Direito à opinião

Depois de arrumada a festa, limpos os copos do champanhe, passamos para a fase seguinte e discutamos a rectificação do Tratado Europeu.

Sou europeísta, não imagino Portugal fora desta Europa, acredito que não seria possível vivermos fora dela. Aderimos e fizemos muito bem.

No meu último texto escrevi que o povo tinha direito à indignação e agora venho defender que o povo têm direito à opinião.

Durante a campanha eleitoral todos os partidos presentes, pelo menos os que têm eleitos para o Parlamento, defenderam a realização de um referendo sobre o tratado, tendo sido votados pelos programas que apresentaram; bem, pelo menos quero acreditar que sim, porque os partidos não são equipes de futebol, onde gostando ou não somos sempre adeptos.

Sendo assim parece-me que a não realização do referendo tratar-se-á de um insulto aos eleitores (embora alguns acreditem que uma coisa são promessas e outra a realidade), um politico que queira andar de pé e não de quatro, aos olhos do cidadão deve cumprir, ou, pelo menos, tentar cumprir o que promete.

Já ouvi alguns dizerem que se trata de questões complexas e que os políticos compreendem melhor o assunto que os cidadãos. Tenho para mim que estamos perante uma forma educada de chamar estúpido e ignorante ao povo.

Porque não um referendo, onde se possa livremente discutir ideias e conteúdos deste tratado, onde todos possam dar a sua opinião e nos permita conhecer o “bicho”?

Este recuar de posições pode significar também medo do resultado do referendo ou dar “mau” exemplo a outros países que, ao contrario do nosso, acredito que possam recusar o tratado, porque penso que apesar de tudo, o tratado terá a aprovação dos cidadãos portugueses.

Nisto tudo surge também outro problema que é a possível ausência dos cidadãos do referendo. A avaliar pelos números dos últimos, é perfeitamente admissível que o referendo não seja vinculativo, ou seja, não tenha uma percentagem de votantes suficientes para que seja válido.

Numa altura em que muito se fala de participação em movimentos, no direito à opinião e num despertar para as causas nacionais, acredito em mais um levantamento de forma a obrigar os responsáveis políticos a ouvir a voz do povo. Chega de crítica pela crítica, precisa-se é de acção, de fazer “barulho”, de consciência cívica, que acabem as queixas e se comece a intervir, porque só com intervenção e indignação se poderá obter alguma melhoria no estado da situação (ou será na situação do Estado?).

22 comentarios:

quintarantino disse...

Penso que já todos os que se dão à maçada de ler as notas soltas que aqui diariamente se vão semeando que, para além de europeísta convicito, sou por uma Europa que vá dos Urais ao Atlântico.
Bem, dos Urais, se clahar, é pedir muito especialmente com um ditador disfarçado a comandar os destinos da Rússia.
Mas que sou adepto de uma Europa onde a especificidade das nações possa ser mantida, mas em que as fronteiras se desvaneçam e se aposte claramente num mundo muito próximo do estado-unidense.
Não será certamente na divisão que alcançaremos a fortaleza de que necessitamos para fazer face aos novos perigos que espreitam.
Quanto ao referendo, neste momento, os políticos sem visão conduziram-nos praticamente para um beco sem saída. Se se referenda, e ganha o NÂO, mesmo que não seja vinculativo logo veremos os apóstolos da desgraça a reclamarem que não valeu. Se ganharem os do NÂO, mas o mesmo continue a não ser vinculativo, reclamarão à mesma...
Mas que já cansa de ver a Europa a ser construída nas costas dos povos, lá isso cansa. Ganhem coragem, que diabo, e assumam o que querem para a Europa, expliquem-no e submetam-se ao escrutínio popular.
E não me venham com a legitimidade decorrente de eleições onde, a anteceder, nos prometeram um coisa para agora estarem a fazer outra! Para já...

Laurentina disse...

Bom dia Quint,
Ai duvidas do hotel? N�o sei pork?
http://marginalzambi.blogspot.com/2007/06/as-coisas-que-por-se-sabem-e-se.html...v� l� mais esse!

E ja agora "segunda p�tria a Africa do Sul"??????????? Hum quem diria ...e a que prop�sito explica la esses busilis!

beij�o grande

Francis disse...

tiago, no essencial concordo...mas, e há sempre um mas, que dizes tu desta barulheira toda, malandros, bandidos que os gajos são e tal e coiso, e chega a hora do referendo e quem lá vai ? basta pensar no histórico destas eleições para ver o interesse que se tem nisto, o pessoal quer é dizer mal.

migvic disse...

Sou contra o referendo.

Os portugueses não querem votar.

Por isso, não insistam.

Peter disse...

Vou transcrever-te um comentário da nossa colega de blog, a "bluegift". Andamos nisto há vários anos e ela está lá, no sítio certo e é uma pessoa esclarecida, já que estes assuntos fazem parte do seu "métier":

"Eu também não entendo o porquê de tanto preciosismo na explicação deste género de tratados. Devem ter medo de mal entendidos ao tentar simplificá-lo, já que obrigar toda a gente a lê-lo e a, ainda mais difícil, compreender um mínimo do âmbito da sua aplicação, é simples utopia. Pode ser que desta vez se decidam a explicar melhor ao povo o essencial do seu conteúdo."

Penso que só deste modo o referendo teria utilidade prática.

Tiago R Cardoso disse...

Francis,
como eu disse "chega de crítica pela crítica, precisa-se é de acção, de fazer “barulho”, de consciência cívica, que acabem as queixas e se comece a intervir, porque só com intervenção e indignação se poderá obter alguma melhoria."
Infelizmente as mentalidades não mudam, dá muito menos trabalho criticar do que intervir, preguiças...

SILÊNCIO CULPADO disse...

Efectivamente ganha cada vez mais importância este espaço de opinião na blogosfera. Lendo e relendo o texto cheguei à conclusão que não tenho uma opinião abalizada sobre esta matéria. Ora se eu, que me considero uma pessoa com alguns conhecimentos, tenho tantas dúvidas sobre o Tratado, o referendo e etc. e tal, imagino com se sentirá o português comum. Até hoje sempre achei que não devia haver referendo. Porém ao ler e ponderar as perspectivas do Quintarantino achei que ele tinha razão e que afinal até concordo com elas. Ora isto é grave. Significa que os portugueses foram lançados borda fora do barco do esclarecimento. Por isso eu proponho que não fiquemos por aqui e que criemos um espaço, ainda que temporário, para debate desta questão. A crítica constrututiva, não a inconveniente, é a base da cidadania activa e da construção do ser humano. Deixo o desafio.

Keops disse...

No meu ponto de vista, é uma questão de transparência. Claro que há questões complexas, pois há. E se por exemplo na Televisão Estatal se colocasse uma pequena rubrica como por exemplo " assim se fala bom português", em que o tema fosse uma abordagem do tratado.Dá trabalho? Temos o direito à participação.Esta só pode ser positiva com esclarecimento. Ok,tb sou pro Europa. Como seriam as negociatas se não houvesse um certo controlo da Europa. Aquando a eleiçoes Europeias,contudo apetece-me dizer: Se não me consultaram para a entrada, para que me consultam quem deve estar lá? Transparência em todos os actos!!! Claro, sou ignorante!

Joshua disse...

Assinado o Tratado, agora o que é preciso é confrontar o Tratado, isto é, testá-lo infinitamente em todos os domínios da vida, conhecê-lo, criticá-lo, dominá-lo.

O grande paradoxo da União Europeia é que ela vai talvez permitir a todas as nações amordaçadas e impedidas de existir o passar a existir na plenitude da língua e da administração.

Escócia, Córsega, Euskera, Catalunha, Flandres, só para dar uns pequenos exemplos, parece-me que há países novos dentro de estruturas nacionais velhas, e esses ovos de nacionalidade reprimida estão prestes a eclodir.

Tiago, como sabemos que nem tudo no Tratado é mau, temos de apontar os canhões ao que tenha de lacunar ou até de mau. Como texto burocrático que é, a referendar seria um mero pretexto para os grupos pressionarem governos para flectirem no sentido dos seus desideratos. O referendo está esgotado, como recurso consultivo ou outro, embora não me agrade que estas coisas nos passem por cima da cabeça e sejam actos burocráticos e não a súmula de convergências de base.

Mais que o referendo convencional, acredito no REFERENDO PERMANENTE EXERCIDO PELOS FÓRUNS E PELA BLOGOSFERA. É aí que os verdadeiros plebiscitos são feitos hoje.

Os outros não geram adesão, não mobilizam pessoas ocupadas em sobreviver e em gerir o desespero. Do mesmo modo que as eleições estão a transformar-se em instâncias desgastadas e pouco expressivas não apenas por culpa dos políticos, mas por culpa do envelhecimento dos procedimentos e da distância entre cidadãos e os curricula e personalidade dos políticos. Votar-se-ia mais e melhor tendo em conta um volume de informação sobre os candidatos acrescido. Um pouco como o envolvimento com os MacCann que nos permitiu um conhecimento muito acentuado um pouco de tudo e a um conjunto mais objectivo de opiniões sobre os factos.

Penso, portanto, que será só no seio de uma Europa Bloco, com peso e unidade no plano internacional, que os mecanismos de exercício da participação, opinião e referendamento permanente das políticas, serão possíveis e abrangentíssimos.

A Grã-Bretanha, por exemplo, por muito que se excepcionalize, não resistirá ao magnetismo agregador e simplificador do Euro e de outros aspectos ingleses de mais para serem levados a sério.

Tal como está, Tratado, UE, Referendo e Eleições, já não chega.

joshua

NINHO DE CUCO disse...

Sou europeísta mas penso que estamos realmente muito pouco esclrecidos sobre tão importante matéria. Sugiro que o Notas Soltas privilegie o tema Europa nos seus posts diários, todos os dias até o tema estar gasto. E sugiro que os visitantes deste blogue tenham um banner ou um post a encaminhar os seus leitores para este espaço de discussão. O que acham?

JOY disse...

Boas Tiago,

Em relação ao referendo o grande problema é que uma grande parte da população não sabe ao certo ao que vai responder ,e porquê ?
Porque os nosssos incompetentes governantes ainda não conseguiram esclarecer numa linguagem simples e eficaz o que está em causa , em vez disso perdem tempo com discurssos demasiado técnicos em que se fica na mesma .Temo mesmo que essa seja a intenção para que o referendo não vá para a frente,basta olhar para algumas declarações feitas a este respeito nos orgãos de comunicação social.Eu pessoalmente quero ter o direito de dizer o que não quero da Europa .

Um Abraço

JOY

antonio disse...

Assinado o tratado a Europa transformou-se numa grande potência!

Ainda não notaram?

NÓMADA disse...

Pois, a falta de esclarecimento é notória. A plebe conduz-se melhor quando está pouco esclarecida.Portanto promovem-se os programas de entupimento e "esquecem-se" os de esclarecimento. Ainda bem que existem blogues.
Gostei muito do texto ddo Quintarantino que, como sempre, coloca o de do na ferida.

Carol disse...

Olha, Tiago, sou sincera: acredito numa Europa unida, mas em que se respeite a especificidade de cada nação.
Relativamente ao tratado, não posso dizer se sou a favor ou contra pois não percebo e não conheço todas as suas nuances.
Gostaria de dizer o quero para a Europa,mas assim não vejo como...

Mia disse...

"Casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão". Será preciso portanto dar o "pão", ou seja o conhecimento, o esclarecimento ao povo, de uma forma simples, clara para que o referendo, caso aconteça, possa ser feito em consciência e não baseado em influencias de terceiros, como tantas vezes acontece.
Belo texto Tiago.
Mia

O Guardião disse...

Não sei se gosto duma Europa que insiste em não ser transparente e onde a participação dos cidadãos é considerada desnecessária ou, pelo menos inconveniente dado o seu desconhecimento e incapacidade de entendimento. A Europa dos cidadãos onde é que pára? Será que é essa que nos estão a propôr? Se é, não sei porque é que a não tornam clara e entendível para o comum cidadão.
Cumps

R@Ser disse...

T,...Não tenho argumentos...Desculpe.
Bjim

al cardoso disse...

Pelo que me tem dado perceber, entao nas proximas eleicoes nao nos resta outra alternativa senao votar em branco, porque nenhuns cumprem o que prometem!

SILÊNCIO CULPADO disse...

Olha ALF estás em sintonia comigo. Se as eleições fossem hoje eu votava em branco. Votava contra a vergonha a que nos obrigam. Votava contra este marketing tão comprometido do ponto de vista ético mas que ainda não parou de surtir efeito.
Votava contra o voto e a ignorância que põem de joelhos uma população deprimida e empobrecida. Votava contra o logro e a mentira que abomino.
Este texto é uma denúncia importante que não me surpreende. Estas medidas emblemáticas têm sempre muitos senões para não se tornarem extensivas. Demagogia pura, afinal.

NuNo_R disse...

BoaS tiago...

Apesar de não ter comentado ontém, li o teu post. E concordo com a tua opinião na integra.
Será um "insulto" ao eleitorado que votou neste governo e que agora (talvez) será desrespeitado.
Bem como a consciência cívica que agora começa a florescer ( e ainda bem) terá que começar a ser traduzida em ação e não somente em critica. O povo deve -se manifestar e dessa forma expresar a sua opinião.
Por isso sou a favor de manifestações. Mas manifestações com sentido, e não somente para fazer "barulho" e "ruído de fundo"...

abr...prof...

Fragmentos Culturais disse...

Outro assunto, muito pertinente e com grave incidência na nossa vida como nação!

Também, sou europeísta, mas gostaria de o ser assumidamente, isto é, estar bem informada, poder saber o que vou referendar 'abertamente'...
O que acontece? Pecamos por falta de informação ou entáo, mais grave ainda, por 'desinformação' diária|!

É natural [mas errado] que os cidadãos se afastem porque não estão suficientemente alertados para os reais problemas!

Não sei muito bem qual o nosso destino como 'nação' europeia ou não...

Sensibilizada pelo seu olhar sempre atento em 'fragmentos'!

Uma excelente semana!

bluegift disse...

Coloquem-se pois as pessoas em discussão e vamos ver qual a percentagem dos visitantes que se vai dar ao trabalho de ler o tratado, reflectir sobre as suas aplicações e vir para aqui discutir.
Vamos a apostas?
Eu acho que vai haver referendo, mas apenas por uma questão de promessa política, nada mais. A percentagem de voto irá seguramente ser inferior à do aborto. Não me resta a menor dúvida. Lá vai mais um dinheirinho sair direitinho do bolso do portuga. Vamos a isso!