Bem sei que é a economia, mas sou parvo. Por isso...

Num tom relativamente apocalíptico, Viviane Forrester, “O horror económico”, Edições Terramar, escrevia que “ (…) descobrimos agora que, para além da exploração dos homens, ainda havia pior e que, perante o facto de já não ser explorável, a multidão de homens considerados supérfluos, cada homem no seio desta multidão pode tremer. Da exploração à exclusão, da exclusão à eliminação…?”

Eu disse apocalíptico? E não me enganei. E sabem porquê? Porque isto foi dito em 1996.
Na altura, muitos de nós, embalados pela doce ilusão dos discursos patrioteiros de que estávamos a avançar a todo o vapor rumo à Europa e embriagados pela miragem do dinheiro fácil, nem sequer nos dignámos dispensar um breve olhar ao que lá vinha escrito.

Estes são os tempos em que multinacionais se comportam como predadores. Saltam de país em país, arrebanhando o máximo de apoios, isenções fiscais e, chegado ao fim do seu ciclo de optimização de recursos, pegam nas trouxas e põem-se a andar.
Para trás deixam agregados familiares à beira (para ser generoso) da ruína financeira e da miséria social.
400 aqui, 50 acolá, 700 mais além e assim se vai engrossando a coluna dos descamisados do capitalismo.
Há coisas que, não sendo economista, não compreendo.
Especialmente o do sacrossanto argumento de que os custos de produção, especialmente os salários, são elevados e que têm de procurar paragens onde possam pagar menos. Pagar menos, mas mantendo os preços ao consumidor e assim aumentando as margens de lucro.
Mas eu, que já aqui tenho apregoado que sou ignorante (e qualquer dia afirmo que sou inimputável, à cautela) fico-me nesta: mas ao lançarem milhares no desemprego, especialmente nos países europeus, esperam vender umas sapatilhas por 200,00€ ou calças de ganga a 100,00€ a quem? Aos que deixaram desempregados?
Poder-me-ão dizer que o número de desempregados num lado é compensado pelo aumento do poder de compra no outro, mas admitam que assim não sucede. Se esta lógica infernal fosse levada ao extremo iam vender a quem?

Outra que não me entra é como é que é possível a mesma entidade (a União Europeia) subsidiar aqui, ali e acolá o mesmo projecto? Quer dizer, as empresas que estiveram em Portugal e daqui saíram para ir para a Europa de Leste receberam ou não apoios comunitários e do Estado português quando para cá vieram?
E não os estão a receber agora nos locais onde vão montar a tenda?

Como vos disse, eu sou meio “atolambado”, e também não percebo o que espera o nosso Governo alcançar com a famosa Lei da Mobilidade que não seja mais precariedade, mais assimetrias sociais e, no limite, mais desemprego.
Meus amigos, eu posso estar a ser demagogo, mas se a economia não cresce, o mercado laboral privado está como está, na Administração Pública diz-se que é preciso reduzir aos efectivos, os que tiverem a má fortuna de irem para a dita mobilidade vão encontrar colocação onde? No olho do c…?

Se alguém puder ajudar-me a encontrar respostas eu agradeço.
E permitam que as use e entregue, se necessário, a quem de direito.
É que, com um bocado de jeito, anda por aí muito janota engravatado a debitar sobre isto e não faz a menor das ideias do que fala.

24 comentarios:

SILÊNCIO CULPADO disse...

Parabéns pelo texto que revela, efectivamente, um padrão de qualidade sempre a subir aqui no Notas Soltas.
Há muito para dizer e muito já foi dito porém eu quero lembrar que Portugal, país pequeno e recessado, é dos que mais compra carros de luxo e por encomenda e, ainda há poucos meses, ouvi falar num apartamento ou moradia num condomínio de luxo sobre a baía de Cascais que foi vendido por perto de 9 milhões de euros e não era o mais caro (acho que havia outro). E aqui a vossa amiga, a passear com uns amigos, parou junto a uma loja de artigos ópticos e admirou-se com o preço de uns óculos escuros: 1.500 euros leu ela. Comentando para um dos amigos ele respondeu-lhe que pusésse os óculos. É que o preço era 15.000 euros!... Sinto vergonha pela pessoa que é capaz de usar uns óculos daqueles num país onde 2 milhões de pessoas vivem na pobreza. E mais não digo. Parabéns Quintarantino.É neste sentido que devemos ir.

NINHO DE CUCO disse...

Às vezes há textos que, em momentos de inspiração, quase se transformam em obras de arte. Este é um deles. Até dá vontade de comentar duas vezes como fez a Silêncio Culpado. Efectivamente é chocante o que se passa nos países assolados por um capitalismo selvagem que não respeita os mais elementares direitos dos cidadãos. Mas, mesmo assim, Portugal é, entre os países industrializados, o que tem a taxa de pobreza mais elevada e o maior fosso entre ricos e pobres. E todos vão falando na pobreza mas a pobreza não pára de aumentar e de se agravar. Quase dou razão àqueles que defendem que é necessária uma nova revolução porque já não há capacidade de regeneração.

SILÊNCIO CULPADO disse...

Não precisamos ser economistas para percebermos as irracionalidades do sistema neo-liberal muito do agrado dos actuais partidos de poder em Portugal.É por isso que somos o país mais desigual da UE e somo-lo de uma forma ostensiva que faz com que apeteça gritar até que a voz nos doa ou não se tenha voz. Lembro-me de há coisa de um ano, neste País maravilhoso a acolher imigrantes, ter lido que um ucraniano tinha morrido à fome, sozinho, com vergonha de pedir. Mas lembro-me também de ver, ainda não há muito tempo, um português a treinar-se para uma viagem de turismo espacial. E nem sequer era alguém conhecido, desses que se mostram como ricos de topo.
Também eu dou os parabéns pelo texto.

NÓMADA disse...

Eu proponho que este texto não morra aqui. Que seja emoldurado e colocado visível nos sítios onde trabalhamos, nos locais em que vivemos, no mundo em que perecemos cuidando que ainda temos vida. Eu poria este texto em frente dos nossos governantes e obrigá-los-ia a comentarem-no e a explicarem em palavras simples e claras, para que todos entendam, se as suas orientações estratégicas, a nível da governação, foram no sentido de criar uma sociedade sem sentido só porque a alguns convém. Este texto de grande categoria e que não deverá morrer aqui, revela bem o número incongruente da lógica economicista que parece ser ilógica mas não é. Só falta acrescentar que se o pequeno comércio está a morrer porque a classe média já não está cá para dar 100€ por um par de jeans, o comércio de elites está a aumentar. Ele serve condomínios de luxo de valores inimagináveis e apresenta um grau de sofisticação que não está ao alcance do comum dos mortais.
Este texto diz tudo o que há para dizer no que se refere ao diagnóstico de um capitalismo à beira do colapso. É que a diferença entre viagens espaciais ou de autocarro é a diferença entre a nossa identidade e a sua negação. E eu tenho medo, não por mim, mas pelos meus descentes e porque um fim de ciclo é algo a cheirar a morte e a destruição.

Carol disse...

Sabes que sempre te considerei uma pessoa muito informada, culta e inteligente. Sempre bebi as tuas palavras, para me ajudar a perceber certas nuances da nossa vida política e social...
Obrigada por me mostrares que, afinal, não sou assim tão ignorante. Afinal , há dúvidas que partilhamos e questões para as quais não encontramos resposta!
Parabéns pelo texto. Está excelente!

Fa menor disse...

Grande texto!

Eu só me interrogo sobre o que vai ser de muitos jovens licenciados... como por exemplo enfermeiros, professores...
um dos meus já teve que procurar outras paragens... e os outros que irá ser deles?!

DS disse...

Existem alternativas económicas ao que vivemos hoje em dia, existem nomeadamente teses amadurecidas sobre o assunto que se estendem num sentido mais justo e solidário de uma economia renovada. Mas esses estudos parecem não interessar a ninguém e quem ganha com o actual sistema, continua a ganhar.

Tiago R Cardoso disse...

Estamos perante uma sociedade que está a arrasar tudo.

Também partilho as mesmas duvidas, o pior é que não se vê meios de isto melhorar.

Enquanto se faz propaganda sobre a assinatura de tratados, sem os discutir, esta Europa continua a ignorar estas empresas parasitas, que tb parecem pragas de gafanhotos que andam de terra em terra a absorver fundos, esgotando os recursos e depois muda-se para outro lugar com mais "alimento".

Em mobilidade deviam ser colocados alguns governantes que andam ai só para comer o croquete e rissol nas festas, que tentando colocar o nome na galeria dos que fizeram alguma coisa, fazem nem que seja alterando para péssimo o que está mal.

Adriana disse...

Oi, lhe convido a conhecer meu blog

MÃE,ESPOSA,DONA DE CASA, TRABALHADORA.....

http://adrianaviaro.blogspot.com/


bjs

ANTONIO DELGADO disse...

suponho que um dos nossos problemas em Portugal é viver e contentar-mo-nos com miragens como muito bem cita. O resto são derivados sustentadas por retórica atavicas que distraem do essencial.
Gostei do texto e da analise lúcida que faz.

Um abraço e bom fim de seman

António Delgado

adrianeites disse...

tudo o que seja despedir/prescindir de recursos humanos não é animador mas... não chamando demagogo a ninguem, vamos ver:

O estado tem peso a mais, é notório! A elevada % que o estado consome do PIB tem de ser corrigida!

nós temos milhares de fucnionários publicos inaptos para a profissão que desempenham! muitos deles por culpa própria porque nunca se quiseram actualizar e tal...

no outro dia ouvia um funcionário publico queixar-se que poderia ficar sem emprego; "a gente a pensar que tinha emprego para a vida e agora isto pode acontecer.."

estas palavras mostram muita coisa!

nos estamos a crescer.. sem expressão digna de registo, abaixo da média da UE é certo... muito abaixo mesmo!

Para crescermos mais precisamos de ser mais produtivos, as empresas precisam de uma carga fiscal que permita que as tesourarias possam respirar um pouco... para uma baixa de impostos é necesário primeiro baixar o peso do estado.. pois como já disse grande parte da receita serve para pagar á função publica...


não sei onde se encaixar alguns funcionários publicos mas eles próprios não sabem onde se encaixar na própria função publica...´creio ser pensamento comum a todos...

enfim não me quero nem posso (falta de tempo) alongar mais... mas as coisas como estão não estão bem!


cp's

adrianeites disse...

não sou defensor de socrates atenção! nem pensar nisso.. não votei nele nem votaria! ...

quintarantino disse...

Nós, pelo menos eu, já tinha percebido. Mas isso é irrelevante, meu caro.

Relevante é saber se o amigo é dos que acham que o único mal da Nação reside na Função Pública?
Eu penso que não e acho que o amigo também não, mas passou ao lado do comportamento animalesco da iniciativa privada que foco no texto.

Bruno Pinto disse...

As empresas não olham para as questões sociais, não se interessam pelo papel social que deveriam ter nas sociedades actuais cada vez mais desiguais, onde os recursos tendem a ser progressivamente mais concentrados. Os seus objectivos primordiais são a maximização do lucro, o crescimento, a maior notoriedade no mercado. A concorrência muitas vezes feroz nos diversos mercados faz com que elas tenham este comportamento egoísta e totalmente desprovido de consciência social. Acontece assim em todo o mundo dito desenvolvido ( afinal desenvolvimento é o quê?); em Portugal, como noutros países periféricos, nota-se mais, evidentemente.

Certo é que os recursos existentes no mundo, são suficientes para erradicar toda a pobreza e não deixar ninguém morrer à fome. No entanto, os indicadores que temos é que as desigualdades tendem a aumentar. Porquê?

Todos nós vemos diariamente pessoas pobres, oprimidas, completamente esmagadas por esta sociedade consumista e individualista. O que é que fazemos? Será que pensamos nelas? Temos feito a nossa parte , por mais pequena que seja, no sentido de inverter esta lógica animalesca do capitalismo, do máximo lucro e do desejo irresistível de crescer e ser bem sucedido?

Amigo Quintino, magnífico texto, mais um! E este blog cada vez melhor. Abraço.

Bruno Pinto disse...

Irradicar, assim é que é...

Zuck de la Rocha disse...

Mal tenha tempo venho cá para prestar mais atenção ao escrito e descrito como apocalipse economico que muito bem frisaste. até lá um bem haja revolucionário.

orevolucao.blogspot.com

David Alves disse...

A ideia da mobilidade em teoria não é má de todo. Existem outros países onde ela funciona. No entanto continuo a defender que para construir uma casa temos que começar pelos alicerces (embora já me tenham tentado convencer do contrário). Portugal não está preparado para uma medida destas. Questões estruturais e estruturantes (paleio de politico) não permitem que esta ideia tenha pernas para andar. Em resumo, neste país tomam-se medidas avulsas que embora pareçam muito boas no papel pura e simplesmente não funcionam. Pena é que estejam a utilizar as pessoas como cobaias revelando uma falta de respeito impressionante.

bluegift disse...

Achas que fora da União, situação perfeitamente possível, a pobreza em Portugal iria diminuir? Ou os que se aproveitam do sistema sem escrúpulos de ordem alguma iriam ficar menos ricos e com menos influência? Não sejamos naives... A pobreza está muito mais protegida dentro da união que fora dela, a menos que o petróleo finalmente comece a brotar lá para os lados de Peniche...

SILÊNCIO CULPADO disse...

Depois voltarei para comentar o post. Para já o que pretendo dizer é que, neste canto da blogosfera, está a nascer um espaço onde se critica, se respeita, se é amigo e se procura aprender. Um espaço em que se cede espaço sempre que alguém o solicita e se procura acrescentar saberes com outros saberes. Acho que somos um exemplo de cidadania. Os blogues complementam-se procurando outras visões noutros blogues que visitam. Acontece no Notas Soltas em que Quintarantino fez 2 contratações, não porque lhe falte saber e arte de escrever, mas porque num grupo o todo é mais que a soma das partes. A Nómada também seguiu este raciocício e contratou o 7 Pecados Mortais. E agora, a mais recente contratação dá-se nos 7 Pecados Mortais que contratou a Silêncio Culpado. Exemplos de boa camaradagem bonitos de se ver.
Por isso, convido, nesta estreia da Silêncio Culpado, a visitar o blogue dos 7 Pecados e "beber" um pouco do seu novo texto.

C Valente disse...

O canto da sereia , comem os beneficios, deixam tempestades, e os governante, de fraca vis�o aplaudem , pois pensam que fizeram algo pelo pa�s
bom fim de semana
sauda�es amigas

antonio disse...

Talvez uma guerra na europa, com o seu horror de milhões de mortes, nos leve à saída que não temos a sabedoria para encontrar. Depois será tarde demais!

Lampejo disse...

Quin,

Nada de guerra.
Luta paz amor,
esse é o caminho!

(a)braços e fiquem bem!!!

adrianeites disse...

não sou dos que acho que o unico mal deste país é a função publica.. não faz sentido pensar assim!

muita coisa vai mal neste país.. e por isso no meu e noutros blogues vou postando sobre isso!

penso que na função publica existem problemas que têm de ser corrigidos sob pena de não haver retrocesso para esta insustentabilidade..

no sector privado tb existem coisas por resolver, e são tantas!, a precaridade dos empregos no textil e calçado, as mortes por acidentes de trabalho nas obras.. enfim!

bom fim de semana!

quintarantino disse...

Caro amigo Adrianeites, ainda bem que assim pensa... ainda bem!