Que Europa queremos?

Que ideia de Europa defendemos? Que Europa queremos?
Nestas duas simples questões encerra-se um oceano.
De inquietações e desconfianças, mas também de algumas certezas.
Para que não restem dúvidas, permitir-me-ei citar Guilherme d´ Oliveira Martins, na sua obra “O Enigma Europeu – Ensaios e Reflexões”, quando, já em 1993, afirmava que “faltam a vontade e a decisão clara para avançar mais na União Europeia”.

Uma Europa de órgãos próprios e políticas próprias, capaz de se apresentar a uma só voz no coro das nações que não necessitasse de ajudas externas para ter acabado com vespeiros como os que se criaram com o desmembramento dessa invenção chamada Jugoslávia, que tomasse uma posição una face às temíveis inquietações que o radicalismo islâmico nos deviam inspirar, ou que fosse capaz de partir para a guerra com a mesma determinação com que se bate pela paz.

O hoje Presidente do Tribunal de Contas escrevia que os estados-nações “não são realidades arqueológicas, mas organismos em mutação. Preservem-se os estados de direito. Tornem-se vivas as sociedades civis. Não se trata de construir um super estado europeu, mas de tecer os equilíbrios que a democracia e a paz exigem”.

Ouvindo os responsáveis europeus, ter-se-á isso conseguido com o dito Tratado-Reformador?
Lamento, mas para mim a resposta é não. Não, porque o aludido tratado volta a ser uma manta de retalhos que resulta da conciliação das exigências (algumas mirabolantes) de cada um dos signatários com as do “diktat” do sacrossanto défice e da economia de mercado na versão mais aberrante que se conheceu.

Quando falta a coragem aos nossos políticos, apresentam-nos um tratado de tal complexidade técnica que, segundo Manuel Porto (ex-eurodeputado e docente universitário), só isso aconselha que não fosse o mesmo posto a referendo.

Não é pela complexidade técnica que o presente tratado não será certamente referendado (excepto na Irlanda, mas aí por imperativo constitucional), será pela tibieza dos políticos que, não tendo a visão de estadistas, não conseguem explicar aos seus concidadãos o que fazem, nem têm a coragem de assumir o que são.

À Presidência portuguesa devem, contudo, ser assacados dois méritos: o de ter conseguido, à força de malabarismos diplomáticos e quiçá pelo cansaço, almejar o tão desejado acordo e, em paralelo, brindar os representantes dos vários estados europeus com uma manifestação de duzentas mil pessoas.
Eu escrevo outra vez: d-u-z-e-n-t-a-s m-i-l p-e-s-s-o-a-s. 200.000!
E não me digam que, apesar de convocada pela CGTP, aquilo era só gente do Partido Comunista. É que a sê-lo, cuidado e alto!
Eu que procuro ser sincero admito que lá pelo meio da manifestação até alguns socialistas eram capazes de estar.

José Sócrates, que de tolo não tem nada, procura arrumar a casa da forma mais célere que lhe é possível.
Não vá o diabo tecê-las e acabar 2009 com uma ressaca de derrota, não que os outros sejam melhores mas apenas porque o povo se tenha cansado.

É que não é possível continuar a atingir ao mesmo tempo tudo e todos.
Nem continuar a tentar partido dos bodes expiatórios que se foram arranjando.
Ou continuar a pedir sacrifícios àqueles que já pouco mais têm por dar.

A semana encerrou, por exemplo, com a pressa de aprovar o novo regime de vínculos, carreiras e remunerações da função pública.
Abster-me-ei de qualquer comentário, porque outros os virão aqui fazer certamente. Alguns não dispensarão a ladainha de que o privado é que é o cúmulo da excelência e que tudo o que é público, são estropiados e mancos.
São esses que representam na perfeição um dos piores males de Portugal: a inveja e a ignorância!

23 comentarios:

Rui Caetano disse...

O debate sobreo tratado da europa tem de se realizar. Temos de reflectir sobre que tipo de europa queremos

SILÊNCIO CULPADO disse...

Este texto esclarece mas eu confesso a minha ignorância em relação ao Tratado-Reformador.E as minhas dúvidas são mais que muitas.Se não houvesse Tratado-Reformador qual seria a alternativa? E quais as consequências das alternativas?
E relativamente ao referendo ao Tratado... Se para eleições, em Portugal, mais mobilizadoras a taxa de participação já pouco supera os 30% para este referendo estou convicta que nunca teriamos uma taxa de participação que o tornásse vinculativo.
E dentro desta minha ignorância acho que Sócrates até se desengomou bem e merecia umas palminhas em vez dos assobios.
Relativamente à manifestação convocada pela CGTP há que procurar perceber algo que está a contecer de forma diferente. Pois é Quintarantino, os manifestantes podem não ser todos comunistas mas portam-se como tal ao integrar uma manifestação comunista.E eu sei o que se diz e faz nessas manifestações. Ainda não há muito tempo integrei uma para fazer uma reportagem a pedido de uma pessoa amiga que estava doente e precisava desse material. Olha, eu nunca integraria uma manifestação de gays e lésbicas (com todo o respeito que me merecem) nem uma manifestação nazi. É só isso.

R@Ser disse...

Querido amigo QuitMIB...do jeito que as coisas por aí vão,e pelo que estou a ler na internet...temo só poder conhecer a Europa a nado!!
Uiuiuui...é muito mar!!!
Brincadeiras a parte...Olha eu espero que tudo se resolva da melhor forma possivel...Ainda não entendi muito de que se trata esse tratado,nem que vantagens o povo terá..poderias me explicar?
Bjim

NINHO DE CUCO disse...

É eu também não sei muito sobre esse Tratado. Já agora se puderes dar mais uma dicazinha...

Márcio disse...

Tratado:
Quer queiramos, quer não... tentemos ou não inventar desculpas para criticar este tratado, a verdade é uma, a sua importante é inegável!

Manifestações:
É realmente triste Portugal passar essa imagem para o Mundo, e que realmente os trabalhadores se deixem levar por iniciativas que, apesar de ser muito bonita de aparecer nas tv's europeias, ajudem a passar uma imagem que não é aquela que estou certo querem do seu pais.

Governação Nacional:
A verdade é que ele continua de "pé e calo", cada vez mais e melhor... E então depois do tratado, não duvide... Sócrates criou uma margem de ar fresco bastante alargada... em comparação, imagine-se o que aconteceria senão tivesse havido acordo por parte da oposição.

Tiago R Cardoso disse...

Para começar, um excelente texto, com muito para reflectir.

Tratado Europeu, eu sou europeísta, acredito que o projecto Europa é um grande projecto, no entanto não acredito em propaganda, tem que se dizer que este assinar de tratado, andou nos topo da propaganda pa presidência portuguesa. Tentar uma acordo a todo o custo para se ficar na historia, atropelando e desfazendo as bases desse tratado não é boa politica é marketing de imagem tipo " nós é que somos bons".

A manifestação, não acredito que todos aqueles que iam lá eram comunistas, como também não acredito que tudo aquilo era CGTP, acredito é que se trata de algo mais, diferentes perspectiva a lutar contra um "inimigo" comum.

A pressa do governo é grande, vamos arrumar as coisas todas até ao final de 2008, fazer obra a correr, dar o cunho pessoal em tudo, esteja bem ou mal, porque em 2009 temos de dar "graxa" ao povo, abrir as torneiras, nessa altura o povo vai esquecer-se de tudo.

NuNo_R disse...

Caro quintarantino...

Eu nãi sei a Europa que quero...
Sei antes a que não quero:
ºUma Europa que me retire direitos e garantias conquistadas peolos meus conterrâneos;
ºQue me limite posteriormente a liberdade de movimentos e de expressão;
ºQue me condicione na obtenção de cultura e educação;
ºQue crie leis desadequados quenato à sua aplicação na generalidade dos países integrantes da "futura" federação europeia;
ºQue me obrigue a falar uma lingua que não a minha de origem;
ºQue me obrigue a viver debaixo de uma bandeira que não a portuguesa;
ºQue impeça o meu país de ser um estado soberano e democrático, em que o povo tem uma "palavra" a dizer e a ser escrutinada;
ºE finalmente,uma Europa que limpa da história o que é e o que foi a Nação Portuguesa.


abr...prof... bfds

Conventodaalma disse...

Eu francamente sou a favor do Tratado Europeu, e não me assusta nada fazer-mos parte de uma grande Europa, onde acabemos por funcionar como "estados" autónomos. Seria bom a nível de apoio ao desenvolvimento e capacidade de crescimento, bem como certas desilgualdades salarias acabariam por se esbater. Não se trata da "rendição" do povo de D. Henriques, nada disso... Nós estaremos sempre cá, e não acredito em guerras para nos retirar ou devolversoberania, somos de menos para isso... Nem tendo os Açores no meio do oceano... Para nós, até pelo posicionamento geoestrategico haveria ganhos, seriamos a cauda do peixe e não a cabeça, como alguns dizem... Mas já viram um peixe nadar sem a barbatana da cauda? Há pois é..

NÓMADA disse...

Eu sinto-me europeísta e considero que é preferível haver Tratado que entrar em colapso. Considero que Sócrates foi hábil e que tem todos os motivos para estar contente na sua pele da Presidência Europeia.
Porém internamente há muito a criticar a Sócrates. Esta manifestação é um sinal do que está para vir. É óbvio que são os mais desfavorecidos ou os que estão a perder regalias, garantias e até bens essenciais que acabam por estar por tudo e vão atrás de quem grita mais alto.

ANTONIO DELGADO disse...

Este tratado que pouco ou nada tem que ver com a tal constituição europeia de que se falava. Deixo algumas das ideias chaves retiradas de um jornal espanhol..


Nas reformas.
é uma serie de amendas ao existente
Constituição e simbolos:
não tem o nome de constituição nem leva simbolos como as doze estrelas , apesar de se continuaram a utilizar.

Pessoa juridica.
A EU terá personalidade juridica própria.

Presidencia:
há um presidente estavel. por um peiodo de dois anos e meo.

Politica exterior:
Não haverá ministro dos negocios extrangeiros.

Sistema de votação:
para estabelecer um novo sistema de votações e calculo da amioreia qualificada em tomadas de posicção.
55 por cento dos paises e 65 por cento da população.

VEto.
Desaparecerá

Comissão Europeia:
é reduzio o tamanho, no qual os paises tinham pelo menos um comiss´rio.

Carta Europeia dos direitos.
Ocupava toda a segunda parte do tratado. não ficgura no novo mas tem caracter vinculativo.

Parlamento europeu.
Aumenta o poder da codecisão. dota-se um maior papael aos parlamentos nacionais.

Iniciativa popular.
É reconhecida: um milhão de cidadãos pode pedir à comissão uma medida legislativa.

Saida da UE.
Possibilidade dos estados de abandonar a União.

Cooperação rforçada.

Cria-se um novo mecanismo automatico de colaboração reforçada. na cooperação olicial e judicial em materia peal.

O mesmo jornal titula assim como este titulo o assunto: " Os lideres europeus fecham em falso a crise institcional com um tratado de minimos".

Bom fim de semana.

blueminerva disse...

"Entret�m-te meu anjinho, entret�m-te, que eles s�o inteligentes, eles ajudam, eles emprestam, eles decidem por ti, decidem tudo por ti, se h�s-de construir barcos para a Pol�nia ou cabe�as de alfinete para a Su�cia, se h�s-de plantar tomate para o Canada ou eucaliptos para o Jap�o, descansa que eles tratam disso, se h�s-de comer bacalhau s� nos anos bissextos ou h�s-de beber vinho sint�tico de Alguidares-de-Baixo!"

Jos� M�rio Branco

Um abra�o

blueminerva disse...

"Entretém-te meu anjinho, entretém-te, que eles são inteligentes, eles ajudam, eles emprestam, eles decidem por ti, decidem tudo por ti, se hás-de construir barcos para a Polónia ou cabeças de alfinete para a Suécia, se hás-de plantar tomate para o Canada ou eucaliptos para o Japão, descansa que eles tratam disso, se hás-de comer bacalhau só nos anos bissextos ou hás-de beber vinho sintético de Alguidares-de-Baixo!"

José Mário Branco

Um abraço

Joshua disse...

Eu vejo o meu blogue como a tentativa de construção de uma obra de arte. E, se conseguir que seja grande, será uma espécie de suicídio.

Tatantino, tive prolongados problemas na minha internet que me obrigaram a refrear o meu ritmo visitacional, leitor, tudo.

Agora regresso com a força que posso. O miolo do teu texto oferece-me duas reacções: por estas do Trastado e por outras é que a democracia terá de ser mais DIRECTA do que tem sido. Ir a referendo até é pouco. É preciso educar para referendar a vida política PERMANENTEMENTE.

A segunda reacção diz respeito ao José Sócrates: ele representa o estertor de um tipo de fazer política com os dias contados: não vai ser possível suportar estas prolongadas tácticas de afrontamento e desprezo não pela opinião pública, que pouco e mal se exerce, mas pelas Pessoas tomadas individualmente.

Eu, já sabes, Tarantino, estou abaixo do meu limite de tolerância com estas políticas financeiras e quejandas, com estas reformas e estes novos regimes que fazem do Estado Exclusivamente uma Grande Empresa Privada, com uma lógica expelente e dejectiva das pessoas-ónus. As minha dificuldades são ESMAGADORAS e, por vezes, com uma filha, com a minha esposa, pergunto-me «E agora?»

A verdade é que não consigo, no momento, ver qualquer luz ao fundo.

Tu consegues?

Peter disse...

Demos ampla cobertura ao evento, beneficiando dos conhecimentos e da localização (Bruxelas) da nossa colaboradora de blog.

É como dizes (e que eu digo por outras palavras):

«São esses que representam na perfeição um dos piores males de Portugal: a INVEJA e a IGNORÂNCIA.»

SILÊNCIO CULPADO disse...

QUINTARANTINO E TIAGO
A iniciativa que deu origem à "concentração" no Notas Soltas sob o lema de "erradicação da pobreza" está a dar origem a uma onda de participação idêntica em número e boas vontades. Os blogues contactados estão a aderir com empenhamento e já há queixas de alguns por não terem sido contactados. A Alda já está com dificuldades em responder a todos. Vamos ver se caminhamos de modo a não deixar ninguém atrás.
Sinto que as pessoas estão muito mobilizáveis para causas como esta.
Esqueci-me de dizer ao Quinrarantino que acho o texto excelente mas como eu sou fã de tudo o que ele escreve, independentemente de coincidir ou não com a minha visão,se outra vez me esquecer ele já sabe qual a minha opinião.

Marshmallow disse...

como já disseram aí em cima, tbm não sei muito sobre esse tratado. não teria um site, talvez, que explique direitinho sobre ele?

bluegift disse...

Se este novo Tratado não for aprovado as consequências são muito simples: continuam a vigorar os antigos tratados! Ou seja, continuam a vigorar os erros até agora detectados. Os novos tratados, desde 1957, não passam de "aperfeiçoamentos". Este Tratado tem a particularidade de permitir um melhor bloqueio a medidas que se mostrem prejudiciais a um país (obrigada Polónia! ías tramando o Sócrates e o Durão, mas por uma boa causa); de permitir cortes substanciais nos gastos realizados até hoje nomeadamente a nível de pessoal (até o n° de comissários diminui e os deputados e representantes europeus têm n° limitado); de permitir que os simples cidadãos se organizem e proponham a adopção de leis; de permitir que o Parlamento Europeu (o representante mais legítimo do povo europeu) tenha muito mais poder na actuação da UE e muito mais controlo na Comissão; de permitir uma melhor funcionalidade e acção na política de segurança (leia-se: contra a guerra, o terrorismo e o crime organizado); entre outros.
Se a Tratado não for aprovado: nickles! acrescentem um "não" a tudo o que acabei de enunciar. É simples. Os retalhos em vez de diminuirem vão ter que obrigatoriamente aumentar, vai ser necessário continuar a remendar furos! já que a realidade actual é bem diferente da existente na assinatura dos tratados anteriores.
Quanto ao referendo. Se o PS, o PSD e o PP estão de acordo, vamos fazer um referendo para quê? Só se for para dar mais tempo de antena aos partidos minoritários (tipo BE e PCP) e gastar mais dinheirinho ao contribuinte. Afinal, elegemos um Parlamento para quê? Eles são pagos para compreender melhor estes assuntos, ou não?

antonio disse...

Joshua, meu amigo deixa-me então dizer-te que estarás muito próximo do suicídio... refreia-te de certo vernáculo e não terás salvação possível. :)

antonio disse...

A Europa que vale a pena tem que estar virada para os cidadãos, a europa que se constrói com tecnicismos, aritméticas criativas, espasmos televisivos e alguma saloiice, terá seguramente uma alma pequena.

Deixem de ter medo! As rupturas podem ser excelentes oportunidades!

C Valente disse...

o tratado está resolvido a contento de quê e de quem nada sabemos,
O certo é que não vai haver referendo o PSD já estendeu o tapete tão desejado ao PS ao dizer que não queria o referendo
Os politicos decidem, mandam podem e querem
Saudações amigas

Mia disse...

Pelo que li, o que pretendem é:
- Criar um Presidente do Conselho europeu, acabando as presidencias semestrais rotativas.
- Uma decisão só é aprovada se for votada por 55% do Estados, desde que estes representem pelo menos 65% da população da UE.
- A minoria de bloqueio deve ser composta por paises que representam 35% da poulação dos Estados-menbros, mais um país, caso contrário considera-se alcançada a maioria qualificada.
- As decisões tomadas por maioria qualificada duplicam: passam de 34 para cerca de 70, sobretudo na áreas da justiça e assuntos internos.
- Abandonar a UE, pela primeira vez está prevista a possibilidade de um país abandonar a UE, mediante a celebração de um acordo.
- Para os que não corresponderem, ficam pre4vistos procedimentos que levam á suspensão de um Estado-membro que viole "grave e repetidamente" os principios e valores europeus.
Mas as negociações continuam, e reivindicações de alguns membros, fazem desencadear novas reivindicações inclusivé de Portugal.
Se todos chegarem a consenso o tratado reformador, será assinado em Lisboa, pelo que ficará conhecido como o Tratado de Lisboa, ainda em Dezembro deste ano.

quintarantino disse...

Muito boas explicações aqui foram dadas. Mas eu sou um insatisfeito. Queria que andassem mais rápido.

R@Ser disse...

Galera muito obrigada....agora entendi um pouquinho mais sobre ap olitica portuguesa.
Se esse tal tratado é ou não satisfatório..não saberemos..mas vamos torcer para que seja o melhor possivel,não só para os governantes como tambem para a população!
Bjinhos