convidado a escrever e nem sequer se dignou responder, como todos o fizeram.
É que quem o ler, até parece...

Mais a mais, tenho de lhe ter
tanto respeito a ele, como aos restantes 20 a 30 que aqui vêem diariamente comentar!

3 - Foram dadas as explicações mais que suficientes às pessoas sobre qual a ordem de publicação.

Há mais quem as saiba e se o Sniqper as esqueceu, o problema não é rigorosamente meu.

4 - Vou dizer de cara erguida o que tinha andado a dizer de forma indirecta: se há pessoas que vêm para aqui dirimir conflitos pessoais, o problema não é só delas.

Estou-me nas tintas se entre o Sniqper e o Sempenas existe alguma animosidade pessoal, não concebo é que por causa disso eu tenha de adoptar uma postura determinada.

Estou-me borrifando!

Aliás, começo a ficar farto de tentativas de imposição disto e daquilo.
Mais depressa acabo com isto tudo do que me condicionam no que quer que seja!

R@Ser disse...

Passando pra ler!!!
Boa sorte ao mais novo integrante.

Bjos

Lampejo disse...

Olá,

Eu bem sei o que é um
(praxes) no Brasil se diz, (trote) sei bem como isso funciona!
Na universidade que cursei (saúde) os trotes são uns dos piores até hoje.

Penso que o trote deveria ser algo cívico, como doar sangue para hospitais, palestras em comunidades carentes etc...

Definitivamente esses trotes na maioria das vezes perigosos, inúteis, sádicos e que levam à violência.

As pessoas não sabem brincar, faz da liberdade uma libertinagem.

Quanto ter ou não ter um canudo (diploma) na mão isso,
Não faz a menor diferença.

O sucesso não se mede com um diploma e sim quando nos propomos a vencer obstáculos que a vida nos impõe.

Parabéns pela postagem!

(a)braços...

SILÊNCIO CULPADO disse...

Ao Notas Soltas a minha solidariedade e satisfação por proporcionar um espaço plural com pleno direito de opinião e expressão de pensamentos, sem censuras, discriminações ou menorizações indignas dos que se afastam de uma linha previamente traçada.Tal como Avelaneiraflorida de Cantares de Amigo também defendo que só a liberdade de opinião engrandece e faz evoluir o ser humano.
Posto isto felicito o António do blogue Sem Penas por abrir um novo ciclo de Notas Emprestadas que, espero, como diz o Quint, seja um início para caminharmos juntos. O António tem, de uma forma geral, opiniões bem diferentes das minhas mas tão legítimas quanto as minhas só que não consigo com elas estar de acordo a maior parte das vezes.
E neste post, para não variar, também não temos uma visão coincidente. Mas acho óptimo confrontar duas versões e, por isso, passo a comentar.
Gosto da vida e de vivê-la em todas as suas vertentes desde que signifiquem vida e não morte e que, como tal, não tragam prejuízos a terceiros. A vida académica sempre me fascinou e participei, até onde me era possível tendo em conta que fui sempre trabalhadora estudante, de algumas tertúlias e manifestações. Entrei para a faculdade antes do 25 de Abril e participei de greves que resultaram em prisões e pancadaria. Várias anos mais tarde, casada e com um filho e a trabalhar, voltei a tirar outro curso e vivi-o de outra forma mas com a mesma paixão que vivi o primeiro. Ainda me rio quando penso nas partidas de que fui alvo nas duas estreias e não vejo que delas tenha vindo mal ao mundo. Efectivamente, têm aparecido casos de praxes indignas cujos autores deverãao ser severamente punidos. Também há condutores indignos mas isso não nos impede de conduzir.Também há maus médicos e advogados e isso também não nos impede de os consultarmos quando precisamos. Vamos pôr pois as coisas no devido lugar.
Quanto às vestimentas cada um usa o que quer desde que não ofenda a moral pública. E sobre os trajes medievais parece que voltaram a estar na moda. Possivelmente porque as Câmaras Municipais, e posso citar uma longa lista, têm promovido eventos de representações medievais certamente para divulgar a cultura da época.
Em qualquer dos casos penso que não devemos discriminar práticas de grupos desde que as mesmas não nos ofendam. É dessa pluralidade maravilhosa que se faz o todo.

anonimodenome disse...

Parabéns ao António e a este blog.
Antigamente não havia praxes na universidade de Lisboa, que eu me recorde. Comecei a notá-las em Lisboa com o proliferar das Universidades privadas. Tentativa de afirmação de quem entra nas segundas escolhas?
Também não me agradaria ser sujeito a praxes. Assisti a muitas faltas de respeito (leia-se pancadaria) entre estudantes universitários quando saltou a tampa do 25 de Abril. Os motivos seriam políticos? Não. São mais do género 'inserção no bando' e o controlo individual perde-se na irresponsabilidade do grupo.

A mentalidade de 'Sr.Doutor' é muito provinciana, é cá deste Portugal e não é muito vista lá fora. Prefiro respeitar as competências.

Hoje vejo os putos a sair da Universidade e alguns depressa ficam consultores, directores e administradores, outros no desemprego. Estamo-nos a esquecer que em domínios de alta tecnicidade e saber são necesários aproximadamente 10 anos de aprendizagem dentro do ramo.
Não me admiraria que cheguem a essas posições devido à Srª D. Cunha. São filhos de algo. Fidalgos. E nós, os outros, os parvos, que ainda por cima pagamos.

Vi o filme Elizabeth II e relembro que a catástrofe marítima que recaiu sobre Portugal e Espanha (Castela,...) foi devida à escolha política do fidalgo de maior prestígio em vez do prático de mar e guerra mais valoroso para comando de tamanha empresa.
De qualquer modo ainda bem que a Inquisição perdeu. Serviu para apressar o Futuro.

De que vale termos tantos doutores se a sabedoria não vier também com o canudo?

Aos que não gostam do António, paciência. Até estranho que façam propaganda para irem visitar o sem-penas. Ele é de muita ironia fina, perspicaz e com escrita cuidada. Houvessem muitos.

Não precisaria de o dizer mas tenho muito orgulho de que ele seja meu amigo.

Fiquem bem.

NINHO DE CUCO disse...

Parabéns ao Notas Soltas por esta iniciativa de trabalho conjunto enriquecedora de um património de ideias que todos podemos partilhar.
Relativamente ao texto do António, que eu considero um bom post porque apresenta de forma clara uma determinada visão sobre um determinado acontecimento, só posso dizer que não perfilho de preconceitos discriminatórios em relação à forma como pessoas ou grupos de manifestam desde que não venha mal a terceiros em virtude dessa manifestação.

António de Almeida disse...

-Nunca dei muita importância ás praxes, mas vai para uns 10 anos, em Lisboa, av. da Liberdade, ia adiantado para uma reunião, pelo que deixei-me ficar no passeio, acendi um cigarro, e calmamente observando quem passava, sem prestar atenção a ninguém em especial. Até que vou fazer cair a cinza para o chão, não é atirar a beata, apenas a cinza, quando vem uma rapariga a correr direita a mim, gritando, aqui, aqui, sou um cinzeiro, fiquei estupefacto, atordoado mesmo, foi quando percebi que a rapariga tinha um cinzeiro preso á cabeça, e estavam por perto, os colegas mais velhos, a observar. Confesso que ainda hoje, não consigo muito bem, classificar a cena, mas lá que foi diferente, única, disso não há dúvida.

Carol disse...

Antes de mais nada, quero dar os parabéns ao Notas Soltas e aos seus mentores por este abrir de portas a quem quisesse escrever textos para este novo espaço. Fui uma das convidadas e ao ler o convite fiquei ciente das «regras». O meu texto ainda não foi escrito, mas será e não me incomoda minimamente que seja o último a ser publicado. Não me interessa ser a primeira ou a última. Eu sou quem sou e não é um texto, um blogue que o condiciona.

O António é alguém com quem, a maior parte das vezes, não concordo. Ele tem a sua visão do mundo que, por acaso, é bastante diferente da minha. Não o acho melhor ou pior do que eu. É o António, simplesmente.

Mais uma vez, li e reli o que escreveu e, mais uma vez, estamos nos antípodas um do outro.
Fui estudante universitária, não porque fosse rica mas porque os meus pais trabalharam muito para que tivesse a possibilidade de ter mais oportunidades do que eles. Fui universitária, porque estudei para o ser. Se aí cheguei, não foi por sorte ou cunhas; foi porque esse era um objectivo a atingir e atingi-o graças a muito esforço e dedicação.
Estudei na Universidade de Aveiro e nunca tive traje académico, porque nunca gostei ser mais uma no rebanho. No entanto, sempre respeitei quem o utilizou, fosse por vaidade ou por orgulho de dizer que atingiu esse objectivo que eu também tinha.
O traje de Aveiro é diferente do do Porto, Coimbra e Lisboa. Se calhar, também o considera «medieval». Goste-se ou não, este traje tem uma simbologia muito ligada à cidade. A sua capa (o gabão) é igual à que os marnotos utilizavam. às vezes, António, antes de se criticar deve-se tentar perceber o porquê... Muitas vezes ouvi, de outros estudantes universitários, que o traje de Aveiro era feio. Feio ou medieval, acho de uma enorme beleza que sejam os jovens, por vaidade ou não, a manter vivo um traço característico da cultura desta cidade.
Fui praxada e só tenho boas recordações desses tempos. Ao contrário do que diz, não fui humilhada nem torturada . Praxei, também, e passados tantos anos, os meus caloiros ainda falam desses tempos e do quanto nos divertimos!
Tirei o meu curso e, ao contrário do que diz o António, o meu canudo não é usado para atropelar «os mais básicos direitos de cidadania». Eu trabalho (das 9h às 20h), pago os meus impostos e nem por isso tenho um Audi A4 na garagem. Não é por ter um canudo que me acho superior a quem quer que seja, nem mesmo a si, que é alguém com quem raramente concordo.
Ter um curso, António, não significa ser um ser arrogante e prepotente « ...convencido de que a sua superioridade lhe confere direitos e privilégios à custa dos outros» . Há muito quem tenha curso, porque trabalhou para isso e que trabalhe muito em prol deste país que, por vezes, é muito ingrato para com os seus licenciados (eu e milhares de professores desempregados ou com situações precárias de emprego somos exemplo disso!).
Ser «doutor engenheiro», ao contrário do que você diz, não significa «o triunfo sobre as massas». Há muito quem não o tenha e se julgue mais do que os outros. Aliás, há muito quem se diga «doutor engenheiro» e nunca tenha entrado numa sala de aula do ensino superior!

Mais uma vez digo: deixemo-nos de tretas e generalizações!
Há gente boa e trabalhadora em todas as profissões; há gente de muito valor neste país; há filhos de gente rica que se afirmaram na sociedade pelo seu valor; há filhos de gente de pobre que, graças a subterfúgios, atingiram lugares que não era suposto serem para eles. Há «doutores engenheiros» que trabalham, são humildes e lutam por um país melhor e há quem não tenha instrução, nem educação mas que, por ter dinheiro, se julga acima do comum dos mortais!
Há de tudo em todo o lado, António! Respeitemos quem tem gostos e pensares diferentes dos nossos. Condenemos os abusos das praxes e não a praxe per si, porque essa não é sinónimo de abuso, tortura e humilhação. Condenemos quem se julga superior aos outros e não compreende que a diversidade e a pluralidade são factores essenciais de desenvolvimento.

NÓMADA disse...

Aplaudo-a de pé, Carol, é só o que lhe posso dizer.E depois de tudo o que disse não me resta acrescentar mais nada.

7 Pecados Mortais disse...

Cumprimentos pelo novo desafio em que eu aceitei mas ainda não contribui, por falta de tempo e um pouco de falta de imaginação, mas irei-o fazer com todo o gosto. Não tenho nada contra este novo projecto. Quanto às praxes nunca fui contra elas, pois são uma tradição. É preciso não fugir à criação das mesmas, mas sim respeitá-las, quer para quem as faz, quer para quem se sujeita. O que não pode haver nas praxes é a falta de respeito para com o ser humano. O uso "abusivo" de algumas praxes tem de ser comedido e analisado antes de se por em prática. Quem não quer ser praxado deve-o dizer com convicção e apresentar os seus argumentos. Não pode haver punições pois está em causa o valor do respeito para aquele que não o quer ser. Depois há os que aceitam e estes também não são obrigados a fazer tudo o que lhes impoem, principalmente se os actos impostos causarem manifestamente falta de respeito. Tudo é uma questão de mentalidade e esta tem de ser feita sempre em respeito com o próximo. Eu fui praxado e não tive nada contra, inclusive levei com ovos e farinha e nunca me opus. Quando me pediam algo que eu não concordava, dizia e impunha-o com respeito de maneira a ser respeitado e assim foi. Quantos aos trajes, nunca o usei, por opção própria, mas não tenho nada contra os que usam, respeito as suas opções embora não concorde. Utilizo a questão de mentalidade, uso-a em meu proveito sem incomodar os outros e assim todos se entendem. É preciso saber dialogar para que não se crie fundamentalistas. Meus amigos, todo têm direito à liberdade e saber quando essa mesmo acaba. É só isso...mentalidade! Abraços.

Joshua disse...

Gosto tanto de pluralidade, de liberdade e de independência!Gosto do sim por oposição ao não. Aperto o gasganete ao talvez sempre que posso. Gosto do Sniper. O António é meu amigo, penso eu.

Será que terei de ficar fodido para fazer justiça aos dois?! Passarei adiante.

Tenho, quanto à vida universitária, a melhor das imagens e a mais densa e gratificante das experiências. Vesti-me de vampiro, negrejei na noite. Vi cenas. Fiz algumas. O traje académico é como um preservativo. Veste-se, identifica-nos. Tira-se.

A vida, essa, é outra coisa e o olhar que nos pede tem de salvar enquanto castigue.

antonio disse...

Joshua que na vida não tenhamos que dividir lealdades. O texto vale o que vale e não foi escrito a pensar na Carol, nem em ninguém em particular, mas não posso impedir que as pessoas lhe dêem uma leitura pessoal.

Claro que podia ter escrito um texto cor-de-rosa ou a dizer mal do Bush, ou qualquer outra futilidade, mas escrevi um texto para o Sem.penas, que foi parar ao Notas, porque calhou receber na altura o convite (não iria enviar uma menoridade, por respeito para com todos).

E acredita que sou teu amigo, por isso faço questão que discordes de mim (até publicamente) sempre que disso for o caso.

Pata Negra disse...

Estou tão exausto da leitura desta catrefa de comentários que nem vou comentar, ou melhor, já esyou a comentar.
(As capas surgiram para camuflar as origens dos estudantes de modo a atenuar os preconceitos de classe, hoje servem exactamente para o contrário)

Carol disse...

António, respeito a sua opinião. Apenas não concordo com ela e limitei-me a dizê-lo.
Não o conheço, tal como o António não me conhece a mim. Como tal, é evidente que não podia ter escrito este post a pensar em mim (nem eu me sinto apta a servir de inspiração seja a qem for!)...
Não li o seu texto, nem o encarei como uma ofensa pessoal! Li-o com isenção e comentei-o da mesma forma ou, pelo menos, tentei fazê-lo. Se falo em mim, no meu comentário, é porque não gosto de falar sem apresentar factos concretos e os que conheço melhor são aqueles que perfazem a minha existência.
Espero que não veja no meu comentário um ataque pessoal, porque esse não é, de facto, o meu objectivo. Apenas pretendi demonstrar que as coisas não são lineares, nem taxativas.

Carol disse...

P.S.: Acho que, mais uma vez, o objectivo foi cumprido: do texto nasceu o debate!

Cada um apresentou aqui a sua forma de ver o mundo, mas sempre com respeito pelo outro na forma como se apresentaram argumentos e contra-argumentos!

SILÊNCIO CULPADO disse...

É bom apresentar, e saber apresentar, ideias distintas desde que essas ideias correspondam à nossa forma de pensar. E há que saber respeitar as ideias distintas mesmo que com elas não concordemos. Também não é lógico que pretendamos, ao apresentar as nossas ideias, que os outros abdiquem das suas. Mas todas as ideias acabam sempre por acrescentar algo ou para questionar o que pensamos saber. O que acaba também por ser um acrescento. E penso que o Notas está a cumprir o seu objectivo.

quintarantino disse...

Joshua, meu caro Fellini, é como dizes, há apenas que apertar o gasganete às meias tintas... e aos que, arvorando-se em arautos da verdade e da liberdade, mais não são que a vanguarda de hordas de Putins e de Chavez's.

E registo com enorme satisfação que muitos não precisaram de apertar o pescoço ao António ou mostrar o caminho de um qualquer Gulag aos membros do NOTAS para discordarem do texto.

Desculpem, mas eu sou assim!

Um Momento disse...

Desejo tudo de muito bom ao Notas Emprestadas e quem sabe um dia ( o tempo anda escasso para estes lados) também eu nele participarei
Muitos Parabéns ao NotasSoltas , espaço que nem sempre comento mas sou leitora assidua
Deixo um beijo
(*)

Compadre Alentejano disse...

Gostei do texto,mas era desnecessário ficarmos a saber do "ódio" do Sniqper pelo António.
Parabéns pois ao Notas Soltas por esta iniciativa.
Um abraço
Compadre Alentejano
.

Maria P. disse...

Excelente iniciativa.
Parabéns ao Notas Soltas...

Boa semana a todos*