Onde estamos e para onde vamos? (Reflexões sobre o suicídio em Portugal)

Quando se pretende analisar qualquer fenómeno social em profundidade, com recurso a estudos ou a estatísticas, damo-nos conta das enormes lacunas existentes que revelam, no mínimo, um total desprezo pelo que de mais sagrado há: a vida humana. Uma vida em que se nasce, cresce, ama e morre de formas diferentes de acordo com a estratificação, os lugares e as culturas como se diferente fosse o sangue que corresse, o coração que batesse e os olhos que porventura chorassem.
Anualmente, em todo o mundo, há cerca de 1 milhão de pessoas que se suicida. Um milhão de pessoas que prefere acabar com a dor a viver sem esperança. Destas, mais de 45.000 estão na União Europeia onde, a cada hora que passa, mais de 5 homens e mulheres cometem o suicídio. Mas, para além destes, num número que se estima 8 vezes superior, existe a realidade daqueles que sobreviveram à tentativa desesperada de pôr fim à vida.
Que mundo é este que pretendemos construir, é caso para perguntar. Apesar de Portugal apresentar ainda taxas médias de suicídio das mais baixas da UE, nos jovens entre os 15 e os 24 anos, o suicídio é a 2ª.causa de morte e as tentativas de suicídio são das mais elevadas da UE podendo atingir os 250/100.000 habitantes.
Os períodos de incerteza económica são propiciadores ao incremento dos suicídios o que, em Portugal, significou passar-se de uma valor de 500/100.000 habitantes no final da década de 90, para um aumento superior a 100% se tomarmos como referência os anos de 2002 e 2003 (últimos valores conhecidos e apurados) em que estes valores atingiram os 1.200/100.00 e 1.100/100.000, respectivamente.
Foi o sul do País que mais contribuiu para o aumento da taxa de suicídios talvez, também, porque a influência da igreja seja menos marcante quer no impedimento do acto quer na assumpção pública do seu reconhecimento.
Um estudo realizado em Coimbra, num Centro Hospitalar específico, com base numa amostra a nível nacional, aponta para uma maior concentração do fenómeno nos grupos sociais economicamente mais fragilizados. Segundo aquele Centro o universo dos suicidas portugueses seria assim distribuído em termos de estratificação:

Classe Alta – 1%
Classe Média-Alta - 14%
Classe Média-Baixa – 53%
Classe Baixa – 32%

Porém, se quisermos desdobrar dois dos indicadores utilizados no conceito de classe, o capital escolar e o económico, teremos uma incidência das taxas de suicidio como se segue:

Sem ensino obrigatório - 57%
Ensino obrigatório - 12%
Ensino médio - 20%
Ensino superior - 11%

Rendimento per capita:
Inferior ao salário mínimo - 41%
2 x Salário mínimo - 34%
3x Salário mínimo -13%
Superior a 4 x o salário mínimo - 12%

25 comentarios:

elsa nyny disse...

A vida é complicada...mas ainda assim é VIDAAAAA! Também não tem só momentos maus!

Entretanto há um novo desafio Por Darfur, vem ver se queres colaborar!

Beijinhos!

M.C. disse...

Quintarantino,


Suicídio... Um assunto tão delicado.

Não entendo e nem quero entender os motivos conducentes de um suicida, um ato covarde que muitos classificam como coragem.
Uma afirmação falsa (claro!)
Penso que temos que falar sério sobre o assunto quando abordamos a questão suicídio.

Por aquilo que representa, não pode ser entendido.
O suicida é uma pessoa insatisfeita consigo mesmo e com o mundo.
Suicidar-se é querer sentir-se ausente do próprio ser.

O suicida não consegue
"ver o Sol mesmo quando há"

Não entendo as razões pela qual o suicida não quer VIDA?

Parabéns a você e ao Silêncio Culpado pela atitude de publicar uma postagem como essa.

(A)braços e bom fim-de-semana!

M.C

R@Ser disse...

Ai, só Jesus na nossa vida!!!!
è sempre bom vir aqui,conheço mais um pouco de Portugal.
Parabens S.Culpado
Bjim aos três.
Bom fim de semana MIB.
Ah Quint,tu não estás querendo que eu seja clone da Carlotinha néh,bigodinho não!!!(hihih).
Bjim

R@Ser disse...

Ops..esqueci de responder a pergunta:"Onde estamos e para onde vamos".?
Bom...se a materia é sobre suicidio fica fácil responder...
Primeira pergunta:Onde estamos?
Fica a gosto do suicida,
Para onde vamos?...Bem, se o suicida sobreviver...é o Hospital,caso venha morrer...é o caixão,vira comida de minhoquinha.
Bjim

Tiago R Cardoso disse...

Ainda ontem li uma noticia sobre o aumento em Portugal de depressão, sim porque eu acredito que grande parte dos motivos que levam ao suicídio é a depressão, na noticia realçava-se que se dava pouca importância ao fenómeno.
estamos numa sociedade indiferente, onde a competição é a palavra chave, uma constante luta para sobreviver sem ser atropelado pelo resto do mundo, o stress diário causa situações extremamente perigosas de depressão que estam a ver desvalorizadas.
Eu acredito que tudo isto vai levar a um colapso, onde definitivamente se vão perder todos os valores humanos, isto é se o caminho continuar a ser o mesmo.
Como já disse mais que uma vez e volto a repetir, 450 kg iam fazer bem a muita gente.

GIL disse...

Quando se analisa o que aqui é dito rapidamente se percebe para onde vamos. Vamos para uma sociedade afundada em si própria. Como diz o Tiago está a aumentar o número de pessoas com depressão em Portugal e são essa pessoas que se suicidam ou tentam suicidar. As causa estão associadas à incerteza relativamente a um estado que não cumpre as suas funções.

C.Coelho disse...

Palavras para quê? Afinal o dinheiro sempre dá felicidade e o sol quando nasce não é para todos.
Para estes que nascem sem sol é fácil percorrer o caminho da depressão ao suicídio.
Que quem isto lê veja se ainda tem no peito um pingo de sentimento e começa a pensar numa cidadania activa.

adrianeites disse...

bom fim de semana!

quintarantino disse...

A tentação de uma leitura mais apressada e simplista destes números poder-nos-ia levar a tirar conclusões precipitadas.
Desde logo, que quanto mais se estiver, na dita escala social, em baixo, mais propensão existirá para o suicídio.
Será que assim é mesmo?
O Vale do Ave, uma das zonas mais deprimidas do País, penso que não regista tantas taxas de suicídio como isso nas classes mais desfavorecidas.
Paralelamente, e aqui mesmo numa de demagogia e populismo, a indicação que é na classe média baixa que se regista a maior concentração poderia servir para ilustrar ao que chegou o País com as políticas actuais. Espero que ninguém veja este raciocínio e o expenda por aí além, senão ainda vamos ter pano para mangas.
Penso que o suicídio deveria ser visto como uma "anomia" e, muito especialmente, sem a taxatividade dos fundamentalismos.
Cada caso é um caso, por favor.
Longe vão os tempos em que a um suicída era recusado o direito a um funeral religioso.
De qualquer forma, caríssima Silêncio Culpado, um enorme contributo.

migvic disse...

Suicídio, um acto de coragem ou covardia?

Márcio disse...

Um tema difícil de perceber… de encontrar explicações.
A minha opinião sobre este tema é que, tal como as estatísticas o demonstram, o que faz este acto acontecer são os extremos, de pobreza e riqueza. Mas deve-se essencialmente ao facto de problemas psicológicos

Fa menor disse...

Os números são o que são, valem o que valem, podem daí tirar-se as conclusões que cada um entender...

Entendo que quando uma pessoa chega a esse extremo só pode ser por lhe faltar um grande suporte, quer seja financeiro, familiar, religioso...
a pessoa chegou a uma situaçao tal, em que não vê mais a luz ao fundo do túnel...
e a culpa pode nem sempre ser do próprio, mas de quem não está atento aos sinais por ela emitidos, os mais próximos e a sociedade em geral, que apenas olham para o seu umbigo!
Mea culpa!!!

NuNo_R disse...

Boas...

O Suicídio é um tema difícil de comentar tais as questões éticas e culturais que se encontram subjacentes.

Será um acto de fuga, coragem ou um "escape supremo"?

Somente quem comete o suicídio saberá quais as razões implícitas que o/a obrigaram a tomar tal atitude.
Não servirá como desculpa mas antes como atenuante e para que se consiga compreender tal posição que obrigou à decisão de se por termo á Vida.

Logo não sou a favor nem contra.
São acções que somente dizem respeito a quem as pratica.


abr...prof... bfds

Paulo Sempre disse...

O bem juridico «vida» é o mais bem protegido pelo sistema jurido em Portugal. Sejam qual forem as razões que levam alguém a pôr termo à sua própria vida, é sempre motivo para reflectir até que ponto a sociedade é o autora moral, ou não, de tal conduta.
A verdade é que para muitas solidões, mesmo povoadas, a "vida" já não tem sentido. As instituições, a fámilia e os outros...,por vezes, também não fazem nada para dar sentido à "vida".
Abraço
Paulo

SILÊNCIO CULPADO disse...

ESCLARECIMETO - VAMOS CHAMAR OS BOIS PELOS NOMES

1) Este post não pretende ser um estudo socilógico. Pretende apenas chamar a atenção para o flagelo do suicídio e para a sua evolução em Portugal.
2)A taxa de suicídios, em Portugal, tem vindo a subir significativamente. E, pese embora o facto da amostra apresentada poder não ser probabilística para permitir a extrapolação a nível nacional, tem números que falam por si. Não como verdade irrefutável, que essas não existem, mas como indicadores de uma tendência que se tem vindo a acentuar.
Em Portugal, nas classes alta e média alta registam-se 15% dos suicídios a nível nacional. Nas classes baixa e média baixa registam-se 85%.
Entre os portugueses que têm o ensino obrigatório mais os que nem sequer o têm, temos uma taxa de suicídios de 69%. Juntando o ensino médio ao superior a taxa é de 31%.
Na população portuguesa com um rendimento per capita igual ou inferior a 2 ordenados mínimos, a taxa de suicídios é de 75%. Acima de 2 ordenados mínimos fica-se nos 25%. Estes números não levantam sequer uma hipótese?
Claro que podemos ir desenterrar a tese de Durkheim de que as situações de crise intensa e de catástrofes reforçam os laços de solidariedade enquanto as sociedades de abundância se individualizam e criam situações de anomia que propiciam o suicídio. Mas sem contestar a validade desta teoria não devemos teorizar demasiado situações concretas que poderão ter outras leituras, também válidas, e também científicas. Para tanto outras hipóteses terão que ser testadas: toxicodependencia, desemprego e agravamento das condições de vida entre outras. Situações estas que levam ao desespero. A situação de Vale do Ave é demasiado particular para servir de paradigma a nível nacional.
Os dados carecem de ser aprofundados e testados, como é óbvio, mas revelam evidências a que não podemos ficar indiferentes. Há pois que percebê-los, interpretá-los e exigir políticas sociais mais justas que as que têm sido adoptadas. E isto serve ao actual governo e aos anteriores também pese embora a minha opção partidária estar aqui situada. Porém, se defender políticas sociais mais justas é ser de esquerda pois bem eu acho que precisamos de uma governação mais à esquerda.
Finalmente, e para fechar este longo arrazoado, o que afirmo é apenas da minha responsabilidade e responderei por isso nem que para tal tenha que abdicar do meu anonimato. O suicídio continuo a entendê-lo como um problema social e não individual porquanto é um solitário desesperado, a quem a sociedade recusou a mão, que decide pôr fim à vida.

PS: Relativamente à influência da igreja na contenção ou ocultação do suicídio quem o afirma são a bem dizer todos os sociólogos portugueses que conheço. Eu não tenho prática religiosa.

O Guardião disse...

Muito difícil, mesmo. O desespero, a falta de esperança ou a desilusão são sentimentos por que todos passamos, mas as condições em que isto acontece são vistas, e sobretudo sentidas de maneira diferente, como diferentes somos todos nós. Fuga ou libertação, perguntam alguns, não sei. O que sei é que é uma decisão que não entendo, mas que espero nunca ter de encarar.
Cumps

quintarantino disse...

Perdão?

DS disse...

Uma realidade muito triste!

Lampejo disse...

Silêncio Culpado,


Acho que há variações consideráveis de um país para outro.

Parece que depender da índole de cada povo.

Explico!

Algumas correlações e aspectos gerais têm sido fixados pelos estudiosos, como exemplo, a estatística referente aos países altamente industrializados e prósperos tendentes a apresentar taxas de suicídio mais elevadas. Destaca-se que a taxa de suicido se torna bastante regredida nos selvagens e classes inferiores, conforme relato em algumas pesquisas. As vítimas do suicido encontram-se principalmente entre os membros das profissões liberais, militares,funcionários públicos.

No Brasil os operários ocupam, curiosamente, o ÚlTIMO posto nessa trágica estatísticas reveladoras do número de suicídios.
Nos suicídios consumados a idade média das vítimas é mais elevada que nas tentativas...

Enfim...

(a)braços...e bom domingo!

ALEX disse...

A explicação do Silêncio Culpado sobre o suicídio em Portugal está fantástica e supera o próprio post.
Assino por baixo

quintarantino disse...

Pimba...

Boris disse...

Há quem queira tapar o sol com a peneira e ainda bem que há quem destape. E tu Silêncio não tenhas medo porque quando somos sinceros nas nossas convicções não há que ter medo. Era o que mais faltava!

Crítica e denúncia disse...

Amiga Silêncio culpado assino embaixo teu post ainda mais neste particular aqui, quando tu esclareces que a coisa muda de figura em cada país. Pois assim é ! As estatísticas da África em geral é de zero suicídio. Um povo que nada têm e nada espera. Já outros países ricos, como a Bélgica, o suicídio álcança altos índices. A tua croagem e perpicácia para escolher os temas é admirável. Parabens ! Alda Inacio

Keops disse...

Este tema é pertinente e escaldante. Há quem o condene logo à partida, há quem não o compreenda,há até quem o aborde por análises sociológicas ou económicas e há quem respeitosamente o acompanhe,mais que perceber. A PESSOA, em toda a sua globalidade.Sempre!
Gente que voluntariamente se dá em http://www.sosvozamiga.org/por exemplo, não quer explicar, quer estar com!
A propósito, constou-me que essa linha que existe há 30 anos corre o risco de fechar por dificuldades económicas!(não há lucros em €, logo politicamente não considerada!)

Anónimo disse...

Com tanto pobre não admira que se matem e ainda por cima pessoas que chegaram a viver mais ou menos e que agora não conseguem pagar as casas e dar de comer à família.