Só há "bufos" porque há quem lhes dê crédito!

Permito-me transcrever a parte final de um artigo de opinião assinado por António Marinho, advogado, na edição de ontem do jornal “Público”: “(…) Há no aparelho de Estado, sobretudo na administração pública, pulsões liberticidas e de delação que urge combater. Essas pulsões têm as suas raízes na cultura dominante no Estado Novo. O que havia de pior nesses tempos de tirania não era a actuação repressiva das polícias ou de outros organismos de vigilância e protecção do regime. O que havia de pior era, precisamente, a existência dos «informadores», dos «bufos», ou seja, de pessoas aparentemente normais, que se sentavam à nossa mesa, que entravam nos nossos gabinetes e até nas nossas casas, com quem por vezes se tina conversas reservadas e até íntimas, mas que, depois, traiçoeiramente, pela calada, iam comunicar essas conversas à polícia ou aos superiores hierárquicos.
É essa actuação ignóbil, é, em suma, essa imensa ignomínia, que urge banir definitivamente da sociedade portuguesa e da administração pública. E a melhor forma de o fazer é, para começar, não compactuar com as suas manifestações em nenhuma circunstância (…)”.
Tem razão o articulista. Muita razão.
Ele escrevia a propósito do caso DREN, eu poderia escrever a propósito das filmagens feitas à socapa e divulgadas pela Câmara Municipal do Porto (leia-se, Rui Rio) da presença do vice-director do “Jornal de Notícias” na manifestação promovida à porta do Rivoli.
Por pudor, abstenho-me de escrever sobre o que se passa no local onde trabalho…

4 comentarios:

Anónimo disse...

Pois...falta a parte final, relativa ao local te trabalho. Será a censura a funcionar?

Bruno Pinto disse...

Quintino, obrigado pela visita ao meu blog, o seu tb já está linkado e oxalá ajude a tornar o seu mais lido, como referiu.
Sobre o assunto em causa neste post, é um dos cancros da sociedade, não só portuguesa, mas creio, na generalidade. E olhe que não é só no seu trabalho, por sinal, que isso acontece. No meu, nem lhe digo nem lhe conto...
Voltarei mais vezes aqui ao seu blog, tem temáticas muito interessantes, porque a vida não é só (mas também) futebol!

Anónimo disse...

Tendo em conta que o conheço razoavelmente há muito pouco tempo, admiro a sua isenção nos diversos temas aqui mencionados, não obstante ao facto de ser muito delicado falar de alguns deles. Quanto há censura existente no seu local de trabalho, a culpa, mais uma vez não é dos bufos, a culpa é dos que lhes dão ouvidos, porque são pessoas sem qualidade para os lugares que ocupam.
Eu acho que é mais que censura, é uma perseguição triste e deploravel de pessoas sem qualidade, sem ética e com tiques Salazaristas.

Zé Luís disse...

Quintino, já deve ter lido isto do Abrupto do J Pacheco Pereira:
Se foi o Primeiro-ministro Sócrates "que pediu à CIP para avançar com estudo de alternativa à Ota", como disse o presidente da CIP sem desmentido governamental, por que razão andou ele próprio e o ministro Mário Lino a mentir-nos de há quatro meses para cá? Mentira é a palavra certa, mais má fé, mais dolo, tudo palavras certas para descrever o que aconteceu (e se calhar continua a acontecer agora mesmo) : o engano deliberado dos portugueses, a manipulação de todos nós.

Espero que alguém, espero que a oposição, espero que a comunicação social, construa uma cronologia do que se sabe sobre este estudo, datas, almoços, pedidos, encomendas, alterações, entregas privadas e públicas às "autoridades", sobrepondo essas datas com as afirmações do Primeiro-ministro e do ministro Mário Lino, com os anúncios sobre o início dos trabalhos da OTA, da privatização da ANA, e outros factos relevantes (*), para percebermos por que razão tudo smells tão fishy. E para que todos os que tão rapidamente batem as palmas a José Sócrates, ou pela "habilidade", ou pela "astúcia", ou seja lá por que manha for, percebam que batem palmas a uma política de deliberado e doloso engano de nós todos, batem palmas a uma maneira de fazer política que os trata como estúpidos. E quando batem palmas merecem bem o tratamento.

Sabem o que cada vez mais isto me parece, a sensação com que já fiquei depois da história do "diploma"? É que é tudo muito parecido com o estilo das "jotas", uma indiferença face à honestidade e à verdade, uma política feita de trapalhices e trapacices, um vale tudo para manter o poder, ganhar uns pontinhos, esmagar um adversário, um autoritarismo com os fracos e subserviência para com os fortes, um parecer mais que ser. A todo o custo.

[ADENDA: mais uma versão da mesma coisa, como de costume contraditória com a anterior. Alguém não está a falar verdade, parece a história do "diploma", cada cavadela sai uma minhoca.]

Por sinal, o JPP tem um diálogo ficcionado sobre a crua realidade do pensamento do nosso primeiro que é uma extensão do que se tornou a sociedade contemporânea e, por isso, justifica a boa imagem de que desfruta nas sondagens, ironicamente ao contrário da imagem que se tem do desgoverno do país que é ele quem o dita.
Que se há-de fazer? Combater, denunciar, enumerar os casos de bufos. Senão, é como o outro, não levanta a voz sobre o que se passa à sua volta e quando é apanhado ninguém está lá para levantar a voz por ele.
Abraço