Aborto e pós-referendo

Sou mulher e, apesar de já ser “cota”, nunca fiz um aborto. Tão pouco sei se alguma vez conseguiria fazê-lo. Não é a religião que me guia mas acredito na vida, na consciência e nos valores humanos. Mesmo em casos em que a lei já era permissiva, como a má formação do feto e a violação, sempre tive as minhas dúvidas. Conheci pessoas extraordinárias que são deficientes. Pessoas que lutam, contribuem e amam, com toda a garra, procurando compensar o que a natureza lhes roubou. E conheci pessoas, aparentemente inteiras, que, pela sua conduta, revelam maiores e mais frustrantes incapacidades que as ditas deficientes. Também, relativamente à violação, não vejo porque um ser inocente tem que dar a vida pelo facto de ter sido gerado numa situação traumatizante. Quando olho para o meu filho não penso no pai dele mas sim em quanto o amo. Se, por qualquer circunstância, a que ele seria alheio, eu tivesse decidido abortar, teria matado aquele ser maravilhoso de que tanto me orgulho.

Um argumento que me chocava, de sobremaneira, nos defensores da legalização do aborto, era o de que a mulher tem o direito de fazer o que quiser do próprio corpo. Sou uma defensora acérrima da igualdade de direitos mas longe de mim este fundamentalismo feminista. A natureza deu à mulher as características necessárias para transportar, no seu corpo, uma nova vida. A mulher não pode utilizar, de forma abusiva, o que a natureza lhe deu, dispondo de uma vida que não é sua. Finalmente, e ainda na posição contrária à liberalização do aborto, eu achava que, com o avanço espectacular de tudo o que é contraceptivos, a probabilidade de uma mulher vir a ter uma gravidez indesejada é inferior à de morrer num fim de semana.

Estes foram os argumentos que me fizeram votar “não”, no primeiro referendo, pese embora ter ponderado alguns dos argumentos pró sim.

Entretanto, fui-me debruçando sobre uma realidade que me tinha passado ao lado respeitante a um universo de mulheres que lutam, em condições adversas, num ambiente hostil e desigual. Mulheres que sofrem na pele uma dupla desigualdade. Sim, porque há uma realidade para a mulher rica e outra para a mulher pobre. Só a primeira tem condições para aspirar à igualdade entre sexos e para votar “não” ao aborto de acordo com a sua consciência. Uma consciência que se apazigua em clínicas caras, em oferendas para as igrejas, em caridades muito ao gosto da nossa cultura. Do outro lado fica a mulher pobre e desamparada. Aquela que não tem como alimentar mais uma boca. Aquela cujo pai, machista convicto, não aceita em casa uma gravidez fora do casamento. Aquela mulher que trabalha em casa e fora dela. Que não ama como as outras mas aos tropeções, mil vezes violada, mil vezes privada de certas emoções. Aquela mulher que o patrão não aceita, se estiver grávida, porque o contrato é a prazo e pode sempre não ser renovado. Aquela mulher que não tem tempo para consultas de planeamento familiar, que muitas vezes as desconhece e que, noutras, não tem dinheiro para contraceptivos. Aquela mulher que, quando engravida, não encontra o parceiro ao seu lado. Porque, provavelmente, está a dormir com outra ou a contar a aventura entre copos enquanto ela agoniza nas mãos de uma parteira. Aquela mulher que querem chamar de criminosa por estar tão desvalida e tão sozinha. Aquela mulher que assume o crime ela, e só ela, como se ninguém mais fosse culpado.

Não, ao comparar estes dois universos de mulheres não posso continuar a fazer de conta que não se passa nada. Desta vez estava decidida pelo “sim”. Mas se ainda estivesse em dúvida, Alexandre Quintanilha, em entrevista a Judite de Sousa, ter-me-ia feito decidir. Ele assumiu que o aborto tirava uma vida e que, provavelmente, essa vida sofreria a morrer. Mas defendeu o sim como opção que vinha de uma outra dor mais funda.

Votei sim e o sim ganhou. Entenderia eu, no meu fraco entender, que a liberalização do aborto seria um mal menor numa fase transitória em que se procuraria implementar um planeamento familiar eficaz e políticas de protecção à maternidade consistentes.
Porém, decorridos cerca de nove meses sobre o referendo, verifica-se que mais de 1/5 das mulheres que procura a clínica dos Arcos em Lisboa (um dos 3 estabelecimentos privados autorizados à IVG) já ultrapassou as 10 semanas, muitas ainda desconhecem que podem recorrer aos hospitais públicos e continuam a procurar os clandestinos e a pagar entre 600 e 700 euros e, outras ainda, optam pelo aborto clandestino para não se exporem. Continuam a existir mulheres em risco de serem processadas criminalmente e, quanto a planeamento familiar, está a anos-luz das nossas necessidades. Continua o negócio sórdido e a discriminação num país que actua sobre as consequências mas que prefere omitir as causas. Porque actuar sobre as causas seria construir uma sociedade mais justa que, na realidade, não se pretende. É que enquanto houver as desigualdades assentes nas diferenças que a Constituição proíbe mas que os homens do poder procuram, temos sempre exploração e mão-de-obra barata. E podemos pagar por trabalho igual um salário diferente.

Ao não disponibilizar uma rede eficaz de planeamento familiar, educação sexual nas escolas e um eficaz apoio à maternidade este Estado está a contribuir para o aborto. Ao não criar condições de emprego e estabilidade económica, que permitam aos casais e mulheres jovens, assumirem, sem medo, o aumento da família, este Estado está a contribuir para a diminuição da taxa de natalidade.
Por tudo isto acuso este Estado de ser promotor da morte. Porém, se houvesse hoje um novo referendo sobre o aborto, eu voltaria a votar sim.

35 comentarios:

Carol disse...

Infelizmente, Silêncio, a única coisa que mudou foi a legislação.
O Estado, esse, já há muito que não pratica verdadeiras políticas de natalidade. Isso não é, de todo, de agora!

António de Almeida disse...

-Em ambos referendos votei NÃO! -Várias razões, o direito á vida, a não resolução dum problema social, que existe, através de legislação, como se está a comprovar, o facto das 10 semanas, mas poderiam ser 12, ou 14, não serem questão fundamental, pois por vezes o arrependimento surge mais tarde, e as pessoas querem á mesma practicar um acto que manifestamente já todos concordam ser um crime, a utilização da IVG como método contraceptivo, nalguns casos verifica-se, acabava-se com o problema se deixasse de ser gratuito, afinal os abortos clandestinos já eram pagos, e bem pagos, para quê agora grátis? A aposta deveria ter sido feita na prevenção, mas atenção, muitos defensores do NÃO têm culpas, 8 anos passaram entre o 1º e o 2º referendo, sem que nada fosse feito no intuito de ajudar a combater uma práctica que todos reconheciam ser um flagelo.

M.C. disse...

Desculpa a minha opinião, mas penso dessa forma e vou continuar pensando enquanto eu existir.

Existem vários motivos para se dizer sim ao aborto /mas existem zilhões para dizer NÂO!

Mas..., penso que devemos respeitar as” convicções” de todos os que sejam contra o ou a favor do aborto.
A questão é saber se vale à pena ou não tornar o aborto legal.
Para efeitos de argumentação, o embrião é um ser vivo desde a concepção. Será que mesmo nessa hipótese, não estaríamos diante de um daqueles casos de homicídio Justificável? No Brasil centenas de mulheres e eu te digo isso de cadeira, morrem por ano em conseqüência de abortos clandestinos mal feitos; isso não que dizer que o aborto.
“Bem” feito seja seguro.
Dizem que Há inúmeras razões para se fazer um aborto e outras para não se fazer - desde irresponsabilidade do casal até estupro ou má-formação do feto. Nos casos de estupro, também não se justifica o aborto direto. Ora, se não temos pena de morte para o criminoso
(no caso o estuprador) como admiti-la para o embrião que é tão inocente quanto a mãe, se não mais inocente, ainda.
A Gravidez é conseqüência de um ato (falo de ato concedido)
Se esse ato é feito com responsabilidade não existirá vitima!

E, mas... a Mulher pode se prevenir contra a gravidez,mas o feto NÃO se defende da morte.

(A)braços .

M.C

Joshua disse...

O Estado tornou-se uma entidade cega, surda e até muda no que toca ao bem da Sociedade e dos Cidadãos: para o pensamento político do Estado, é a lei do mais forte que possibilitará a autonomia do indivíduo, os saltos qualitativos na economia e na produtividade. Na aflição e no desvalimento, pensa o Estado, o cidadão transcende-se, inventa, cria, pula e salta de alegria e iniciativa. Desenrasca-se.

É o sistema liberal na sua plenitude e o Estado na plena demissão das suas responsabilidades de promoção e protecção das Pessoas nascidas e por nascer.

Um Estado que tudo subvenciona cria latro. Por isso, para um novo paradigma mental é preciso definhar e fazer desaparecer o Estado. A ironia de esta política de choque é o aumento dos assaltos às caixas de multibanco como forma criativa de resolver certas crises, é o recrudescimento da violência e da frustração, é a impossibilidade de aumentar a família em Portugal.

Sim, o Estado é acusável de promover a Morte e o desânimo. Porém, pelas mesmas razões que tu, hoje eu continuaria a votar 'não' tendo em conta a substituição urgente de este paradigma liberal por um outro PERSONALISTA.

Tiago R Cardoso disse...

Apesar de concordar com muita da analise que faz eu votei "Não", mas votei não pelos argumento que me deram como referiu "a mulher tem direito a fazer o que quer com o próprio corpo", acontece que o ser que está dentro dela não é o corpo dela.
Acredito com toda a minha força na vida, acredito que não somos donos dela, nem podemos decidir quem tem direito a viver, sim porque apesar de tudo o inocente que está para nascer, tem direito a vida.
Mal de uma sociedade que pode decidir que deve nascer.
No entanto acredito também que estamos perante um estado com cultura de morte e não de incentivo á vida. As ultimas "propagandas" sobre o apoio á natalidade são uma vergonha se comparadas com as politicas de muitos países da Europa, se o investimento fosse real, incentivo á natalidade, principalmente politicas de educação se calhar não era preciso estar a discutir IVG.

sniqper ® disse...

Cara Amiga,
Como sempre este blogue prima pela clareza e frontalidade com que qualquer de vocês escreve, não tenho dúvidas que vão continuar da mesma forma, sem medo das consequências em denunciar ou dar voz ao que acham injusto, por tudo isso parabéns para vocês, continuem.
Quanto ao tema, aborto, em que muitos/as se escusaram a tocar, por ser considerado muito delicado em virtude de estarmos a falar de uma vida humana, mais uma vez considero tal situação como cobardia, já habitual na conduta de muitos portugueses.
Aborto, uma decisão pessoal, que deverá estar legislada como deve ser e não da forma como está, mas essa é uma constante dos que da politica fazem profissão como forma de nada fazer, a não ser atirar culpas uns aos outros, parecendo meninos do jardim escola, em queixinhas constantes aos monitores porque o outro lhe roubou o rebuçado, e vergonha e profissionalismo quando será que chega a essa classe?
Eu sinceramente que começo a estar cansado de viver neste país, de olhar para tanta injustiça e de ver que só alguns possuem a coragem suficiente para pelo menos falarem, mas a maioria, com a sua inércia liquida essa minoria, não será tempo de acordarem, já chega ou ainda não estão satisfeito de apanhar porrada?
Aproveitem lá o fim de semana prolongado e, quando estiverem nas filas intermináveis de carros, vão pensando, pelo menos isso, já que não pensam nos outros dias, porque o trabalho e afins ljes ocupam a vossa pequena mente. Acabem de vez com a eterna desculpa de que só todos juntos iremos conseguir mudar o rumo de Portugal. Então porque fogem? Inércia é uma forma educada de fugir, sabiam?
Fazendo minhas as palavras da Silêncio Culpado, eu acuso este Estado de estar a promover a morte ao retirar condições para podermos viver com dignidade e condições. Tenho Dito.

quintarantino disse...

Meus caros, para que se esclareçam posições, votei SIM das duas vezes em que tive oportunidade de me pronunciar sobre o assunto.
E, apesar de ter votado SIM, não é por isso que me vejo como um exterminador implacável ou um torcionário.
Há situações,nomeadamente as que estavam contempladas no Código Penal - razões de saúde da mãe, mal formação do feto e violação - que são mais que suficientes e ponderosas para se considerar e admitir o aborto.
Por aqui, penso que a unanimidade será fácil de obter. Embora tenha de admitir que haja quem nem aqui o admita.
Uma das razões que me levaram a votar SIM foi que, para além dessa questão, entendia, e continuo a entender, que só com força de Lei seria possível executar esses actos médicos e, digamos assim, contornar a "objecção de consciência" de ocasião de alguns clínicos. Penso que não será necessário alongar-me neste domínio...
No mais, e como já aqui alguém disse, não fora o comodismo e o egoísmo em que afogamos a sociedade, entre os dois referendos qualquer um dos campos teve oportunidade para implementar políticas que permitissem reduzir o aborto a uma questão residual. Mas não. Do lado do SIM fomos simplesmente confrontados com formas mais ou menos folclóricas de manifestação de vontade, sendo a mais ridícula e evidente aquela de pintar a barriga a dizer "aqui mando eu"... O problema dessas senhoras é que se deviam ter-se lembrado que os problemas "ali" gerlamente nascem quando mais acima (no cérebro) quem devia mandar, não mandou.
Do lado do "NÂO" apostou-se simplesmente em acenar com o fantasma do inocente que é degolado, da religiosidade das pessoas e de um cojunto de argumentos que nem científicos, nem éticos.
No mais, e como é evidente, se as políticas de Educação Sexual e prevenção fossem sérias , se calhar a discussão fosse menor. Embora deva chamar à colação a Grã-Bretanha onde o número de adolescentes grávidas é assustador e que eu saiba lá aposta-se em prevenção e e educação.

NINHO DE CUCO disse...

A questão do aborto está longe de ser pacífica. Concordo com o Quintarantino quando diz que a legalização do aborto tem por objectivo principal, a saúde pública e o fim de um negócio sórdido. Mas, seja qual for a posição sobre esta matéria, penso que estamos todos de acordo em que a prevenção é o caminho. E essa prevenção não está a ser feita.

Rui Caetano disse...

Uma questão polémica e onde ainda existe muita vergonha escondida.
Eu também votei a favor, mas tenho imensas dúvidas.

São disse...

Sou contra o aborto, como creio que toda a gente é.
Simplesmente, não aceito que a minha ( difícil)decisão seja condicionada pela hipocrisia da sociedade (que me não apoia de maneira nenhuma) nem pela perfídia de igrejas que se comportam vergonhosamente e à revelia dos ensinamentos de amor e compaixão que apregoam.
Creio em Deus , mas não em intermediários nem mediadores: tomo assim a responsabilidade de responder pelos actos que pratico utilizando o livre arbítrio.
Por isso votei e votarei sempre SIM.
Feliz ponte e bom feriado.

NÓMADA disse...

A legalização do aborto não é pacífica nem para a maioria dos que votaram sim. Todavia, e o que está em causa, é criar condições para que a questão do aborto nem se coloque. Não sou fundamentalista em relação à vida após a concepção. Admito perfeitamente a pílula do dia seguinte para situações especiais.A mulher tem é que estar informada e ter centros de planeamento familiar acessíveis na hora em que necessita. E informação adequada, como é óbvio. E contraceptivos gratuitos ou a baixo custo. Mas, para além de tudo isto, importa que se disponibilize um acompanhamento à mulher quando fica grávida. Não me estou a referir a acompanhamentos dissuasores ou que exerçam pressão. Estou a referir-me a um acompanhamento que tente perceber se a mulher quer mesmo abortar ou se são as circunstâncias que a obrigam e o que ela gostaria mesmo era de ter o filho.
Tudo tem que ser ponderado e nada deve ser feito de ânimo leve. O nosso Governo está a falhar redondamente nesta matéria.

R@Ser disse...

Não se muda as coisas acabando com as conseqüências.
Acho hipocrisia viver numa sociedade onde os bons frutos da ciência, da técnica, do conhecimento...Se torne monopólio de poucos...Gravidez indesejada e abortos são CONSEQUENCIA e não CAUSAS.
Acredito que a mulher deva ter direito ao próprio corpo. Mas também tem obrigações para com esse mesmo corpo. Gravidez é a conseqüência de um ato. Se esse ato é feito com responsabilidade.. Na maioria dos casos, o “ato” é feito com irresponsabilidade. Na hora do ato sexual, ninguém se preocupa com as conseqüências. E HÁ conseqüências!!! Não podemos considerar a gravidez como algo que ocorre sem mais nem menos. Se fosse assim, óbvio, todos deveriam ter que escolher. A gravidez é conseqüência de um ato consciente (não adianta culpar a bebida ou o tesão!). Na minha opinião, obviamente com a exceção de casos de estupro e de má-formação do feto, a mulher não tem direito nenhum a interrupção da gravidez. Fez? O problema é seu. Essa massa de mulheres que aborta por conta própria é só vítima da falta de educação. Criar clínicas “legais” evitaria muitas mortes, claro, mas só estimularia a irresponsabilidade com o aval do Estado. Transar é bom, é ótimo e não precisa de campanha a favor.

Bjim

7 Pecados Mortais disse...

Primeiro queria referir que votei NÃO , nos dois referendos porque sou a favor da Vida. Há pontos de vista que eu entendo no "Sim" e respeito-os. Contudo não é pelo facto de o "Sim" ter ganho que tudo ficou melhor, antes pelo contrário, como aqui já foi divulgado. Tudo passa por uma questão de mentalidade e aplicá-la. É verdade que o estado tem a sua dose de culpa, mas não é o estado que manda na cabeça de cada um, principalmente quando falamos de Vida. Os abortos clandestinos continuam a acontecer, pois a mulher (algumas) são inconscientes. Fazer um aborto parece que na cabeça de alguns é como "tomar" um comprimido, isto parece-me ridículo. Falar em fazer o aborto é fácil, o que é certo é que ninguém fala na prevenção. Conheço casos em que foram feitos interrupções de gravidez, alguns deixaram marcas físicas, mas as psicológicas são as mais evidentes. Não é por a lei permitir tal acto, que psicologicamente isso não possa vir a afectar mais tarde a mulher ou até o homem que pode ter incentivado tal acto. Quem não tem esses problemas de consciência, é porque não a tem, na minha opinião e peço desculpa a quem não concordar. Tirar a vida a um ser, faz-me confusão, inclusive quando se luta cada vez mais contra a pena de morte. O Aborto ou interrupção da gravidez, não é uma condenação à Morte? Talvez digam que não como ouvi dizer várias vezes, que a criança que cresce na barriga é um feto. Ridículo! (para mim). Há vida a crescer desde o início da gravidez e acho que não se pode contestar isso. Falar do feto, como se tratasse de "uma coisa", faz-me confusão. Depois surgiu também o "Sim" pelo direito das mulheres tomarem uma posição de liberdade perante o seu corpo e algumas aproveitaram isso como defensoras de uma sociedade que ainda é Machista (infelizmente). Contudo acho isso ridículo nos dias de hoje, a mulher é um ser independente com os mesmo direitos do homem, mesmo que estes não o queiram admitir. Não é com atitudes destas que a mulher ganha estatuto, posição na sociedade ou auto-dependência. Essa conversa comigo não funciona. A mulher é tão independente como o acto que a levou à gravidez. A mentalidade é muito importante. Aqui crítico todos os homens e mulheres, pois no "acto do bem bom", não se lembram dos contraceptivos. Existe o preservativo, a pílula do dia seguinte e por aí fora! Acrescento também para referir que a falta do uso de contraceptivos nomeadamente o preservativo, que serve para a prevenção de doenças como a Sida e outras. Mais uma coisa que ninguém se lembra no "bem bom". Para mim é uma questão de mentalidade e muitos dos casos de gravidez indesejada é fruto de envolvimentos passageiros ou namoros incertos. Nos casos das famílias pobres, penso que a educação dessas pessoas tem que ser reformulada para que não aconteçam casos de gravidez indesejada. Contudo tenho familiares que vivem em Aldeias deste país, em que a educação não foi a melhor, o nível económico também não é o melhor, contudo conhecem o preservativo e como evitar a gravidez. É aqui que eu coloco a questão da mentalidade. Não se pode pensar que as coisas "más" só acontecem aos outros. Como disse, compreendo o "sim", quando se refere que pretendia acabar com os negócios de "talho" , passando a ser feita a interrupção da gravidez em unidades hospitalares e gratuitamente. Como já se discutiu aqui, isso pouco adiantou pois os "talhos" continuam a existir. Portanto, formou-se uma lei mas não se formam as mentalidades e assim o "aborto" clandestino continuará a existir. Sou a favor da Vida, mas já que existe a lei, esta tem de ser cumprida e a mulher que tanto lutou por ela deve-a respeitar, assim como os médicos que têm objecção de consciência. Na minha opinião nada vai mudar, ninguém vais ser acusado de nada (pois agora existe a lei), a mentalidade não muda, nem ninguém quer a mudar. Cada vez mais o ser Humano se desrespeita a si próprio e estas posições democráticas de fazer uma "interrupção de gravidez" é quase como tomar um café. Não custa nada...é como "tomar" um comprimido para as dores de cabeça. Não entro nesta questão por questões políticas, mas sim por questões de mentalidade e educação, que se presam pelo respeito à Vida, respeito pelo próximo e respeito por nós mesmos. Desculpem o longo texto e mais haveria por dizer...

Boris disse...

Este tema é muito complexo e deixa as pessoas divididas. A própria autora do texto se confessa adepta das duas posturas. Agora parece que é mais do sim mas já votou no não e explica muito bem as razões porque o fez. Agora todos são unânimes em reconhecer que as políticas sociais do aborto falharam redondamente e que este governo mais não tem feito que apostar em subsidiar abortos. Concordo também que a questão do aborto é também uma questão de desigualdade de classes e cito Chico Buarque quando diz que a «emancipação da mulher nada tem a dar à mulher pobre».
Também subscrevo que este Estado promova a morte ao demitir-se das suas responsabilidades nomeadamente no apoio às famílias.

SILÊNCIO CULPADO disse...

O problema do aborto não é um problema consensual e está longe da compreensão de muitas cabeças, incluindo da minha.
Porém, mesmo admitindo tudo isto, choca-me encontrar nalguns dos comentários a ideia que o aborto é uma espécie de contraceptivo que a mulher utiliza de ânimo leve. O aborto traz às mulheres um enorme sofrimento físico e psicológico. Ninguém o faz por gosto. Fiz um trabalho de voluntariado com a Misericórdia de Lisboa que consistia em estudar populações de prostitutas e de mulheres que abortavam. Depois desses trabalho no terreno nunca mais fui a mesma. Não encontrei nenhuma mulher, entre as muitas dezenas que entrevistei, que não me contasse o sofrimento horrível por que passou e a dor psicológica e, por vezes até, incapacidades físicas, com que ficou. Muitas mulheres pagaram com a vida o terem abortado.
Por último, e uma coisa que me impressionou, foi o exemplo inglês citado pelo Quintarantino. Gostava saber mais sobre isso. É uma situação que desconheço por completo.

Francis disse...

eu, em pricipio, sou a favor do aborto. mas tenho duvidas, muitas duvidas. irrita-me a hipocrisia dos defensores do "não", mal por mal as pessoas do "sim" são mais honestas, acho eu.
uma das coisas que mais abalou as minhas convicções foi, durante o debate, ouvir o prof. gentil martins a perguntar o porquê das 12 semanas, pois a vida quando se inicia se inicia é linear...isto mexeu comigo.
nunca tinha visto Prtugal tão dividido e extremado, mas na hora de votar foi o costume, epá tá bom tempo, vamos prá praia.

Mac Adriano disse...

Li não só o texto como todos os comentários. Alguns bem interessantes. Mas há uma coisa que toda a gente continua a esquecer: o futuro das crianças que nascem. Os adeptos do "sim" só falam da mãe, dos seus direitos, das possíveis sequelas. Os adeptos do "não", pelo contrário, só falam da criança, isto é, do direito à vida por parte da criança. É a estes últimos, os adeptos do "não" - os adeptos da Vida, como eles gostam de se auto-intitular -, que eu pergunto: que vida é essa, a vida das crianças que nascem e depois não têm uma côdea para comer, ou que são maltratadas pelos pais, que não têm direito a um mínimo de dignidade? Não seria preferível terem sido "vítimas" de um aborto? É que se chamam "vida" à existência de certas crianças que por aí vão sobrevivendo a muito custo, então em muito pouca conta têm essas pessoas a vida, apesar do que dizem.

Agora a parte que vai chocar muita gente (nada a que não esteja habituado já): há mães miseráveis (acompanhadas de pais igualmente miseráveis) que não sabem fazer outra coisa senão procriar, sem as mínimas condições para o fazerem, que o fazem apenas porque sim ou porque um filho representa dois braços para serem escravizados. O aborto não resolve o problema, já que elas não o fazem. Aí, tinha de se ir mais longe: laqueação de trompas, a única forma de combater essa miséria.

Finalmente, e por falar em miséria: ainda há gente que acredita no Aborto Clandestino que tomou conta do poder? Acreditaram mesmo que o Zé de Vilar de Maçada ia criar as mesmas condições para todas as mulheres? Continuem então pacientemente à espera, que ele em 2009 agradecerá, uma vez mais, a vossa infinita paciência.

C.Coelho disse...

Há pessoas que falam sem saber do que estão a falar. Eu sei do que falo porque já senti na pele. Ter 3 filhos e não ter para lhes dar o que precisam e querer comprar uns óculos para um e umas botas ortopédicas para outro e não ter como.Punha umm pouco de carne na sopa e nem eu nem o meu homem a comiamos. A mim nunca me faltavam as regras e, quando dava por mim já estava com mais de 4 meses.As pessoas que aqui escrevem não sabem do que estão a falar. Estão a brincar com certos assuntos para ver o que cada um diz. Um aborto arranca-nos a alma. Uma vez apanhei uma infecção que estive mesmo à morte. O que é que esta gente que aqui opina sabe da vida?

SILÊNCIO CULPADO disse...

Mac Adriano
Eu não posso esquecer as crianças que nascem e todas as crianças que ficam por nascer e mais outras tantas que não foram crianças.E é por eu não esquecer as crianças e tudo o que é pisado por ser frágil que não me resigno e até admito, talvez com um pouco de convencimento, que posso contribuir, nem que seja um niquinho, para que tenhamos um mundo mais justo.

Fa menor disse...

Se te submetes uma vez... conseguirão fazer de ti sempre o que quiserem!

Hoje, eu continuaria a votar NÃO!

E digam: O que é que mudou para melhor depois de ter ganho o sim?!

Bruno Pinto disse...

O aborto é um dos problemas mais complexos do nosso tempo. Há razões fortíssimas dos dois lados. Há situações que devem constituir verdadeiros dramas humanos. Não votei nada!!

GIL disse...

Terra madastra e mundo de um cabrão. É assim que se tem que falar do aborto depois de ler bem este texto e os comentários que originou.
Se há tanta coisa para as mulheres não engravidarem porque é que continuam a parir filhos sem futuro ou a matar fetos pelos hospitais e antros clandestinos.
Ninguém põe cobro a esta terra madastra e a este mundo de um cabrão?

Dalaila disse...

Eu sou a favor da despenalização do aborto, dado que devemos viver numa sociedade aberta...
Não concordo com as clinicas que anham balurdios, não concordo com as mulheres que abortam em vãos de escada.
Digo aqui palavras que não são minhas, mas sim do médico legista Professor Pinto da Costa, que disse que devíamo ver uma mulher que morreu a fazer um aborto em más condições... isso sim é terrífico.

Obviamente vivemos num país em que tudo demora, mas tenho esperança que esta situação se vá ultrapassar, e que começará a haver uma maior sensibilização para a educação sexual...

M.M.MENDONÇA disse...

Enquanto a gente discute e tem esperança o problema continua. Quantos milhares de abortos já se fizeram desde o referendo até agora?E quantos foram clandestinos? E os que não foram feitos cá?
Porque é que não se tomam medidas a sério e tudo é folclore e faz de conta? Eu sou pela despenalização do aborto. Votei sempre sim inequivocamente. mas a prevenção ao aborto não se faz?

ALEX disse...

Isto é uma merda de país que envergonha ser português. Então não ajudam as famílias que querem ter filhos e ajudam quem os quer matar. Merda de país!!!!...

NuNo_R disse...

Quanto ao Referendo ao I.V.G., No meu blog já deixei qual a minha opinião em diversos textos no Label "IVG".

http://oprofano.blogspot.com/search/label/I.V.G.

BJS

7 Pecados Mortais disse...

Resposta a C.Coelho....Cada um de nós tem liberdade de expressão e é isso mesmo, caso esteja ou não de acordo com os comentários que se aqui pronunciam. Estar aqui a afirmar que sabe mais ou menos dos que apresentam as suas opiniões é injusto e anti-democrático. Teve a sua experiência de vida, que não explicou na sua plenitude, o que me deixa dúvidas daquilo que quer transmitir. Fiquei sem perceber se pelo facto de ter três filhos e não os ter como sustentar, se a solução seria o aborto, não entendi e se passar por aqui poderia-me esclarecer melhor. Quanto ao facto de o aborto, tirar a alma, eu estou de acordo e como disse no meu comentário, já presenciei isso, mas também já presenciei o contrário. Tenho vários casos do meu conhecimento e por isso posso falar. Há de tudo infelizmente, como as boas pessoas e as más e por isso quando refiro que para muitos fazer um aborto é como tomar um comprimido é porque as mesmas o disseram, parece impossível mas é. Por isso dizer que os comentários que aqui passam, não têm experiência de vida é injusto, todos a têm de formas e maneiras diferentes e mesmo não concordando temos que respeitar a opinião de cada um e não me refiro só à minha. Embora não o tenha afirmado, acredito, porque é normal que a sua crítica poderá ser dirigida a mim também. De qualquer forma precisava de um esclarecimento sobre o seu comentário porque não o entendi bem.

quintarantino disse...

Eu só peço respeito e moderação. Mais nada.

Carol disse...

Depois de ver todos estes comentários, tenho de me manifestar novamente.
A prevenção já é feita, se bem que não seja perfeita. Qualquer mulher tem acesso no SNS a contraceptivos totalmente gratuitos, desde que inscrite nas consultas de Planeamento Familiar. Aí têm também direito a fazer a sua consulta de ginecologia. Sei-o porque, apesar de não ter nem querer ter filhos, frequento estas consultas.
No entanto, a prevenção nunca será 100% eficaz, como podemos verificar facilmente pelos números de gravidez em adolescentes na Grâ- Bretanha.
Eu votei SIM, não porque acredito que o aborto é o caminho mais fácil ou o anticoncepcional mais eficaz. Não acredito que todas as mulheres tenham ou devam ser mães e, muitas vezes, seria preferível fazerem um aborto a ter filhos que passam fome, são espancados e abusados sexualmente!
Os defensores do Não esquecem-se que a mulher vê-se muitas vezes na contingência de fazer um aborto, pagava e corria o risco de ser presa. No entanto, as clínicas e os médicos que aí trabalhavam não foram presos em nehuma situação. Essa é uma grande hipocrisia. Durante anos a fio a clínica de Oiã fez abortos e nunca foi encerrada ou investigada.
A Joana, a Sara e muitas outras crianças deste país , se calhar, preferiam nem sequer ter nascido...

SILÊNCIO CULPADO disse...

Carol
Já agora e porque estamos em esclarecimento: As consultas de planeamento familiar estão abertas a toda a gente, mesmo a menores? Existem postos de atendimento mesmo em zonas problemáticas?
Permite-me que discorde de que Joana ou Sara não devessem ter nascido. O que deviam estas crianças ter tido era progenitores que as amassem e protegessem.
Tem que haver uma cultura e educação formativas acompanhadas de um mínimo de condições materiais que permitam criar e preservar valores indispensáveis a qualquer ser humano que se preze.

sniqper ® disse...

Caros bloguistas do Notas Soltas,
Entendam como quiserem este meu comentário, mas tenho de o fazer, faz parte da minha forma de estar na vida, não escondo os meus pensamentos, falo.
A blogosfera está cada dia mais suja, cheia de blogues que deveriam ser eliminados pelo seu conteúdo sujo e incentivador de certas práticas que considero anormais, mas isso que o faça quem de direito.
Outra doença que prolifera como uma praga são os awards, trocas de mimos entre bloguistas que ainda não entendi qual a finalidade, mas alguma devem ter!
Agora de facto só faltava concursos de empresas para premiar blogues, enfim, são formas de PROMOVER COM A OBRIGAÇÃO DE EXPOSIÇÃO DE LOGOS em troco de um possível prémio, mas será que todos os blogues deveriam participar?
Será isso necessário para estarmos em consciência na blogosfera? Penso que não, mas cada um decide o que entende ser correcto, mas de facto para mim ver o Notas Soltas num concurso deste tipo foi uma surpresa, mas a vida é farta em surpresas, umas boas outras más, consoante os olhos que as analisam!

alma nova disse...

Esta é uma das questões que mais perguntas me levanta e para as quais menos respostas encontro. Claro que não concordo que as mulheres sejam penalizadas por fazerem um aborto, caso este acto seja consciente...mas também sei e conheço casos em que não o é. Também sei bem o golpe na alma que sofre uma mulher quando tem de recorrer a esta situação extrema, assim como também sei que tantas e tantas crianças têm vidas que, de tão degradantes, seria talvez melhor não as terem. Mas também conheço casos em que se encara esta questão com tanta superficialidade e cinismo que parece que matar é o mesmo que tomar um comprimido.
Amo a vida acima de tudo! E uma criança, tenha uma, duas, três ou dez, doze semanas de vida, É uma Vida!
Como já aqui ficou dito, residem aqui várias questões de fundo: sociais, culturais, mentalidades, condições...
Se vivêssemos numa sociedade justa, digna, culturalmente desenvolvida, em que todos efectivamente estivessem em igualdade de circunstâncias perante o problema "sobrevivência" eu vos digo desde já que seria claramente Contra o Aborto.
Nesta sociedade, em que uns têm tudo e mesmo assim hipocritamente gritam Não!, mas depois recorrem ao estrangeiro, enquanto que outros, por muito que lhes custe a situação, se vêem na contingência de terem de recorrer ao clandestino, correndo ainda o risco de prisão...esta questão deixa-me demasiadas dúvidas.
A prevenção, embora exista gratuitamente e também para adolescentes, acaba por não funcionar em muitos casos porque o desenvolvimento cultural e moral é inexistente. Em suma: para esta questão poder nem sequer ser colocada é fundamental mudar a sociedade em que vivemos. Só assim será possível preservar verdadeiramente a Vida, em todas as suas vertentes.

Lampejo disse...

.......


Sou contra o aborto porque:
o aborto é contra a Vida...


contra a mulher

contra o homem

contra a criança

contra a família

contra a consciência

dignidade humana

contra a diferença

contra a ”ética”

e principalmente contra Deus!

E, francamente, eu não quero que meus filhos, e os filhos dos meus filhos cresçam num mundo em que seja normal a pratica do aborto.

Parabéns pelo tema abordado.


(a)braços.

antonio disse...

Não sei se o estado deva ser suprimido como defende o Joshua, mas sem dúvida que este estado a que a coisa chegou tem que acabar.

Hoje a quem os cidadãos confiaram o estado, lê este texto com um enorme bocejo! O aborto insere-se aqui numa lógica de ser humano descartável.

quintarantino disse...

Caro Sniqper, faz muitíssimo bem em dizer o que pensa.
E o facto de vir aqui a terreiro manifestar a sua surpresa por ver este projecto nas andanças de um arremedo de concurso é um direito que tem e que ninguém, nem nenhum dos que aqui escrevem lhe podem levar a mal.
Não sei se seria ou não expectável que o NOTAS não surgisse ligado ao dito Super Award; nem sequer lá fiz a inscrição a pensar seriamente em qualquer prémio.
Fi-lo por dois motivos: um é que sempre será mais um espaço de divulgação de um projecto que é feito diariamente pelos que escrevem e pelos que nos leêm e que entendo poder/dever ser divulgado. Não que queira ser comno alguns que atingem fácilmente a centena de comentários diários, prefiro ter um grupo de comentadores fiéis que comentam quando entendem, sobre o que entendem e como querem. Aqui não há uniformidade.
Depois porque sei bem que na blogosfera também se funciona por "lobby" e, em vendo a lista de presenças, deu-me um gozo danado ver algumas das ditas referências da blogosfera ali aportadas. Aposto com o amigo que ficaremos largamente atrás de projectos muito menos credíveis mas onde o impacto visual, o compadrio dos comentadores tipo tu comentas-me a mim e eu comento-te a ti imperam.