Distribuição e perturbações

Isto de vez em quando precisa de uma animação, coisa que não tem faltado por este nosso querido país.
Hoje chega-nos um estudo sobre a Administração Pública que, para mim, pareceu-me mais uma sondagem, mas enfim é o que temos.

Diz o estudo que os portugueses acham que o número de funcionários públicos é excessivo e que estes estão mal distribuídos pelos serviços.
Descascando a coisa, os números mostram que mais de metade (55 por cento) dos cidadãos questionados diz que há funcionários públicos a mais, mas a percentagem sobe para 66 por cento quando os inquiridos são os dirigentes e ainda que a quase totalidade dos inquiridos (96 por cento dos cidadãos e 98 por cento dos dirigentes) consideram que os funcionários do Estado estão mal distribuídos pelos serviços.

Eu acredito que não existem funcionários públicos a mais, estamos é perante uma má gestão de recursos humanos.
Esta é a noção que eu tenho após oito anos a trabalhar directamente com a função publica.

Tenho a certeza de que o que testemunhei não é caso único, mas repete-se inúmeras vezes pelo nosso País.
Falo de um local onde se é colocado não por mérito, mas por grau de informação.
Esse local é dividido em vários sectores e enquanto nalguns faltam pessoas, noutros estão em excesso, isto porque existem funcionários que "sabem demais" e assim se permitem escolher onde querem estar, não se sujeitando a qualquer tarefa.

Também vi que a política de entrar um por cada dois que se reformam é uma situação que leva a uma escassez de pessoal, originado que os que sobram sofram de uma acumulação de tarefas, o que vem criar um enorme desgaste e um menor desempenho.
Se a isto juntarmos que o trabalhador olha para o lado, vê "colegas" bem colocados e que não fazem nada, obviamente que a motivação não será a melhor, seja em que sector for.

Acredito que quem passe por aqui será capaz de deixar mais alguns exemplos demonstrativos do "bom" funcionamento e gestão que existe do sector público.

Entretanto o Sr. Ministro das Finanças, Teixeira do Santos, volta à carga e afirma que "estou convicto de que é preciso prosseguir a estratégia de modernização da Administração Pública", para complementar que as reformas "introduzem perturbação, mas temos que ser exigentes, o país exige-o".

Perturbação ?
Sr. Ministro, chama perturbação dizer que as promoções iriam voltar em 2008 e afinal só são para 1,5 % dos funcionários?
Chama perturbação fazer uma proposta ridícula de aumento salarial para 2008?
Chama perturbação avançar com uma lei de mobilidade que coloca um mar de incertezas perante os trabalhadores?
Chama perturbação continuar a exigir mais e mais das pessoas para em 2009 poder dar à grande?

Eu chamar-lhe-ia outra coisa.

Não vou falar sobre o resto do estudo/sondagem, que levanta a questão de o sector privado funcionar melhor que o sector público, porque isso já me parece uma questão de "preconceito".

26 comentarios:

antonio disse...

Infelizmente este país é (des)governado à custa de opniões alheias mais ou menos bem informadas, mais ou menos bem intencionadas!

Joshua disse...

Para mim, reforma do sector público é somente fazer sofrer o funcionariozito, dar-lhe uma lição de desconforto e de incerteza.

O Ministro Teixeira anda a aparecer muitas vezes e mansamente nas televisões: é para suavizar a pílula.

sniqper ® disse...

Caro Tiago
Começando pelo Ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, que numa entrevista onde foi questionado sobre a legalidade sobre os casos de empréstimos no Banco de Portugal, teve a preocupação de repetir, pelo menos duas vezes que tais actos não foram praticados durante a vigência do actual governo, é suficiente para mim, para me questionar se a sua preocupação, como ele disse, é de analisar atentamente o caso, o qual segundo parece está correcto, ou será maior a preocupação de "empurrar" as culpas para quem consentiu tal, se por um acaso afinal não estar correcto esse procedimento, mas isto sou eu a pensar, não sou Ministro, nem jurista, sou apenas português.
Quanto ao problema da Função Pública, tema por demais falado, ora em ataques directos ou velados, acho que existem alturas para tudo, como tal os portugueses devem começar a ter a preocupação de não se "deixar levar" por opiniões que não passam disso, opiniões e, começaram a pensar que todos nós, os que elegemos governantes, somos responsáveis pelo seu desempenho no exercício das suas funções.
Devemos sim, ou melhor temos a obrigação de os questionar sobre o que achamos incorrecto nas suas decisões e, do mesmo modo apresentar as nossas soluções, essas que podem ser ou não certas, mas são soluções que colocadas na balança das decisões por eles tomadas, vão servir para comparações e dessas nascerem as soluções finais.
Essa forma de praticar cidadania, na minha opinião é construir, tudo o resto vale o que vale e, por isso mesmo pode não valer nada.

al cardoso disse...

Perturbado e a perturbar-nos tem andado todo o governo, felizmente as sondagens comecam a refletir o que os portugueses sentem!

Um abraco do d'Algodres.

quintarantino disse...

Primeiro: uma análise séria e isenta.
Segundo: a levantar questões prementes e pertinentes que passam pela distribuição dos recursos humanos, do reconhecimento do mérito e da competência.
Presumo que já muitos terão percebido que sou funcionário público (embora pessoalmente prefira o termo servidor público), por isso sinto-me capaz de ter uma visão relativamente privilegiada do que se passa dentro da máquina e fora dela.
Obviamente que existem casos de nepotismo, autoritarismo, despesismo e incompetência.
De alguns "privilégios" especialmente nos ditos regimes e corpos especiais.
Mas que dizer quando se padece anos a fio com contratos a termo em clara violação da Lei?
Ou os iluminados pensamo que isso
é só no privado?
Vão às autarquias locais, às escolas e aos hospitais e vejam.
Que se deve dizer quando há funcionários que, apesar da sua dedicação, competência e avaliação, são preteridos em promoções?
Lamentavelmente, a "inveja" nacional faz com que muitos delirem e deitem foguetes sempre que se fala em mais um ataque aos privilégios da Função Pública.
Queria-os ver era preocupados com os salários de miséria que muitos ganham na privada, com as falências fraudulentas a que seguem aberturas nas mesmas instalações, com o mesmo equipamento e os mesmos patrões. Mas disso, não falam eles. Pois não, é mais cómodo deitar as culpas para os outros.

Joshua disse...

Tiago, o que escrevi foi acerca de um texto e uma situação noutro blogue colectivo que tem a mania. Não coloquei um link que desfizesse todas as dúvidas, mas um dia destes digo-te qual foi o tal blogue.

O Notas está no bom caminho, disso não duvides, e eu só tenho coisas boas a dizer acerca do trabalho que se vai fazendo por aqui.

Aquele abraço

joshua

Joshua disse...

A nossa aventura continua!

joshua

António de Almeida disse...

-Existem funcionários públicos a mais ou não, conforme o peso que se pretende que o Estado tenha na sociedade. Mas isso é uma opção política, passemos à frente, o que há a retirar deste estudo é, existe uma falta de qualidade nos serviços prestados, é incontornável, nos dias de hoje alguém tem paciência para passar o dia num tribunal, para onde é convocado ás 9, para ser ouvido ás 15? Ou ter uma consulta marcada no hospital, onde é-lhe indicado que deverá comparecer ás 8.30, e ás 11 ainda não foi atendido? Não será culpa dos funcionários, mas este sistema não presta, melhorias têm existido com as lojas do cidadão, mas ainda são poucas, e precisamos que prestem mais serviços. Conservatórias do registo predial, então são algo de inenarrável.

SILÊNCIO CULPADO disse...

Não tenho uma ideia suficientemente clara sobre o que se passa na administração pública. Sei o que leio e vejo nos órgãos de comunicação social o que é o mesmo que dizer que tenho uma visão enviesada pela falta de rigor da notícia. E essa visão que me transmitiram, e que pretendem transmitir, não é em abono do funcionário público. Porém, e através da internet e das postagens de muitos blogues sérios que visito, a minha opinião tem vindo a alterar-se. Vejo os diferentes casos de pessoas que são atiradas para situações precárias após uma vida inteira d etrabalho e dedicação. E vejo, sobretudo, que há uma procura sistemática, por parte do governo, de fazer destes trabalhadores o bode expiatório de todas as más políticas. E isso revolta-me. Acho indigno de um estado de direito. Mas quando olho para a degração moral dos políticos, a forma como prometem tudo e não cumprem nada, se deixam corromper e usam o poder de forma discricionária, concluo que, perante tal desempenho, nada é de estranhar. Resta-nos pois estar atentos, com a consciência cívica que se está a ganhar, para que se imponha uma mudança que restitua a dignidade perdida à grande maioria dos portugueses. E não me refiro apenas aos mais pobres e desprotegidos.

JOY disse...

Boas Quintanrantino,

No meu ponto de vista penso que não há funcionários a mais ,existe sim uma má distribuição dos mesmos ,basta irmos ás repartições de finanças e ver filas enormes com uma ou duas pessoas a atender e depois temos ao lado dois ou trê funcionários parados sem pessoas para atender seria para mim lógico que esses funcionários fossem deslocados para onde fazem falta ainda que momentaniamente ,mas não é o que acontece.Não compro a ideia de que os funcionários publicos são uma cambada de calões, como no privado á os bons profissionais e os maus profissionais á competentes e incompetentes o que pode acontecer é que são os incompetentes que fazem mais barulho e ai a conversa é outra,se fosse funcionário publico provavelmente também estaria desmotivado ,não há aumentos a progressão na carreira está congelada ou apenas acessivel a meia duzia de boys ,ter como directores pessoas com competencias mais que questionáveis enfim não existe apenas um lado da história ,os sindicatos da função publica não têm sabido levar a água ao seu moinho com um diálogo arrogante sem querer abdicar de nada com exigencias fora do contexto em que o pais se encontra . Os funcionários têm que ter em conta que estão a lidar com publico e que nós publico não temos culpa das suas lutas laborais como tal enquanto lidam conosco t~em o dever de ser o mais profissional possivel e como todos nós sabemos nem sempre acontece.

Um abraço
JOY

quintarantino disse...

È por essas e outras que não sou sindicalizado, Joy. Aliás, basta ver. Aqueles ou de lá não arredam pé ou então é para alimentarem outros voos que por lá andam!

NINHO DE CUCO disse...

Estamos a caminhar para a escravatura e o desrespeito dos mais elementares direitos humanos.É na função pública e, também, nas empresas privadas que podemos encontrar exemplos dos mais aviltantes. Já não há horários de trabalho, os trabalhadores têm que fazer tudo e mais alguma coisa até à exaustão fisica e psicológica. E isto em empresas que são lucros. E isto num Estado que esbanja recursos para servir outros interesses nomeadamente os dos seus fiéis seguidores. Levantemo-nos contra este estado de coisas porque
"Mesmo na noite mais triste/em tempos de servidão/há sempre alguém que resiste/há sempre alguém que diz não". Estás a fazer-nos falta, Manuel Alegre.

Joshua disse...

Talvez! Palavras para quê?

NÓMADA disse...

O Morais Sarmento disse tudo o que eu teria vontade de dizer.
Relativamente a sindicatos, eu sempre fui sindicalizada. Antes um mau sindicato do que nenhum.

antonio disse...

Oh. Ninho de Cuco, o que precisamos é de uma cultura de mérito. :p

Embora o Quint diga: "quando há funcionários que, apesar da sua dedicação, competência e avaliação, são preteridos em promoções?"

Fico confuso. Atão? Não me venham dizer que se fossemos isentos e sérios, bla, bla... se fossemos tudo isso não precisaríamos de inventar as avaliações.

Pergunto, na privada existe avaliações de desempenho? Quantas empresas nacionais, que não sejam sucursais de empresas estrangeiras, estão a funcionar às 9:30? Quantas? Experimentem ir a uma repartição de finanças às 9:30, está a funcionar em pleno!

7 Pecados Mortais disse...

Sondagens, não me fio nelas. Fazer inquéritos ou sondagens, a uma população restrita e obter os resultados que interessam, não me é fiável, nem nunca foi. Quanto às opiniões elas divergem e aqui na blogosfera pode-se verificar isso. Quanto ao facto de se atribuir um grande número de funcionários, questiono se não estão é mal distribuidos. A mentalidade é que tem de mudar, acabar com certos vícios e não permitir os abusos que foram feitos até então. Algo tem de mudar e na minha opinião é a mentalidade. Temos de evoluir nesse aspecto e não ficar presos ao passado que é o que nos arruinou.

NuNo_R disse...

Boas meus Amigos...

Que poderei dizer, senão que concordo com o que foi escrito e já dito aqui por cima.

O Estado deve-se modernizar senão torna-se obsoleto, mas não da forma que está a fazer, que é á custa de mão de obra barata ( e "escrava") e do aumento do desemprego.
Assim, não se modernizará pois antes entrará em colapso.

abr...prof...

Compadre Alentejano disse...

Também concordo que os funcionários públicos estão mal distribuídos e porquê? Porque não tem dirigentes à altura. Troquem os boys por profissionais e vão ter uma agradável surpresa...



Compadre Alentejano

Um Momento disse...

Perturbados andamos nós com a"lucidez " do governos sobre este país...
Noite linda ...nada perturbada
(*)

Alma Nova disse...

Caro Tiago
Também eu penso que não há funcionários públicos a mais, existem apenas bons e maus como em qualquer outro sector. Assim como sei comprovadamente que estão mal distribuídos e que, se há sectores em que se vêem pessoas que pouco ou nada fazem, noutros o trabalho acumula-se e acaba por ser "mal desempenhado" por falta de recursos humanos. Mas penso que o grande mal do funcionalismo público em geral vem da má administração e dos maus exemplos superiores. Afinal onde é que mais se vê alguém, que deu provas de desempenhar mal a sua função de chefia, sair do cargo que ocupava para, logo a seguir, ir desempenhar outro similar ou de maior responsabilidade ainda, mudando apenas de empresa?! É óbvio que assim não vamos longe...
Se começarmos a pautar-nos pela responsabilização plena e consciente de quem não cumpre, talvez então o bom desempenho se torne a norma e se vejam melhorias significativas quer na administração pública, quer no país em geral, não esquecendo claro a responsabilização política por tantas e tantas promessas não realizadas ou levadas a cabo exactamente de forma oposta ao que foi dito. E essa responsabilização está nas nossas mãos, como cidadãos deste país!

São disse...

Quando se fala de função pública, a minha indignação é tanta que fico sem saber muito bem como articular o discurso.
Eu comecei a desempenhar em Outubro de 1973 as minhas funções profissionais de Educadora de Infância no Alfeite (Marinha),estando sujeita ao RDM, isto é, Regimento de Disciplina Militar (com Tribunal Marcial incluído) e transitei em Outubro 1974 para o Ministério da Segurança Social, donde me aposentei em Fevereiro de 2005.
Em todo este tempo todos os Governos de todas as cores e paladares(não esquecendo as autarquias) integraram na função pública as respectivas clientelas, geralmente em posições de chefia e ignorando por inteiro quem deu e dá tudo quanto pode.
De quem é a responsabilidade do hipotético excesso de pessoal? Jamais dos e das funcionários/as!!
Onde está um estudo sério e fiel acerca da distribuição por Ministérios?
Lembram-se de nos dizerem até ao cansaço que Portugal tinha presos preventivos a mais e, afinal, não é nada assim? Acho que esta situação é semelhante!
Fico-me por aqui, hoje!
A injustiça é algo que não suporto!!!
Saudações!

Carol disse...

Funcionários públicos a mais? Não me façam rir!
Acho que já toda a gente percebeu que estão é muito mal distribuídos, como tal nem me demoro mais.

T., obrigada pelos teus comentários. E sempre que precisares de alguma coisa, conta comigo. Bjs.

bluegift disse...

Eu acho que é uma vergonha o que se passa na função pública. Encontramos os dois extremos, desde departamentos que funcionam super bem e com pessoas muitíssimo competentes a unidades onde a incompetência e o nacional graxismo e mafiosismo imperam. Há que fazer uma limpeza, não tenho a menor dúvida, tenho é receio que a dita limpe os competentes...
É um monstro cheio de compadrios legais. Lembro-me de existirem nas escolas (não sei se já os limparam) uns professores que tinham um horário por vezes de 12 horas por semana, deslocações externas incluídas, progressão automática e carreira assegurada num departamento altamente teatral a quem chamavam Apoio Pedagógico, enquanto os psicólogos, com ordenados miseráveis e contratos precários trabalhavam que nem uns escravos durante as 35 horas. Uma vergonha! Venha a limpeza, mas que não seja cega...

O Guardião disse...

Debaixo de cada pedra há um estudo, enquanto a malta continuar a pagar. Quanto é que aumentão os dinheiros para estudos e pareceres no próximo orçamento? Vão lá ver, que até caiem de cú.
Dividir o país que trabalha em dois grupos, privados e público, pode já ter sido uma boa estratégia enquanto o pessoal não percebeu que era um logro, agora já começa a ser patético.
Mérito? Quantos vão beneficiar dessa "benesse"?
Esgotou-se o argumento senhor ministro Teixeira dos Santos, já todos perceberam que no privado pagam mais e quando não houver público, não vai ser o senhor a regular os preços, porque o mercado auto-regula-se, como o senhor diz, e nós não acreditamos.
Cumps

Paulo Sempre disse...

Os estudos e sondagens - muitas vezes encomendados - raramente demonstram a «nua» realidade. Mais que gerir os recursos humanos é o respeito pela dignidade humana dos cidadãos. "Todos são iguais perante a lei"...será?

Um abraço
Paulo Sempre

Compadre Alentejano disse...

A gestão dos funcioñários é feito pelos dirigentes, se estes forem boys partidários, então nada dará certo.
É preciso limpar a AP destes chulos
da sociedade...

Um abraço
Compadre Alentejano