Só em Portugal: cancro tratado a aspirina!

O senhor meu sogro, há mais de quarenta anos, abriu aquilo que se poderia chamar o primeiro café na sua terra natal.
Sem que algum dia eu tenha conseguido saber o porquê da escolha, ele, nado em França e criado em Portugal, pôs-lhe o nome de Café Angola.
Tinha um sócio, portista ferrenho, com quem nunca se incomodou apesar do seu benfiquismo ferrenho.
Ora, esse sócio, sempre que alguém assomava ao balcão com um pedido mais esquisito em matéria de bebidas, tinha um método infalível: se era adolescente, levava um pirolito; se era adulto, um copo de vinho.
Sei que um dia perguntei ao meu sogro se os clientes não se incomodavam com o facto. A resposta veio célere e pragmática: “Não. Embebedavam-se!”.
Claro que isto só devia funcionar com os adultos, mas…
Ora, volvidos largos anos, e já nem cá estando o meu sogro ou o seu sócio, soube-se ontem que num hospital deste pais um médico prescreveu um fármaco a um doente com cancro e viu o pedido ser recusado pela comissão de farmácia e terapêutica do hospital onde trabalha.
O dito medicamento já está autorizado, é usado em várias unidades de saúde, e o seu uso foi permitido para outro paciente nas mesmas circunstâncias pela mesma comissão.
O tratamento parece que custa entre 2.500,00€ a 3.000,00€ por mês.
Face a isto, lembrando-me da outra história, imagino lá a tal comissão a discorrer sobre a coisa.
- Ó Zé, olha-me este. Aqui a pedir Erlotinib. Manda-lhe aí umas aspirinas e que não diga que vai daqui.
- E resulta?
- Quem? O Erlotinib? Parece que sim. Em cancros do pulmão com metástases ou localmente avançado ou pancreático metástico. Prolonga a sobrevida e melhora a qualidade de vida…
- Ai é?
- É, mas isso também a aspirina e muito mais barato!
- Ui, mas assim não morre mais depressa?
- Que queres? Já estava a morrer, não?
Obviamente que este diálogo é ficcionado, não se pretende ofender ninguém ou mostrar uma qualquer falta de respeito por pessoas que sofram deste mal terrível (sei o que isso é pois o senhor meu sogro assim morreu).
Só se quis mostrar que quando se perdeu até a noção do ridículo, em certos domínios mais valia que nos deitássemos todos a chorar.
Que triste, apagado e vil Portugal que estamos a deixar construir!

16 comentarios:

Carreira disse...

Assim compreende-se o método que permite a alguns hospitais apresentarem lucros.

Lampejo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Lampejo disse...

Quint,

Uma recordação linda do teu sogro.
Uma mistura de saudade....e algo mais.


Quanto ao resto do texto.

Não consigo visualizar muito mesmos entender tal situação.

Mas enfim...essa é a realidade de Países como o teu e o meu.

Estamos entregues nas mãos de governantes que perderam realmente e totalmente a noção como tú bem disseste do “ridículo”.

Mas acreditando sempre que um dia isso possa vir a mudar.

Parabéns pelo texto bem contado!

(a)braços...:-)

o guardião disse...

Num país em que se exalta o facto de um hospital apresentar lucros, só admira que as receitas não tragam já impresso 605 Forte.
Hoje estou azedo, peço desculpa

Ema Norte disse...

Assim vai o burgo...

Beijos.

Fa menor disse...

Ora aí está uma história que, se não se soubesse o quanto tem de verdade, eu diria que era ficção!... Muito bem contada, com um toque mt especial, parabéns!

...e ao que havemos de chegar, não sei!!!
(gostei de, mais uma vez, entrar aqui)

SIMPLESMENTE.... C disse...

Muito bem contado!!!
O resto do texto é lamentavel.

abracinhos e beijinhos..

Tiago R Cardoso disse...

São situações que se tornam em Portugal, perfeitamente normais. Quem manda pede lucros e quem administra apresenta ao povo estupidez.

SILÊNCIO CULPADO disse...

Maravilhosamente bem escrita esta postagem mostra a realidade mais dura num país em que tudo se compra até mesmo o direito à vida e à dignidade.
Também abordei esta situação no meu blogue mas não fui capaz de escrever uma coisa tão envolvente.

CHEVALIER DE PAS disse...

mas está é tudo preocupado com o murro do scolari!

Quint desculpe, vou começar já!

BUUUUUUUÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁ!!!!!!!!

Zé Povinho disse...

O direito aos cuidados de Saúde, que era suposto serem universais, são, de facto, proporcionais à carteira dos doentes. à carteira ou à influência...
Abraço do Zé

C Valente disse...

Infelizmente nest país nem se pode morrer com dignidade, o dinheiro está primeiro
bom fim de semana
Saudações amigas

Carol Ferreira Pinto disse...

Palavras para quê? Lindo texto, maninho!

Euzinha disse...

Quem sabe o meu pai ainda estivesse vivo, se os médicos não achassem que já nada havia a fazer.
Nem aspirina lhe receitaram...
Foi fechar e mandar para casa para morrer. Um cancro nos pulmões.
Beijo
E.

Um Momento disse...

Estou com uma dor de cabeça...
Tens ai alguma aspirina?
;)
(*)

damularussa disse...

Olhe, vá lá, vá lá, não lhe terem receitado supositórios a tomar com um copo de agua morna...O Portugal no seu "melhor"..enfim.

Brilhantemente descrito.