Fraude fiscal? Nós não. Aqui planeamento fiscal, isso sim!

Provavelmente um dos flagelos endémicos da nossa economia é a fraude fiscal.
Que, à boa maneira portuguesa, é universalmente admitida como existindo, mas sempre praticada pelos outros. Nunca por nós.

Um pouco à semelhança do uso recorrente à expressão “vê-se logo que é português”!
Acho-lhe piada, juro. Especialmente porque somos nós próprios que a usamos quando queremos criticar alguém.
Como se o autor da crítica não fosse, também ele, português.
Um tipo vê outro a mandar uma cuspidela para o chão e logo diz: “Vê-se logo que é português”…

Ora, de volta à fraude.
Ainda se vai a um consultório, faz-se o que se tem a fazer, na hora de pagar pede-se o recibo. Lesta, ainda há sítios onde surge a sentença. Com recibo é mais Y por causa do IVA.
Vai-se ao restaurante, sacia-se a pantagruélica fome e nalguns casos “dromedariana” sede, pede-se a conta, as mais das vezes a mesma de cabeça ou feita num papelhucho, ora, noves fora, mais sete, são cinquenta e cinco euros, paga-se e porta fora.
Chama-se o picheleiro, o homem aparece quinze dias depois do dia prometido e depois de quase cem telefonemas, olha para aquilo, coça, conforme a educação, a cabeça ou os tarecos, e lá sai a solução: é preciso isto e isto. Quer com recibo ou sem recibo? Sem recibo, sem recibo!

Consta por aí que agora em muitas empresas pagamentos e quejandos só em “el contado”, nada de cheques ou afins. Cuidado, que eu disse consta…
E assim se foi engrossando a economia paralela, um “bas fond” económico feito de chicos espertos e patos bravos que, à custa da nossa escassa ou nula consciência cívica, se foram abotoando com grossas maquias.

Sabedor disto tudo, e quiçá de muito mais, Amaral Tomaz, cavalheiro que é secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, afirmou que “em Portugal, contrariamente ao que é a ideia generalizada, enraizou-se a convicção de que as grandes empresas não cometem fraude fiscal, mas a realidade é diferente do que se pensa”.

Passou-se… pensei eu.
Então o homem sai-se com uma destas e não põe preto no branco o que se passa?
Ou será que há dados concretos e fiáveis que não podem ser revelados?
Aliás, a dita Operação Furacão produziu que resultados, senhor Secretário de Estado?

A verdade é que, ante estas declarações, que põem em causa a sacrossanta iniciativa privada, o Santo Graal do nosso século que tudo há-de resolver, logo se empertigaram alguns.

“O secretário de Estado abusou um pouco, porque só os tribunais podem dizer o que é fraude fiscal" afirmou Van Zeller, homem forte da CIP. E tem razão. Muita.

Fiquei foi depois perplexo com duas afirmações que o mesmo produziu.
Uma foi a de que “existe planeamento” fiscal dentro das empresas, “mas tem de ser feito dentro da lei”.
Sim senhor, há planeamento fiscal mas tem de ser dentro da Lei. Ou seja, há quem o faça fora da Lei. Certo?
E quem conseguir planear dentro da Lei, está perdoado ao abrigo de quê? Só se for lá do “ladrão que rouba ladrão…”
Depois, e numa atitude que parecia ser a de sacudir água do capote, ainda afiançou que isso da fraude fiscal que há é com o sector da construção civil.

Vá lá, não falou dos trabalhadores por conta de outrem…
Nem dos funcionários públicos.

Reagiu a Federação Portuguesa da Indústria, Construção e Obras Públicas que o que a CIP devia ter feito era colocar-se ao lado dos visados e não corroborar o governante.
Parecia aquelas virgens ofendidas…

Veio a CIP, outra vez por Van Zeller, pacificar as hostes dizendo que estavam lá mais para além do sector da construção civil.
A Mónica Sintra (acho eu) cantava “afinal havia outra…”; aqui parece que é mais “afinal há outras…”.

Eu já adivinho os efeitos que daqui advirão… vão apertar as fiscalizações a quem não consegue fazer planeamento fiscal.
Ou criar uma comissão.

Uma comissão, caso não saibam, em Portugal é uma espécie de analgésico.
Proclama-se indignação ou estupefacção.
Anuncia-se uma comissão.
E todos dormem sossegados.
Até os da comissão!

Entretanto, soube-se também que gerir a RTP e a futura sociedade anónima que ficará com as estradas portuguesas é a mesma coisa.
E eu por acaso acho que o Governo tem razão na escolha de Almerindo Marques.
Aquilo é quase buraco por buraco…

Anuncia-se uma revolução tranquila…

http://sempenas-ant.blogspot.com;
http://dooutromundo.blogspot.com;
http://blondwithaphd.blogspot.com;
http://damularussa.blogspot.com;
http://wwwpoetisar.blogspot.com;
http://direitodeopiniao.blogspot.com;
http://olhardireito.blogspot.com;
http://tudo-no-nada.blogspot.com;
http://oprofano.blogspot.com;
http://papaacordas.blogspot.com;
http://pecados7mortais.blogspot.com;
http://conversasdexaxa4.blogspot.com;
http://valoresportugueses.blogspot.com;
http://adrianeites.blogspot.com

São estes os que, para já (há gente que ainda não respondeu), aderiram a um desafio lançado por estes imperialistas (como diz o António do “sempenas-ant) à blogosfera.
Dia 25 de Novembro !

25 comentarios:

SILÊNCIO CULPADO disse...

Eis um post à maneira. Assim mesmo é que é falar. Nada a opor. Apenas um pequeno pormenor: tudo isso é verdade, a economia paralela é mais que muita e as habilidades contabilísticas das empresas também mas é um mal que vem detrás e até tem barbas. E, embora esteja longe de ser combatido, foi com o governo de José Sócrates que deu os primeiros passos. Justiça seja feita.

Sniqper ® disse...

Pois...

Era bom que a memória dos portugueses de agora, defensores de uma sociedade justa, não tivessem arrumado na gaveta as tropelias e assaltos que foram feitos no calor da revolução, foi pena, mas agora a factura está a ser paga, e ainda por cima por muitos que nada fizeram para que isso, mas enfim...

Como reflexão...

É ao volante que se revelam partes ocultas – e raras vezes bonitas, frequentemente de uma agressividade insuspeitável – do que se é. E, mesmo quando o mais tímido se revele o mais agressivo ao volante, não será outro que não ele. O volante não cria nem deturpa: revela.

Mário Negreiros
Data: 20071113
Fonte: Jornal de Negócios

Nota: Faltam só 13 dias, vamos ver a força ou o mais certo os milhares de carros em filas sem fim, para mais uma greve que por acaso lá bateu numa sexta-feira...
Olha que coincidência!!!

Shark disse...

Se alguém conhecer um planeador fiscal dentro da lei e que leve barato, podia-o indicar, por favor...

Fernanda e Poemas disse...

Olá amigo, grata pela sua passagem pelo meu cantinho das fotos.
Li o seu texto e está tudo preto no branco, e está tudo dito.
Beijinhos,
Fernandinha

C Valente disse...

Estes politicos~são uns genios, tanto faz tratar de televisão como de estradas, como um sapateiro tocar rabucão, é preciso a dita " confiança politica"
Bom fim de semana
Saudações amigas

R@Ser disse...

É amigo...Operação tapa buraco!
Bjim e bom fim de semana.

NÓMADA disse...

Portugal é o País do chico esperto e da fuga ao fisco. Também gostava saber o resultado da operação furacão. Este governo tem feito um combate cerrado à economia paralela e à fuga aos impostos como se viu pelos resultados apresentados por Paulo Macedo. Não sei se com a saída de Paulo Macedo se mantém a dinâmica mas oxalá que sim porque não é justo que uns descontem a dobrar para outros não descontarem nada.
Mas há muito trabalho a fazer nomeadamente a nível de descontos para a segurança social.Os patrões fazem os contratos de trabalho pelo ordenado mínimo e depois dão o resto (quando há resto) em dinheiro vivo por baixo da mesa. E as grandes empresas são especialistas nas fugas ao fisco.

Tiago R Cardoso disse...

A fuga ao pagamento de impostos já é um acto normal em Portugal, é uma pratica já enraizada, pode se dizer que faz parte da cultura nacional.

O que seria interessante era saber onde é que o governo foi arranjar estes "iluminados" secretários de estado.

Mas quem é que disse a esse senhor que nós estamos convencidos que as grandes empresas não praticam a fraude fiscal ?
Senhor Amaral Tomaz, nós estamos à muito convencidos que a fraude fiscal está por todo o lado, presumo que tenha chegado a Portugal vindo de Marte à pouco tempo.

Eu até era capaz de me por aqui a falar das comissões, mas conforme o Quintarantino disse era bem capaz de adormecer, só para não destoar.

Presumo que quem sabe "cuidar" de uma televisão com um passivo daqueles, também saiba gerir um passivo a que atribuem o nome de EP, se o buraco começar a aumentar aproveita-se para o futuro túnel do Tejo.

NINHO DE CUCO disse...

Em resumo: concordo com tudo o que aqui é dito nomeadamnte pelo Tiago e pelo Quintarantino. Confesso que não tenho acompanhado este Secretário de Estado mas certamente que ele tem um grande bico de obra pela frente. O passivo da Televisão Pública e a cobrança às empresas.
Aproveito para deixar expressa a minha adesão ao convite de participar com um texto num domingo. É uma questão sentimental embora o meu blogue tenha uma linha editorial diferente.

adrianeites disse...

eu retiraria o provavelmente e colocaria com toda a certeza!

aquando a retirada da moeda antiga o Banco de Potugal estimou que cerca de mil milhões de contos circulavam ao negro, na economia paralela dito de forma mais eloquente...

o que se passa é isto:

Nós temos um sistema fiscal fraco, temos uma sociedade pouco formada e que não se dá à formação e temos politicos que não querem corrigir os problemas!

Vamos por partes em então:
O sistema fiscal é demasiado pesado, quer para as pessoas colectivas quer para as pessoas singulares e quando assim é propicia-se que a fuga seja não uma alternativa mas A Alternativa..

A Sociedade é pouco formada: para constituir uma empresa eu não tenho de passar por nenhuma formação fiscal.. nada! nem mesmo os projectos de investimento que atribuem fundos perdidos obrigam a uma formação!
Os consumidores padecem do mesmo..
O sistema fiscal francês por exemplo, com algumas lacunas também é significativamente melhor que o nosso pois ao permitir mais beneficios e deduções em sede de Declaração de Rendimentos está a fazer com que venham mais verbas para dentro do erario.

Os politicos ignoram estes 2 parágrafos e preferem ir cobrando e massacrando a quem vai pagando...

o cenário é este... e ninguém ataca a partir daqui..

São disse...

Fico furiosa quando ouço o Estado queixar-se de fraude,quando ele próprio não se comporta como pessoa de bem: ainda não esqueci os meus roubados 572 contos de IRS sobre dinheiro que não recebi nem aquilo que me estão sacando da aposentação!!!
Claro que condeno todo o tipo de fraudes, venham de onde vierem: que fique bem claro!!
Bom fim de semana.

Márcio disse...

Sobre o tema que hoje se fala no Notas, não tenho muito a dizer porque não estou muito por dentro das polémicas que aqui são tratadas.
No entanto, e como ainda não falei sobre o “notas no clube”, vou aproveitar a situação para a o fazer.
Foi uma participação pequena, mas acho que foi muito agradável. Foi dito o essencial… mas a participação foi feito no momento certo, e deixa das novas publicação de outros leitores foi muito bem conseguida.

ALEX disse...

É excelente esta ideia de partilha e de colaboração. É um exemplo de que podem coexistir diferentes pontos de vista e que as visões não têm que ser monolíticas e fechadas em si mesmas. Vou torcer para que certos confrontos e antagonismos dêem lugar à paz convivencial sem a qual não existem grandes pessoas nem grandes ideias.
Parabéns ao NOTAS SOLTAS.

Joshua disse...

Estou de pés e mãos atadas. O IRS tem sido muito eficaz comigo.

Sou um português fodido e aflito porque a eficácia das Finanças é perfeita somente com portugueses já fodidos e completamente aflitos, sem dinheiro, como eu.

Encarar cada semana é um suplício. Trabalhar de noite e de dia é igual a Zero: pagar é quando calha. Pagar é quando se pode. Logo agora que mais preciso.

Só tenho motivos para estar revoltado e já muito me contenho eu.

Blondewithaphd disse...

This is all like malaria! I explain. In some countries malaria is an endemic disease; in Portugal fraud is an endemic disease.

(picleiro=pedreiro?)

António de Almeida disse...

-A fraude fiscal é muito mais extensa do que se admite, e até mesmo ao contrário do que se afirma no artigo, em actos médicos se foge, sim, porque já existem médicos a fazer descontos de 30 a 40%, desde que as consultas sejam pagas em dinheiro ou cheque visado. Em se tratando de fugir ao fisco, não há limites para a criatividade individual, culpados? Para já um, o próprio estado, que impõe uma carga fiscal completamente absurda, bem para lá dos limites do razoável a empresas e particulares. Tudo para financiar um monstro que teima em não ser repensado nas suas funções e dimensões. Claro que as leis são para cumprir por todos, mas a realidade, é que só não foge quem não consegue, quando aceitamos o sem factura, estamos a ser cumplices da fraude.

M.C. disse...

Quin,

Sempre que comento aqui, comento com base nas estáticas do Brasil:

Todos nós sabemos que todo mundo paga os custos (impostos, gastos com pessoal, aluguel, energia, água, CPMF etc) que estão embutidos nos preços dos produtos. Todavia, continuo acreditando que a CPMF é o imposto mais justo que temos, pelo menos muita gente que sonega outros impostos, que hoje grita contra a CPMF é porque não consegue sonegá-la. CPMF tem que ser permanente. Os outros impostos, que são retidos na fonte de PF é que devem ser diminuídos. O assalariado que paga imposto de renda, está pagando 15% ou 27,5% do valor da renda, além de INSS, FGTS, imposto sindical. Como dizemos por lá , no frigir das "coisas" o cabra tá é ferrado! Trabalhando um mês ele só recebe 18dias.
O resto é balela!

O povo precisa fazer um pacto:
Não aceitas favores e quebra galhos de políticos seja em que situação for.

A fraude é abuso de confiança!

P.S..:esse desafio que irá acontece no dia 25 é uma carreata?(carro)

(a)braços :)

M.C

O Guardião disse...

Os grandes fogem ao fisco, que admiração. Vejam só quantos grandes casos de trapalhadas fiscais, com e sem carroussel, deram em condenações efectivas e devolução dos dinheiros ao Estado. Uma mão chega.
Cumps

mac disse...

Claro que não se pede recibo ou factura: não há motivação para o fazer...Pedir factura para quê? Para depois a pôr no lixo?

Havia uma maneira muito fácil de incentivar o pessoal a pedir facturas, e ao mesmo tempo controlava-se a fuga ao fisco ds empresas prestadoras de serviços. Seria autorizar a declaração desse tipo de despesas no IRS.

Permitiria-se uma pequena dedução (tipo 10%) e assim já toda a gente pediria a factura quando vai ao restaurante, oficinas, etc, e através do cruzamento da informação fiscal, essas mesmas empresas seriam controladas a nível fiscal. Mas não convém, não é?

DS disse...

A fuga fiscal em Portugal é um circulo vicioso, quanto mais o governo aumenta os impostos, mais o povo foge, quanto mais o povo foje, mais o governo aumenta! E assim vamos onde?

M.M.MENDONÇA disse...

É uma pouca vergonha o que se passa com a fuga aos impostos patente nas mil maneiras de ludibriar o fisco.

GIL disse...

Gosto deste texto. Está muito bem feito. Também aprecio estes comentários feitos com civismo. Respeitar as opiniões dos outros é não tecer comentários jocosos sobre outros comentários que foram produzidos. Quem o faz revela-se e revela-se pela negativa. Ninguém pode apregoar o direito de opinião e depois deitar abaixo neste blogue e noutros onde comenta, os comentadores que fazem comentários que, não sendo ofensivos, não vão de encontro os seus interesses e opiniões.
Considero correcto o que aqui é dito sobre os imposto e acho também altamente positiva a iniciativa de abrir espaço à publicação de textos de outros autores.

quintarantino disse...

Obviamente que quem quiser, está convidado...

antonio disse...

Quint eu voto em ti para substituir o Van Zeller, experiência com mão de obra intensiva e barata não te falta. ;)

antonio disse...

Já agora, eu nunca peço o recibo: sou avesso a burocracias.