Já não somos uma Nação valente...

A SIC passou o fim-de-semana a mostrar, nos seus diversos serviços noticiosos, aquele que terá sido o momento que marcou o princípio do fim do cavaquismo.
Falo, obviamente, do bloqueio da Ponte 25 de Abril ao princípio por seis camiões e, mais tarde, pela junção e união de esforços de dezenas, centenas de cidadãos anónimos que se revoltavam contra um aumento de 50% do valor das portagens.
Aumento, esse, curiosamente decretado por um Governo cujo ministro da Tutela é o homem forte da sociedade a quem foi concessionada a exploração da 25 de Abril e da Vasco da Gama.
E em exclusivo.

Seja como for, hoje estão mais de dez anos volvidos.
Viveram-se os anos da euforia e da loucura final do cavaquismo e do guterrismo.
Pressentiram-se os primeiros sintomas de gripe no paciente na fase pantanosa.
Começaram os tratamentos de choque com o barrosismo, dispersaram-se diagnósticos e exames no santanismo e meteu-se tudo numa espécie de quarentena com o socratismo.

A sociedade civil, essa vive como que anestesiada. Na sua quase maioria.
Outros deixaram-se navegar nas ondas do oportunismo e do individualismo.
Parecemos ser incapazes de nos rebelarmos.
Nem mesmo quando se juntam 200.000 os poderes nos levam demasiado a sério.
Desvaloriza-se porque se sabe que basta acenar com mais uma maldade a determinado sector, para que as restantes massas salivem.
Fossem estes os tempos de Roma e estaríamos todos no Coliseu.

Uns a babarem-se de deleite e outros a tremerem ante a certeza que chegara a sua hora.
Contudo, os tempos de hoje comportam uma novidade.
Roma tinha uma capacidade inimaginável de se notabilizar no bem e no mal, medidos pelo nosso tempo.
No seu Coliseu a carne fresca que se despedaçava era de bárbaros.
Hoje os poderes despedaçam carne dos seus concidadãos.

Triste Nação que o mais que consegue é congregar algumas boas vontades em coisas como o Movimento dos Utentes dos Serviços Públicos.
Este movimento (que sinceramente desconhecia) veio a terreiro, também ele, denunciar os ataques do Governo aos diversos serviços públicos do País e que vão desde o encerramento de postos dos correios, maternidades e centros de saúde e com o fim de alguns serviços de transporte público.
Protestou ainda contra a privatização da REN e da EDP (na sua opinião responsável pelo aumento dos preços da electricidade) e das empresas responsáveis pelo abastecimento de água, bem como contra o encerramento de escolas.
É disto que somos capazes, conforme se vê.

Nem um assomo de protesto, de desobediência civil ou de recurso às generosas vias judiciais que, certamente em tempo de distracção, os poderes instituídos dispensaram do processo administrativo.
Vejo dia após dia, pessoas a pagarem indevidamente taxas, a pagarem tarifas de serviços prestados já prescritas… todos berram, mas nenhum tem um assomo de dignidade.

Somos uma sociedade acomodada que mais depressa faz mal aos seus do que se vira contra quem a maltrata.

O melhor exemplo desta podridão larvar está nas nossas estradas.
A nossa sinistralidade rodoviária é frequentemente associada à guerra, porque as estradas matam mais do que muitas batalhas.

O laxismo e desprezo pelo próximo são de tal monta que foi preciso criar o Dia Mundial em Memória das Vítimas da Estrada, que se assinalou ontem.
E nem num assunto em que existem mortes, feridos graves, famílias desfeitas, crianças órfãs e pais que vêem os filhos morrer, se pôde assistir a um assomo de dignidade pois logo houve que aproveitasse a ocasião para a habitual troca de galhardetes.

A Associação dos Condutores Automoblizados, a propósito da participação do ministro da Administração Interna nas cerimónias que se realizaram um pouco por todo o País, logo veio a terreiro berrar: Aproveitamento político!.
"Não há nenhum aproveitamento político, não estamos num dia de festa, mas sim num dia de pesar, de responsabilidade", defendeu Rui Pereira.
Tudo a propósito de um simulacro de atropelamento e desencarceramento. Haja dó, apetece proclamar.

Aliás, tenho para mim que se as forças da ordem aparentemente dão razão muitas das vezes àqueles que as acusam de caça à multa, não posso deixar de aqui frisar que a minha vontade, por exemplo, era começar a divulgar publicamente a matrícula dos carros que diariamente, numa estrada nacional, vejo desrespeitar uma linha contínua e uns semáforos que existem para proteger peões numa… passadeira!!!!
Mas estes energúmenos, se autuados, são capazes de vociferar contra o Governo, o País e o próprio peão!

Quem também não tinha necessidade de meter água era o inenarrável ministro quando veio justificar o aumento de acidentes com o facto de o número de automóveis na estrada ter subido de 500 mil no início da década de 70 para mais de cinco milhões na actualidade e de os quilómetros de auto-estrada terem passado dos 80 em 1974 para os 3090 actuais, num crescimento de 3700 por cento.

Ó senhor ministro, o senhor vive em Portugal? Então comece a olhar à sua volta e veja para que servem os passeios, quantos são os palermas que andam a 100 dentro das localidades, a enorme confusão que vai na mente da maior parte dos condutores para quem um STOP é um sinal de aproximação de estrada com prioridade e outras bagatelas.

Interrogo-me em que ponto da História o cérebro passou a ser um ornamento e a má educação e falta de civismo passaram a valores seguros…

29 comentarios:

Carreira disse...

Pois é...quanto às mortes nas estradas nacionais, já houve quem apelidasse a crónica tragédia de «Guerra Civil nas Estradas Portuguesa»
Acredito que estes números se manterão porque há autênticos «Rambos da Estrada» que não conhecem obstáculos. Tudo é deles, o céu é o limite, por vezes, será o inferno.
Abraço

Carreira

7 Pecados Mortais disse...

"Somos uma sociedade acomodada que mais depressa faz mal aos seus do que se vira contra quem a maltrata." - Amigo Quin...esta tua frase diz tudo. Sei dúvida que esta frase se torna num símbolo de marca e pelos maus motivos. É mais fácil descarregar no próximo ("David") do que se voltar ao mais forte ("Golias"). Isso mostra o quanto a mentalidade está obstruida por aqueles que assim a querem. Não podemos encenar conflitos que nos prejudiquem, enquanto os responsáveis respiram de alívio. Há que lutar, mas contra quem nos quer mal, não podemos sair à rua e "disparar" no primeiro que nos apareça. Temos de ser inteligentes na maneira de abordar o próximo e saber quando a nossa liberdade acaba. Temos de ser cívicos e lutar por um País melhor. Concordo com o que dizes. Mas os tempos das "portagens" (em que na minha opinião, nem era assim tão mau) já lá vão e o Povo agora dorme no "silêncio" ruidoso de quem nos maltrata. Pergunto: Onde estão os senhores das Portagens? Onde estão aqueles que inconformados da altura? Estarão conformados...tretas!!

R@Ser disse...

Olá quintarantinho...estou passando pra te desejar uma ótima semana!
Bjim

Blondewithaphd disse...

It's indeed a shame when State and government don't take citizens seriously. But, in my modest opinion, the truth is that the Portuguese don't have a tradition of rebelling against what's wrong. Our demos and protests are always very moderate. We abide by what the government wants and then complain and moan about it as some unavoidable twist of the ever-present "fado".
In France the people go out to the streets and the government turned back the proposal for reforms at 70; in Germany the steel workers menace to go on strike and the government trembles and the economy stops; even in Spain people are summoned by sms, go out into the streets and the government fell a few days later. Good examples for us.

Sniqper ® disse...

Pois...

Tiago R Cardoso disse...

Hoje o que anda muito é o protesto, mas o protesto individual, o protesto egoísta, bem pelo menos na maioria.

Mesmo quando tentamos aderir a um protesto comum a muita gente, logo reparamos que dentro deste temos indivíduos que só lá estão por egoísmo, tentado se aproveitar para os seus fins pessoais.

A falta de cultura cívica, seja em qualquer situação, faz parte já da própria cultura portuguesa, a maioria não respeita nada nem ninguém, principalmente se vir algum obstáculo entre eles e o seu objectivo, atropelando tudo e todos.

SILÊNCIO CULPADO disse...

Concordo, em tudo, com o que diz 7Pecados Mortais e quase tudo com o que diz o Tiago.O quase do Tiago prende-se com o facto dele generalizar o egoísmo que grassa nas nossas sociedades. Realmente é verdade e choca. Mas nem todos somos assim e nós podemos e devemos lutar por aquilo que acreditamos e trazer a nós aqueles que andam tresmalhados. Acredito que as desgraças não são irreversíveis e com uma consciência colectiva desperta e atenta podemos fazer alguma coisa de melhor.

adrianeites disse...

boa semana e bom natal... lol

Márcio disse...

Quanto aquilo que se passa lá para Sul, não tenho nada a comentar… porque não me arrefece nem me aquece ao contrário deste tempo!
Em relação às taxas, acho que não é bem assim… pelo menos não sei se tem conhecimento daquilo que se passou em Vizela…
Além do que já leu no meu blog, sobre os assuntos das estradas… queria acrescentar que sobre a piada não medida do Sr. Rui Pereira são totalmente absurdas! Sem o mínimo nexo…

António de Almeida disse...

-Em relação á economia, denota-se um desnorte, e a ausência dum modelo económico credível. Pode-se concordar ou discordar, deste ou daquele modelo, pior, é quando não existe modelo algum como é o caso. Não concebo como se pode privatizar as estradas, assim como sou um pouco céptico á privatização da REN, já em relação á EDP não dúvido que devesse ser privada, e ter concorrência. No restante abordado no post, os nossos problemas de cidadania são muitos e graves. Começam na ausência de valores, e princípios morais na sociedade, os quais são extensíveis aos governantes, que aliás, são um bom reflexo de nós próprios.

Shark disse...

Quando se fala de questões de civismo e de cidadania, nada melhor que chamar os bois pelos nomes. Como aqui se faz.
Há gente que pulula por aí como se tudo lhes pertencesse, como se todo o futuro fosse seu e como se a sua liberdade não tivesse que se circunscrever aos limites do razoável e dos direitos alheios.

Mas também vir para aqui com um "pois...", não percebo.

A justificação de Rui Pereira não tem nada a ver.
Antes, se calhar tem, pois que ele só fala em auto-estradas. Forma curiosa de dizer que as estradas nacionais, regionais e municipais estão, muitas vezes, entregues à sua sorte.
Mas elas não são, de facto, o único factor de perigo ou causador de acidentes. Sim, porque quando se vê sinais de trânsito que serviram para tiro ao alvo, chapas inteiras roubadas... vai-se dizer o quê?

al cardoso disse...

Mau caro amigo:
Escreveu um artigo que devia figurar nos melhores jornais nacionais, parabens!
Concordo plenamente consigo quando refere o comodismo ou o acomodismo a que muitos se relegaram, tambem este ministro e outros deste (des)governo que nos caiu na sorte nao conseguem convencer-me, ao tentar atirar sempre as culpas para outros, pudera a culpa morre sempre solteira.
Quanto aos acidentes a ser como o ministro diz, nao sei como seria aqui onde vivo caso nao houvesse um pouco mais de civismo, com a enorme quantidade de carros, que andam nas estradas deste pais!
Nao e a caca (com cedilha) a multa que resulta, o que resulta e muito mais visibilidade policial, leis severas, justica a funcionar, e principalmente muita, mas muita EDUCACAO, pois isto nao vai la so com instrucao!

Um abraco de amizade do d'Algodres.

missixty disse...

Infelizmente tudo o que disseste é verdade! Acho que as pessoas perderam a esperança, já nem querem saber, estão cansadas!
beijinhos miss

NINHO DE CUCO disse...

Eu acho que ainda somos uma Nação valente e imortal. Atravessamos um período cinzento e desmotivador mas não significa que a alma lusa não exista nem se venha a manifestar com toda a sua força.
Há vários estádios e eu tenho esperanças que um ciclo recheado d eoutras oportunidades irá surgir.
Começarmos a falar entre nós já é um começo.

NuNo_R disse...

Boas...

De facto é de lamentar estes acontecimentos últimos que aconteceram e que levaram à criação do Dia da Memória...
Mas será isto que precisamos?
Somente lamentar as mortes ocurridas? ou criar as condições para que não aconteçam mais?

Isto sim, é que devia ser a preocupação principal deste governo e todos nós.
Mas é mais fácil criar um dia para o "calendário"... do que mudar um sistema que está ultrapassado à anos.

Quanto ao civismo, é aquele que todos os dias vamos assistindo lametavelmente...

abr...prof...

ALEX disse...

Realmente há desnorte do governo que não sabe ou não quer apresentar um plano credível para as privatizações e combate ao desemprego.
Também a nível de cidadania se tem feito sentir uma regressão que se reflecte nas formas egoístas de funcionar e de olhar as medidas governamentais.
Como se isso não bastasse o próprio sistema político está em crise por falta de credibilidade e por haver muita confusão à volta dos próprios programas dos partidos que, à excepção da extrema esquerda e da extrema direita já não se sabe o que é que é mais ou centro ou menos ao centro.

C.Coelho disse...

Uma Nação valente ainda somos capazes de ser tirando o caso de uns merdolas que aparecem em períodos de crise para enriquecerem com o sangue dos oprimidos.
É um nojo ver tanta riqueza e tanto senhor a pavonear-se em carros de alta cilindrada, aviões, iates e condomínios de luxo, situações só possíveis quando se guarda no armário o esqueleto daqueles a quem não foi pago o que lhes era devido para terem lucros e mais lucros.

Joshua disse...

As mortes viárias são um ajuste de contas entre a grunhice primária que abunda por aí, desde antes da Idade da Pedra, e o bom senso desarmado e inocente normalmente vítima dos outros, os temerários.

Ó Tarantino, já pensaste que somos vizinhos não apenas blogueanos, mas também físicos? O mais provável é que eu tenha andado na escola contigo. Vá por onde for este início de conversa, não pode continuar numa caixa de comentários por óbvias razões. Gmaila-me. Diz-me em que lugar da Freguesia é que vives ou se calhar trabalhas. Mas diz-mo se o quiseres.

NÓMADA disse...

Nós somos e seremos sempre uma Nação valente. O meu blogue reúne muitos valores portugueses dos quais nos devemos orgulhar. Continuam a produzir feitos de renome embora, neste período de sombras que atravessamos, os media prefiram falar dos McCann, Carolina Salgado ou da astróloga Maya. Mas ignorar-nos não é calarmo-nos e há ainda neste mundo português quem tenha muita consciência cívica. Este governo tem que perceber isso e nós temos que fazê-lo perceber isso para que corrija a mão em muitas matérias. Nós respeitamos quem ganha as eleições mas exigimos ser respeitados.
E o combate ao desemprego, ao desemprego real entenda-se, e ao emprego escravo tem que ser encetado por nós com determinação. Não é preciso deitar o governo abaixo nem insultar ninguém. É só preciso fazer valer a nossa razão.

Fernanda e Poemas disse...

Olá Amigo, grata pelas tuas visitas aos meus cantinhos.
Li o teu texto com muita atenção
e digo-te uma simples palavra - Gostei -
É bom termos quem nos imforme, como tu o fazes e os outros nossos amigos.
Um bem bem-haja.
Muitos beijinhos,
Fernandinha

antonio disse...

"Aumento, esse, curiosamente decretado por um Governo cujo ministro da Tutela é o homem forte da sociedade a quem foi concessionada a exploração da 25 de Abril e da Vasco da Gama."

Oh, Quint isto dito assim até parece que foi intencional, de que tudo não foi apenas uma coincidência...

Carol disse...

Magnífico texto!
Este é, de facto, o país que temos e, se o queremos mudar, temos que o fazer todos nós e não estar à espera que alguém o faça.

Miss Vader disse...

A história da passadeira é verdade. No resto também.

Paulo Sempre disse...

Pode mesmo afirmar-se que o barómetro de um verdadeiro estado de direto democrático está na maneira como os cidadãos actuam relativamente ao Estado e vice-versa.
Do Estado, até prova em contrário, espera-se a qualidade, eficácia, exemplo e a boa - fé. Porém...a "prova em contrário" é mais que conhecida.
Veja-se o actual Artº 64º do Código da Estrada e logo se verifica, que certas criaturas estão à margem das regras e sinais a que o referido Código alude.
Portugal século XXI...
Abraço

Zé Povinho disse...

O civismo é uma qualidade que normalmente não vislumbramos nos outros, por falta óbvia do espelho, e não se trata do retrovisor.
Intervenção cívica também escasseia por estas bandas, e a anestesia parece estar a surtir efeito, pelo menos até começar a faltar o pão, porque a razão, já está bem à vista.
Abraço do Zé

C Valente disse...

Come�o por lembra como disse alguem " o povo � sereno�, eu diria mais cordeiro, mas s� assim se justificou os 40anos de ditadura, o comodismo das pessoas,
A ca�a � multa � um facto, pois tamb�m a policia pretende estar em lugares que rendem, em vez de andar a fazer uma fiscaliza�o mais rigorosa e dispersa por essas ruas e estradas.
Tenho um exemplo: a GNR, � capaz de multar por um carro se encontrar em cima do passeio, aqui onde moro, diariamente carros dos agentes, de servi�o com o respectivo d�stico encontram-se em transgress�o e est� tudo bem.
Para n�o alongar muito direi que tudo se deve a uma falta de forma�o c�vica e politica, de respeito pelo pr�ximo.
Gostei muito deste acertado apontamento, com tanta verdade e realidade
Sauda�es amigas, e que a palavra n�o falte

SILÊNCIO CULPADO disse...

A Carol tem toda a razão. Nós não podemos esperar um mundo melhor se nada fizermos para que essa reconstrução se dê. Tudo começa em nós e todos os contributos são importantes e imprescindíveis. Sem essa consciência não iremos a lado nenhum.

quintarantino disse...

nem de propósito... às tantas até foi castigo... hoje uma senhora resolve parar inopinadamente, sem dar qualquer sinal, uma travagem mais a fundo e um cavalheiro atrás com o futuro todo à frente... futuro esse obstruído pela traseira do carro que eu conduzia e que só por acaso é o da minha mulher... pronto... chapa amassada... castiço foi ver que a senhora começou logo aos berros que a culp era toda do de trás...

Metamorfose disse...

Às vezes até parece que ainda nos deslocamos nos labirintos do Minotauro...não pela condução, mas sim pelo obscurantismo ainda transportado pela maioria dos nossos condutores, onde a selvajaria impera.
Mas não, não é o labirinto, mas sim uma das entradas de um forte, Forte de S. Brás, hoje o Museu do exército, um monumento do séc, XVII.

Beijinhos.