O Governo, afinal, dialoga... mas só com os poderosos!

Já tive oportunidade de esclarecer que não me sinto suficientemente habilitado a divagar sobre se é na Ota, na Margem Sul, Alcochete (curiosamente, a sul do Tejo) ou Portela+1.
Também já deixei no ar a ideia que, possivelmente, o melhor seria não construir coisa nenhuma. Se querem assim tanto gastar o dinheiro, olhem gastem-no em equipar decentemente as escolas públicas, em construir novas escolas, por exemplo.
Ando agora intrigado, e é por isso que regresso ao tema, sobre a questão do estudo que a Confederação da Indústria Portuguesa (CIP) mandou fazer e entregou ao Governo e ao Presidente da República (PR).
É estranho, muito estranho.
Em primeiro lugar, e sabendo-se que não está no leque das competências constitucionais do inquilino de Belém mandar fazer obras, o estudo foi entregue a Cavaco Silva para quê? Se é para manter o PR informado, tudo bem.
Se é para o habilitar com um instrumento de pressão sobre o Governo e a Assembleia da República (órgão que, em última instância, tem a última palavra sobre as Grandes Opções do Plano e Orçamento de Estado), aí já a coisa começa a fiar mais fino.
O fim-de-semana, contudo, só serviu para baralhar ainda mais as coisas. Pelo menos no que me concerne.
Primeiro era o nome dos financiadores do estudo que era segredo de Estado. Logo vieram a lume alguns nomes!
Depois era a versão que Sócrates teria combinado com Van Zeller (o Presidente da CIP) que o estudo não iria prever a possibilidade Potela + 1 porque os terrenos são essenciais ao financiamento do novo aeroporto.
Finalmente, é a história que envolve a própria Associação Comercial do Porto.
O “Diário de Notícias” de hoje avança mesmo com uma notícia onde dá conta do facto de alegadamente ter sido José Sócrates a combinar com Van Zeller que só queria a CIP envolvida no estudo e não um agrupamento de pessoas colectivas.
De acordo com o matutino, o presidente da CIP conta que José Sócrates lhe disse: "Eu prefiro dialogar convosco, sei quem são...".
Bom, se é verdade não deixa de ser castiço. Então o Primeiro-Ministro da República Portuguesa prefere dialogar só com a CIP porque, por exemplo, não conhece a ACP?
Mas ao senhor Primeiro-Ministro de Portugal não é exigível que conheça toda a gente, exige-se apenas que dialogue com quem de o fazer e ouça os intervenientes que potencialmente possam contribuir para a melhoria do processo de decisão. Penso eu.
O Governo, que quanto a mim já está mais que entalado, viria a desmentir qualquer contacto prévio através de um comunicado do Ministério das Obras Públicas.
De qualquer modo, o comunicado serviu para esclarecer uma coisa: desde Março que o Governo sabia que a CIP ia fazer o estudo.
E o mesmo fez-se e foi entregue. E bem aceite, pelos vistos, porque parece que agora, em vez da Ota, temos em cima da mesma a Ota e Alcochete.
Isto lá para os lados do Terreiro do Paço quando até há bem poucos dias tudo o que de lá saía era que a opção era a Ota.
Afinal, parece que até ao final de 2007 não é!
Depois, logo se verá. Miserável país, este que desde os tempos de Marcello Caetano (e esta, hein?) anda a discutir se há ou não há novo aeroporto…
Na minha óptica, esta história serve apenas para confirmar (e desta vez às claras) uma coisa que já muita gente suspeitava: quem manda não é o poder soberano do povo expresso através dos votos ou das suas acções de protesto, quem manda é o poder económico.
No caso presente, até pode ter sido para bem do País, mas revela que nesta matéria o actual Primeiro-Ministro é mais do mesmo.
No caso em apreço até parece que Primeiro-Ministro de Portugal é o Presidente da CIP.
Pessoa certamente honrada e competente, não duvido, mas que ninguém elegeu para ser o ocupante do Palácio de S. Bento!

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