Agora também quero Portugal aos bocados, obrigado Sócrates!

Primeiro a notícia (edição de ontem do "Jornal de Notícias") tal como dada à estampa:
"A taxa de desemprego cresceu no terceiro trimestre deste ano 6,5%, face ao mesmo trimestre de 2006. Em apenas um ano, mais 27 mil portugueses ficaram sem trabalho, totalizando, neste momento, 444,4 mil pessoas desempregadas. Para este crescimento homólogo, indica o Instituto Nacional de Estatística (INE), contribuiu o aumento do número de mulheres desempregadas e das pessoas com idade igual ou superior a 45 anos. A região Norte continua a ser a mais afectada pela falta de trabalho, com uma taxa total de 9,5% de desempregados, mais 1% que em igual trimestre de 2006 ".

Se calhar ao lerem esta primeira parte, muitos acharam que eu vou "martelar", uma vez mais, no estado da situação, mas a minha intenção é procurar ver isto por outro prisma.

Que a taxa de desemprego está a aumentar, todos nós já sabemos, bem, quase todos porque o Sr. José Sócrates, respectivo Governo e mais alguns, acham que não.

O que me deixa perplexo é o facto de normalmente nestas estatísticas o Norte sair sempre mal na fotografia; evidentemente que o panorama a nível nacional não é nada animador, mas esta região está sempre em destaque.

Mais perplexo fico ainda quando se anunciam e se discutem obras de milhões e milhões de euros num sítio, enquanto no resto do País a falta do vil metal é preocupante.

Tudo isto leva-me ao assunto em questão neste texto: as regiões, mas não as regiões "bairristas", tipo Norte contra o Sul, mas a regionalização versus descentralização.

No último referendo, assumo que votei contra a regionalização, tendo por principal argumento o facto de sermos tão pequenos que não existia necessidade de dividir mais o País. Para reforçar o meu "não" surgiram certos argumentos utilizados por supostos "intelectuais" regionalistas nortenhos, que chegaram a mostrar "preconceitos" contra outras regiões, principalmente contra Lisboa.

Satisfeito, vi na altura o anúncio de que, em vez da regionalização, iríamos avançar com a descentralização.

Ingenuamente fiquei à espera.

O tempo foi passando e nada de medidas descentralizadoras. Mudou-se de Governo e, apesar de eu não ser propriamente de partidos, fiquei satisfeito.

Mais fiquei ainda com o anúncio de acções com o objectivo de transferências de poderes para as regiões, acabando com a centralidade de poderes e decisões.

Após dois anos de mandato socialista, bombardeado constantemente com todo o tipo de notícias sobre medidas do Sr. Sócrates e companhia, cheguei à conclusão que de facto está a ser feita uma descentralização, mas diferente do que seria esperado. È verdade. Aquilo que está a ser feito é uma descentralização centralizada.

Quando se vê centros de atendimento permanentes, escolas, urgências, finanças e outros serviços a fecharem por todo lado, sendo centralizados em capitais de distrito ou cidades consideradas mais importantes, deixando ao abandono povoações inteiras do interior, obrigando pessoas a viajarem um dia inteiro e centenas de quilómetros para fazerem tratamentos obrigatórios (se quiserem viver), ver nascimentos em plena auto-estrada dentro de uma ambulância, ver hospitais que foram pensados para uma zona e agora servem quatro concelhos diferentes, não me parece que isto seja verdadeiramente descentralização.

O que me parece sim é que se trata de uma forma de poupar.

Não me digam que centralizar serviços é uma forma de melhorá-los, se um serviço está preparado para atender um X número de pessoas e leva com o triplo, penso que a melhoras serão nulas.

Quando se encerra serviços, ao mesmo tempo dificulta-se a permanência de pessoas nessas zonas, obstando ao desenvolvimento das mesmas e levando à sua desertificação, não me parece que isso seja bom para o País.

Seria a altura de voltar a repensar a regionalização, desta vez com um debate realmente esclarecedor e não com um debate cheio de "orgulhos" regionais, que em nada ajudam, só criando barulho de fundo numa discussão que continua actual e urgente.

Como disse anteriormente, no último referendo votei "não", mas agora graças à "utopia" de Sócrates, era capaz de votar de forma diferente.

Evidentemente, isto a ser feito após o referendo europeu.

É que eu e muitos ainda não nos esquecemos desse!

23 comentarios:

quintarantino disse...

Para já levas com esta: salta pocinhas.
Eu votei "SIM" mas agora seria "NÂO"... voltarei mais logo para explicar.

bluegift disse...

Resolver entre dar mais poder aos "coronéis" ou ao "rei"? Mal por mal, prefiro o rei... Os abusos sempre são mais visíveis e controláveis.
Imagina só o que seria dar ainda mais poder aos nossos mafiosos da Madeira e de Vila do Conde? É um poço de corrupção sem fundo! com o conluio da maioria dos eleitores que estão comprometidos com a máfia até ao pescoço. Para evitar o excesso de burocracia estou de acordo, mas para o resto coloco sérias dúvidas.
O encerramento de escolas, centros de saúde, correios e outras unidades de serviço reduzido, fazem parte de uma medida europeia aplicada a todos os países sem excepção, com o acordo do parlamento e comité das regiões europeus. Tem muito pouco a ver com os Sócrates ou Ferreiras Leite.
Bom Domingo!

bluegift disse...

Ó Tiago! Ficaste bem na fotografia versão audio ;) só agora é que reparei. De Pensadores é o que precisamos mais. Abraço.

Keops disse...

Acho que no fundo sou a favor de uma descentralização, mas tenho medo de uma certa forma de "caciquismo".Em última análise é uma descrença na verticalidade/honestidade na classe dirigente.(exagero da minha parte?)Dói-me quando se evocam directrizes da "europa" para execução em certos sectores e se esquecem outros que também existem na "europa". Bicos de pés é o que é, esquencendo a IDENTIDADE e CULTURA de um povo, por acaso dos mais antigos como nação!

Compadre Alentejano disse...

Gostei do post, parabéns.
Não tarda nada que o director do INE, esteja a ser substituído por um boy. Só tem dado notícias tristes (mas verdadeiras ao (des)governo do sr. Zé...
Quanto à descentralização, porque é que não fazem uma zona piloto no Algarve? Aqui,os limites são naturais.
E esta do sr.Santos Silva vir dizer, em Pomte de Lima, que o governo fez algumas "maldades" aos funcionários públicos? É de partir o "coco" a rir...
Um abraço e um bom Domingo
Compadre Alenntejano

quintarantino disse...

Completamente em desacordo quanto à posição defendida de se estar agora a favor de uma regionalização ou forma mitigada de descentralização só porque, com José Sócrates, se avançou para o encerramento de hospitais, escolas e outros serviços.

Em primeiro lugar, a transferência de serviços por parte da Administração Central já existia e, por exemplo, medidas que levaram à concentração de alunos dispersos por escolas sem condições já haviam sido aprovadas antes.

Em segundo lugar, e pegando concretamente no exemplo das escolas do 1º Ciclo (curiosamente a cargo na sua mautenção das autarquias, o que tem sido convenientemente esquecido nesta polémica) não percebo qual é a lógica de as pessoas protestarem.

O que é melhor? Ter uma ou duas crianças numa escola miserável ou concentrar essas crianças dispersas em escolas/centros educativos com melhores condições?
Sempre presumi que a resposta fosse óbvia. Pelos vistos, não é.

Devo concordar que quanto à rede de cuidados hospitalares dever-se-ia ter equacionado melhor algumas opções pois aqui, mais que a unidade que recebe e a que fecha, dever-se-ia ter considerado e atendido à rede viária que se tem.

De qualquer forma, há que discernir entre o trigo e o joio. E ver que se os recursos financeiros são escassos, apostar na sua aplicação racional não seria descabido.

Ora, aqui chegados, eis mais uma razão para estar objectivamente contra a regionalização neste momento.

Pensem no que se passa nas autarquias locais em matéria de guerras das freguesias contra a câmara municipal por causa da prioridade dos investimentos; imaginem agora o que seria se fossemos avançar para a criação de mais um patamar que, logicamente, traria mais classe política, mais caciquismo e mais interesses.
Decididamente, o caminho não é por aí.

Quanto à dicotomia "evocação das directivas europeias/800 anos de História" que aqui foi expressa em dois comentários, aquilo que penso é que se queremos estar na Europa temos de lhe comer os ossos também!
Daí que seja ainda mais radical que muitos e seja mesmo por uma Federação.
Mais Europa, menos interesses de umbigo!

Brevemente, sou bem capaz de abordar por aqui outra questão e que ainda não vi preocupar grandemente ninguém neste país... quando acabarem os fundos da União Europeia, como vai ser?

António de Almeida disse...

-Eu votei Não, agora não sei como votaria, criar regiões para introduzir mais uma hierarquia política, voto não claramente, aproveitar para repensar o regime político, introduzir circulos uninominais, regiões, repensar o mapa autárquico, desde que no final existam menos lugares e mais competências, então seria sim. Penso contudo, que a reforma deveria ser feita de forma ponderada, e a sua entrada em vigor diferida no tempo, para que se evitem tacticismos na hora de negociar os mapas.

adrianeites disse...

honestamente não me parece que o nosso rectanguluzinho tenha condições para a regionalização!

o nosso pequenino país é hoje bastante assimétrico e com a regionalização.. não sei...

se fosse com 3 ou 4 regiões ainda pensaria..

è que por exemplo em espanha uma qq região é do tamanho de Portugal....

hum.. mas admito não ter posição assumida ainda...

Márcio disse...

Há uma coisa que eu não percebo, porque é que contam os desempregados que aumentaram, e não contam as pessoas que arranjaram trabalho?!
A região do norte é a mais afectada porque provavelmente é maior a densidade populacional.
Quando à regionalização acho que devemos dar mais tempo para que isso aconteça e não tomar posições quando as coisas ainda estão em fase de desenvolvimento.

Sniqper ® disse...

Voltando a martelar na mesma tecla, só me resta dizer que passar das palavras para as acções é aúnica forma de travar este caos.

Se existe um sala com capacidade para 10 pessoas como será possível colocar lá 100?

Só mesmo em mentes pensadoras, essas que todos os dias nascem lá para os lados de S.Bento.

Será que a ASAE nos seus imensos poderes de análise de qualidade não pode tratar de competência?

SILÊNCIO CULPADO disse...

A questão da regionalização não é consensual em nenhum partido político. Em todos eles encontro quem seja contra e a favor consoante as conveniências. Pessoalmente sou contra porque irá aumentar o caquismo e fortalecer poderes dentro de outros poderes. Isso acontecerá nas regiões autónomas e em câmaras estratégicas fortalecendo-a assim contrapoderes dentro do poder.Quanto ao fecho das escolas e dos hospitais, penso que não podemos aplicar a mesma receita a diferentes males. Em relação às escolas concordo com o Quintarantino. Até porque com a baixa natalidade e a desertificação do interior, ainda que fosse possível canalizar recursos para escolas com número reduzido de alunos, estes sairiam prejudicados pela falta de convivência e partilha de solidariedades com jovens das mesmas faixas etárias. A rede viária é importante e as distâncias encurtam-se com boas redes de transportes. Em relação aos hospitais e centros de saúde a minha opinião já é contrária.Uma maior centralização ainda que com melhores condições, o que não é o caso, implica sempre maiores riscos de vida quer pelas demoras nos percursos quer por diagnósticos grosseiros, de pessoas não entendidas em medicina, sobre a gravidade (ou não)dos casos em apreço.Recentemente estive no hospital Amadora-Sintra a acompanhar uma pessoa e deu para perceber as longas horas de espera, as macas pelos corredores e a falta de medicamentos e assistência. E ainda por cima com agravamento das taxas moderadoras. Em políticas de saúde estamos muitíssimo mal.
Relativamente ao desemprego vamos também de mal a pior sejam quais forem as operações de camuflagem que estejam a ser promovidas. A taxa real de desemprego está acima dos 10%. Não interessa nada virem dizer que criaram mais de 100.000 postos de trabalho. E quantos se perderam? Mais: os postos de trabalho perdidos representam remunerações e regalias muitissímo mais favoráveis do que as que foram atribuídas aos trabalhadores que vieram a ocupar novos postos de trabalho para funções idênticas.

C Valente disse...

Hoje fim um poema sobre o que penso dos politicos em geral,
creio dar respostas a muitas situações
Resto de uma boa tarde
Saudações amigas

São disse...

Caro Dr. venho pedir-lhe ajuda profissional, mas fará o favor de ir ao meu espaço para tomar conhecimento do caso de Flávia. Porque só depois me poderá informar se é possível a concretização da minha proposta de ajuda à jovem , isto é, um abaixo-assinado com as correctas identificações!
Os meus agradecimentos desde já!

JOY disse...

Boas amigos ,

Só para dizer que há prémio para voçês mais do que merecido no meu blog.

Um abraço
JOY

aryanalee disse...

No passado mais ou menos recente pensei que a regionalização poderia ter trazido,entre outras, mais equidade,mais valias para todos.
Hoje? já me questiono sériamente...
"o que hoje é (ou parece ser) uma certeza indubitãvel, amanhã é no mínimo puro surrealismo!
Um bom final de Domingo

antonio disse...

Tiago sinto-o desiludido com Sócrates e o Quint renitente em ver o seu ídolo cair. Espero que não se zanguem.;)

Com efeito, depois de recorrermos aos hospitais em Espanha, falta-nos recorrer às suas escolas. Nas zonas fronteiriças, devíamos fechar as escolas e mandar as nossas crianças para as escolas espanholas...

Lampejo disse...

Tiago,


Quando tudo isso está escancarado na nossa frente
Penso, que temos que nos reinventa para poder viver.

A mesma feriada aberta aí no teu País Tiago é aberta aqui no meu também.
Assim que estamos todos no mesmo barco e com as mesmas marcas.
O assopro que causa tontura é sempre o mesmo.

(a)braços :(

SILÊNCIO CULPADO disse...

Porque és um visitante especial, que deixa nas ideias as suas convicções e o calor humano do respeito e da amizade, deixei-te, no meu blogue, o símbolo do nosso aperto de mão.
Obrigada pela tua presença amiga

NINHO DE CUCO disse...

Pois com e regionalização é que o Alberto João Jardim reforçava as bacoradas e, tanto nas regiões autónomas como nas grandes câmaras municipais, começávamos a ter feudos inexpugnáveis. Não Tiago, não te irrites. Eu percebo que estejas descontente com partos a ocorrerem nas auto-estradas e pessoas a morrer a caminho dos centros de saúde.
Mas... lutemos por aquilo que está mal e conservemos o bem.

NÓMADA disse...

A taxa de desemprego é muito mais elevada do que a que o INE menciona. E mais elevada seria se os desempregados de longa duração não tivessem passado à reforma antecipada e a emigração não tivesse aumentado significativamente. A saúde é aquilo que a gente sabe mas isso não significa que se queira a regionalização. Para desgraças já chega assim.

7 Pecados Mortais disse...

Sou a favor da regionalização, tenho as minhas razões. Quando estive na Banca senti muito bem a "centralização". Não se trata para mim de uma guerra entre Norte e Sul, mas sim da sobrevivência de cada região. É evidente que teria de se ver todo o organismo político e como este ira funcionar para não haver poderes dentro de poderes, como diz "Silêncio Culpado". Quanto ao Quin, também percebo quando refere o fecho de escolas, quando não há alunos para elas. Nem tudo o Governo fez, fez mal, isto também é preciso referir. Contudo não esqueçamos e nos meus tempos de banca, eu já referia isso, os ordenados de funcionários da mesma empresa em locais diferentes, não são iguais (e isto não só na Banca). Quando eu disse isto, chamaram-me "parvo" e "burro". Há bem pouco tempo a comunicação social, nos seus diversos meios noticiou isso mesmo. Agora devolvo a pergunta aos que me injuriaram. Neste capítulo, penso eu que se pode ver muito bem a "centralização" das coisas. Contra isto me insurjo e o direito de igualdade deve prevalecer, seja no Porto, Lisboa, Coimbra, Lourinhã, Mogadouro, Silves e resto do País. É por esse direito de igualdade que eu defendo e que pretendo ver um País mais equilibrado financeiramente, mais independente nas suas decisões regionais e com a possibilidade de haver maior poder de compra. Só para terminar, sabem quantos empresas fecharam em vários pontos do País para se puderem centralizar, obrigando as respectivas pessoas a mudar de local e até ficarem sem emprego? Foram muitas...Portanto se não pretenderem uma regionalização com as suas revisões políticas bem estruturadas para funcionar, o que pretendem? Que tudo se centralize e Portugal seja um deserto turístico? Eu sei...é que o País já esteve melhor, mesmo sendo Lisboa a Capital.

Joshua disse...

Isso de que falas é o concentracionarismo e que vemos em escolas, em hospitais e noutros tipos de serviços.

Estou, como sabes, numa escola concentracionária do interior e os problemas com que se defronta são curiosos e altamente penalizadores da docência e da discência. Se não fosse o perfil humano dos alunos, não sei o que seria. Apanhei com quatro turmas a rebentar pelas costuras. A docente que estou a substituir está com complicações físicas de uma depressão. Efeitos da longa toma de químicos. Todos têm as suas razões, mas nem todos resistem a uma avalancha de serviço para cavalo.

Tal como tu, desta vez veria com outra abertura a questão da regionalização e apenas por isto: necessidade de salvaguardar a permanência das populações e a qualidade dos serviços a que tem direito. Ora isto faz-se com dotações orçamentais sérias e responsabilidade criativa.

De desumanização em desumanização, mais um pouco e o País parecerá um campo de concentração e o défice o valor absoluto por que se sacrifica uma geração inteira.

A julgar pelo meu caso, não há dúvida que uma massa de gente está bem tramada com esta tendência governamental e bem pode preparar-se para a fome e para a emigração mais aventureira, no mínimo.

Na melhor das hipóteses, lança a própria vaca no precipício e torna-se amante do risco, da iniciativa, da competitividade mais feroz, arriscando o sucesso mais celeste ou o inferno mais abismal, esse limbo de não poucos marginalizados destroços humanos de que se faz a Grande Cidade devoradora de sonhos.

Fernanda e Poemas disse...

Querido Tiago, grata pela visita.
Quero agradecer-te o teu magnífico,
texto.
Li e reli e adorei, juntos tu e os nossos amigos dão-nos imformações preciosas.
Meu amigo, muitos beijinhos.
Fernandinha