Políticos: quanto mais poder, menor lucidez?

Nunca me havia dado ao trabalho de reflectir profusa e profundamente sobre a influência que o exercício e a detenção de poder político têm sobre a inteligência humana e não será certamente hoje que o farei.

Mas, lendo afirmações de Morais Sarmento proferidas em Cantanhede, já encontrei uma ideia mestre, um “leitmotiv” digamos assim.
E cuja premissa base é a de que “o exercício do poder político e o ter poder num dado momento afectam a inteligência do homem e a lucidez do homem político”.

Não acreditam? Pois vejam se algum dia ouviram, a Morais Sarmento ministro, ou sequer deputado de proa, aquilo que ele afirmou em Sangalhos:

“O poder político está hoje mais fragilizado do que há 10 anos, perante o poder económico e as corporações. Hoje, qualquer grande empresa tem maior capacidade de reflexão e análise do que o poder político".

(…) "democracia perdeu qualidade. Os partidos não são atractivos, o Governo não tem capacidade de actuar com profissionalismo, a oposição é meramente adjectiva, não é substantiva, e o presidente da República acaba por fazer de contrapeso em vez de ter o papel de regulador que devia ter".

"Hoje, fazer política no nosso país, só por estado de necessidade ou em estado de loucura”.

"Não conheço um livro, um único, sobre pensamento político produzido, desde o 25 de Abril, pelos protagonistas (...)

Lúcido o homem, não?
Pois, mas só adquiriu tal lucidez quando perdeu protagonismo na sociedade política lusa.

E agora para provar que a minha teoria está inteiramente correcta, vejam o que disse o nosso Primeiro-Ministro, na sua qualidade de Secretário-Geral do PS, na abertura do Fórum Novas Fronteiras (ou seja, num momento político e que o orador tem poder, muito poder):

“Quando se fizer a história desta legislatura facilmente se perceberá que o PS fez o que era o seu dever”.

“Fez aquilo que devia … pôr as contas públicas em ordem, fazer uma consolidação orçamental defendendo o prestígio do Estado social, das políticas sociais”.

”São as escolhas certas para o progresso do país. Esta é a nossa visão política, que tem já resultados claros”.

Temos homem ao leme. Pena é que tenha olvidado os tempos em que se vociferava contra a obsessão do défice sabendo-se que o mesmo tinha de ser contido.

Para rematar tudo isto com chave de ouro esse insigne vulto da democracia chamado António Vitorino (político a quem, fica a aqui a pública promessa, jamais confiarei o meu voto candidate-se ele ao que quiser) veio a terreiro proferir:

"Vamos continuar. Habituem-se!"

Quer dizer, para este “sempre em pé” que não gosta de sujar as mãos com as coisas da política, mas está sempre lá como os pés metidos, apesar da asneada de algumas medidas, apesar da fuga de quadros e “indigentes” para fora do País, apesar de agora ser moda nascer-se em ambulâncias, apesar do desemprego, apesar do Estado ter contido o défice esmagando quem já estava esmagado, pois bem, apesar disto tudo, é para continuar.

Cá está uma das coisas que eu sempre “admirei” nos cavaquistas empedernidos que acompanhavam Cavaco Silva nos tempos áureos dos seus governos e agora nalguns destes socialistas de pacotilha: a arrogância!

O homem fez esta afirmação depois de reconhecer que o PS está atento aos sinais de descontentamento e que até os admite.
Aliás, Vitorino afirmou mesmo que é bom que os mesmos existam.
Não sei se Sócrates pensa o mesmo.

Mas a tal arrogância vê-se todos os dias por aí espalhada e não sei se cai bem ou se será facilmente esquecida!

24 comentarios:

C Valente disse...

Palavras para qu~e destes artistas portugueses, Triste , muito triste
Saudações amigas

R@Ser disse...

Meu amigo QUint,
O título resume tudo!!!
Bjim

sniqper ® disse...

Como vocês já nos habituaram, neste blogue, os assuntos são tratados como deve ser, parabéns.
Como comentário ao cenário politico deixo este breve texto:
O Intelectual e o Político

A missão do chamado «intelectual» é, de certo modo, oposta à do político. A obra intelectual aspira, frequentemente em vão, a aclarar um pouco as coisas, enquanto a do político sói, pelo contrário, consistir em confundi-las mais do que já estavam. Ser da esquerda é, como ser da direita, uma das infinitas maneiras que o homem pode escolher para ser um imbecil: ambas, com efeito, são formas da hemiplegia moral.

Ortega y Gasset, in 'A Rebelião das Massas'

Tiago R Cardoso disse...

Facilmente esquecida, o povo tem memoria curta, depois de levar com anos de arrogância, que tem vindo a aumentar, onde vemos um partido que se definia de esquerda apresentar e executar medidas mais à direita que os próprios de direita, terá direito em 2009 a um tratamento de "graxa" com objectivos eleitorais.

Quanto aos "estadistas" que andam por ai, com ar de altivez sobre tudo e sobre todos, o problema maior é a importância que lhes é dada.
Eu vou mais longe, não se trata de arrogância, para mim covardia politica, quando se critica tudo e todos do alto da sua "imparcialidade", depois quando são chamados a realmente tomar uma atitude ou lhes dizem para por a acção onde está as palavras, eles mostram-se imediatamente indisponíveis.
Critica pela critica qualquer um faz, agora fazer alguma coisa...

Peter disse...

É um texto estremamante interessante e que li avidamente. Muito bem observado no que respeita à personalidade e actuação política dos personagens.

Assunto que interessa (deveria interessar) a todos nós, porque a todos afecta.

Fa menor disse...

Grande análise!
"Vamos continuar"... para o fundo!

Prá frente é que é o caminho, ehehehe

Fa menor disse...

... o riso foi amarelo!

bluegift disse...

Nao sei se as políticas impopulares a que se assiste em cada país da UE se devem mais ao "princípio de Peter" ou a técnicas económicas aconselhadas pela Comissao visando o equilíbrio dos países face aos restantes. Será, provavalmente, um misto dos dois. Mesmo é certo que mesmo que encontrássemos petróleo na nossa bem amada costa, dificilmente iriamos viver com medidas populares até que o ouro negro comecasse a render (e a poluir...). Francamente, nao vejo saída. E o sábio que a tiver descoberto faca o favor de se apresentar, antes de cair nas malhas tenebres do nível máximo da incompetencia...
(desculpem a falta de alguns acentos).

Metamorfose disse...

Quem não há-de gabar a nora senão a tola da sogra... uma técnica antiga, mal...mal...mas sempre em frente.

Francis disse...

nada de admirar, em chegando lá cima, o pessoal passa-se com as mordomias, contactos etc etc...

Keops disse...

Ouvi, claramente ouvido o sr Sócrates com seu ar imitador de vendedor de cobertores das feiras (me desculpem esses sobreviventes): ACORDEM!
Só que esse grito era para quem possivelmente tinha dúvidas.
Dúvidas, reflexão, não concordância,NAS QUESTÕES EUROPEIAS para certos pavões de penas sintéticas é sinal de menoridade!
ARROGANTE! Estupidamente ARROGANTE! ACORDE!

SILÊNCIO CULPADO disse...

Magnificamente apresentado, este texto incidide sobre a realidade do mundo presente, em que o poder ensandece, corrompe e menoriza.Os políticos são actores sociais que desempenham diferentes papeis em diferentes contextos. Podem ser excelentes nuns e péssimos noutros. Porém, onde há interesses que dobram a espinha dorsal à mentira e ao império dos mais fortes, não podemos esperar posturas construtivas. Por tudo isso é desaconselhável a concentração do poder na mão de minorias que fatalmente farão uso dele de forma discricionária. Só a consciência colectiva, o jogo democrático e a nossa capacidade de indignação lhes poderão travar os seus efeitos nefastos.

NINHO DE CUCO disse...

Este magnífico texto demonstra, até à saciedade, as duas faces de Jano, nas sociedades capitalistas. Uma das faces corresponde ao que o indíviduo é, e pensa, segundo conhecimentos que acumulou com a sua experiência, e a outra face diz respeito ao que ele quer demonstrar que sente para servir os interesses que o vergam.
Não é por acaso que a eficácia do dinheiro, como arma política, é frequentemente atestada pelo paralelismo entre a evolução das formas de riqueza e a das formas de autoridade.

NÓMADA disse...

Mais uma vez parabéns pela grande qualidade que este espaço revela, e que tem vindo a aperfeiçoar, e pelo belo texto de reflexão com que hoje nos presenteia.
O que está em causa com todos os políticos que aqui estão citados é que, enquanto poder, eles usam e abusam da técnica de camuflagem que consiste em fazer crer às massas que os seus interesses estão em causa, quando o que está realmente em causa são os interesses particulares de uma minoria.

Um Momento disse...

A arrogãncia continua... apetece dizer: Todos os politicos para a rua ...trabalhar...
ups
Já disse
Deixo um beijo
(*)

Alma Nova disse...

Meu Caro Quintarantino
pelo que me tem sido dado ver, ouvir, constatar, não é só na política que o factor "poder" ensandece as mentes e torna arrogante quem, até aí, era correcto e profissionalmente capaz. Dá-me ideia de que o poder, para além de retirar lucidez, faz também esquecer a maioria das qualidades humanas que tornam um chefe num líder. E nem é preciso ir muito longe para chegar a esta conclusão, basta que, em qualquer empresa, escola, ou qualquer outro organismo, se analise e compare o comportamento de quem esteve numa posição "subalterna" e ascendeu na hierarquia, alcançando um posto de chefia. Lá diz o velho ditado..."Não peças a quem pediu, nem sirvas a quem serviu..."
Quanto à classe política deste país...já nem sequer comento.

António de Almeida disse...

-A política deixou de ser interessante para todos os quadros qualificados, é um facto, eventualmente quem necessitar, ou tiver algo a ganhar com exposição mediática, poderá passar pela política, ganha notoriedade, e muda de emprego. Tenho sistemáticamente defendido que os nossos políticos estão mal pagos, e continuo cada vez mais convencido desse facto, só em deputados por exemplo, 230 para quê? Se fossem menos, poderiamos pagar melhor aos que estivessem em exercício de funções, o mesmo se passa nas autarquias, assessores, boys, carreiristas e afins. Não vamos generalizar, mas é sabido que neste país o regabofe é grande, enorme mesmo, depois discutem-se umas migalhas simbólicas, que politicamente até podem ser um sinal importante, como reformas e regalias, que até são excessivas. Depois a sensação de impunidade, seja ela política, moral ou cível, uma decisão ruinosa não tem consequências, a justiça não funciona em tempo útil, caramba julgar e condenar alguém por um facto ocorrido há 10 anos, para lá de injusto, não leva a nada. Portugal é um país mal estruturado a todos níveis, e nem os fundos estruturais fomos capazes de aproveitar, como o fez a Irlanda por exemplo. Será que temos futuro?

migvic disse...

Não lhes dês descanso.

Joshua disse...

Palavras para quê?

adrianeites disse...

poitiquisses...


boa semana

NuNo_R disse...

BoaS...

Eles quando saem do poleiro falam todos assim...

Parece que acordam para a realidade.


abr...prof...

Carreira disse...

Uma das características que mais me irrita neste governo é a arrogãncia com que advogam as suas ideias e opções, como se fossem as únicas válidas.

Lampejo disse...

.....

Políticos são todos uma POÇA DE PUS!


Mais um brilhante dos teus escritos Quin, como labaredas os textos do teu blog.

((a) braços e boa noite :)

antonio disse...

Quin, brilhante. Merecia uma análise mais profunda. Estou certo que se um dia o Sarmento regressar, rapidamente estará ao leme guidando este país na senda do sucesso e do que tem que ser feito.